segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Não Fotografei a Resignação, Regina Porto

     
Imagem: Regina Porto
Domingo passado fui fazer umas fotos. Queria fotografar coisa ou cena que por si traduzisse uma palavra. Qualquer que fosse. Estive  no marco zero do Recife onde  acontecia a feira de cultura japonesa. O pequeno bairro fervilhava com jovens skatistas, crianças de bicicleta e  admiradores de mangás. Estes, vestidos a caráter, desfilavam personagens. 
    Por todos os lugares havia quem, sozinho ou em grupo,  vestisse  roupas a  mim incompreensíveis com perucas azuis, amarelas e laranjas. 
   Apesar de caminhar bastante e de ver tanta gente fantasiada o que me chamou a atenção para fotografar foi um casal religioso. Ele, usando paletó e gravata, no mesmo lugar onde ficam todos os religiosos pregadores, sob o mesmo sol escaldante. Tinha um microfone e um amplificador perto de si. Pregava para plateia nenhuma, virando-se pra um lado e outro. Tinha as veias do pescoço dilatadas.  Passei  próximo mas no lado da sombra e vi que com ele estava um senhora aparentemente  de 75 anos.  Seguia o pregador, seria sua mulher?, com os olhos e com movimento bem contido, entregava um panfletozinho. 
   Ele exaltado e ela meio que paralisada, ambos torrando no sol. Não consegui fotografá-la apesar de ter nela a imagem perfeita da palavra resignação.
   Lembrei que, ano passado, naquele mesmo lugar e sob o mesmo sol escaldante encontrei um pregador que me indicou o caminho do inferno por causa de uma blusa de alcinhas que usava. Por comilança engordei e perdi a blusa, devo ter perdido o inferno também.   
   A lembrança da má sentença  jogada pra mim mais a postura e fisionomia daquela senhora mexeram tanto comigo que comecei a fazer mentalmente a história do casal. E, confesso, eu não estava sendo generosa com o pregador. 
   Fui tirada de minha crônica quando um grupo de jovens fantasiados chegou e um deles, com ar bem relaxado, simpático e educado, falou: vou ajudar.  Dito e feito: destruiu minha cena de resignação.          Uffa, ainda bem.