segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Gavino Ledda


Gavino Ledda, sarda, ex-pastor, autor de Pai Patrão, livro em que o projetou e foi transformado em sucesso de cinema, está hoje com 71 anos. Abaixo entrevista concedida por ele à Revista Época.
ÉPOCA – Pai Patrão é um retrato de um momento da Sardenha? O livro seria possível hoje?
Gavino Ledda – Pai Patrão não é um retrato da Sardenha, mas de uma época muito longa da nossa cultura e até de nossa história nativa. Meu livro é de uma unicidade ímpar no mundo da escritura da espécie e meus últimos textos, inéditos, demonstram a unicidade da mente da própria espécie. Um livro como o meu seguramente será sempre possível ao homem, mas somente muito raramente ocorrem ao indivíduo alguns acontecimentos simultâneos. Por exemplo: a) quando esse indivíduo tiver uma história jamais vivida e única, inclusive em condições de analfabetismo total; b) quando de tal contexto ele conseguir sair vivo com toda a mente do passado; c) quando, antes de começar a viver essa história, a natureza, sua musa, sem jamais tê-lo revelado, lhe der qualidades e atributos que não deu a outros indivíduos da espécie. Essas condições, até agora, não tinham sido concedidas a um só indivíduo da nossa espécie e, nisso, fui certamente uma pessoa muito afortunada. Não me crê?
ÉPOCA – Pai, Patrão, o filme dos irmãos Taviani, é fiel ao livro? Ou cinema é uma coisa e literatura, outra?
Ledda – Que importância tem na arte ser ou não ser fiel? Cinema ou literatura? Arte é arte e basta! É o peso específico da obra que conta na arte! O filme dos Taviani foi feito do exterior, como todos os filmes. Meu livro, essa Ilíada de vida, ao contrário, foi escrito do interior, depois de ter vivido no ego desde o nascimento no ciclo completo da história natural do indivíduo sobre o qual lhe falava acima. E porém, na pessoa do pastor da terra, e da pessoa do ego no ego, precisou esperar o ano de 1970 para começar a escrevê-lo e o ano 2004 para iniciar a lê-lo, e não sei quanto tempo deverá passar para entendê-lo intimamente também da parte do menino e não somente da parte do pai! E esta última afirmação é inédita: Pai Patrão deve ser lido também da parte do menino.
ÉPOCA – A Itália contemporânea convive bem com a cultura camponesa, como aquela na qual o senhor nasceu?
Ledda – A Itália não mais convive com a cultura camponesa. Espero que retorne logo, sem perder ou confundir o futuro com o passado e vice-versa.
ÉPOCA – A Sardenha de hoje, transformada num grande centro turístico, ainda é a sua Sardenha? Ou a ilha, hoje, é uma outra realidade?
Ledda – A Sardenha hoje é uma outra realidade. Mas eu ainda estou vivo e não terminei. E um Homero pode fazer, em arte, coisas inéditas.
ÉPOCA – Como o senhor vê a literatura italiana atual?
Ledda – Como vejo a literatura italiana. Eu? Êi! O senhor deveria me perguntar como vejo a literatura contemporânea da espécie. Eis a resposta: mesquinha e efêmera, não digna do homem e do animal que eu conheci em Baddhevrustana e sobretudo do homem que está se preparando para chegar em Marte! Certo que o homem deve ir a Marte – e eu espero que também vá como animal homem –, mas a língua que levará não vai mais tão bem: lá em cima se deve levar a ilusão! E eu estou aqui! Não conheço nomes de escritores italianos, mas também não conheço nomes das outras literaturas da Terra, porque, justamente, não existe mais a literatura, a menos que falemos de literaturas mortas! Mas, em relação aos mortos, somente tenho respeito…
ÉPOCA – Como o senhor define Recanto e outros escritos do livro. Não são herméticos?
Ledda – Recanto é somente o exemplo de uma linguagem pluridimensional, cuja natureza e modalidade expressiva não tinham ainda vindo à mente de nenhum indivíduo da nossa espécie. Defendo uma linguagem jamais vivida e jamais falada, mas necessária à espécie, se a garganta ainda deve exprimir as idéias como nascem novas na mente!