segunda-feira, 22 de maio de 2017

Segunda-feira poética:Estampas Eucalol, Hélio Contreiras


Montado no meu cavalo
Libertava prometeu
Toureava o minotauro
Era amigo de Teseu
Viajava o mundo inteiro
Nas estampas Eucalol
A sombra de um abacateiro
Ícaro fugia do sol.
Subia o monte Olimpo
Ribanceira lá do quintal
Mergulhava até netuno
No oceano abissal
São Jorge ia pra lua
Lutar contra o dragão
São Jorge quase morria
Mas eu lhe dava a mão
E voltava trazendo a moça
Com quem ia me casar
Era minha professora
Que roubei do Rei Lear.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Segunda-feira poética: Palavras Para Minha Mãe, José Luis Peixoto


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

domingo, 14 de maio de 2017

Dia das Mães: Vó Eduarda, Marcius Malhem

Neste dia das mães eu quero falar sobre a mãe da mãe da minha mãe - também conhecida como minha bisavó. Para mim, vó Eduarda.
     Ela morreu quando eu tinha 16 anos , em 1988. Até meus 8 anos eu dormia muito na casa dela. Tempo suficiente para que a vpz com sotaque daquela velhinha portuguesa que cheirava a leite de Rosas nunca mais  saísse de minha memória.
     Lembro também, do Toddy gelado pela manhã, da farofa de ovos no almoço e do caqui no lanche.
     Ela chamava rabanada de "orelha de português", e me ajudava a pegar romã no pé com um bambu.
     Vovó era diabética  e se aplicava injeções de insulina mais de uma vez ao dia, na veia, amarrando o próprio braço. Antes ela fazia um teste para ver o nível de glicose, que consistia em urinar num tubo e pingar um reagente. Decorei que, se o líquido ficasse azul, da cor dos olhos dela, estava tudo bem.
     O dia mais importante do ano para ela não era seu aniversário, mas o 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Como o destino gosta de aprontar, foi nesse dia que nasceram minhas duas filhas.
     Era uma mulher forte, livre, dona do seu nariz. Ela me ensinou muito sobre amor e liberdade.
     Vó Eduarda teve cinco filhos com meu bisavô.Quando o mais novo tinha dois meses, ela se separou para viver um grande amor. É preciso muita coragem para se separar de um casamento com cinco filhos, nos anos 1930, em Nilópolis, cidade pequena na Baixada Fluminense.
     Mas o mais admirável nessa busca sincera pela felicidade é que o grande amor da vó Eduarda era uma mulher: dona Olga, ou a Velha, como ela chamava.
     Vovó e a Velha se conheceram me 1937 e se apaixonaram. Meu bisavô era jardineiro da casa de dona Olga, uma mansão na zona sul Rio.
     Vovô saiu de casa e Velha, deserdada, foi morar com vó Eduarda.
     Viveram essa paixão por mais de 40 anos, até a morte da Velha, em 1979, quando eu tinha sete.
     O amor daquelas duas mulheres conquistou o respeito de toda a idade e iluminou quem teve a oportunidade de conviver com elas, Eu tive essa sorte e me esforço - com Joana - para que minhas filhas também entendam que o importante é o amor.
     Outro dia brinquei com uma as meninas: "Filha, esse amigo aqui é namorado do papai há dois anos". "Claro que não é". Achei que era reflexo da velha visão de relação só homem/mulher, mas ela completou: "Dois anos? Você já teria me contado".
     Valeu, Vó.

Transcrito do Jornal do Commércio 14.05.2017

sábado, 13 de maio de 2017

Crônicas da MPB: Resignação, Luiz Carlos Paraná


Não, não foi surpresa para mim o que se deu
Foi tão natural saber
Que o nosso amor morreu
Não foi nada menos, nada mais do que esperei
Pois tudo na vida que eu não vi, imaginei
Já é difícil para mim perder a paz
E não é fácil eu chorar ou mesmo rir
Meu coração não bate à toa, nem demais
Já vi chegar o tanto quanto vi partir
Fizeste mal, mas só depois de tanto bem
Não é preciso que de mim se tenha dó
Quando chegaste eu já sabia ter alguém
Quando partiste eu já sabia viver só.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Quarta-feira é dia de: O Homem do Patchuli, Marcos Rodrigues

pogostemon cablin - patchouli       O Barbosa sempre teve algum sucesso com mulheres. Não por beleza, cabeça ou dinheiro, mas por gostar de dançar, o que é muito raro entre homens. No Clube Piratininga, ele sempre dança com uma, depois com outra e mais outra e assim vai noite adentro. No fim da noite, dançou com uma fieira delas, nunca de mesas próximas. Além de dançar bem, ele conduz bem e elas, assim, dançam melhor. Sentem-se melhor. Ele vai sem carro e sempre acaba pegando carona com alguma delas. 
É esse seu jeito discreto de ser.
     No final de 2009, o Barbosa foi para a Chapada dos Veadeiros em caminhada com amigos de Brasília. Passou a noite do Ano Novo em Alto Paraíso, vendo estrelas e esperando extraterrestres, muito comuns na região. Na volta, em Cristalina, topou com um viveiro de plantas à beira da estrada e encostou a picape. Ele sempre traz umas novidades de suas viagens.  
     Foi andando em meio às mudas e se interessou por um arbustinho sem vergonha. A dona do viveiro, uma morena alta, maior que ele, disse que era patchuli. Ele nunca vira a planta patchuli. Só conhecia a essência, os incensos, loções e perfumes, sempre associados à sensualidade.
     A mulher amassou umas folhas na mão e ofereceu para ele cheirar. Explicou que extrair a essência do patchuli era complicado, mas que ela, por exemplo, passava sua roupa de baixo com folhas de patchuli.
Aquelas palavras fisgaram o Barbosa. Com o olho brilhando, ele seguiu conversando até o anoitecer. Acabou ficando por lá. Quando acordou, sua roupa já estava lavada, secando no varal. Antes do meio-dia, a mulher passou as cuecas dele com folhas de patchuli e serviu o almoço. No que ele fechou a mochila, ela ajeitou as mudas na caçamba e empurrou o Barbosa pra estrada. Sabe-se lá porquê.
     Foi a partir daí que ele passou a usar cuecas passadas com patchuli, sua homenagem à goiana. Um tributo que lhe trouxe paz e serenidade. Para seu entorno também.
No Piratininga, teve ainda mais sucesso com as mulheres, sobretudo as maduras. Criou reputação. Todas sabiam quem era o homem do patchuli. Que conversa e dança, vem sem carro e volta de carona.
      Com o tempo, suas parceiras foram se conhecendo, conversando e, por fim, sentavam todas na mesma mesa. Eram as sete do Barbosa. E ele ali no meio, sempre alegre. Conversando e dançando.
     Não tardou muito para os outros começarem a falar mal daquele arranjo. As línguas ferinas diziam que ele usava as sete. Os homens diziam que ele era usado pelas sete. Incomodava aquele jeito alegre e divertido que os oito encontraram para viver. Talvez até por inveja, deitaram a falar mal deles. E muito.
     As sete, que em comum só tinham o Barbosa, amedrontadas foram se espalhando pelo salão. Foram se afastando, disfarçando. Deram um gelo no Barbosa. Uma tristeza.
     O Barbosa, que gostava delas, foi perdendo a confiança. Foi minguando. Por fim, desencanou e sumiu na poeira.
     Até hoje elas estão lá, à espera de um homem que converse, não reclame, seja alegre e dance. Às vezes conversam umas com as outras e há consenso.  Se já é difícil encontrar um homem que preste, imagine sete.

Fonte: Brasileiros

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Segunda-feira poética: Andar a Esmo, Sentir a Vida. José Antônio Pajeú


A esmo, caminhando pela Rua,
Percorri, canto a outro, a Imensidão.
O Imenso clarão da Bela Lua,
Derramando Luz e Cores pelo chão.
O cheiro denso da Brisa que flutua,
A roçar no meu rosto em Efusão.
O Barulho do Silêncio, eu só, a Rua,
O Intenso desejo da Paixão.
Tendo a vida, como Guia e Sentinela,
A levar-me pelas vias da razão.
A mostrar que a IMENSIDÃO é tão singela,
E que ela, a vida, é tão, tão bela,
Que vivê-la e sentir-se dentro dela,
Nos faz ver, que é bela, até, a SOLIDÃO.

Salve Jorge!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Polígamo, Tahar Ben Jelloun

     
Minha primeira mulher foi minha mãe quem me deu, Eu ainda era criança quando desposei a filha de minha mãe. Achava sua beleza natural, evidente, nas difícil de definir. Levei tempo para descobrir que eu não era seu único amante.
     Minha segunda mulher eu encontrei sozinho, ou quase. Ela me foi oferecida, mas era preciso seduzi-la, brincar com ela e envolvê-la para a merecer e conservar.  Apliquei-mea isso com batante energia.
     Agora que cheguei aos quarenta, convivo bem com uma e outra. Minhas duas mulheres não se entendem. Há um problema de comunicação. Elas são obrigadas a passar por mim para se falarem e até para brigar.
     Tenho preferência pela segunda, porque ela é estrangeira à tribo, e me ensinaram a ser cortês e hospitaleiro com os estrangeiros, particularmente comas estrangeiras. Minha cortesia não passa de aparência. Na verdade, sou violento. Gosto de dobrar essa estrangeira. Mas devo confessar que, muitas vezes, ela é quem leva a melhor. Ela me domina e ue me deixo levar. Eu sei: qualquer resistência é inútil. A prova: é ela quem fala por mim e expressa as palavras e a terra natal.
     A outra às vezes se insurge; toma o poder sem que eu perceba e se insinua nas dobras íntimas da outra face.
     Embora não se comuniquem, elas se enfrentam e armam emboscadas uma para a outra. Adoro quando tudo se agita, quando há troca de flechas, de frases e de imagens. Uma vira a outra e ambas zombam de mim. Elas se aliam contra mim. Vejo-me afinal sem recursos, isolado, despojado e abatido. Nessa hora, consulto o dicionário. É um amigo;mas um tanto rígido. Não tem muito humor. Ele me informa, mas não me ajuda em meus conflitos conjugais. É a favor da ordem e da moral. É justo e inequívoco, frio e intransigente. Ele me deprime e me desencoraja. Eu sou amoral. Isso não tem perdão, sobretudo num dicionário.
     Então, opto pelo silêncio. De minha janela, observo o silêncio. Vejo-o passar pela rua. vou ao seu encontro; ele me envolve e eu escuto. Muitas vezes ele é enganador. Levanta problemas que é preciso adivinhar. Eu grito.
    Grito para precipitar os acontecimentos. Nessa hora, minhas duas mulheres, assustadas, intervêm e cada uma se dispõe a me acalmar, a me dar o que me falta, a ternura e o amor, o orgasmo e o sol.
     Tão logo me sacio, elas me abandonam e vão se dar a outros. 
    Foi por isso que um dia resolvi ter uma escrita própria, que, boa ou ruim, bonita ou feia, simples ou complicada, iria ser minha, parecer-se comigo e satisfazer minha intimidade mais secreta.
    Enquanto isso, fui tentado por uma terceira história de amor. Subitamente, deparei-me com alguém estranho e ambíguo; caí ma ilusão  e no erro. Era noite;não lhe vi bem o rosto. Era uma aparição, um fantasma, uma espécie de travesti que me disse: "Vai, vai reencontrar tuas mulherzinhas! Tu as satisfazes, pelo menos? ..."
     Desde então, minha fidelidade é exemplar: eu vou de uma à outra e sei que dou mais à segunda porque ela é estrangeira, e as estrangeiras eu a prendi a amar.
     Esses amores me enriquecem. Não pago imposto. quando o fiscal da receita vem ver o que acontece, não entende grande coisa, perde-se nesta casa de muitos andares e muitas portas, e vai embora jurando que da próxima vez conseguirá me acuar.    
      Apaixonado, polígamo e fiel! Isso o irrita.
     Às  vezes me acontece sair da enorme casa. Aproveito-me do sono da primeira para levar a estrangeira a passear pelas ruelas de medina. Ela não usa djelaba nem véu no rosto. Caminha dando-me o braço; está nua. Não por ser impudica ou malcriada, mas por ser tão atraída  pelos tecidos da minha velha memória, pelas cores loucas das minhas raízes, que se cobre com elas à medida que entramos no labirinto de medina e da infância árabe.
     Minha primeira esposa não se deixa facilmente despojar de suas vestes. É altiva e muda em seu orgulho. Quando tento levá-la a um jantar dançante ou a uma festa-surpresa, empaca e se recusa a me seguir. Não sem violência, lembra-me suas origens, nobres e  sagradas inscritas no Livro santo, o Corão.
     Nisso a coisa é séria! Fica difícil brincar! O Corão é um milagre, inimitável e intocável. Ele me intimida. Ele me esmaga pela inacessível beleza de sua poesia.
     Então eu volto para a outra; e me liberto. Ela me acolhe de braços aberto, me dá seus lábios, me cobre com seus cabelos e nós fazemos amor na luz, acompanhados pela música de Vivaldi ou de Bach.
     Ela me ama. Ela me ajuda a viver. Temos conflitos. Mas "só a morte é tão rasa"!

Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, 2002, págs,167-170

Algumas obras do autor editadas em português (Estante Virtual  e Liv. Saraiva):


Moha o louco Moha o sábio
Os frutos da dor
Partir
O último amigo
Felicidade
O primeiro amor é sempre o último
O menino da areia
O racismo explicado à minha filha
O racismo explicado aos jovens
As cicatrizes do atlas
O Islamismo explicado às crianças