quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

9 Sugestões de Mário Vargas Llosa


Vargas Llosa, um escritor que eu adoro,  indicou 9 livros


Talvez, noutra oportunidade, eu leia algum livro de virgínia Woolf. Por enquanto acho uma leitura chata.



Não conheço outro livro de Nabokov. Li e vi o filme. Ambos me incomodam  demais.


Não conheço esse autor, mas bateu curiosidade para ler o livro


Gostei do livro e do filme. Lí e também  gostei de Trópico de Capricórnio e Nexus do mesmo autor.

Não conheço Elias Canetti. Me bateu curiosidade. Creio que vou incluí-lo na minha lista de novos autores a conhecer em 2017 


Não sei se o livro fez tanto sucesso quanto o filme. Li e gostei. Só, sem maiores aplausos.

Ahhh preciso rever o filme. Nunca li o livro e não conheço o autor

Fiquei curiosa, nunca li nada de Giuseppe Lampedusa.


Esse livro não está disponível nas maiores redes do Brasil. mas podemos encontrar outros títulos de Heinrich Böll 

Fonte: http://www.portalraizes.com/vargasllosalivros

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Quarta-feira é dia de: Dos Amores Divididos e Multiplicados, Regina Ruth Rincon Caires

 
Arroz, feijão, mexido de ovo e farofa de torresmo.
Tudo misturado, amassado. Isso era feito dia após dia, sempre nos mesmos velhos e descascados pratos de ágate. Cada neto era servido com esse manjar dos deuses, carinhosamente temperado de generosidade, doação, amor.
A avó compactava a comida no círculo central de cada prato, borrifava algumas gotas de limão-cravo, e com a lateral do garfo fazia uma cruz no centro, dividindo a porção em quatro partes. Dizia que cada parte era dedicada a um dos quatro grandes amores da vida: mãe, pai, avó e avô.
E, comprometidos com esses amores, cada um de nós escolhia a parte mais amada para iniciar a refeição. Quase sempre a sequência lógica prevalecia: mãe, pai, avó e avô. Raras vezes essa harmonia era quebrada, e quando isso acontecia nem precisava investigar: havia uma surra atrelada a isso. Uma surra dada ou uma surra prometida. Se bem que isso era muito particular. Se havia alguma inversão, ninguém comentava. Acontecia dentro das cabecinhas. Sei que acontecia isso porque inverti algumas vezes.
Enquanto comíamos, a avó, de longe, sempre atarefada com a lida da casa, cautelosamente controlava a nossa alimentação. Era comum ouvir:
- Quem já comeu uma parte? Didi, você está sem fome? Lúcia, a comida não está boa? Faltou sal?
Ela sabia que a comida estava sempre boa. Nunca faltou sal e nem sobrou. Nunca errou a mão em nada. Ali estava o amor mais saboroso que uma criança poderia receber. Era uma cumplicidade de afetos tamanha que espantava qualquer insegurança, qualquer medo, qualquer tristeza. Era um porto seguro.
Com o passar do tempo, fui percebendo que naquela divisão faltavam partes. Havia mais dois amores a serem colocados ali, no meu prato. Meu irmão e minha irmã.


Então, sem alarde, comecei a repartir as porções do pai e da mãe, de modo a serem quatro. Ali estavam os dois que faltavam. E ficava feliz assim...
Fiz isso por algum tempo sem ser notada. Quero dizer, pensando não ser notada. Imagina se isso seria possível! Nada escapava da tenência sempre zelosa da avó. E um dia, enquanto eu multiplicava as minhas divisões, ela aproximou-se de mansinho e, com aquele olhar que jorrava ternura, me disse:
- Existem outros amores, não é mesmo, menina?!
Depois do susto, sentindo o afluxo do sangue ruborizando o meu rosto por perceber que ela havia descoberto o meu feito, e não querendo que ela se sentisse afrontada pela minha iniciativa, prontamente coloquei-me de pé. E ela, no intuito de me tranquilizar, passou as mãos pelos meus cabelos, e com a maior serenidade do mundo, me disse:
- Ao longo da vida, minha neta, você irá encontrar muitos amores. Alguns serão somados, outros nascerão...  Serão tantos, mas tantos, que não caberão nem no maior prato do mundo!
E ela estava com a razão...        

                                                                                                        

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Quarta-feira é dia de: O Homem Que Queria Eliminar a Memória,Ignácio de Loyola Brandão


Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida e morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis. Precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomodar com o lugar-comum.
Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada?
O médico:
– Sim?
– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.
– Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?
– Porque eu quero.
– Sim, mas precisa me explicar. Justificar.
– Não basta eu querer?
– Claro que não.
– Não sou dono do meu corpo?
– Em termos.
– Como em termos?
– Bem, o senhor é e não é. Há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor; eu é que estou impedido de fazer no senhor.
– Quem impede?
– A ética, a lei.
– A sua ética manda também no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo. E se acabou.
– Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. E não tenho tempo a perder. Por que o senhor quer cortar um pedaço do cérebro?
– Quero eliminar a minha memória.
– Para quê?
– Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.
– Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.
– Não quero mais lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!
– Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar.
– É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.
– Não dá para fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.
– Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?
– Que eu saiba não.
– Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã?
– Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.
– E quem quer saber de história?
– Imaginou o mundo?
– Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para a frente.
– Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através de quê?
– Quem quer comprovar a existência?
– A gente precisa.
– Para quê?
O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.
– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. Eliminar a memória. O que você acha?

– Muito boa idéia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.

Cadeiras Proibidas: Contos - Rio de Janeiro, 1984, p.32-34.

Nota: o blog manteve a grafia original
Imagem: www.fluxodopensamento.com


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Poema de Dallas Clayton, tradução/versão: Suzana Valença


VERSÃO EM PORTUGUÊS


Ouvi dizer que o futuro é horripilante

Com robôs que comem corações pulsantes

As pessoas vão se dobrando e caindo

E a Terra, em dias tristes, vai submergindo



E eu ouvi dizer que o futuro já chegou

Por quem fala que conversou

Com Deus, em particular

Sobre juntar gente para guerrear



Ouvi dizer que o futuro é barato

De comprar e vender, colhido e plantado

Para queimar e quebrar e construir e levar

E nem se importar com bagunçar ou guardar



Mas eu acredito que o futuro é feliz

Que devemos ouvir menos o que se diz

E ajudar a curar quem segura nossa mão

E ser uma luz na escuridão


TRADUÇÃO DIRETA



Ouvi dizer que o futuro é sombrio

Com robôs que comem corações pulsantes

As pessoas vão se dobrando e caindo

E a Terra submerge em dias tristes



E eu ouvi dizer que o futuro já chegou

Por pessoas que falam que ouvem

Deus em conversas baixinhas

Sobre reunir todas as ovelhas que lutam



Ouvi dizer que o futuro é barato

De comprar e vender e costurar e rasgar

Para queimar e quebrar e construir e levar

E nem se importar com a bagunça que ficou





Mas eu acredito que o futuro é brilhoso

Que você pode ser a luz

E ajudar a curar a mão que seguramos

E ouvir menos o que falam por aí



Poema original:

I’ve been told the future’s dark

With robots eating beating hearts

As people fold and fall away

And Earth immersed in dismal days



And I’ve been told the future is here

By folks who claim to lend an ear

With god in private quiet talks

Of plans to gather fighting flocks



I’ve been told the future is cheap

To buy and sell and sow and reap

To burn and grind and build and take

And never mind the mess you make



But I believe the future is bright

That you can be the light

And help to heal the hand we hold

And listen less to what we’re told






Sobre Dallas Clayton: é autor / ilustrador de livros infantis. Ele gosta de combinar poeminhas com desenhos de bem coloridos. Às vezes os poemas não fazem sentindo (ou fazem?), parecem bobagem de criança. E, às vezes, os desenhos são monstrinhos. Dallas tem uma página linda no Instagram (https://www.instagram.com/p/BMm0-ubhB6H/?taken-by=dallasclayton) e vende o produtos dele no site (http://store.dallasclayton.com/). A arte dele também pode ser encontrada no meio da rua, feita a giz, só porque sim.