segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Segunda-feira poética: Mia Couto

As ruas

No tempo 
em que havia ruas, 
ao fim da tarde 
minha mãe nos convocava: 
era a hora do regresso. 
E a rua entrava 
connosco em casa. 
Tanto o Tempo 
morava em nós 
que dispensávamos futuro. 
Recolhida em meu quarto, 
a cidade adormecia 
no mesmo embalo da nossa mãe. 
À entrada da cama, 
eu sacudia a areia dos sonhos 
e despertava vidas além. 
Entre casa e mundo 
nenhuma porta cabia: 
que fechadura encerra 
os dois lados do infinito? 
- Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011.

Nota: o blog manteve a grafia original