segunda-feira, 20 de março de 2017

A Elegia do Outono, Olegário Mariano

No bailado das folhas amarelas
Velhinho trêmulo e setuagenário
Rico se sensações e de lendas singelas,
O outono aí vem...  Segundo reza o calendário.

Aí vem de novo o céu nevoento...
As árvores já estão tristes e pensativas:
O outono deve atuar no sentimento
Das crianças vibráteis e emotivas.

A alma de poeta que ama o silêncio e o abandono
Num reflexo diluído de ametistas,
Vendo e sentindo o outono,
Canta felicidades nunca vistas.

O outono aí vem sonâmbulo...Trescala
Com ele um cheiro novo de folhagem.
O outono é humano, o outono fala
Pelo gesto indeciso da paisagem...

Não há sol. A neblina passa rente
Da superfície azul da água estagnada.
As folhas cantam comovidamente
Canções de notas verdes pela estrada...

E vão morrer depois fracas e débeis
Contorcidas em gestos de ansiedade...
Vendo-a, afino as cordas flébeis
Da minha extrema sensibilidade.

O outono lembra frases murmuradas
Ao ouvido de alguém num gesto lento:
Levou o outono as tuas mãos fanadas
E atirou-as com pétalas ao vento...

O outono é a última nota agonizante
De um velho órgão plangendo, emocional,
No coração bruxuleante
De alguma velha catedral.

Outono! Evocação de coisas mortas!
.... Folha que andaste, asa perdida no ar,
Por que fugiste às outras portas
E vieste à minha porta agonizar?

Ah folha morta! Assim desiludida,
Rolando ao léu do acaso pelo chão,
És um farrapo trêmulo de vida...
Um velho trapo de recordação.

Mariano, Olegário
Toda uma vida de poesia, vol.1, pag 55-56

Nota: o blog atualizou a ortografia.
Imagem: Regina Porto.

domingo, 19 de março de 2017

História Bonita (17): Wemerson, filho de lavradores concorre ao Global Teacher Prize



Um dos dez melhores  professores do mundo tem apenas 26 anos, é filho de lavradores, nasceu e cresceu em uma cidade do interior do Espírito Santo e precisou lidar com traficantes de drogas e alunos que portavam armas de fogo nas escolas onde lecionou. O biólogo Wemerson da Silva Nogueira, natural de Nova Venécia, a 200 quilômetros da capital. Vitória, é finalista do Global Teacher Prize, uma espécie de Nobel do giz e lousa que recompensa com 1 milhão de dólares ao longo de dez anos um mestre que tenha feito grande contribuição à profissão. O anúncio do vencedor acontece neste domingo,19, em Dubai – será a primeira viagem internacional de Wemerson., Em cinco anos de carreira na educação básica,  o capixaba criou planos de conscientização conta o uso de drogas e lecionou com música e aplicativos para celular.
No projeto Filtrando as Lágrima do Rio Doce, implantado no ano passado, ensinou a tabela periódica por meio da análise de elementos químicos encontrados na água após o rompimento da barragem de Mariana. Também mobilizou estudantes para distribuir filtros entre as comunidades ribeirinhas. Pela iniciativa, tornou-se vencedor de prêmios como Educador Nota 10, uma realização da Fundação Victor Civita e da Fundação Roberto Marinho. Neste ano, mudou-se para Vitória, onde passou a trabalhar em uma faculdade privada nos ursos de pedagogia, engenharia elétrica e da computação.

Veja mais sobre o professor clicando em: Época ou G1 ou Gazeta on line ou Tribuna on line

Fonte:
Entrevista concedida a Meire kusumoto
Páginas Amarelas Revista Veja Ed.2522,22 de março de 2017.

Nota: O Global Teacher Prize, foi entregue a Maggie MacDonnel

 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Sugestão de Leitura: Como Brigar Na Internet (corretamente)

Hoje, abro exceção para sugerir a leitura de um artigo muito interessante. Vale muito pensar a respeito e, mais que isso, exercitar a discussão correta e produtiva. Na internet ou pessoalmente lucidez, objetividade e educação fazem toda a diferença.  


 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Pós Dia Internacional da Mulher, Regina Porto

     
Um dia, me disse indignada quando via mulher não sair sem o marido, nem cogitar ver um filme caso a película não fosse do interesse dele, repetir frases como se tese fossem porque é o marido que diz (mesmo vendo dados contrários), não decidir sobre si, deixar de usar uma roupa... 
Acrescentei, no auge de meu discurso entristecido, que só acreditaria que nós, mulheres, pudéssemos dar um passo à frente, quando nos dignássemos a pensar com a própria cabeça. 
     Fui veementemente recriminada por MEU FILHO. Discutimos o assunto usando exemplos que nós dois conhecemos  muito próximos física e afetivamente.  Minha indignação com as mulheres em quem pensamos estava absurdamente equivocada. Ele tinha razão: quem carrega milênios de cultura machista e décadas de violência física e psicológica constante,  não tem a menor condição de mudar assim tão rápido.  
    Intimamente pedi desculpas pelo que fiz e hoje não quero jogar confete nas mulheres que conseguiram, nem trazer poemas melosos pelo Dia Internacional da Mulher.
    Venho deixar meu abraço de solidariedade a todas as mulheres que não tiveram oportunidade de se descobrir; para aquelas burros-de-carga de uma vida inteira sem chance de alívio físico; para as mulheres cujas vidas de escravidão  lhes tiraram o viço e marcaram seus belos rostos; para aquelas que depois de  décadas de maus tratos  nem sabem de suas belas almas. Nem si mesmas.
    Meu abraço para aquelas que ainda não sabem que seu parceiro jamais será responsável por sua felicidade.  Para vocês, agora que pensei melhor, minha solidariedade irrestrita, minha lágrima junto, quando for possível e necessário. Por causa de vocês vou me esforçar para não perder a esperança. 
     Agora, me dirijo ao homens: Num mundo em que há tanto para se fazer, num tempo como o atual em que a vida está bastante difícil principalmente em países pobres, quando todos precisam correr em busca de emprego, escola, alimento. Você ainda gasta sua vida oprimindo quem está do seu lado? Jogando pra sua companheira e só pra ela a lida com os filhos que são seus? Cobrando tudo sem nenhuma contrapartida? Agredindo? É só assim que você sabe ser? O que você quer ganhar com isso?       
     Quer, dessa forma, provar masculinidade? Para quê, para quem?   
    Não consegue enxergar que você e a mulher (companheira, mãe, irmã, vizinha etc) estão no mesmo barco? 
     Buscando as mesmas coisas?  
     Você ainda tem tempo pra isso? 
     Que pena. É um idiota e não sabe.


Quarta-feira é dia de: Me Alugo Para Sonhar, Gabriel García Márquez

Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.
      Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.
      Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.
      Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:
        — Eu me alugo para sonhar.

     Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.
      — O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.
      A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.
      Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: "Sonho". Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.
      Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.
      Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.
      — Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.
       Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.
      Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.
       Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:
       — Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.
      Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.
      Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.
      — Só a poesia é clarividente — disse.
      Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.
      Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. "Você continua o atrevido de sempre", disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.
      — Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.
      Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.
      — Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.
      Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.
       — Sonhei com essa mulher que sonha — disse.
       Matilde quis que ele contasse o sonho.
       — Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.
       — Isso é coisa de Borges — comentei.
       Ele me olhou desencantado.
       — Está escrito?
       — Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.
      Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.
     — Sonhei com o poeta — nos disse.
     Assombrado, pedi que me contasse o sonho.
     — Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.
     — O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.
    Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. "O senhor não imagina como ela era extraordinária", me disse. "O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela". E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.
     — Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?
     — Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.

Fonte: Releituras
Imagem:Osmar Zevall

segunda-feira, 6 de março de 2017

Segunda-feira poética: Pedra Filosofal, António Gedeão


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

In Movimento Perpétuo, 1956
Imagem: a próxima curva

sábado, 4 de março de 2017

Crônicas da M.P.B: Canto do Trabalhador - grupo Casuarina


Canto do Trabalhador
João Nogueira/ Paulo César Pinheiro
Vamos trabalhar sem fazer alarde 
Pra pisar com força o chão da cidade 
A vida não tem segredo
Quem sentado espera a morte é covarde 
Mas quem faz a sorte é que é de verdade 
É só acordar mais cedo 
 É só regar, pra alimentar o arvoredo 
Por essa luta eu não retrocedo
 Pra ver toda a mocidade 
Com os frutos da liberdade 
Escorrendo de entre os dedos 
Que é pra enterrar de uma vez seus medos 
Vamos trabalhar sem fazer alarde 
Pra pisar com força o chão da cidade 
A vida não tem segredo 
Quem sentado espera a morte é covarde 
Mas quem faz a sorte é que é de verdade 
É só acordar mais cedo 
 Se não mudar, o barco bate no rochedo
 E vai pro fundo como um brinquedo
 É bom cantar a verdade 
Pro povo de uma cidade 
E deixar de arremedo 
E aí vai virar mais um samba-enredo 
Vamos trabalhar sem fazer alarde 
Pra pisar com força o chão da cidade 
A vida não tem segredo 
Quem sentado espera a morte é covarde 
Mas quem faz a sorte é que é de verdade 
É só acordar mais cedo.

Ouça aqui, com o grupo Casuarina