quarta-feira, 10 de julho de 2019

Cemitério Romano, Luciano Maia

Censurados têm sido os romanos
Via Ápia - Tripadvisor

por alguns estudiosos dos tempos mais
                                                 recentes
porque uma metafísica não teriam criado
com outras gloriosas estirpes,
mas apenas aquedutos,anfiteatros,foros,
                                                   estradas,
a Cidade Eterna, castros e fortificações de
                                                    fronteira.
Censurados têm sido os romanos
porque apenas teriam construído casas com
                 átrios que recebiam a luz do alto
e tinham um aviso sobre a fachada: cave canem.

Se te for dado chegar um dia a Roma
e adentrar seus subúrbios, amigo,
te perderes pela Via Ápia,
compreenderás então quão injusta é a balança
com que os homens e os povos avaliam
as virtudes de um e de outro, e o coração.
Pois verás uma Estrada,
que se prolonga avançando além da paisagem,
pedra com pedra harmonizada,
uma estrada flanqueada, à esquerda e à direita
por sarcófagos, umas funerárias, mausoléus,
conservando cinzas, ossadas, albergando.

Assim concebiam os romanos a Estrada,
                           cada limite enfrentando
no grande domínio da vida, avançando
                                  através da morte,
semeada em filas
de ambas as partes. Aqueles que à sombra
                                                 dos ciprestes
nos sarcófagos dormem, ouvem o rumor
de escudos e de lanças, o marchar das coortes,

as rodas dos carros, o nitrido dos
                          cavalos. Tudo isso,
tal como existiu, hoje não mais existe.
Mas os mortos, os mais antigos mortos,
                                         escutam ainda,
pela estrada, o que soa sobre a terra.

Assim imaginavam os romanos o cemitério:
uma estrada flanqueada por duas filas
                                         de silêncio.
Esta é a metafísica dos romanos; uma
                                                  Estrada.
Uma estrada que avança através dos 
                       mortos, não dos vivos.

Maia, Luciano, O Espaço Miorítico, Fortaleza - 2014, págs.105-106

domingo, 7 de julho de 2019

Chocolate Entende de Mulher,Felipe Peixoto Braga Netto

   
 — Você não entende, eu estou enorme, não está vendo?
Não, eu não estava. Juro que eu não via. De enorme, ali, só uma vontade tola que não contei, não podia contar. Mas o que importa é o que ela achava, já está provado que homem não entende de mulher.
     Se minha opinião valesse alguma coisa — e eu já sei que não vale —, arriscaria, baixinho: Mulher também não entende de mulher. Pelo menos não nisso de magreza. Minha gente, sinceramente, essas magras modelos sem graça que vocês acham lindas, não são. Vou repetir: não são.
     Não queiram ficar assim, por favor. Relaxem, menos chá-verde, uma honesta cerveja de vez em quando é permitido, não mata. E preservem.         Preservem a Amazônia, a camada de ozônio, a biosfera, mas preservem também as curvinhas, por favor. O planeta agradece.
     Há quem veja duendes. Há quem veja fadas. Há quem veja quilos a mais. Mulheres, em especial, têm talento para isso. Enxergam inconcebíveis quilos inexistentes onde você, por mais que olhe, não enxerga nada. Para as mulheres, amor é importante, trabalho é importante, ser feliz é importante. Mas importante mesmo é ser magra.
     E outra coisa (está tarde, preciso ser franco): homem que é homem não dá a mínima para celulite. Então, meninas, esqueçam esse pavor, esse trauma, essa terrível tragédia que não mata nem fere. Não conheço nenhum amor, até hoje, que morreu por causa da celulite.
     A vida, gente, não é feita só de espinafre. Há lombos, lasanhas e tropeiros que esperam por nós. Tudo bem, acelga com tofu deve ser uma delícia, mas eu prefiro as ervas mediterrâneas. O manjericão, por exemplo. É leve, saudável, com uma pizza ao lado fica muito bom.
     Comer direito dá tanto trabalho que não sobra tempo para mais nada. Ela me diz que fundamental, agora, é comer banana verde. Pode ser nanica, maçã ou prata, mas tem de ser verde. Não pode ter nem um fiapo amarelo, não pode ser uma banana adolescente. A banana verde tem pré e pró-bióticos (eu não perguntei, mas deve ser algo fantástico).
     O segredo, ela conta, é cozinhar em panela de pressão, com casca. Depois, descascar e bater no liquidificador. Assim, ela pode ser deliciosamente misturada a sucos de frutas, ou ao que você preferir. Há quem prefira juntar uma porção de banana verde para cada prato. Eu não prefiro nada. Fico me imaginando saindo de casa com uma penca de banana verde nas costas, um liquidificador, uma panela de pressão, fazendo contas no restaurante. Não daria certo.
     Chocolate, ao contrário, sempre dá certo. Sim, porque a única coisa que acalma, de fato, uma mulher, nas crises sentimentais mais graves, é uma caixa de chocolate. O resto até tenta, mas não consegue. Promete, mas não cumpre. Chocolate entende de mulher.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O Filho de Pai D'égua, Ignácio de Loyola Brandão

BELÉM - Inverno na cidade. O termômetro bate nos 37 graus. No entanto, os belenenses informam: quente mesmo é julho! A chuva diária, com horário, não existe mais. Desapareceu, assim como sumiu a garoa paulistana. Afirmam os paraenses que a culpa é dos desmatamentos, das agressões que o homem tem feito à natureza. Antigamente gostavam de dizer: me encontre antes da chuva. Ou depois. Acabou. Ainda bem que as mangueiras permanecem. As ruas são sombreadas por imensas árvores, coalhadas de frutos, começam os suplícios dos motorizados e a alegria da meninada. Eu estava com Ivana, jornalista da TVE, dando voltas e, cada vez que parávamos, eu dizia: "Estacione ali! É uma bela sombra. "E ela retrucava: "Olha as mangas!"
     Os frutos caem sobre os capôs e para-brisas, produzem mossas, arrebentam vidros. Os moleques correm e comem. Portanto, a cidade vive um dilema: mangueiras ou carros? Malandros quebram para-brisas, sujam de mangas, ficam por perto e avisam: em aqui perto quem vende para-brisa novo, barato. Culpa das mangas!!! Muitos fanáticos já tentaram arrancar as árvores, uma vez que a solução predatória é a mais fácil, pensa-se no presente, azar do futuro. O bom senso prevaleceu, as mangueiras que tornaram Belém famosa no mundo continuam. Saiba que ao estacionar, vai se aproximar um garoto, flanela nas mãos informando: "Estou na área."enquanto na região há muitas espécies em extinção, os flanelinhas (o pano é vermelho) têm proliferado. Peça ao seu para guardar a manga que cair no capô.
     Belém começou a mudar de cara. Os casarões têm sido conservados, alguns em processo de restauro. A nova administração ainda luta com a limpeza das ruas. O cheiro do lixo é forte, invencível, por toda parte. Os habitantes de Manaus que me perdoem,mas Belém está dando de dez na capital do Amazonas. Que agora anda às escuras, o que mostra a incapacidade de planejamento dos que governam. Fui a  Belém para a Primeira feira de Livros (apoiada pela Câmara Brasileira do Livro) e para a abertura do Fórum  Pan-Amazônico, encontro promovido pelas Secretarias da Cultura, da Educação e do Meio Ambiente. O Fórum - que envolveu Venezuela, Peru e Guianas - é uma resposta ao governo que, ao falar do Mercosul, exclui o norte do Brasil. Mercosul, disseram os paraenses,  tem de envolver a América do Sul inteira, não pode ser excludente. Deste modo, está surgindo o Merconorte Cultural, um dos pilares do Plano de política Cultural do atual governo do Pará, tendo à frente Almir Gabriel, que teve o rompimento de um aneurisma na aorta abdominal e ainda se recupera. Mas governa.
     O Secretário de Cultura, Paulo Chaves - único não engravatado na cerimônia de abertura, estava com a camisa do fórum - deu de presente ao governador um exemplar do meu Veia Bailarina, livro que está se tornando de autoajuda.  Quem diria! A feira, bem  montada no Centro, tinha 77 estandes e nela ocorreram oficinas, exposição de fotografias, contação de histórias, espetáculos de bonecos, mostra de cinema ( o cineasta Fernando Solanas estava presente), concertos. E entre os dias 13 e 15, discussões literárias e ambientais. Gostei mesmo foi do insight de Maria Regina Maneschy Faria Sampaio, da comissão executiva e diretora  de bibliotecas. Ela teve uma ideia que funcionou e poderia ser adotada nas bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro: o miniencontro autor-leitores, na boca do estande. Fiquei no estande da Global em pé, respondendo a perguntas de um pequeno público que se aglomerou. Poderia ter repetido algumas vezes por dia esse rápido encontro, que não cansa ninguém e promove o diálogo leitor-escritor. Nada de palco, mesa, distância. Ali, cara a cara, informal.
     Como ninguém é de ferro, à margem do encontro tivemos almoços e jantares com a comida local: filhote de pai d'égua (peixe que quase se dissolvia na boca) no espeto, de tambaqui, camarão cozido no molho de tucupi com jambu ( que anestesia a boca) e outros. Quem come o peixe filhote de pai d'égua no restaurante Lá em Casa ganha um prato de parede artesanal, dos mais simpáticos. Para não perder a viagem, abandonei os refrigerantes industrializados e passei aos sucos de cupuaçu, taperebá, bacuri, acerola fresca.  Ah, o encantamento das sorveterias que se esparramam pela cidade, sempre cheias. O secretário de Educação, que antes de tudo é poeta e ensaísta, João de Jesus Paes Loureiro, fechou a gastronomia, oferecendo um jantar em que o prato principal foi pirarucu ao forno com ervas - não me perguntem quais, deliciosas - seguido por espesso sorvete de açaí, coberto por tapioca. Ah, a literatura pode não ter me dado dinheiro, mas me tem feito conhecer o Brasil. 
(16 de novembro de 1997)

Brandão, Ignácio de Loyola, O Mel de Ocara, Ed. Global, São Paulo 2013 págs.35-37
Imagem: corredor verde da Praça da República. Fotografia de:Fernando Santos Cunha Filho.

sábado, 29 de junho de 2019

Amós Oz Responde: O Que É Um Fanático?


Em sua obra Mais de Uma Luz(Companhia das Letras, 2017), define o fanático como “aquele que só sabe contar até um”. Sua realidade termina nele. Sua matemática se esgotada aí. Não cabem nem dois, porque, segundo ele, “uma das realidades contundentes que identificam um fanático é sua ardente aspiração de mudar o outro para que seja como ele”.  (Amós Oz, Mais Uma Luz, Cia das Letras, 2017)


O escritor israelense muito sabiamente explica o que é um fanático. Nossos tempos estão cheios deles. Os fanáticos brasileiros, israelenses, sírios ou americanos. Os fanáticos políticos e ou religiosos. Estão nas ruas sempre querendo a mesma coisa. 

Veja aqui sobre o assunto  

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A Dor de Ser Poeta, Vinícius Gregório

Talvez não seja tão bom

Ser poeta nessa vida;
Talvez seja até sofrida
A vida com esse dom.
Afirmo isso em bom som:
Alegria nos renega!
É que o poeta se entrega,
Sente a dor de todo mundo...
Tem sempre um choro profundo
Que no sei peito se apega.

Saudade é sempre pior
No coração do poeta!
Alegria é nossa meta,
Mas a tristeza é maior!
Eu sinto a dor do menor
Abandonado e sem trilho, 
Sinto a dor do andarilho,
Sinto do velho a idade,
Eu sinto até da saudade,
Da mãe que perdeu o filho...

Eu sinto a dor de quem ama,
Mas não pode ser amado.
Eu sofro multiplicado
Quando a paixão não me inflama.
Eu sinto o queimar da chama
De quem sente solidão.
Sinto a fome de um irmão
Que a muito tempo não come,
Eu sinto a praga da fome
Que atrapalha meu sertão.

O poeta nasce feito
Com seu destino traçado.
Já nasce predestinado
A sentir dor no seu peito...
Deus nos criou desse jeito:
Uma raça diferente.
Sinto a dor de toda gente
Que não tem sonho nem meta...
Sinto até como poeta
A dor que um poeta sente...

Poeta no dia-a-dia,
Tem sentimento apurado,
Só que não sofre calado,
Descarrega em poesia!
Tenta encontrar alegria
Mas só tristeza lhe afeta...
Possui a vida inquieta
Mas mesmo assim é valente,
Pois, com toda a dor que sente,
Não deixa de ser poeta.

Apesar de toda a dor,
Caso outra vez nascesse
E Jesus me concedesse
Escolher o meu labor,
Minha escolha, sem temor
Não era ser diferente.
Mesmo coéssa dor pungente
Que se instala no meu peito,
Eu queria satisfeito,
Ser poeta novamente.

E se eu nascesse de novo
E Deus me desse um Menu
Onde eu visse o mundo inteiro,
Cada conto a olho Nu.
E mandasse eu escolher
Onde eu queria nascer,
Com certeza ia dizer:
De novo no PAJEÚ.


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Curta História, Machado de Assis


Corpus Christi, André Santos Silva

"Como pode ser
um Deus tão grande, como Tu,  vir nos visitar?"
Tapete na R.Cândido Abreu - Curitiba
Ao recebê-lo, já em nós, dentro de nós,
faz morada e encontra o Seu lugar.

Deus de Deus, filho do Deus,
caminho e luz, vive perenemente,
e a cada dia se sacrifica 
na mesma morte de cruz.

Doa-se a cada um de nós,
rasga-se sem mesmo se preocupar,
vê da própria carne, escorrer o sangue,
simplesmente por nos amar.

Doa o seu corpo em cada celebração,
e o sangue renova o sacrifício da cruz.
Quem poderia ter tamanho amor?
Oh, Doce Coração de Jesus!

Que o Seu sangue seja respeitado,
e o Seu corpo em meio a nós comungado.
Que cada Cristão nesse dia, Senhor,
Seja por Ti abençoado.

E que se comungarmos, constantemente,
que seja motivo de salvação,
e que por nossa falta de consciência,
nos revigore com o perdão.

Seu Santo Corpo e Sangue,
hoje, dia celebrado,
que revitalizem a nossa alma,
e nos tornem abençoados.

Quero me lembrar do sacrifício,
com alegria, ó Santa Cruz!
Que o nosso coração seja humilde,
semelhante ao de Jesus.

Aprenda mais:  O Que é Corpus Christi?

                            

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