domingo, 17 de novembro de 2019

Nascida em 17 de Novembro: Raquel de Queiroz

Caricatura de: Polo
Telha de Vidro 

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que - coitados - tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
- Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!


Leia mais Raquel de Queiroz neste blog

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Nascido em 15 de novembro: Bernardo Élis

Primeira Chuva
Quentura de noite pejada de nuvens baixas e negras.
Bambos bamboleios de trovão soturno
batendo o tímpano bambo da zabumba do horizonte.
Trovão apagado,
                               saudoso,
                                               distante.
Depois a chuva em grossos pingos
sobre os telhados,
Na poeira ressequida das estradas,
na terra requeimada das queimadas,
desprendendo um cheiro forte de gestação.
(Mamãe molhava algodão em cachaça canforada
E nos dava para cheirar: cuidado com defluxo!)
Amanhã tudo vai começar de novo:
as folhas voltarão aos galhos secos,
as águas resmungarão nas grotas mortas,
os pássaros do céu hão de cantar no cio...
(E aquela que partiu porque não volta?)

Lá fora uma goteira numa lata pinga,
pinga a pingo,
                               pengue,
                                               pengue,
numa toada monótona de preta que ninasse.
Pengue,
                pengue,
pingo a pingo.  
(E aquela que partiu,
Porque não volta?)


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Um Músico Extraordinário, Lima Barreto


 Quando andávamos juntos no colégio, Ezequiel era um franzino menino de quatorze ou quinze anos, triste, retraído, a quem os folguedos colegiais não atraíam. Não era visto nunca jogando “barra, carniça, quadrado, peteca”, ou qualquer outro jogo dentre aqueles velhos brinquedos de internato que hoje não se usam mais. O seu grande prazer era a leitura e, dos livros, os que mais gostava eram os de Jules Verne. Quando todos nós líamos José de Alencar, Macedo, Aluísio e, sobretudo, o infame Alfredo Gallis, ele lia a Ilha Misteriosa, o Heitor Servadac, as Cinco Semanas em um Balão e, com mais afinco, as Vinte Mil Léguas Submarinas.
     Dir-se-ia que a sua alma ansiava por estar só com ela mesma, mergulhada, como o Capitão Nemo do romance vernesco, no seio do mais misterioso dos elementos da nossa misteriosa Terra.
     Nenhum colega o entendia, mas todos o estimavam, porque era bom, tímido e generoso. E porque ninguém o entendesse nem as suas leituras, ele vivia consigo mesmo; e, quando não estudava as lições de que dava boas contas, lia seu autor predileto.
     Quem poderia pôr na cabeça daquelas crianças fúteis pela idade e cheias de anseios de carne para a puberdade exigente o sonho que o célebre autor francês instila nos cérebros dos meninos que se apaixonam por ele, e o bálsamo que os seus livros dão aos delicados que prematuramente adivinham a injustiça e a brutalidade da vida?
     O que faz o encanto da meninice não é que essa idade seja melhor ou pior que as outras. O que a faz encantadora e boa é que, durante esse período da existência, nossa capacidade de sonho é maior e mais força temos em identificar os nossos sonhos com a nossa vida. Penso, hoje, que o meu colega Ezequiel tinha sempre no bolso um canivete, no pressuposto de, se viesse a cair em uma ilha deserta, possuir à mão aquele instrumento indispensável para o imediato arranjo de sua vida; e aquele meu outro colega Sanches andava sempre com uma nota de dez tostões, para, no caso de arranjar a “sua” namorada, ter logo em seu alcance o dinheiro com que lhe comprasse um ramilhete.
     Era, porém, falar ao Ezequiel em Heitor Servadac, e logo ele se punha entusiasmado e contava toda a novela do mestre de Nantes. Quando acabava, tentava então outra; mas os colegas fugiam um a um, deixavam-no só com o seu Jules Verne, para irem fumar um cigarro às escondidas.
     Então, ele procurava o mais afastado dos bancos do recreio, e deixava-se ficar lá, só, imaginando, talvez, futuras viagens que havia de fazer, para repassar as aventuras de Roberto Grant, de Hatteras, de Passepartout, de Keraban, de Miguel Strogoff, de Cesar Cascavel, de Philéas Fogg e mesmo daquele curioso doutor Lindenbrock, que entra pela cratera extinta de Sueffels, na desolada Islândia, e vem à superfície da Terra, num ascensor de lavas, que o Estrômboli vomita nas terras risonhas que o Mediterrâneo afaga…
     Saímos do internato quase ao mesmo tempo e, durante algum, ainda nos vimos; mas, bem depressa, perdemo-nos de vista.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Pasquim 50 Anos



     Primeiro número de O Pasquim saiu em junho de 1969. 
     Ninguém tinha feito nada parecido até então, e uns intelectuais meio loucos fizeram um jornal que não perdoava, não aliviava nada de um governo ditatorial.    Tempos de censura, prisões, torturas, exílios... Tempos tão diferentes!!  Gentes tão diferentes...
   Colecionei O Pasquim por alguns anos. Lá conheci Jaguar, Millor, Ziraldo e Hefil com seus Frandins.  Li entrevista cheia de palavrões com Leila Diniz,  Madame Satã, Ibraim Sued.
     Era um jornal tão maluco que misturava sarcasmo de  Paulo Francis com poesia de Ferreira Gullar.  
    Penso que era o jornal mais bagunçado e querido daquela época.  
     Ficou no  coração e memória de quem esperava ansiosamente por ele nas bancas. Ansiedade feliz numa época tão triste.


Um poema num jornal cheio de piadas? É como disse Paulo Mendes Campos: "Quem não tem senso de humor não pode ser um poeta; quem não tem sentido lírico não pode ser humorista." Abram alas deixem a poesia passar.







 Menino no capinzal
caminha
nesta tarde e em outra
havida

Entre capins e matapastos
vai, pisa
nas ervas mortas ontem
e vivas hoje
e revividas no clarão da lembrança

E há qualquer coisa azul que o ilumina
e que não vem do céu, e se não vem
do chão, vem
decerto do mar batendo noutra tarde
e no meu corpo agora
- um mar defunto que se acende na carna    como noutras vezes se acende o sabor
de uma fruta
ou a suja luz dos perfumes da vida
ah, vida!
                                                                  Ferreira Gullar


Exposição: O Pasquim 50anos - Sesc Ipiranga

A exposição busca rememorar a irreverência da publicação por meio de materiais gráficos, além de atrações como a recriação de rotativas e a reprodução, em tamanho real, de alguns de seus colaboradores, como Millôr Fernandes, Vinicius de Moraes e Jô Soares. Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822, 3340-2000. Inauguração: 4ª (20). 9h/21h30 (sáb., 10h/21h30; dom. e fer., 10h/18h30; fecha 2ª). Grátis. Até 12/4/2020.





Poema de Ferreira Gullar:O Pasquim, antologia vol.1 -1969-1971, pág.19 - Ed.Desiderata 2006.                                                      
Imagem da primeira capa: Portal Memórias da Ditadura (imagem)

sábado, 9 de novembro de 2019

Nascida em 9 de novembro: Dinah Silveira de Queiroz

     
       Orgia

     As filhas, já às oito ou nove horas, perguntavam, devagarinho, boiando num resto de sono, tomando o café com leite:
      — "A senhora também hoje se levantou antes das quatro"?
      — "De certo, meninas. Que é que se vai fazer? Antes das quatro a fila já estava um colosso! Ia até a esquina. Ah! Vocês são umas preguiçosas. Não sabem quanta gente se levanta cedo!".
     As filhas e o marido se impressionavam com aquele estranho zelo da dona de casa. Por que não mandar a empregada?
     — "Na leiteria já me conhecem. Se eu mandar a criada, vocês nem vêem a cor do leite. E para mim o leiteiro vende quantos litros eu queira”.
     Começou a fazer uns vestidos, não tão leves, não tão leves, não... para a fila do leite. As quatro, sempre corria uma aragem friorenta, vinda das bandas da praia. Os vestidos eram folgados — "pra gente estar à vontade" — e também assim eram os sapatos de salto baixo:
     — "Esses são mesmo próprios. Não cansam. Meninas! Não quero que usem os meus sapatos da fila, Vão deformar o calçado. Eu preciso de toda a comodidade."
     Era estranho aquele requinte. Dizia o pai à filha: — "Você já reparou como sua mãe agora deu para gostar de fila?"
     O marido resolveu experimentar a mulher:
     — "Amanhã eu vou. Ainda tiro um soninho depois". — "Vai, nada! Você tem trabalhado muito. Mais um sacrifício — e a senhora suspirou — já não é nada para mim !"
     Ontem, esperava um táxi para a viagem a São Paulo e por acaso surpreendi a dama da fila da madrugada, Uma espessa, íntima união estava naquela fila da leiteria. Encostava-se a dona molemente, um pouco tonta ainda de sono, à árvore. Uma vizinha contava qualquer coisa. Ela ria, um riso ainda com resto de lençol,, de travesseiro fofo. 0 cinqüentão do apartamento do primeiro andar coara o próprio café, o cheirava bem o seu hálito na madrugada. Era uma fila limpa, perfumada a dentifrício, a roupa fresca plena de comodidades caseiras. A madame do dezenove, justamente a mais bonita, com um vestido parecendo quimono, dobrou um jornal sobre o chão da calçada. Sentou-se rindo, distribuindo o seu gostoso sorriso, como vinho para todos. E logo, outras a imitaram. Passavam rente as criaturas que voltavam das boites. Um homem largava seus recalques cantando, do outro lado da rua. Sua voz era cálida, um pouco pastosa. Nunca aquele homem cantaria assim em casa. A rua da madrugada era a rua das ousadias.
     As janelas estavam fechadas sobre mistérios e intimidades. Pela fila agora passavam uns moços morenos, bonitos, que iam à pesca. As aventuras do mar bafejaram a pequena multidão. Os rapazes falavam alto, excitados. O mar noturno vinha molemente até a calçada, por intermédio dos passantes joviais.
     O dia já se vem anunciando. Em breve a leiteria levantará sua cortina metálica e estudantes, caixeiros, a turba do trabalho, estará na rua. A vida será estúpida, na atividade doméstica. E só amanhã, às quatro horas, haverá a transfiguração da cidade, mostrando seus segredos, mansa, íntima, tão perto, cheia de histórias balbuciadas, plena de orgia da madrugada.

Queiroz, Dinah Silveira de,Quadrante 1, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1962, pág. 85.

Leia sobre a autora

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Nascida em 7 de Novembro: Cecília Meireles.

Este blog já fez várias postagens sobre a aniversariante de hoje. A minha preferida é esta, que mostra Cecília Meireles como pintora. Uma faceta da artista que eu não conhecia.   Noutra postagem, o blog esclarece uma dúvida sobre um poema que às vezes consta como de Cecília e noutras como de Vinicius de Moraes.  Janelas de Hotéis  e Natal  são  oportunidades de ver a autora além dos poemas.  Que tal encontrar  talvez  aqui,  um pouco mais de Cecília Meireles?





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