quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Quarta-feira é dia de: A Primavera da Lagarta, Ruth Rocha


Grande comício na floresta! Bem no meio da clareira, debaixo da bananeira!
Dona formiga convocou a reunião. 
-Isso não pode continuar!
-Não pode não! Apoiava o camaleão.
-É um desaforo. A formiga gritava. _É um desaforo!
-É mesmo. O camaleão concordava.
A joaninha que vinha chegando naquele instante perguntava: Qual é o desaforo, hein?
-É um desaforo o que a lagarta faz!
-Come tudo o que é folha! Reclamava o Louva-a-deus.
-Não há comida que chegue!
A lagartixa não concordava: -Por isso não que as senhoras formigas também comem.
-É isso mesmo! Apoiou o camaleão que vivia mudando de opinião.
-É muito diferente, depois a lagarta é uma grande preguiçosa, vive lagarteando por aí.
-Vai ver que a lagartixa é parente da lagarta. Disse o camaleão que já tinha mudado de opinião.
-Parente não! Falou a lagartixa. -É só uma coincidência de nome!
-Então não se meta!
-Abaixo a lagarta! Disse o gafanhoto. _Vamos acabar com ela!
-Vamos sim! Gritou a libélula. Ela é muito feia!
O Senhor Caracol ainda quis fazer um discurso: 
-É, minhas senhoras e meus senhores, como é para o bem geral e para a felicidade nacional, em meu nome e em nome de todo mundo interessado, como diria o conselheiro Furtado, quero deixar consignado que está tudo errado. Mas como o caracol era muito enrolado, ninguém prestava atenção no coitado.
Já estavam todos se preparando para caçar a lagarta.
-Abaixo a feiúra! Gritava aranha como se ela fosse muito bonita.
-Morra comilona! Exclamava o Louva-a-deus como se ele não fosse comilão também.
-Vamos acabar com a preguiçosa! Berrava a cigarra esquecendo a sua fama de boa vida.
E lá se foram eles, cantando e marchando:
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
Mas, a primavera havia chegado, por toda a parte havia flores na floresta, até parecia festa. Os passarinhos cantavam e as borboletas, quantas borboletas de todas as cores, de todos os tamanhos borboletearam pela mata. E os caçadores procuravam pela lagarta:
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
E perguntavam para as borboletas que passavam:
-Vocês viram a lagarta que morava na amoreira? Aquela preguiçosa, comilona, horrorosa.
As borboletas riam, riam, iam passando e nem respondiam. Até que veio chegando uma linda borboleta.
-Estão procurando a lagarta da amoreira?
-Estamos sim. Aquela horrorosa, comilona.
E a borboleta bateu as asas e falou:
-Pois, sou eu.
-Não é possível! Não pode ser verdade! Você é linda!
E a borboleta sorrindo explicou:
Toda lagarta tem seu dia de borboleta, é só esperar pela primavera.
-Não é possível, só acredito vendo!
-Venha ver! Isso acontece com todas as lagartas. Eu tenho uma irmã que está acabando de virar borboleta.
Todos correram para ver. E ficaram quietinhos espiando. E a lagarta foi se transformando, se transformando até que de dentro do casulo nasceu uma borboleta.
Os inimigos da lagarta ficaram admirados
-É um milagre!
-Bem que eu falei. Disse o camaleão que já tinha mudado de opinião.
E a borboleta falou:
-É preciso ter paciência com as lagartas se quisermos conhecer as borboletas.


Fonte: blog do conto ao encanto
Imagem: www.positivandoatiudes.blogspot.com.br

Árvore, Manoel de Barros




“Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola”. Manoel de Barros

“No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus”. Manoel de Barros

“Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra,esquecida no tronco das árvores só serve para poesia”. Manoel de Barros

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara,envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos”. Manoel de Barros

“Meu irmão agradecia a Deus aquela permanecia em árvore
porque fez amizade com as borboletas”. Manoel de Barros


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Segunda-feira Poética: Momento de Felicidade,Jalal ad-Din Rumi


Felicidade é este momento,
você e eu sentados na varanda -
duas formas, dois rostos,
mas uma alma,
você e eu.


A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos dão a água da vida
quando entramos neste jardim,
você e eu.


As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.


Você e eu,
unidos em êxtase de alegria,
livres do juízo e da razão -
você e eu.


Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
quando nós rimos,
você e eu.


Mais incrível ainda,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu -
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.
E na Terra do Açúcar, você e eu...



 (tradução de Jorge Pontual)

Fonte: www.textospararefexão.blogspot.com.br

Leia sobre o autor.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quarta-feira é dia de: O Melhor Amigo, Fernando Sabino


     A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressabiado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse
     Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
     – Meu filho? – gritou ela.
     – O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
     – Que é que você está carregando aí?
    Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido tentou ainda ganhar tempo.
     – Eu? Nada…
     – Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
     Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la. Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
     – Olha aí, mamãe: é um filhote…
     Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
     – Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
     – Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
     Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
     – Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
     – Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
     – Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
    – Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
   O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
    A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
    – Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou
esperando a reação da mãe.
    – Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
    – Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
    – Você não é todo mundo.
    – Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não
faço mais nada.
    – Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
    – A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
    – Sua alma, sua palma.
    Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
   – Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
   – Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais
ninguém nesta vida.
   – E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
   – Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
   – Deixa de conversa: obedece sua mãe.
   Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa
    – Pronto, mamãe!
   E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
   – Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo.

Fonte: www.contobrasileiro.com.br
Nota: o blog manteve a grafia original