quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Quando A Lua Cheia Clareia As Águas do Rio, Marcos Cirano

     
     É sempre assim: há uma grande inquietação das aves noturnas, os roedores da mata também se agitam e o sertanejo logo percebe que algo mudou. No céu, acompanhando a lua, algumas estrelas aparecem acanhadas, com pouco brilho, ofuscadas pela imponência da dona da noite... É sempre assim, quando a lua cheia clareia as águas do rio.
      No topo da serra enfeitada pela caatinga, o vento não para de assoviar. No baixio as fruteiras exibem seus frutos à distância. Os peixes sonham feito gente. Os sapos desconfiam da claridade e permanecem nas tocas. Indiferentes à luz, cobras aguçam os ouvidos e, no meio da noite, uma criança chora... É sempre assim, quando a lua cheia clareia as águas do rio.
      É sempre assim quando a lua cheia clareia as águas do rio: uma bela donzela corre, nuínha, subindo a serra e uma coruja canta anunciando morte.

 Imagem: Manuel Dutra

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O Circo O Menino e a Vida, Mário Quintana

A moça do arame
equilibrando a sombrinha
era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando  e despindo-se.
Lentamente.
Só pra judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
até parecerem dois pires:
Meu tio dizia:
"Bobo!
Não sabes
que elas trazem uma roupa de malha por 
                                                          [baixo?"
(Naqueles voluptuosos tempos não havia maiôs nem
                                                          [biquínis...)
Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos
                                                           [virgens
segredava-me
sempre:
"Quem sabe?..."

Eu tinha oito anos e sabia esperar.

Agora não sei esperar mais nada
Desta nem da outra vida,
No entanto
o menino
(que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças,
o menino
às vezes
segreda-me baixinho
"Titio, quem sabe?..."

Ah meus Deus, essas crianças

Em: Quintana, Mário, Nariz de Vidro, São Paulo,Ed.Moderna,2017,págs.10-11
Imagem: Portal do Professor 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Câmara Cascudo Bateu Felipe Neto

     Em julho de 2012 eu estava em São Paulo e, entrando numa grande livraria, dei de cara com um livro cuja capa não tinha nada de atraente e o autor era um total desconhecido pra mim.  comprei. Até hoje não sei porque fiz isso, mas... comprei.  
      Em casa postei a respeito e para minha surpresa em questão de horas o acesso pipocou!!!   Até o mês passado  Não Faz Sentido, era a postagem mais acessada do blog.   
     No ano seguinte,em 2013, postei uma historinha simplérrima  de um rei, um reino, um sábio.. essas coisas!  Era Uma Vez...Adivinha Adivinhão, de Câmara Cascudo, tirada de um livro paradidático foi muito acessada e, ao longo do tempo, ficou na vice liderança.   
     Pois bem, em janeiro deste ano  Câmara Cascudo ultrapassou Felipe Neto.  
     A historinha boba e bem antiga, é a que tem maior número de acessos do blog.

 












quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Flor-de-Capitão, Regina Ruth Rincon Caires




O quarto menor da casa era reservado para as visitas. Apenas a cama e um velho baú de madeira, reforçado com tiras de metal, compunham a mobília. As alças do baú já não existiam, sobraram apenas os sinais do encaixe. A chave ficara perdida em algum lugar, nas muitas mudanças. Colocado sobre pilhas de tijolos, que o erguiam do chão, ficava protegido das constantes lavadas do chão. E guardava segredos. Ali ainda ficavam umas poucas vestes da avó, trazidas de além-mar. Acomodava velhas cobertas feitas no tear, roupas de dançarina, xales enormes, o pente com o véu. E as castanholas. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Maria Veléria Rezende, Uma Freira Escritora e Feminista.


  

“Anote direitinho porque estou cega, mouca e fraca do juízo. Qualquer hora bato as botas”, brinca Maria Valéria Rezende.

   
Sobrinha-neta do poeta parnasiano Vicente de Carvalho, diz que uma de suas primeiras lembranças é a de escritores reunidos na casa de sua avó, em Santos, onde nasceu e foi criada. Aprendeu a ler sozinha, em francês. Estudou em um colégio de freiras e nunca pensou em se tornar escritora porque se encantou com as missões feitas pelas religiosas que eram suas professoras. Na faculdade, uniu-se a movimentos da juventude católica, conheceu a Teologia da Libertação e, em 1965, virou noviça. Faz parte da Congregação de Santo Agostinho, de religiosas educadoras de meninas e que não precisam usar hábito. “Quando éramos meninas, nos perguntavam se já tínhamos optado por ser freira ou por casar. Escolhi fazer os votos, que era muito mais divertido”, conta a irmã, entre uma baforada e outra de cigarro, hábito que mantém há 60 anos “e que não tem nada a ver com religião porque o papa também fuma”. Como missionária, morou na Argélia, no Timor, na China e no México, onde ensinou camponeses a ler e a escrever – trabalho que também desenvolveu no interior do Brasil. 

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