quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quarta-feira é dia de: A Mulher e o Amor, Marlene Canarim Danesi




Tenho sido amada, não o suficiente. Porque nunca se quer o suficiente: uma vida só não basta.

                                                                            
Frida Kahlo

Mulher e Amor questões instigantes e enigmáticas. O universo feminino está permanentemente relacionado com o amor. Não foi diferente com Frida Kahlo, uma das mais fortes personalidades entre as mulheres da era revolucionária, no México. Paixão, romance, dor, traição, luxuria e dramas resumem a vida desta ousada e intrigante artista mexicana. São várias Fridas, e a multiplicidade de aspectos de sua personalidade é a razão, que mesmo transcorridos tantos anos de sua morte, as pessoas sintam uma forte identificação com esta mulher a frente de seu tempo, única e intensa. Uma mulher cheia de vida, ícone das artes, que soube transformar suas deficiências em estilo. Apesar de uma vida cheia de dificuldades, desde doenças e traições, Frida sentiu que tinha energia suficiente para fazer qualquer coisa , quando um acidente a impediu de cursar Medicina , sua primeira escolha profissional. Ela costumava dizer que foram dois os acidentes em sua vida: o bonde e Diego.
O grave acidente de trânsito em 17 de setembro de 1925 deixou destroçado o corpo de Frida, inviabilizou a maternidade, motivo de enorme frustração, sofrimento e dor nos três abortos sofridos. O acidente aconteceu dez anos antes, de outro dezessete de setembro, o nascimento de Helena marcado também por circunstâncias quase trágicas. Mas não foi só esta a coincidência que, guardadas as devidas proporções, aproximou a vivência das duas mulheres. O nome da mãe de ambas ser Matilde, a origem indígena, a de Frida oaxaquenha, a de Helena dos índios carijós. E ainda a rebelião, o gosto por tequila, e o amar e desejar com loucura. Ambas estiveram sempre em busca de algo que preenchesse o vazio e a angústia, na expectativa de encontrar através do amor, a resposta para a felicidade.
Exótica, ambígua, autentica, feminina traços responsáveis da admiração de Helena por Frida. O desejo de conhecer a Casa Azul, onde a artista nasceu e morreu a leva ao México. Acompanhada de Rodrigo, um amigo mexicano, chegam ao Museu Frida Kahlo, situado em um dos bairros mais belos e antigos da capital. Percebe de imediato a intensa relação da obra de Frida com sua casa. Cada objeto diz algo sobre a pintora. Coletes ortopédicos, que ela soube tão bem ocultar a verdadeira função, enfeitados com cores vivas e flores, lembram o sofrimento físico. Os vestidos e joias retratam a mulher vaidosa e a colecionadora. A cozinha e o comedor falam da vida cotidiana, mas nos remetem também as festas que Frida e Diego costumavam oferecer aos amigos, regadas sempre com muita tequila. A pintura azul por dentro e por fora lembra o aconchego do céu. A Casa Azul é a síntese do gosto do casal pela arte e cultura mexicana. Frida é o México antigo, no ritmo da dança, do uso de máscara de seus ancestrais, na figura da índia que amamenta e enlaça a criança.
A visita fascina Helena, mas sua maior curiosidade é saber mais do Modelo tehuana adotado por Frida. Conforme lhe conta Rodrigo, as mulheres desta tribo costumavam nos tempos do México antigo, enfeitar-se com  colares  e peças de ouro.E ainda  hoje  usam  acessórios  chamativos, blusas  azuis  ou laranjas e vestidos longos  com bordados coloridos.Mulheres sem inibição,sexualidade livre,apaixonadas  pela música  e pela dança e envolvidas pela magia.Verdadeiros símbolos da indianidade e da rebelião feminina. Tudo que Frida foi e tudo que Helena sempre quis ser.

Entusiasmada em conhecer as origens destas mulheres belas e audaciosas, aceita o convite do amigo e vão a Tehuantepec. Não encontra a mesma opulência do passado, mas herança e tradição estão presentes. Participa de uma festa.  Os nativos tocam canções delicadas e melancólicas em instrumentos primitivos. É um ritmo lento, mas que se pode valsear. Ela começa aprender com Rodrigo a Sanduga, dança estranha, com nome africano, que inicia lenta e depois se acelera progressivamente. Baila ao estilo das tehuanas, de pé descalços, com flores nos cabelos e com o vestido colorido e longo varrendo o chão. Helena sente a dança vibrante como uma expressão erótica do mundo pré-hispânico, um mundo que ainda vive, apesar da violência e da sujeição da conquista. Sente também que em Tehuantepec percorre um pouco os caminhos trilhados por Frida Kahlo.E nesta cidade  compreende  e  encontra  as raízes  do  sentimento  de  identificação  da  artista com  seu país.     




In: As Viagens de Helena, Marlene Canarim Danesi

Nota: o texto foi gentilmente cedido e enviado para postagem pela autora..