segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Quisera Ser Um Gato, Ferreira Gullar



     Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde.
     Ela é, portanto, muito diferente do gatinho que, antes dela, me fazia companhia e que se foi. Morreu de velho, já que nunca havia adoecido durante seus 16 anos de vida. Quando adoeceu, foi para morrer. Não preciso dizer que fiquei traumatizado e não quis mais saber de outro gato. Amigas e amigos me ofereceram um substituto para o meu gatinho, e eu respondia que amigo não se substitui.
     Os anos se passaram, a dor foi se apagando, até que um belo dia, minha amiga Adriana Calcanhotto chegou aqui em casa com um presente para mim: era uma gatinha siamesa. Faltou-me coragem para dizer não, mesmo porque a bichinha me encantou à primeira vista. Manteve-se arredia por algum tempo, mas logo me aceitou e nos tornamos amigos.
     Hoje me sinto praticamente lisonjeado pelo fato de que, por medo ou desconfiança, enquanto ela foge de todo mundo, me busca pela casa, sobe em minhas pernas e ali se deita, isso sem falar que, todas as noites, dorme em minha cama.
     Confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra.
     E às vezes, olhando-a dormir na poltrona da sala, lembro que para ela a morte não existe, como existe para nós, gente. Ela é mortal, mas não sabe, logo é imortal. A morte, no caso dela, é apenas um acidente como outro qualquer, dormir, comer, brincar, correr; só existirá quando acontecer, sem que ela saiba o que está acontecendo.
     Neste ponto é que a invejo. Já pensou como a vida seria leve se não tivéssemos consciência de que ela acaba? Seria como viver para sempre, tal como ocorre com a gatinha.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Furtei Uma Flor, Carlos Drummond de Andrade

      Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.
     Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz.  
O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.
     Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição.    Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
     Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores.  Eu a furtara, eu a via morrer.
     Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.
     – Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1985. p. 80.

Leia também: Dossiê Drummond de Geneton Moraes Neto

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Estive Cara a Cara Com Deus, Ignácio de Loyola Brandão


Tiradentes – A semana para mim começou em Tiradentes, Minas Gerais. Na Pousada Alforria, subi para o café da manhã e encontrei Antonio Magalhães, o dono, que me saudou com a pergunta: “Tem visto Ana Helena?” A única que eu conheço, inesquecível,  é a Ana Helena da Capitu. Livraria que teve curta duração, mas marcou a vida cultural em São Paulo nos anos 1970 para 1980. Época em que pequenas livrarias sobreviviam, marcavam presença, cada uma com sua personalidade. Magalhães acrescentou: “Lembra-se daquele lançamento debaixo da chuva?”
     Como esquecer? Era 1979, estava saindo a terceira edição do Zero a primeira liberada, após três anos de proibição. Mais do que um lançamento foi uma manifestação pela liberdade e contra a censura. Havia tanta gente que a fila se estendeu por quadras e quadras na Rua Pinheiros, porque a Capitu era pequena. Começou a chover, ninguém arredou pé, a festa continuou com as pessoas molhadas e felizes. De repente, no interior do sul mineiro, em uma cidade histórica de 3 mil habitantes, olhando a neblina que cobria o topo da Serra de São Jose, a vida mergulhou com a coalhada fresca e os pães de queijo, foi para o escritório e logo o café da manhã foi tomado pelo som do violoncelo de Rostropovich. Depois, ai me ver saindo, Magalhães sugeriu:
      -Por que não vai ver Deus?
     - Deus?
     -Sim, aqui você pode estar com Deus, cara a cara.
     Sorriu, deu indicações, caminhei pela Rua da Praia (ainda que não haja praia), subi a Rua da Cadeia, Largo do Sol, casa do Padre Toledo, onde os Inconfidentes, se reuniam, e cheguei  ao Santuário da Santíssima Trindade, no alto. Uma escada interior leva ao alto do altar e ali me vi diante de Deus. Cara a cara. Olho no olho. Conversamos uns minutos. Em geral, na Santíssima Trindade, Deus é representado por um olho. Ali, em Tiradentes, Deus é a imagem de um homem alto, forte, barbudo, cabeça coberta por uma mitra, as mãos estendidas, rosto severo e sereno. Uma coisa rara. Está com as mãos abertas para o mundo. Não sei, Minas e mineiros têm suas coisas à parte. Temos de aceita-los e amá-los, não compreendê-los.

     A literatura tem feito muitos escritores descobrirem um Brasil, não digo subterrâneo, mas que cria silenciosamente, com pessoas preocupadas com seu meio, seu lugar, o entorno. Como Maria Lídia Montenegro que, depois de trabalhar no mercado financeiro, se refugiou com o marido Ricardo em Tiradentes e decidiu tocar para a frente o Centro Cultural Yves Alves, em uma casa antiga que é puro encantamento. Ela conseguiu colocar 300 pessoas no auditório e a conversa só terminou porque a hora ia adiantada.  Ou Luiz Antonio da Cruz, professor de matemática, bombeiro voluntário, ecólogo, agitador cultural, e que escreve ensaios sobre cultura regional. Maria José Boaventura, que todos chamam de Marijô, artista plástica que penetrou em uma arte complexa, desafiadora e fascinante: fazer ilustrações em braile. Ou Maria de Fátima Unes Ticle, de Lavras, encampando todos os projetos culturais para agitar a cidade. Ronise Maciel e Ângela de Moura Galo, que, com a assistência de Cristiane, professora e fotógrafa, desvendaram histórias e paisagens de Três Corações.
     Sem esquecer a ousadia de Ana Maria abrindo uma livraria como a Obra-Prima, moderna, aconchegante e bem fornida de todos os tipos de livros. Mauro dos Reis e Elizabeth da Silva, da Secretaria de Cultura, braços direitos da pró-reitora Valéria, ao colocarem 600 pessoas no auditório da universidade, em São João Del Rey. Trabalham pelos livros, pelas pessoas. Em Tiradentes se refugiam Sergio Paulo Rouanet, diplomata aposentado, acadêmico, autor da famosa lei que todo mundo procura, e sua mulher, a cientista social Bárbara Fritag. Além de Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e sua mulher Tânia.*
     Três Corações foi a última cidade do trajeto de uma semana pelo interior mineiro, levado pelo  projeto TIM, Grandes Escritores Estado de Minas. Criado por Marcelo Andrade e encampado pela Tim, o projeto pode ser enquadrado no texto de Ronald A. Fernandes, de São Thomé das Letras: “Temos de levar em conta a distância física entre o brasileiro comum e a cultura produzida pelas pessoas que produzem cultura e, mais ainda, porque a existência  física desses produtores de cultura costuma soar ainda mais fictícia que a de seus personagens. A aproximação, o encurtamento dessa distância é, no mínimo, louvável”.
     A meu ver, esse encurtamento é o que vem sendo feito pelo projeto que já está ampliando o circuito, uma vez que Paraíba e Sergipe estão entrando nas programações. Acho ótimo avançar pelo interior do Brasil em lugar de ficar rodando apenas por São Paulo e Rio que  já têm coisas demais, muitas nem aproveitadas. A biblioteca de cada cidade visitada recebe 200 exemplares com obras de 12 autores que participam de cada etapa.
     Sábado, muito cedo, enquanto o motorista levava minha bagagem para o carro que me conduziria a São Paulo, o jovem recepcionista Ricardo Marcato, entrando em seu turno, lamentou não ter tido tempo de ir à palestra da noite anterior. No entanto, retirou de uma mochila o livro de poesias Deixe Ser , que é metade dele com o título Atrás das Grades de Papel Sulfite  e metade de Roberto Ferreira que assina Do Auto da Montanha Iraniana. Dois dias antes, eu havia descoberto em Lavras a poesia de André Di Bardi em Longes Pertos e Algumas Árvores, um livro curto e muito bem editado, de onde tirei a frase com que abri minha fala ( e abrirei todas, daqui para o futuro) e que define o ofício de escrever:
Há que se desenhar
Em paredes abstratas
E em papeis remotíssimos
O que jamais houve.
Tem melhor explicação? Não está longe o dia em que a poesia de André circulará pelo Brasil. Mas como furar o cerco do eixo Rio-São Paulo? Foi uma semana de livros e literatura, e como ninguém é de ferro, algumas dicas devem ser dadas à parte. Como o sanduíche de linguiça caseira do Belvedere, na estrada, a meio caminho entre Belo Horizonte e Tiradentes. Ou os rocamboles de Lagoa Dourada, anunciados como “legítimos”. Deliciosos.
     Necessária uma passagem pelo Café Com Prosa, entre Lagoa Dourada e Tiradentes. Indo de carro, ao ver a placa Caminho Real, opte por ela, é um caminho antigo, de paralelepípedos, lindo. O jantar em Tiradentes tem de ser no Theatro da Villa, onde o chef  Carlos Eduardo comanda uma cozinha impecável, delicada e saborosa. Sofisticada como se estivéssemos em Paris. Em São João Del Rey, um momento de estranha nostalgia que me  levou à cadeira do dentista. Este era o Solar dos Lustosa, me disseram. O Lustosa da cera de dentes. Aquela que tinha um cheiro terrível, pior que o mau hálito, e que nos queimava a boca na infância. Os mais velhos se lembravam da cera de cheiro forte e característico, que suavizava terríveis dores de dente. O Brasil sempre teve dentes ruins e pode-se ver isso pela fortuna que os Lustosas amealharam, construindo este solar imponente. Com nossos dentes precários, eles se deram bem.** Aliás, deslumbrante é um passeio pela solidão da cidade velha, na madrugada, sob a luz dos lampiões (fakes, mas belos). Nos perdemos no tempo, saímos da realidade. E não estamos vivendo tempos de Lula, em que a realidade parece ter perdido o sentido?  
(28 de maio de 2004)
*Não deixem de ler o mais recente livro de Eros Grau, Paris Quartier Saint-Germain-des-Près, um guia delicioso sobre a cidade, com mil dicas e histórias curiosas sobre os parisienses.


**Quando lembro do Lustosa e da cera, penso nos milhares de jovens de hoje que ostentam seus aparelhos para consertar dentes. A coisa adquiriu tal proporção que jovem que não tem aparelho se sente marginalizado. Não é só necessidade, é tendência e como se sabe vivemos obedecendo as tendências.
Largo das Forras - Tiradentes, MG
     
Brandão, Ignácio de Loyola O Mel de Ocara, Ed,Global,São Paulo 2013, págs. 93-97
Leia também Filhote de Pai D' Égua, Ignácio de Loyola Brandão (Cidade: Belém do Pará)

domingo, 8 de setembro de 2019

Os Dentes do Jacaré, Sérgio Capparelli. (poema infantil)


De manhã até a noite,
jacaré escova os dentes,
escova com muito zelo
os do meio e os da frente.

– E os dentes de trás, jacaré?

De manhã escova os da frente
e de tarde os dentes do meio,
quando vai escovar os de trás,
quase morre de receio.

– E os dentes de trás, jacaré?

Desejava visitar
seu compadre crocodilo
mas morria de preguiça:
Que bocejos! Que cochilos!

– Jacaré, e os dentes de trás?

Foi a pergunta que ouviu
num sonho que então sonhou,
caiu da cama assustado
e escovou, escovou, escovou.
Sérgio Capparelli CAPPARELLI, S. Boi da Cara Preta. LP&M, 1983.

Leia também: Velho Poema Infantil, de Máximo de Moura Santos.

sábado, 7 de setembro de 2019

Independência ou Morte, Martha Medeiros

Maria Quitéria *

     Tem uma série de coisas que a gente deseja na vida: uma profissão que nos realize, uma intensa vida afetiva, viagens, amigos, descobertas. Mas se eu tivesse que resumir em uma única palavra o que considero a mais importante conquista, esta palavra seria independência.
Começou a contagem regressiva para o 7 de setembro, dia em que se comemora a independência do Brasil. No entanto, prefiro comemorar a minha, a sua, a nossa.

     Não há quem não sonhe em trabalhar por conta própria, ser patrão de si mesmo. Os que conseguem não trocam por nada. Como conseguir isso? Dominando um ofício, indo além do que os outros aprenderam, fazendo as coisas do seu próprio jeito, arriscando. Parece difícil, e é. E mais difícil ainda é ser independente no amor.
     Paixão não entra nessa conversa. Quando estamos apaixonados somos todos dependentes de telefonemas, de e-mails, de declarações, de presença constante. Já o amor, que é um estágio posterior, mais sereno e seguro que a paixão, permite o desenvolvimento da independência. Você não precisa estar em todos os lugares que o seu amor está, você não precisa concordar com tudo o que ele pensa, você não precisa abdicar dos seus projetos, você se sustenta, você conta, você existe.
     Tem gente que abre mão disso por puro comodismo. Prefere ser uma sombra, um sparing . Defende-se dizendo que não tem outro jeito. Mentira. É uma escolha.
     Ir sozinha ao cinema. Viajar. Pagar sua dívidas. Dirigir. Não afligir-se (tanto) com a opinião alheia. Saber cozinhar pra si mesmo, entreter-se com hábitos solitários como a leitura, pegar um táxi, resolver os próprios problemas, tomar decisões com confiança. Não “precisar” dos outros, e sim contar com os outros para aquilo em que eles são insubstituíveis: companhia, sexo, risadas, amizade, conforto.

    Se você ainda não atingiu este estágio, suba num cavalo imaginário e dê seu grito do Ipiranga. Ficar amarrado à vida alheia faz você viver menos a sua. Nada de fazer-se de desentendida só para não se incomodar. Incomode-se. Dependência é morte.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

E Começou Assim, lenda Maori recontada por Maria da Luz

No início só havia Kore, a energia, vagando na escuridão do espaço infinito. Então, veio a luz e surgiram Ranginui, o Pai Céu, e Papatuanuku, a Mãe Terra. Rangi e Papa tiveram muitos filhos: Tangaroa, deus das águas; Tane, deus das florestas; Tawhirmatea, deus dos ventos; Tumatauenga, deus da guerra, que deu origem aos seres humanos; e Uru, que não era deus de nada.

Rangi e Papa viviam num perpétuo abraço de amantes. Acontece que esse enlace apaixonado não deixava a luz penetrar entre seus corpos, onde ficavam os filhos. Obrigados a viver apertados e sempre no escuro, os jovens resolveram dar um basta na situação.
 - Vamos matar Rangi e Papa e ficar livres deles! - disse Tumatauenga.
- Não! - disse Tane. - Vamos apenas separálos, empurrando um para cima e deixando o outro embaixo. Assim sobrará espaço para nós e a luz vai poder entrar.
Todos acharam a idéia excelente.
Tane, que era o mais forte de todos, firmou bem os pés em Papa, encaixou os ombros no corpo de Rangi e o empurrou para cima com toda a força.
Os pais se separaram, mas - oh, decepção! - só um pouco de luz chegou ao mundo dos filhos. Além disso, Rangi e Papa estavam nus e, longe um do outro, sentiam muito frio.
Comovido com a situação, Tane abrigou o pai com o negro manto da noite.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

O Fim Que Se Aproxima, Milton Hatoum

Amazonas: mito grego
menos antigo que os mitos da Amazônia.
Os que vivem no Cosmo há milênios
são perseguidos por mãos de ganância, 
olhos ávidos: minério, fogo, serragem, fim. 
Quem são vocês,
incendiários desde sempre, 
ferozes construtores de ruínas? 
Os que queimam, impunes, a morada ancestral, 
projetam no céu mapas sombrios:
manchas da floresta calcinada,
cicatrizes de rios que não renascem.
Qual Brasil se esconde 
atrás da humanidade amazônica?
Que triste pátria delida,
mais armada que amada:
traidora de riquezas e verdades.
Quando tudo for deserto,
o mundo ouvirá rugidos de fantasmas.
E todos vão escutar, numa agonia seca, 
o eco:
Não existirão mundos, novos ou velhos,
nem passado ou futuro.
No solo de cinzas: 
o tempo-espaço vazio

Fonte: Estadão
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