quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Quarta-feira é dia de: A Mudança, Marques Rebelo.

A mudança foi repentina! As estrelas desapareceram bruscamente da noite. Saindo não sei donde, nuvens, cada vez mais negras, amontoavam-se num canto e acabaram por tomar todo o céu. Negror. Então, veio o vento e sacudiu o ar estático , abafado, vergou as árvores, bateu janelas na vizinhança, trouxe gritos distantes para meus ouvidos inquietos. Levantou-se poeira nas ruas, rodopiou, subiu, entrou pelas persianas sujando os móveis.
     Mamãe, aflita, que estava na hora da poção, chegou como uma sombra, cerrou as persianas, mas o vento era sutil e insinuando-se por frestas despercebidas, balançava da mesma forma as bambinelas.
     - As bambinelas estão dizendo adeus!
    Não sei como me acudiu logo o pensamento estranho: As bambinelas estão me dizendo adeus! Ou estarão me chamando?  Sim, é possível  que estejam. Mas para onde? Sinto-me fraco, uma dormência espetante como milhões de alfinetes paralisa as minhas pernas. E elas continuam a acenar: Vem!
     Embala-me, monótono, o tique-taque do relógio na sala onde minha irmã pedia a São Bento para cortar a perna do vento, que eu podia piorar.
     E a febre na mesma. Trinta e sete e seis. E a tosse. O peito doendo sempre, sensação angustiosa de asfixia – o teto caindo sobre mim, me oprimindo, me esmagando. Poderia fugir, mas a dormência, que me prendia as pernas, invadiu-me o corpo agora e me prostra incapaz.
     - Está melhor?
     Mamãe dobrou-se sobre minha face num beijo longo, afagou a minha barba crescida. Seus cabelos grisalhos roçaram-me a testa seca.
     -Estou. Quero dormir.
    Saiu na ponta dos pés, depois de compor o lençol que me cobria, ficou na sala, folheando o jornal, fingindo que lia. Mina correu para o quarto dos fundos, o feio, com papel vermelho, manchado de umidade, se esbeiçando pelos cantos, e a janela estreita que dava para a área onde a pitangueira definhava. Chorar? O vento chorava, também, no jardim despetalado, nos telhados, nas árvores sacudidas na rua. Chiii – eram as folhas se arrastando, secas, na calçada. Pedir? Teresinha de Jesus, no oratório branco da maninha, não fazia mais milagres. Estava surda a todas as orações. Surda?  Não. Era o vento, o vento maldoso, com certeza, que levava todas as palavras boas para as espalhar à toa pelas ruas sem ninguém.
     A febre se elevou um pouco mais, o que é natural. Talvez seja impressão, apenas.  Se pusesse o termômetro, lá viria o seu refrão: trinta e sete e seis. Mas para que aquele abajur colorido, azul, rosa e os bichos bordados em preto? Que inutilidade! Nem era bonito ao menos... Mas se ele crescesse como os gatos, as árvores e as crianças? Ficasse grande, imenso, e cobrisse todo o mundo?  E fosse endurecendo, virasse bronze de tão duro e cantasse como um sino? Cantou! Ele cantou! Não. Foi o relógio.
     -Que horas são?
     - Sete e meia. Está sentindo alguma coisa, meu filho?
     - Nada
     Nada mesmo. Que tranquilidade senti me invadir, que silêncio pareceu se fazer. Até o mosquito sossegou.
     - Tão cedo...
     Tomara o leite às cinco e meia. Não o sentia mais no estômago e só se passaram duas horas?  Não... Aquele relógio estava ficando velho, caduco, não regulava mais. Forçosamente que era mais tarde. Ninguém passa na rua...
     Calma imensa. Nem o vento lá fora assobiava mais. Sete e meia.
E um silêncio na casa.
     Quantos anos tinha o relógio? Quando era menino, já existia, no mesmo lugar, por cima do aparador, e já ia para os vinte e dois anos, uma criança ainda, diziam, e no entanto sentia-me velho de tanto sofrer.
     Pensei no tempo do futebol na rua – lampião era o gol, a meninada convencidíssima. O Julinho ostentava chuteiras Atlas, invejadíssimas  pelas travas em rodelas; o Zé Maria agora era soldado e uma vez viera visita-lo: estava achando a vida difícil, tinha medo de ficar desocupado, sem casa, sem dinheiro, já pensava em engajar.  O Russo, filho do quitandeiro, tinha morrido do peito. Os outros se perderam por este mundo. Ah! E a escola pública! ... Dona Maria José, a professora se casara; e aquela menina! ... Loura! Loura! Tão loura! ... Lourdes... Perdera o seu retratinho, perdera-a também... O pai dela bebia, vivia cambaleando nas esquinas do bairro, batia-lhe. Era dócil, tristonha, trazia-lhe flores, dizia-lhe que ele era o seu amor, tinha a boca carnuda e cor de sangue, um contraste flagrante com o rosto pálido. Depois, os exames na Faculdade, o velho professor condescendente, o porteiro filante e os cadáveres.
     Às oito horas em ponto, senti-me molhado, depois dum rápido acesso de tosse: era sangue. Sangue, mais sangue. Morri. Na casa toda, continuava o silêncio.
     Na escrivaninha aberta, folhearam as minhas páginas. Poeta? Ora! ... Leram surpreendidos. Elogios. As velas queimando em volta de mim, as flores cobriam o meu eito, sem pressão, descarnado, mas eu não sentia os perfumes.
     - Quem diria, hem?
     - É mesmo.
     - Tão bom! ... Tão simples!...
     Contavam fatos:
     - A última vez que que o vi...
     - “ A noite é assim: silenciosa, fria.” Bonito este poema! – Cercaram o Souza que lia, o papel suspenso enfaticamente das mãos gordas. “ Um cheiro de suspeita na aragem traiçoeira, onde a trepadeira, branca, se reclina.” Lindo, sim!
     Eurico aprovava só com a cabeça.
     - “Os pirilampos todos se sumiram.”
     Antônio não compreendia nada. Os pirilampos se sumiram? Todos? Que diabo!
     - “ Só ficaram os grilos no jardim, cantando para as estrela indiferentes.”
     - Admirável! Admirável!
     Eu os lia por dentro devassando-lhes todos  os pensamentos; cada rosto era para mim uma janela aberta; bastava me debruçar um pouco e toda a casa se me mostrava.
     Luís, sempre desconfiara dele, namorava o meu Larousse na velha estante desarrumada, mas haveria de passar bastante lisol nos volumes porque aquilo pegava um visgo.
     Minha irmã inexperiente, minha mãe imprestável, atirada na cama numa crise violenta de nervos, que longe de excitá-la, prostrara-a inerte, sem ação, como morta, foi Seu Cardoso – aborrecido, mas que se há de fazer? – que tratou de tudo, com gorjetas somítegas para o velhote da Santa Casa.
     A primeira pá de cal foi do Oliveira – tão engraçado o Oliveira! – após a despedida de amigo entre caras enfastiadas. Queixava-se amargamente, com seus botões, daquela vasta estopada – as lágrimas, o enterro atrasadíssimo, ele sem jantar até àquela hora; imaginava já uma tuberculose também, proveniente duma gripe seriíssima apanhada naquela maldita tarde, gélida, úmida, terrível. A última foi a do Mauro, que sempre  se distraíra admirando as coroas, lendo fitas: “Saudades da Dondoca” ( a prima loura que morava no Méier), “Seus colegas do 4º ano”, a do Seu Ramalho da farmácia, enorme, de dálias, humilhando todas as outras, mesmo aquela pequena, tão simples: “Tua mãe e tua irmã”.
   Quando tudo acabou, a cova cheia, os passos em cima da terra – bem se ouviam – afastando, senti-me livre, só, aliviado. Enfim! Uma ânsia, porém, sem limites se apossou de mim, agora que eu via tudo, pois vi minha casinha humilde na Rua Dona Constança, deserta de todos os meus sofrimentos. Vi e quis voltar para lá, para o meu desespero, para a minha dor, a febre, o peito aflito, a asfixia e esperar a hora da poção – esperança, esperança! Que minha mãe vinha dar, os olhos úmidos.


REBELO, Marques, Contos Reunidos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1977.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Segunda-feira poética: Dylan Thomas

Não entre na noite pra se render
Imagem: Regina Porto

Velhice é pra arder até o fim,
Lute, lute para a luz não morrer.
O sábio aceita bem o escurecer
Mas tem palavras de luz e por fim
Não entra na noite pra se render.
O justo, que ao partir irá sofrer
Porque não lhe coube um melhor jardim,
Luta, luta para a luz não morrer.
O rude que põe o sol pra correr,
E vê tarde demais o que é ruim,
Não entra na noite pra se render.
O sério, ao pé da morte, já sem ver,
Acesos os olhos, alegre enfim,
Luta, luta para a luz não morrer.
E você meu pai, triste de se ver,
Amaldiçoe, abençoe-me assim.
Não entre na noite pra se render,
Lute, lute para a luz não morrer.
De: Do not go gentle into that good nigth.
Tradução; Jorge Pontual
Dylan Thomas era um escritor inglês, leia aqui sobre ele.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Mais vendidos de 2016

O site Publishnews divulgou a lista dos 20 livros mais vendidos no Brasil até o momento.

1 - Como Eu Era Antes de Você 286.007 exemplares vendidos
Jojo Moyes
Ed. Intrínseca








2 - Ruah - 198.522 exemplares vendidos
Padre Marcelo
Ed. Principium











3- Depois de Você - 176.040 exemplares vendidos
Jojo Moyes
Ed. Intrínseca









4 - Authentic Games - 114.263 exemplares vendidos
Marco Túlio
Ed.Astral Cultural








5 - Dois Mundos, Um Herói - 100.499 exemplares vendidos
Rezende Evil
Ed.Suma das Letras 










6 - Philia - 92.743exemplares vendidos
Padre Marcelo
Ed. Principium

7 - Muito Mais Que 5 Minutos - 90.889 exemplares vendidos
Kéfera Buchmann
Ed. Paralela

8 - A Coroa - 88.306 exemplares vendidos
Kiera Cass
Ed.Seguinte

9 - Grey - 84.380 exemplares vendidos
E.L.James
Ed. Intrínseca

10 - Segredos de Bel Para Meninas - 82.944 exemplares vendidos
Bel/Fran
Ed. única
81.162 exemplares vendidos
Ansiedade - Como enfrentar o mal do século
Augusto Cury
Saraiva
71.254 exemplares vendidos
O diário de Anne Frank
Mirjam Pressler / Otto H. Frank
Record
70.290 exemplares vendidos
Ela confiou na vida
Zibia Gasparetto
Vida e Consciência
69.992 exemplares vendidos
A mágica da arrumação
Marie Kondo
Sextante
69.269 exemplares vendidos
O poder da ação
Paulo Vieira
Gente
66.855 exemplares vendidos
O diário de Larissa Manoela 
Larissa Manoela
Harper Collins Brasil
65.301 exemplares vendidos
Herobrine - A lenda
Pac e Mike
Geração Jovem
59.357 exemplares vendidos
Maria
Rodrigo Alvarez
Globo Livros
58.531 exemplares vendidos
O nome de Deus é misericórdia
Andrea Tornielli / Papa Francisco
Planeta do Brasil
58.128 exemplares vendidos 
De volta ao jogo
RezendeEvil
Suma de Letras

Fonte:http://www.publishnews.com.br/ranking/anual

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Quarta-feira é dia de: Na Poesia, Carlos Drummond de Andrade.

   
      O Rapazinho disse à garota:
     - Você precisa ter mais cultura, ouviu? Cultura. fica aí com essas milongas de Caetano, Gil e não sei que mais, e ignora os verdadeiros mestres da poesia. Já ouviu falar em Camões?
     - Já. Um chato
     - Rilke?
     - Como é o nome dêle?
     - Emily Dickinson? 
     - Sei lá.
     - Fernando Pessoa?
     - Esse é irmão da Tânia, ora.
     -Viu como você é burrinha? Irmão da Tânia coisa nenhuma. Quem é a Tânia para merecer um irmão desse gabarito? Fernando Pessoa, meu anjo, é simplesmente o maior...
     -Então são dois. Porque Nandinho eu conheço bem, não é de poesia.
     - Podem ser mil com esse nome, nenhum chega aos pés do Fernando Pessoa de que eu estou falando.Qual, você tem jeito não.
     - Então, por que você diz que gosta de mim? Procure outra que saiba de cor nomes de todos esses caras. 
     - Não tem nada uma coisa com a outra. Gosto de você por certos motivos. Gosto de você... até nem sei por que. Mas fico por conta vendo você tão ignorantezinha em poesia, que pra mim é o máximo.
     - Pois me dá umas aulas de poesia.
     - Depois do carnaval eu dou Agora você está com a cabeça mal atarraxada. Vamos fazer o seguinte. Te empresto o meu Fernando Pessoa para você dar uma lida salteado e depois conversamos. Muito cuidado com o volume, viu, sua maluca? É de estimação.Se você perder, nem sei o que acontece.
A garota me procurou:
     - Posso lhe pedir um favor?
     - Dois.
     - Estou com um problema sério.
     - Esqueceu a pílula?
     - Isso é pergunta que se faça? E se eu usasse e esquecesse, era ao senhor que eu recorreria?
     - Desculpe, conte seu problema.
     - Meu namorado me emprestou um livro, e o Gibi comeu.
     - Quem é Gibi?
     - Meu fox-terrier de dois meses. Um cãozinho divino!
     - O Gibi comeu o livro. E daí?
     - Daí o livro era de estimação, um tal de Fernando Pessoa. Meu namorado me mata.
     - Mas o Gibi papou o livro inteiro?
     -Só um pedaço da capa e as primeiras folhas. Quando eu vi e zanguei com ele (zanguei de leve, não bati) , já tinha papado.
     - E então?
     - Meu namorado tem muita história com o senhor. Diz que o senhor também é bacana, embora não tanto quanto Fernando Pessoa.
     - Obrigado.
     - Comprei outro livro para dar a ele. Caro, hem?esse Fernando Pessoa. Gastei quase toda a mesada.
     - Por que não devolve o livro meio comido pelo Gibi? Namorado acha graça em tudo.
     -Vou devolver, mas ele não ia achar graça. O Gibi comeu a dedicatória.
     -De Fernando Pessoa para seu namorado? Sem essa.
     -Era do professor do meu namorado. Foi um prêmio que ele ganhou na faculdade.
     -Ahh
     - O professor mudou para Brasília, como é que eu vou me arranjar? Então eu queria que o senhor autografasse o livro novo, para eu entregar junto com o velho, e ele ver que fiz o possível para remediar a começão do Gibi.
     -Minha filha, por que eu vou entrar nessa dança? Não sou o professor, não sou o Pessoa, não sou o Gibi.
     - Mas o senhor não está compreendendo que o livro tem de ter um autógrafo? A quem eu vou pedir? Ao Jorge Ben, ao Chacrinha? Aí é que ele me enforcava mesmo. Me faz esse favorzinho, faz. Bote aí uma coisa lindinha, diz que o Gibi não teve culpa, que ele gostou demais de Fernando Pessoa , pensou que era doce e regalou-se!
     Botei. E no exemplar comido, meu autógrafo seguiu com o de Gibi.

Andrade, Carlos Drummond de,  O Poder ultra jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 3ª ed.Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, págs. 13 a 15.

Nota: o blog manteve a grafia original

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Segunda-feira poética: Com Camisa, Sem Camisa, Carlos Drummond de Andrade.

Cardin consulta o Novo Testamento
(um grão de cultura ajuda o talento):
O primeiro homem não tinha camisa,
expunha o tórax ao beijo da brisa.
O sol lhe imprimia uns toques bronzeados,
Eva, no peito, lhe fazia agrados...
Tão bacaninha! Pierre decretou:
"Camisa, mes chers, agora acabou."
Os camiseiros já fundem a cuca,
fecham-se teares, em plena sinuca.
"Olha só que pão!" exclama no cock
a moça vidrada, e tenta um bitoque
em cada tronco miguelangelesco
em que o pêlo põe grácil arabesco.
Um convidado (?) chega de repente,
manda parar a prática inocente:
"Um lençol! uma toalha! um guardanapo
para cobrir o nu, depressa, um trapo,
um jornal de domingo,bem folhudo
que esconda o peito, a perna, o pé e tudo!
Tem estátua pelada no salão?
Mesmo em foto é demais a apelação!
Nu, nem no banheiro. Tá compreendido?
Melhor é ensaboar-se alguém vestido."
Viste, Pierre Cardin, o que fizeste?
Ante o rigor de repressão tamanha,
era uma vez tua última façanha.

ANDRADE. Carlos Drummond. O poder ultra jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 3ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, p.122

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Minha Sugestão de hoje: blog da Suzana Valença



Que tal conversar com a blogueira? Nunca pensou nisso?
 Pois saiba que a gente gosta e você, internauta, tem muito o que dizer, aposto. 
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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Quarta-feira é dia de: Juvenal e o Entregador de Pães, Regina Ruth Rincon Caires


       
     O dia de Finados estava se aproximando...
            Época do ano que rendia um ganho a mais para Juvenal, e que o ajudava a remendar as dívidas. Era pintor de parede, ajudante de pedreiro, enfim, era o que precisava que fosse. Pau pra toda obra! O que não lhe faltava era disposição. Homem de meia idade, sem estudo, nascido e crescido por ali. Benquisto, transitava bem entre todos os moradores da vila.
            O cemitério, que ficava na saída da vila, na parte alta, podia ser visto de longe. Era imenso, todo cercado com muro de tijolos. Dentro, muito espaço. A pequena capela ficava perto do portão de entrada, e, por toda a volta, túmulos largamente espalhados. No fundo do terreno, uma área enorme, desocupada, reservada para servir aos futuros funerais por muitos e muitos anos.
            Alguns jazigos eram religiosamente cuidados durante todo o ano. As famílias visitavam seus mortos semanalmente, quinzenalmente. Limpavam, podavam as plantas que cercavam as sepulturas, cuidavam da pintura quando descorada. Esses jazigos sempre estavam impecáveis!
            Mas, a maioria ganhava trato apenas na época de Finados. E sempre havia muito trabalho. As chuvas, com as suas enxurradas volumosas, levavam a terra, as calçadas e os tijolos das sepulturas. E havia, ainda, as rachaduras provocadas pelas acomodações do terreno.
            Além disso, o sol impiedoso descorava as pinturas, deixando tudo muito triste, desgastado.
            Naquela época não havia floricultura nem flores plásticas. As flores, que eram colocadas nos túmulos, eram colhidas nos quintais das casas. As famílias as levavam no amanhecer do dia de Finados, e eram colocadas em vasos com água, sem a menor preocupação com doenças. Não se falava em dengue.
            Se não fosse dessa maneira, recorriam às flores de papel crepom e de pano, feitas em casa, ou às coroas de flores de lata. Compradas na funerária, pedidos feitos de acordo com as encomendas, eram do tamanho de um aro de bicicleta. Tinham as folhas e flores feitas de lata, material parecido com o zinco, todas recortadas, trançadas, presas nos fios de arame que formavam a circunferência. E pintadas à mão.
            Essas coroas resistiam por anos e anos, mas desbotavam. Então, anualmente elas recebiam uma demão de tinta. Tinta a óleo verde para as folhas, e as flores sempre vermelhas, amarelas, ou brancas. Eram essas as cores que Juvenal usava. Não colocava outras cores. Nem sei se havia...
            Nunca ninguém ousou misturar o vermelho com branco para fazer a flor rosa. Vivi essa realidade por anos e anos a fio, e nunca vi uma flor de lata pintada de outra cor que não fosse vermelha, amarela, ou branca.
            E todos estes serviços, desde o aterramento dos túmulos até a pintura das coroas de lata, tudo era feito por Juvenal. Bastava olhar o túmulo no dia de Finados. Pelas cores da coroa era possível saber se tinha, ou não, recebido os cuidados do Juvenal.
            E, para dar conta de todo esse trabalho, Juvenal começava com muitos dias de antecedência. Primeiro fazia os serviços mais grosseiros. Aterrava, consertava as calçadas, recolocava os tijolos que faltavam, recompunha os túmulos com rachaduras, cuidava dos rebocos, da pintura dos jazigos. E eram muitos... Dezenas e dezenas deles.
E, por último, ficava o serviço de pintura das coroas de lata. Que também eram muitas... Dezenas e dezenas delas.
Trabalhava das seis da manhã às seis da tarde. Levava sua comida num caldeirão com tampa, assim não perdia tempo em voltar para casa no meio do dia. E como trabalhava!
Particularmente nesse ano, nesse período de Finados o trabalho estava atrasado. Talvez pelo calor excessivo, talvez por ter assumido mais tarefas que nos anos anteriores, ou até mesmo porque Juvenal estava mais velho, mais lento. Enfim, não importava a razão, o que importava é que o trabalho estava atrasado, e precisava ser feito em tempo.
Assim, na véspera, faltando um dia para Finados, Juvenal, que precisava finalizar a pintura das coroas, e sabendo que para isso precisaria de mais horas de trabalho, decidiu que pintaria durante toda a noite. E assim fez. Afinal, uma noite em claro não o prejudicaria em nada.
Quando começou a escurecer, pediu ao coveiro que, antes de sair, deixasse acesa a luz do poste ao lado da capela. Juntou ali as coroas ainda a serem pintadas, as tintas, os pincéis, a moringa com água, e continuou seu trabalho.
Estava uma noite tranquila. Apesar do calor insuportável do dia, a brisa da noite era fresca. Noite escura, sem lua.
E Juvenal trabalhava sem parar...
Lá pelas cinco horas da manhã, contente por estar chegando ao fim da empreitada, começou a ficar incomodado. Estava com fome, e não havia nada para comer. Tinha trabalho para mais duas horas, mas estava com fome...
Sem parar com as mãos nos pincéis, pensava, insistentemente, numa maneira de arrumar alguma coisa para comer.
De repente, ouviu o trotar de um cavalo bem distante. Longe, bem longe...
Apurou os ouvidos, e percebeu que era a carroça do entregador de pães. Isso mesmo! A padaria do Seu Miguelão Português, única da vila, oferecia esse serviço. Os pães eram feitos na madrugada, e o empregado saía com a carroça para fazer as entregas nas casas dos fregueses mensalistas. E também vendia pães para quem os quisesse comprar.
Era uma carroça pintada de branco, feita de folha de flandres, ou de zinco, fechada, com portinhola na parte de trás. Nas laterais havia o desenho de um imenso bigode preto e uma boca com um discreto sorriso. Coisa do Seu Miguelão Português, que nem tinha bigode!
Em cada entrega, o empregado parava a carroça, descia, abria a portinhola traseira, acondicionava os pães em sacos de papel, e os colocava no embornal pendurado no portão, ou na porta, ou na parede da casa do freguês. Sempre havia um embornal esperando. E, muitas vezes, o próprio freguês estava de pé, aguardando na calçada.
Serviço trabalhoso e demorado.
Juvenal se animou. Afinal, quando a carroça passasse por ali, ele poderia comprar dois pães e aplacaria a fome.
E continuou pintando enquanto esperava que o entregador rodasse pelos quarteirões, e finalmente descesse pela rua do cemitério. Não podia perder tempo!
Quando percebeu que a carroça estava bem próxima, Juvenal correu para o canto do muro do cemitério, subiu num cavalete de pau que ficava ali, e com a cabeça acima do muro, ergueu os braços e começou a balançá-los no ar para chamar a atenção do entregador de pães, sem que precisasse gritar. Afinal, ainda estava escuro, e muitas pessoas ainda dormiam.
O cemitério ficava num terreno bem alto, a rua da frente era de terra, forrada de pedriscos e cascalhos soltos, e formava uma ladeira em direção da vila.
Costumeiramente, quando o entregador de pães passava diante do cemitério, um tanto ressabiado, naquele lugar ermo, numa noite escura, tratava de fustigar o cavalo para que fosse mais rápido. Ao começar a descer a ladeira, vislumbrou no canto do muro a cabeça de Juvenal, os braços erguidos sendo sacudidos no ar... Na escuridão não dava para saber quem era quem. E ele nem queria saber... Ficou endoidecido! Soltou as rédeas, levou as mãos à cabeça, enfiou os dedos pelos cabelos e destampou a gritar. Urrava de pavor...
O cavalo, com as rédeas soltas, desembestou numa carreira doida ladeira abaixo. A carroça quase nem tocava as rodas no chão. Voava! E foram tantos solavancos que as amarras se soltaram, a carroça se desvencilhou, tombou. O entregador de pães, aos berros, foi arremessado longe, caindo sobre uma moita de capim. E berrava. Sentado, com as mãos enfiadas nos cabelos, os olhos estatelados, gritava...
Juvenal, atordoado, continuava no canto do muro, também com as mãos na cabeça. Tudo aconteceu tão rápido... Só então percebeu que havia assustado o entregador de pães
Como estava sem a chave do cadeado do portão, o coveiro o deixara trancado, Juvenal fez um esforço danado para pular o muro e ganhar a rua. E, no escuro, saiu à procura do entregador de pães.
Orientado pelos gritos, foi chegando perto. O cavalo escafedeu-se. A carroça estava ali, virada, de rodas para cima, pães esparramados pela rua inteira misturados com a terra, com o cascalho, uma desordem absurda!
Tateando no escuro e guiado pelos berros, avistou o entregador de pães. Esgoelando, ensandecido! E procurou aproximar-se, devagarinho...
Quanto mais se aproximava, mais ele berrava. E foi chegando gente... O entregador de pães acordara toda a vizinhança. Acho que toda a vila, tamanha a multidão que se juntava!
E todo mundo ali querendo saber o que estava acontecendo, o entregador se esgoelando, arrancando os cabelos, e Juvenal no meio daquela doideira. Numa encabulação que fazia pena!

Juvenal implorava ao entregador de pães que se calasse, ele queria explicar o que havia acontecido. Queria falar que foi ele quem acenou no muro do cemitério, que estava com fome, que estava trabalhando...

Mas, que nada... Inútil. O entregador de pães só queria gritar...

O dia estava clareando, e Juvenal continuava ali, sentado no capim, olhando para os pães espalhados pela rua, na terra. E o entregador, aos berros.

Foi chamado o Seu João da botica, o único farmacêutico da vila. Ele tentou, por inúmeras vezes, falar com o entregador de pães. Inutilmente...

Então, à força, cinco homens o imobilizaram e o levaram para o posto de saúde. E ele, gritando.

Pelo que se conta, ele gritou por dois dias e duas noites, até que a voz acabou. E, por muito tempo, acordava no escuro da noite e punha-se a gritar.

O entregador de pães se foi há muito tempo, mas durante o tempo em que viveu depois daquele dia de Finados, nunca mais foi o mesmo.

E Juvenal, que se foi um pouco depois, nunca conseguiu explicar ao entregador de pães o que realmente acontecera naquela madrugada. Sempre que tentava, o entregador se transtornava, e os gritos voltavam.

Então, ele desistiu. Deixou por isso mesmo...


Imagem:www.scielo.com.br