terça-feira, 5 de agosto de 2008

"... que vai em frente sem ter com quem contar.."

também adorei sua cartinha que você me respostou, você que saber minha idade sabe eu tenho 13 anos e quando eu não estou na escola eu gosto de ler quando não leio eu brinco com meus irmãos sabia que eu tenho mais quatro irmãos e que eles vive dizendo se ela te levar eu vou matala, aí eu digo quem é que vai querer um menino tão preguissoso como é que so eu gosta de ler. sim aqui também tem muitas festas no São João e eu vou escrever quantas vezes poder e não pressiçava dizer para todo mundo de mim eu sou muito tímido sim eu quero aprender muitas coisas sabia que o meu sonho e no futuro ser um bom médico.
todas as vezes que você também escrever eu também vou responder sé você manda tantos invetopes assim porque pelo jeito que você disci você vai a falência

fim por fim
por mim denovo
um abraço e um beijos

(transcrita sem qualquer correção)
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Estive recentemente no interior do estado e visitei muito rapidamente a zona rural. Uma coisa de que gosto muito é ouvir conversa de pessoas do interior. Como pra mim gente é só gente mesmo, costumo ouvir todo mundo independente de onde esteja. Daí que posso ouvir fantásticas explicações para a fraca atuação da seleção brasileira de futebol, dada pelo jornaleiro ou mesmo a ciência da fabricação do doce japonês de batata doce fornecida pelo ambulante que vende numa bicicleta e passa aos gripos pelo meu bairro. Puxar conversa é comigo mesma. Dei sorte e nunca houve hostilidade para comigo no que batizei de sociologia- pessoal-da-rua.
Pois bem, estive no agreste de PE. Numa noite na zona rural dois momentos lindos: conheci uma pitombeira. A árvore é linda! Lamentei não estar com máquina fotográfica. A dona da casa me viu embasbacada com a Pitombeira: a senhora não é daqui não, né? como eu ia dizer que era, com essa cara de gringa e tamanha ignorância de pitomba? mesmo sendo, disse que não. Meu Deus, a mulher me chamou para entrar... o que não fiz por já estar sendo chamada para voltar. Disse: venho de novo fotografar a árvore. Ela ficou feliz e não sabe o quanto me deixou feliz também. Só isso.
Mas nem tudo é encantamento, claro. Apesar do romantismo do momento e da paisagem, sai pensando no quanto a boa fé desse povo volta-se contra ele mesmo. Mantidos numa ignorância que só favorece o poder mais mesquinho, são explorados no que têm de mais precioso por raro: a humildade. No trajejo para a cidade a confusão entre revolta e tristeza me levou às lagrimas. Deu uma vontade imensa de ajudar... sim, mas fazendo exatamente o quê? gosto de coisa prática, mão na massa... diferente disso, tô fora.
De outro interior, de outra zona rural, recebi a carta que transcrevi acima. Muito bom saber que ele quer ser um bom médico. Por enquanto o adolescente está num sonho, como o meu diante da pitombeira, mas eu sei que vive numa casa caindo aos pedaços, com mais seis pessoas e não tem nem colchão para dormir. Novamente: o que eu posso fazer? ou melhor, tenho que ajudar. Sem fazer nada é que não posso. Ou então vou emperrar o CD em : "aí me dá uma inveja dessa gente, que vai em frente sem ter com quem contar."
Esse garoto vai ter sim com quem contar.