quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Quarta-feira é dia de crônica: Lenine, Manuel Bandeira.

  Homens há que levam uma vida obscura e só depois da morte se vai tecendo a lenda em
que se lhes perfaz a glorificação. A outros, ao contrário, a lenda os anuncia. Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido, e em torno dele as imaginações trabalham, as informações contraditórias pululam, e à mercê desse lento processo de cristalização uma estranha figura vai avultando extra-real e muitas vezes com proporções até nitidamente inumanas. Lenine era para mim um desses nomes. E no entanto, preciso dizê-lo, Lenine foi uma das grandes decepções da minha vida. Assim acontece sempre quando a imaginação superexcitada longamente se encontra de repente face a face com a realidade no cotidiano das coisas.

Lenine!... Lembram-se como essas três sílabas começaram a aparecer no serviço telegráfico da guerra? No atordoamento das derrotas russas o nome se insinuava misteriosamente como de um habilíssimo espião a soldo de agentes alemães e servindo contra a própria pátria. Lenine era aquilo. Lenine era agente alemão? O nome por si só vivia de uma vida intensa. Dir-se-ia criação verbal de um grande poeta, um desses grandes artistas que guardam toda a força mesmo sob os gestos de maior carinho - um Bach na música umVillon na poesia, um Kreisler na virtuosidade. A pujante viridade doo vocábulo lhe vinha daquela líquida inicial, rica de associações com o felino formidável: Le...LEO,LEONIS. E toda essa força se abrandava de súbito na aliteração da doce dental nasal e com o "i" claro, infantil e corajoso.!

Depois do nome veio a imagem visual física. essa também me cativou enormemente, sobretudo os olhos pequeninos, com sua expressão arguta, maliciosa, cautelosa.

Quando, porém, chegou a hora de maiores intimidades, Lenine se mostrou já imbuído do que há de mais odioso no espírito pequeno-burguês: a preocupação do ganho, a cobiça dos bens materiais, o gozo e delícia da propriedade.

Se me encontrava na rua, pedia tostão. Se me via à janela, entrava a pedinchar quando deparava em minha sala: *** - me dá um livro! aquele! - Aquele é em francês, você não entende. - Então aquele! -Aquele é em inglês. - Não tem figura? - Não tem figura. - Deixe ver! E eu mostrava. Um silêncio. - Então me dá um biscoito! - Acabaram-se. - Então eu esbodego a porta!

Lenine nunca diz "esbodegar", mas coisa pior, que eu não posso citar aqui. Esbodegar a minha pporta é meter os pés nela, atirar pedra, rabiscá-la com giz ou carvão. Lenine inicia represália, mas interrompe-se muito espantado quando advirto:

- Lenine, você é um malfeitor. O que você está fazendo não passa de uma vesânia. É pura e simplesmente o rompimento unilateral de um contrato sinal agmático! toque de mal.

Lenine estende o dedo mindinho, toca de mal e vai e vai agitar a Polônia que é o cortiço de travessa do Cassino.

Uma tarde entrou-me quarto adentro um canarinho-da-terra. Devia ter fugido de alguma gaiola, porque se deixou prender com facilidade. Passarinho de gaiola não sabe viver solto na cidade. Morre de fome ou de pancada. De ordinário acaba caindo contente em algum alçapão. Meu vizinho do andar de baixo tem sempre o seu alçapão armado para esses fugitivos. O canarinho, porém, preferiu o alçapão maior do meu quarto, onde jamais cairá o passarinho verde dos meus sonhos.

Seguro o canarinho, tratei logo de convocar a trinca do Curvelo para que arranjassem uma gaiola - Lenine tem! Lenine tem!

Chamou-se Lenine, que compareceu de gaiola em punho e mais digno do que nunca. Entramos logo em negociações.

-Quanto quer pela gaiola? - Dois tostões! Era uma gaiola em petição de miséria. - Muito caro. Só dou mil-réis.

E fui logo passando a mão na gaiola, o que encheu de indignação o proprietário. Lenine abriu o berreiro, esbravejou e correu a apanhar pedras e desacatar - esbodegar - as minhas vidraças. A trinca fazia grande caçoada. ***

É assim Lenine: esquivo, irascível, exigente. Dana da vida quando a trinca o chama de tatuí de areia.

No entanto não lhe posso guardar rancor, porque se lhe digo: - "Lenine, você é um grande malandro! Não é?" ele me olha meio sério, meio rindo, com um ar tão meigo, tão lindo, tão cândido, que é de fazer inveja ao primeiro time dos anjos de Nosso Senhor.

Mas a questão social... Falando de Lenine, do Lenine do Curvelo, ao comunista Otávio Brandão, este me respondeu sem o menor entusiasmo: Um Lenine batizado...