quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Quando A Lua Cheia Clareia As Águas do Rio, Marcos Cirano

     
     É sempre assim: há uma grande inquietação das aves noturnas, os roedores da mata também se agitam e o sertanejo logo percebe que algo mudou. No céu, acompanhando a lua, algumas estrelas aparecem acanhadas, com pouco brilho, ofuscadas pela imponência da dona da noite... É sempre assim, quando a lua cheia clareia as águas do rio.
      No topo da serra enfeitada pela caatinga, o vento não para de assoviar. No baixio as fruteiras exibem seus frutos à distância. Os peixes sonham feito gente. Os sapos desconfiam da claridade e permanecem nas tocas. Indiferentes à luz, cobras aguçam os ouvidos e, no meio da noite, uma criança chora... É sempre assim, quando a lua cheia clareia as águas do rio.
      É sempre assim quando a lua cheia clareia as águas do rio: uma bela donzela corre, nuínha, subindo a serra e uma coruja canta anunciando morte.

 Imagem: Manuel Dutra