domingo, 12 de agosto de 2018

Para Seu Alípio, Regina Porto.

    Papai,
    Não vim lhe parabenizar. Não convivemos proximamente desde que fiz dez anos e agora você já não está mais aqui pra que lhe peça desculpas olhando nos seus olhos como gostaria.  Sim, era isso que eu queria fazer hoje. Pedir desculpas.
     Por anos carreguei uma ideia pesada, ruim mesmo, a seu respeito. As circunstâncias e, talvez, principalmente, o sofrimento de mamãe não me permitiram diferente. Passados tantos anos que você se foi é que amadureci o suficiente para ver o tão óbvio pai possível que você foi.  
     Você não me empurrou no balanço como nas cenas românticas do dia dos pais da atualidade, mas fez e armou o brinquedo numa árvore pra nós.  
     Não nos acompanhou nas brincadeiras dentro d'água, mas alertou do perigo da lagoa pra onde, seguindo seus alertas,nunca fomos. A seu modo, como sabia, cuidou de nós.
     Não me embalou pra dormir, mas correu feito atleta pra me livrar do ataque de um animal. A seu modo, como sabia, como podia cuidou de mim.
    Não puxou conversa mas me respondeu sempre que eu perguntei e sei, você me disse, que gastei minha infância rural perguntando muito. A seu modo, como sabia e como pode, cuidou de mim.               
    Conhecia a terra local porque foi dela e nela em que viveu e de onde veio. Sempre admirou detalhes da natureza. O homem rude, de mãos grossas e incrível disposição para a labuta pesada, por prazer compartilhou  o que sabia e o que lhe encantava nos bichos e plantas. A seu modo, como podia, me amou.
     Durante muitos anos e por carta abriu seu coração, falou de si e sobre  trivialidades, comigo. A seu modo como sabia e pode me amou.
   Quando fiquei só e com dois filhos pequenos, insistiu pra que voltasse a morar com mamãe. Argumentou, que precisávamos ela e eu de apoio prático. Estava certo. A seu modo, como sabia e lhe foi possível, me amou. 
     Não lembro de que tenha me afagado. A cultura da época e lugar não incluía afagos. Mas sempre quis saber como estavam meus filhos. Foi meu pai o primeiro homem que vi valorizar a amamentação. A seu modo, como sabia ou podia me amou. 
     Por isso, a meu modo e como posso agora, quero lhe pedir desculpas. Não fui capaz de lhe amar, não fui capaz de tirar de minha rudeza, nenhum gesto mais ameno pra você. E quando, você, já velho, enfim, veio morar comigo eu não fui sequer  capaz de entender que, ali, seu cérebro já estava se afastando da racionalidade. 
    Eu com minha rudeza, não entendi que era melhor lhe abraçar quando você ficasse zangado.            
     Tivemos um pelo outro, um amor confuso e cheio de lacunas. Você não tinha de onde tirar pra mim  o que não teve pra si, vindo de uma vida inteira de ausências e nadas. E eu só agora me inteirei disso e justamente porque me vi rude com meu neto que eu amo imensamente.  
     Lhe devendo  mais que você a mim,  me comprometo  a buscar, e, se precisar, tecer, ternura pra carregar na bolsa e não ficar em debito com os meus.   É a forma que encontrei para lhe pedir desculpas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Cademia, Nalise Valença

     "CADEMIA" Academia, amarelinha...não importa o nome. O valor está ou estava naquele brinquedo. Nós, as meninas dos velhos tempos,não perdíamos a oportunidade para disputar a "glória" de ser a melhor nos pulos daquele jogo.
     Havia até brigas quando alguém pisava "na risca"e não passava a vez; mas a alegria da vencedora compensava o cansaço e as arengas.     
    Hoje vi ali numa calçada, riscada com giz,uma academia. Parei para conferir se a forma ainda era a mesma ! Fui longe até minha meninice e me pareceu ver todas as meninas daquele tempo com um carvão nas mãos, já preparadas para riscar nas poucas calçadas da cidade, o nosso jogo predileto.
      Pulei com elas,na imaginação ,para sentir a alegria antiga de ser boa na academia, que, aliás, muitas chamavam "cademia". 
     Não vi ninguém perto de mim e descobri que nos quadros,nas asas e no céu da minha academia, hoje, pulam sentimentos diversos, na busca infinita que a vida apresenta para quem quiser ser campeão,com ou sem academia para jogar. 
     Parei de olhar o desenho da calçada e fui em frente para a vida ou pela vida!!

domingo, 29 de julho de 2018

Com Inveja de Ignácio de Loyola Brandão. Fazer o Quê?

    
      Há 5 anos, conheci Ignácio de Loyola Brandão pessoalmente .  Fui ao lançamento recifense do livro Solidão No Fundo  da Agulha (Fundação Carlos Chagas 2012).  Àquela época só conhecia o autor através de textos lidos em sites.  No teatro ele falou de sua ligação  que com a cidade do Recife e eu imaginei logo que uma pessoa com boa lábia poderia ser também excelente contador de história em livros. Me detive, então, no seu porquê de ter escrito esse livro.  
     Excetuando a forte ligação com a cidade, puro marketing, achei interessante a sugestão e acatamento da ideia de escrever sua história com determinadas músicas. Sim, nas mãos de um escritor a prosaica Ciranda Cirandinha pode dar uma história e tanto. O título do livro, sabiamente tirado de um comentário... Tudo me pareceu suficientemente interessante. Loyola Brandão encantou, prendeu a plateia mentindo lindamente e, no final, autografou e se deixou fotografar.  No meu exemplar autógrafo simpático em que cita um professor de matemática a quem deve sua vida literária.  
     O livro é um capricho, uma obra de arte por si: tem fotografias especialmente feitas para cada texto por Paulo Melo Júnior  e vem com um CD, também gravado especialmente para e livro, por Rita Gullo, filha de Ignácio de Loyola Brandão.  São 11 canções, mas o autor cita outras que  Rita Gullo não gravou.  
       Eu memorizei uma música que ouvi seguidas vezes quando tinha aproximadamente 7 anos. No dia em que bater uma inveja (dessas bem grandes) de I.L.B, eu escrevo. Por enquanto, vou buscar umas mentiras pra enfeitar a realidade da história acerca dessa música. 
        E pra que  eu não seja invejosa sozinha, segue um dos textos do autor: 

Assim "Cumana"me Seguiu Por Quarenta Anos e Me Devolveu o Tempo

       "Cumana".
     Desapareceu da memória. Nunca mais ouvi. Mudei para São Paulo, fiz carreira. Jornal, revistas, viajei mundo, conheci gente, aquela música ficou escondida em algum lugar. Um dia, meados dos anos 1990, eu e Andrea Carta saímos da redação da Vogue e fomos almoçar no Fasano por motivos profissionais. Era o novo restaurante da Haddock Lobo, monumental, luxuoso, luxuriante, intimidador. Mas Andrea era da casa e crescera com Rogério Fasano, e eu tive Fabrizio, o pai, como amigo e patrão por anos - ele havia sido um dos criadores da Editora Três.
    Fingindo naturalidade, entrei, avancei uns passos, o maître me recebeu como se eu fosse frequentador desde os tempos do pai ou do av6 de Fabrizio. Ali eu aprendi o que significa luxo, hospitalidade, savoir-faire. Estremeci mal dera tr6es passos, depois fiquei paralisado, ao ouvir a música. Voltei-me. Na entrada, à esquerda da porta, havia um piano. Fui até ele. Eu tremia por dentro, as noites de domingo de quarenta anos antes voltaram, estava no bar do Monteiro, revi Pedrinho ao piano. Ele estará vivo? Vai me ler, num desses acasos imensos?
     - Conhece essa música? - perguntou o pianista. - É bem antiga.
     - "Cumana". 
     - Poucos conhecem. Um clássico de  Carmen Cavallaro.
     - Carmen Cavallaro?
     Foi um grande pianista. Não pense que era mulher, nem que era italiano. Um americano nascido em Nova York; estudou música na Europa, transitava entre o clássico e o popular.
     Eu sabia que Carmen não era mulher, tinha visto os musicais americanos, ele fazia cameo appearences ( assim como Benê Nunes, que era pianista favorito de Juscelino Kubitschck e tocava em quase todas as chanchadas da Atlântida, envolto em fumaça de gelo-seco). Eu só não sabia que "Cumana", a música emblemática dos meus dezoito anos, era dele, e era tocada por ele Cavallaro.
     - Me desculpe, qual seu nome?
     - Mário Edson.
     Dali em diante, sempre que eu entrava no Fasano e Mário Edson me via, ele parava o que estava tocando, e eu ouvia "Cumana". A vida andou outra vez, deixei de frequentar o restaurante, caminhei por trilhas variadas, mudei de casa, continuei escrevendo, vieram netos. Passados dez anos, aceitei escrever a biografia de Fabrizio Fasano, para contar a saga da dinastia que implantou na cidade os melhores restaurantes que ela tem.  Adoro quando me pedem trabalhos que envolvem a história e o cotidiano de São Paulo; isso abrange o caminho da iniciativa privada, as imaginações, a maneira que pioneiros avançam.  Agora em agosto de 2012, terminada a entrevista, eu, Fabrizio, sua mulher, Daisy, e sua filha Andrea, saímos para jantar. Uma quadra depois, entramos no Fasano, o novo. Fica dentro do Hotel Fasano, na rua que leva o nome do pioneiro, Vittorio Fasano.
     Quando me dei conta, ja estava no restaurante, cuja entrada é discretíssima. Mal apontei, ouvi "Cumana". Estremeci. Seria ainda Mário Sérgio? Era. Com os mesmos dedos ágeis, rápidos, como o ritmo exigia. Rimos e nos abraçamos, ele tocou de novo, me entregou tudo o que eu nunca perdera e que viera de piano em piano até chegar a São Paulo. Há coisas que não morrem,. O tempo anda, mas, até o final, as músicas vão me devolver momentos que desenham a trajetória de minha vida.
(Brandão,Ignácio de Loyola, Solidão no fundo da agulha, São Paulo, 2012, págs.142-143)

Rita Gullo canta:
1. Amado Mio (Doris Fisher e Allan Roberts)
2. Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos)
3. Alfonsina y El Mar (Ariel Ramíres e Félix Luna)
4. Canção do Mar (Frederico de Brito e Ferrer Trindade)
5. Patricia (Dámaso Pérez Prado e - versão brasileira - Caetano Veloso)
6.Mensagem (Aldo Cabral e Cícero Nunes)
7.Quizás (Osvaldo Ferrés)
8. Estrela do Mar (Marino Pinto e Paulo Soledade)
9. Valsinha (Chico Buarque e Vinícius de Moraes)
10. A Noite do Meu Bem (Dolores Duran)
11. Que rest-t-il de nos amours? (Charles Trenet

Nota do blog: 
O livro Solidão no funda da agulha do Projeto Livro Para Todos, só teve uma edição. Não existe mais em livrarias e o CD não é vendido separadamente.
  

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Olhos d'água, Conceição Evaristo

    
     Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando... De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?
     Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo... Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela... Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?
     Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha.       
Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado... Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?    
     Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.
     Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?
     Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva... Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?
     E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?
     E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos.
     E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.
     E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?
Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.
Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.
     Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:
     Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

In: Evaristo Conceição,Olhos d’água, p. 15-19

Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte - MG. Mestre em Literatura Brasileira/ PUC -Rio e Doutora em Literatura Comparada/ UFF. terceiro lugar no Prêmio Jabuti 2015 categoria contos.  Seus livros são:
Olhos d'àgua;Becos da Memória Ponciá Vicêncio e Histórias de Leves Enganos e Para adquiri-los clique  aqui.
Possui também textos em obras coletivas.

Tenho um exemplar de Ponciá Vicêncio que disponibilizo para o grupo de leitura LivroErrante.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O Livro e a América, Castro Alves


    Talhado para as grandezas,
    Pra crescer, criar, subir,
    O Novo Mundo nos músculos

    Sente a seiva do porvir.
    — Estatuário de colossos —
    Cansado doutros esboços
    Disse um dia Jeová:
    "Vai, Colombo, abre a cortina
    "Da minha eterna oficina...
    "Tira a América de lá".

    Molhado inda do dilúvio,
    Qual Tritão descomunal,
    O continente desperta
    No concerto universal.
    Dos oceanos em tropa
    Um — traz-lhe as artes da Europa,
    Outro — as bagas de Ceilão...
    E os Andes petrificados,
    Como braços levantados,
    Lhe apontam para a amplidão.

    Olhando em torno então brada:
    "Tudo marcha!... Ó grande Deus!
    As cataratas — pra terra,
    As estrelas — para os céus
    Lá, do pólo sobre as plagas,
    O seu rebanho de vagas
    Vai o mar apascentar...
    Eu quero marchar com os ventos,
    Corn os mundos... co'os
    firmamentos!!!"
    E Deus responde — "Marchar!"
    >
    "Marchar! ... Mas como?...  Da Grécia
    Nos dóricos Partenons
    A mil deuses levantando
    Mil marmóreos Panteon?...
    Marchar co'a espada de Roma
    — Leoa de ruiva coma
    De presa enorme no chão,
    Saciando o ódio profundo. . .
    — Com as garras nas mãos do mundo,

    — Com os dentes no coração?...
    "Marchar!... Mas como a Alemanha
    Na tirania feudal,
    Levantando uma montanha
    Em cada uma catedral?...
    Não!... Nem templos feitos de ossos,
    Nem gládios a cavar fossos
    São degraus do progredir...
    Lá brada César morrendo:
    "No pugilato tremendo
    "Quem sempre vence é o porvir!"

    Filhos do sec’lo das luzes!
    Filhos da Grande nação!
    Quando ante Deus vos mostrardes,
    Tereis um livro na mão:
    O livro — esse audaz guerreiro
    Que conquista o mundo inteiro
    Sem nunca ter Waterloo...
    Eólo de pensamentos,
    Que abrira a gruta dos ventos
    Donde a Igualdade vooul...

    Por uma fatalidade
    Dessas que descem de além,
    O sec'lo, que viu Colombo,
    Viu Guttenberg também.
    Quando no tosco estaleiro
    Da Alemanha o velho obreiro
    A ave da imprensa gerou...
    O Genovês salta os mares...
    Busca um ninho entre os palmares
    E a pátria da imprensa achou...

    Por isso na impaciência
    Desta sede de saber,
    Como as aves do deserto
    As almas buscam beber...
    Oh! Bendito o que semeia
    Livros... livros à mão cheia...
    E manda o povo pensar!
    O livro caindo n'alma
    É germe — que faz a palma,
    É chuva — que faz o mar.

    Vós, que o templo das idéias
    Largo — abris às multidões,
    Pra o batismo luminoso
    Das grandes revoluções,
    Agora que o trem de ferro
    Acorda o tigre no cerro
    E espanta os caboclos nus,
    Fazei desse "rei dos ventos"
    — Ginete dos pensamentos,
    — Arauto da grande luz! ...

    Bravo! a quem salva o futuro
    Fecundando a multidão! ...
    Num poema amortalhada
    Nunca morre uma nação.
    Como Goethe moribundo
    Brada "Luz!" o Novo Mundo
    Num brado de Briaréu...
    Luz! pois, no vale e na serra...
    Que, se a luz rola na terra,
    Deus colhe gênios no céu!...

                                                                  
     

    Alves, Castro, Poetas Românticos Brasileiros, vol. I, Editora Lumen, SP, s/ano 
    Nota: o blog manteve a grafia original.
       

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Férias





Estou de férias, volto em agosto!
Até lá, amigos. 

LivroErrante 10 anos.
 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Maria, Conceição Evaristo

    
      Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora.  Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?
     A palma de umas de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
     Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entra as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quando tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela.  Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma?  Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...
     O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem entretanto virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho.  E logo após, levantou rápido sacando a arma.  Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando.  
     Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.
     Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do fundo do ônibus acrescentou:  Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada.  Mentira, eu não fui e não sei porquê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembrava vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva.  Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?
     Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.
     Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.

In:Evaristo, Conceição, Olhos d'água, p.39-42
Fonte:Literafro, o portal da literatura afro-brasileira