quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quarta-feira é dia de: Nordestinos em São Paulo, Aluízio Falcão.

     
Leio uma publicação da ECA/USP com várias reportagens escritas por estudantes de jornalismo. O tema é a saga dos migrantes, Há depoimentos de intelectuais nordestinos residentes em São Paulo, mas principalmente daqueles anônimos viventes de periferia. Comove-me o testemunho de uma senhora que migrou em companhia da filha. Contando a estória, diz essa mãe-coragem que a sua menina, diante da miséria reinante no cafundó natal, assim propôs a retirada: "Mãe, vamos pra São Paulo, vamos lutar na vida". Não me lembro, em prosa brasileira, de registro mais bonito para o verbo lutar.
     A onda migratória para os grandes centros tem vários intérpretes: antropólogos, sociólogos, romancistas, e até um vereador chamado Bruno Feder, autor daquele famigerado projeto que simplesmente proibia a entrada de nordestino em São Paulo. Muito já se analisou e escreveu, para o bem e para o mal, sobre os personagens desta humilhante diáspora. Nenhum intérprete do fenômeno, porém, saiu-se melhor do que Chico Buarque: "Eletrizados, cruzam os céus do Brasil/ Na Rodoviária, assumem formas mil/ São faxineiros, balançam nas construções/São bilheteiros, baleiros, garçons..."
     A classe média feroz, que inspirou o projeto Feder, ignora Chico Buarque, prefere trilha de novelas. E atribui aos migrantes as piores mazelas urbanas, incluindo a violência. Grosseira inverdade.  Os indicadores divulgados mostram que a maioria da população carcerária nasceu em São Paulo. Os nordestinos predominam mesmo é no trampo da construção civil.
  Cidadãos laboriosos, vindo de oito Estados brasileiros, aqui são chamados indistintamente de "baianos", valendo a designação para tudo que é brega e mal acabado. Ofensas ditas cara a cara, sem metáforas, juntam-se às violentas privações do cotidiano, e no entanto eles não protestam. São muito calados esses migrantes, a menos que o Corinthians vença. Aí seu grito de guerra traduz não somente a paixão pelo clube, mas também um desafio das muitas dores curtidas no silêncio das favelas.
     A toda hora estamos a escutar as vozes do preconceito. Certo domingo no parque eu estava caminhando com a minha mulher quando outro casal, representativo dessa parcela raivosa da comunidade, passou por nós, xingando nordestinos que estavam fazendo algazarra na pista de correr. "São os conterrâneos dela...", rosnou o homem, referindo-se à então prefeita Erundina de Souza, na época uma espécie de Geny, por ter nascido na Paraíba e vencido eleição em São Paulo. O tipo que hostilizava, bem vestido e arrogante,continuou falando. Felizmente marchava acelerado, e logo deixei de ouví-lo. Mas as minhas pragas o acompanharam para sempre. Cultivo apenas uma intolerância: é a intolerância contra a intolerância.

FALCÃO, Aluízio. Crônicas da Vida Boêmia, 1ed.São Paulo: Ateliê Editorial, 1998, p.200-202.

Sugestão de leitura:
Há mais filho de baiano que paulistano. (Janeiro de 2000)
Viva São Paulo! a maior cidade nordestina do Brasil (Novembro de 2013)

Imagem: www.jornalsp360.wordpress.com

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Segunda-feira poética:Faith No More, Mário Lúcio Sousa

 
A fé nunca é demais
se se transborda rega e invade.
Sei que está comigo e que me fala: 
não ouvi-la é transcendental.
Ela me fala do outro lado do som 
e toma formas efêmeras
para agilizar a língua
porque é a mesma forma que se vê dissímil
                                       em cada forma.
A cor pura necessita de luz pura 
mas a luz tem as suas cores
e ali estão, também efêmeras,
porque é a mesma luz que se vê dissímil
                                       em cada cor.
Creio e vejo e tenho 
só porque creio
porque nem vejo nem tenho. 
Tudo se me faz presente,
tanto a construção da ponte como a sua ruína; 
as batalhas ganhas ainda não começaram
mas ganhas já, porque as creio assim.
A distância toma o sentido contrário
porque penso mais rápido do que a luz e 
portanto, vejo antes de as coisas se definirem 
para se deixarem ver o que são.
Puro engano o contrário:
o que é não se define, está definido.
E pode ser visto sem que exista na aparência.


Sobre o autor:

Mário Lúcio Sousa (Lúcio Matias de Sousa Mendes) nasceu no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 21 de Outubro de 1964. Licenciado em Direito pela Universidade de Havana, Cuba. Deputado do Parlamento Cabo-Verdiano entre 1996 e 2001. Embaixador Cultural de Cabo Verde. Condecorado pelo seu país em 2006 com a Ordem do Vulcão, ao lado de Cesária Évora, sendo ele o artista mais jovem a receber tal distinção.Na música, foi fundador e líder do grupo musical Simentera, Compositor, multi-instrumentista e estudioso da música tradicional. Já gravou com Manu Dibango, Touré Kunda, Paulinho Da Viola, Maria João e Mário Laginha, Gilberto Gil, Luís Represas, Milton Nascimento, Pablo Milanês, Harry Belafonte, Toumani Diabate, Mario Canonge Ralph Tamar, Pedro Jóia, Teresa Salgueiro entre outros.
Obras disponíveis no Brasil:Biografia do Língua  e O novíssimo testamento
Imagem: www.publico.pt

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Vai Querer? Estou vendendo...

Todos os livros estão à venda. 
Contato através do Fale Comigo, do lado direito da tela.
 Aguardo você.

O Apocalipse dos Trabalhadores, Valter Hugo Mãe

Alma, Manoel Alegre

Uma Certa Paz, Amós Oz

Um Brasileiro em Berlim, João Ubaldo Ribeiro  

O Livro de Ouro da Mitologia, Thomas Bulfinch

Água Mãe, José Lins do Rego

Foco, A Atenção e Seu Papel Fundamental Para o Sucesso, DAniel Goleman


O Texto, Ou, a Vida, Moacyr Scliar

Rosellini Amou A Pensão de Dona Bombom
Cícero Belmar

O Professor, Crstovão Tezza

O Banqueiro dos Pobres, Mohammad Yunus

Fora de Órbita, Woody Allen

O Último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler

A Lei da Atração ( O segredo colocado em prática), Michael J. Losier

A Morada do Ser, Marina Colasanti

Memórias de Uma Beatnik, Diane Di Prima

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Minha Fila Para Leitura

Quarta-feira é dia de: valter hugo mãe

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando, e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor. queríamos o amor um pelo outro sem hesitações, como se a desgraça nos servisse bem e, a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento e não sabíamos que a vida podia parar um dia. eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz, o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo. tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio, tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso. estavas tão  diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho. tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo, um modo mais perene, lento, covarde. Eu amava-te e julgava bem que amar era  afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o marlon brando. eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração, iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não brinques assim, vais partir uma perna, vais partir a cabeça, vais partir o coração. e estava certa, foi tudo verdade.



grafia do texto original.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Segunda-feira poética:Esperança, Emily Dickinson e Mário Quintana

Esperança, Emily Dickinson 
Esperança é a coisa com penas
Que se empoleira na alma
E canta um som sem palavras
E nunca, mas nunca, pára,

E mais doce é ouvido no vendaval;
E dura precisa ser a tempestade
Que poderia desanimar o passarinho
Que mantém aquecidos a tantos.

Já o ouvi nas terras mais geladas
E nos mares mais estranhos,
Entretanto nunca, mesmo no desespero,
Ele pediu uma migalha a mim.


(tradução: Luiz Felipe Coelho)




 Esperança - Mário Quintana


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...



(Nova Antologia Poética, Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.)

Imagens: Emily Dinkinson , Mário Quintana
 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Quarta-feira é dia de: Depois do Terceiro Uísque, Aluízio Falcão

   
Depois do terceiro uísque, qualquer paulista normal, com idade superior a trinta anos, passa a gostar de baladas de Roberto Carlos. A conclusão é também válida para acadêmicos de PUC/USP/UNICAMP, sociólogas descasadas, críticos pós modernos, jornalistas em geral.Dá-se, nesse momento, que o precioso líquido escocês, queimando nas fornalhas do metabolismo, ilumina uma zona escura de cérebro, onde secretamente habita nossa porção latino-brega. Afloram, de repente, canções baratas e adormecidas no inconsciente sob o véu de escrúpulos estéticos. Depois do terceiro uísque, ninguém é de ferro. Até o governador Mário Covas seria capaz de cantar, em lágrimas, "Os botões da blusa". 
     Não me perguntem detalhes da metodologia que usei par chegar a a tais revelações. Este não é um texto científico e eu sou pago para escrevinhar amenidades. Não tenho comigo as planilhas. Mas, se a tanto for obrigado, posso exibi-las diante de um tribunal técnico. O máximo que faço hoje é contar um, dentre centenas de testes realizados. Foi no Buca Del Pazzo, faz tempo, em noite de garoa e boemia.
     Usei como cobaias dois conhecidos jornalistas da praça, ambos poetas. Intelectuais, portanto, ou pelo menos assim identificados nos manifestos que assinam em campanhas eleitorais.
     Iniciei o teste provocativamente, elogiando Robert Carlos e cantarolando aquele clássico erótico-sentimental que diz: "Nos lençóis macios da cama/ amantes se dão/ travesseiros soltos/ roupas pelo chão...", então nas paradas de sucesso do rádio popular. Como todos os indivíduos pesquisados, esses dois, ainda na primeira dose, protestaram com veemência. Roberto Carlos foi acusado de melodista repetitivo, rouxinol da Votorantim, porta-voz da classe média alienada, seresteiro de motel e outras jóias do nosso cancioneiro crítico. Um dos meus entrevistados usou, com certo espírito, a famosa frase de Tom Jobim: "Roberto Carlos é o melhor compositor de música ruim que existe".
     Rimos. Bebemos. Mudamos de assunto. Aparentemente. Digo  aparentemente porque, no meio da segunda dose, comecei a contar uma estória que me levaria. por vias transversas, ao objetivo central da pesquisa.
     "Pablo Neruda foi um poeta superior", comentei distraidamente, obtendo a óbvia concordância dos dois. Prossegui: ainda ontem achei num sebo do centro da cidade um livrinho raro editado em vários idiomas, escrito por Matilde, a primeira mulher do poeta. Era uma edição em italiano: Ricordanza della mia gioventú. Memórias de mocidade, quando ela conheceu Neruda em Paris, ambos estudantes bolsistas, recém-chegados do Chile.
     Minhas duas cobaias arregalaram os bugalhos. sorviam prazerosamente cada palavra do meu relato, junto com os restos da segunda dose. Aquilo sim era um bom assunto, disseram. Assunto de estilo, como convém a gente de nossa estampa. Continuei a estória.
     Matilde e Neruda conheceram-se num bistrô do Quartier Latin. tinham dezoito anos, eram belos, pobres e apaixonados. Naquela remota madrugada em Paris, diante de uma garrafa de Beujolois quase vazia, o jovem Neruda perguntou: "Vamos casar, Matilde?". Ela sorriu alvoroçada: sim, Pablo, vamos casar. ainda hoje, ainda nesta noite. Façamos a festa. O poeta quis comemorar e contou míseros francos disponíveis. Talvez dessem para mais uma garrafa de vinho, talvez não. Mesmo assim chamou o garçom, pediu ousadamente outra garrafa. E naquele momento escreveu no guardanapo de papel um verso que Matilde guardou por toda a vida.  Um verso que o livrinho dela reproduzia em fac-símile, 52 anos depois, como documento daquele arrebatamento juvenil:"Matilde, nós somos a festa e a dose atrevida. a) Pablo".
     Meus dois ouvintes, terminando a terceira e engatando a quarta dose, explodiram de entusiasmo.Puseram-se a elogiar os poemas de amor de Pablo Neruda, especialmente esse verso inédito que repetiam em portunhol:"Nosotros somos la fiesta...".
     Aí veio o anticlímax. Eu disse; "Pois bem, saibam que essa estória é inverídica. Acabo de inventá-la. Nunca houve esse pobre amor em Paris, não existe o tal livrinho de Matilde e o poeta Neruda jamais escreveu esse verso, que não passa de um trecho da música O Gosto de Tudo de Roberto Carlos". E cantei a balada inteira.
     Quase fui apedrejado com o gelo que restava no balde. E comprovei naquela noite quão relativo é o rigor estético da intelectuália, nesse terceiro mundo.
Depois do terceiro uísque.

FALCÃO, Aluízio. Crônicas da vida boêmia, 1 ed. São Paulo:Ateliê Editorial,1998 p.23-26

Nota: o blog manteve a grafia original.