segunda-feira, 14 de julho de 2014

Era Uma Vez, Nadine Gordimer

                                    Alguém me convidou a participar de uma antologia de contos infantis.
Eu respondo que não escrevo contos infantis, e ele escreve de novo, retrucando que, em recente congresso/seminário/feira de livro, um romancista disse que todo escritor devia escrever pelo menos um conto infantil. Penso em mandar um cartão-postal, dizendo que não admito que “devia” escrever coisa alguma.
Então, na noite passada acordei, ou melhor, fui acordada sem saber o que foi que me despertou.
Uma voz no eco do subconsciente?
Um som.
Um rangido como aqueles que resultam do peso carregado por um pé após o outro sobre o assoalho de madeira. Eu ouvi. Senti os buracos das minhas orelhas distenderem-se por causa da concentração.
Novamente: o rangido. Eu o aguardava; esperando ouvir se indicava pés em movimento entre um cômodo e outro, vindo pelo caminho - até a minha porta. Eu não tenho grades nas portas, ou arma sob meu travesseiro, mas tenho os mesmos medos das pessoas que tomam tais precauções, e os vidros da minha janela são finos como uma fina camada de gelo, poderiam espatifar-se como uma taça de vinho. Uma mulher foi assassinada (assim foi divulgado) em pleno dia numa casa a dois quarteirões, no ano passado, e os cães bravos que tomavam conta de um viúvo idoso e da sua coleção de relógios antigos foram estrangulados, antes que ele fosse esfaqueado por um serviçal que demitira sem pagamento.
Eu encarava a porta, visualizando-a em minha mente em vez de vê-la. Estava deitada, imóvel - já vítima - mas, em arritmia, meu coração disparava, debatendo-se por todo lado contra o corpo que o aprisiona.
Impressiona como os sentidos se ajustam rapidamente, recém-saídos do repouso, do sono! Jamais consegui ouvir, com tal empenho, durante as distrações do dia; eu lia cada som mais apagado, identificando e classificando sua possível ameaça.
Mas eu percebi que não seria ameaçada, nem poupada. Não havia peso humano comprimindo a madeira; o ranger era um empenamento, um epicentro de estresse. Eu estava no meio dele. A casa ao meu redor, enquanto durmo, está edificada sobre solo debilitado; longe, abaixo da minha cama, o chão, os alicerces da casa, os degraus escavados e as passagens de minas de ouro deixaram a rocha oca, e quando alguma face tremula, desprende-se e cai, mil metros lá embaixo, a casa toda mexe um pouquinho, gerando uma deformação perturbadora no equilíbrio e contrapeso de tijolo, cimento, madeira e vidro que a sustentam como estrutura em torno de mim. Os batimentos erráticos do meu coração calavam-se como os últimos prelúdios sufocados sobre um dos xilofones de madeira construídos por gente chope e tsonga, mineiros migrantes que poderiam estar lá no fundo, sob mim, na terra, naquele instante. O degrau escavado, onde ocorreu a queda, podia estar em desuso, água  gotejando de suas veias rotas; ou homens talvez estivessem, agora, sepultados lá, no túmulo mais profundo de todos.
Não conseguia achar uma posição em que minha mente deixasse meu corpo em paz - libertando-me para que voltasse a dormir. Então comecei a contar a mim mesma uma história, um conto de ninar.
Numa casa, numa afastada área nobre, numa cidade, havia um homem e a sua esposa, que se amavam muito e que estavam vivendo felizes para sempre. Tinham um filhinho, e eles o amavam muito. Tinham um carro e um rebocável para as férias, e uma piscina, cercada
de modo que o filhinho e seus amiguinhos não caíssem e se afogassem nela. Tinham uma empregada que era absolutamente confiável e um jardineiro itinerante, muito bem recomendado pelos vizinhos. E então, para que começassem a viver felizes para sempre, foram alertados pela sábia bruxa velha, a mãe do marido, para não acolher ninguém que vivesse nas ruas. Tinham plano de saúde, o cão de estimação era vacinado, possuíam seguro contra incêndio, inundação, furto, e pagavam os Vigias do Bairro do local, o que lhes dava direito de afixar em seus portões uma placa, com as letras VOCÊ FOI AVISADO acima dasilhueta de, quem sabe, um futuro invasor. Ele usava uma máscara; não se podia dizer se era preto ou branco, e - assim - ficava evidente que o proprietário não era racista.
Não foi possível assegurar a casa, a piscina, ou o carro contra danos decorrentes de manifestações violentas. Havia manifestações, mas elas aconteciam fora da cidade, onde ficavam as pessoas de outra. Essas pessoas não tinham permissão para entrar no bairro nobre, a não ser na condição de empregadas de confiança ou de jardineiros; então, não
havia o que temer, o marido disse à esposa. Mesmo assim ela receava que, um dia desses, aquelas pessoas pudessem vir pela rua e arrancar a placa VOCÊ FOI AVISADO, e abrir os portões e infiltrar-se... Bobagem, querida - disse o marido -, há policiais e soldados e gás lacrimogêneo e armas para mantê-las distantes. Mas para agradá-la - pois ele a amava muito, e ônibus estavam sendo queimados, carros apedrejados, crianças em idade escolar sendo alvejadas por policiais naquelas áreas distantes dos ouvidos e olhos da remota área nobre - tomou providências para que portões eletronicamente controlados estivessem instalados.
Qualquer um que tentasse arrancar a placa VOCÊ FOI AVISADO e abrir os portões precisaria anunciar suas intenções, apertando um botão e falando pelo receptor sonoro colocado no interior da casa. O garotinho ficou encantado com o equipamento e utilizava-o como walkie-talkien nas brincadeiras de polícia e bandido com seus amiguinhos.
As manifestações foram suprimidas, mas havia muitos furtos em residências da área nobre, e a empregada de confiança de alguém foi amarrada e trancada num armário por invasores enquanto ela cuidava da casa dos patrões. A empregada de confiança do homem e da mulher e do filhinho ficou tão perturbada por causa do infortúnio que recaiu sobre uma amiga que ficou, assim como ela mesma muitas vezes ficava, com a responsabilidade de cuidar dos bens do homem e da sua esposa e do garotinho, que ela implorou a seus patrões que instalassem grades de segurança nas portas e janelas da casa, e um sistema de alarme. A esposa disse, Ela tem razão, devemos levar a sério o pedido. Então, de cada janela e porta na casa em que viviam felizes para sempre, eles agora viam as árvores e o céu por entre as barras, e quando o gato de estimação do filhinho tentava entrar, subindo pela claraboia da porta, para ficar com o dono, durante a noite, na caminha do menino, como era de costume, o animal disparava pela casa os gritos de lamentação do alarme.
O alarme era frequentemente respondido - parecia - por outros alarmes contra ladrões, de outras casas, que teriam sido disparados por gatos de estimação, ou camundongos em busca de comida. Os alarmes conclamavam uns aos outros pelos jardins, aos gritos e berros e urros com os quais todo mundo logo se acostumava, de forma que o estrondo instigava os habitantes da área nobre quase como o coaxar das rãs e o roçar musical das pernas das cigarras. Sob a proteção do discurso das harpias eletrônicas, os invasores serravam as barras de ferro e arrombavam as casas, levando embora equipamentos de som, aparelhos de televisão, toca-fitas, máquinas fotográficas e rádios, joias e roupas, e - às vezes - sentiam fome bastante para devorar tudo o que havia na geladeira, ou tinham a audácia de descansar e beber uísque que achavam nos armários ou nos bares das áreas de lazer. As seguradoras não pagavam indenizações por puro malte, um prejuízo exacerbado pelo fato de o dono da propriedade saber que os ladrões sequer tinham condições de apreciar o que bebiam.
E então chegaram os dias em que muitas das pessoas que não eram empregadas de confiança ou jardineiros ficavam por ali, na área nobre, porque estavam desempregadas. Algumas delas importunavam, procurando serviço: capinar ou pintar o telhado; qualquer coisa, dotô,dona. Mas o homem e a esposa lembraram-se da advertência sobre acolher qualquer um das ruas. Alguns bebiam álcool e sujavam a rua com garrafas abandonadas. Alguns mendigavam, esperando o homem ou a esposa tirar o carro, passando pelos portões controlados eletronicamente.
Sentavam-se com os pés na sarjeta, embaixo dos jacarandás que faziam da rua um túnel verde — pois era uma bela área nobre, estragada pela presença daquelas pessoas - e por vezes pegavam no sono, deitadas bem na frente dos portões, sob o sol do meio-dia. A esposa não conseguia ver ninguém passando fome. Ela enviava a empregada de confiança, com pão e chá, mas a empregada de confiança dizia que se tratava de vagabundos e malandros, que iriam amarrá-la e trancá-la no armário. O marido dizia, Ela tem razão. Ouça o que ela diz. Você só os incentiva com seu pão e chá. Eles estão esperando a oportunidade... E ele trazia o triciclo do filhinho, lá do jardim, para dentro da casa, todas as noites, porque - se a casa ficava absolutamente segura, uma vez que fosse trancada, com o sistema de alarme ativado, alguém ainda poderia conseguir entrar no jardim, pulando o muro ou os portões fechados eletronicamente.
Você tem razão, disse a esposa, então o muro precisa ser mais alto. E a sábia bruxa velha, a mãe do marido, pagou pelos tijolos extras, como presente de Natal para o filho dela e a esposa dele - o garotinho ganhou uma fantasia de Astronauta e um livro de contos de fada.
Mas a cada semana surgiam mais relatos de invasão: em plena luz do dia e na calada da noite, no comecinho da manhã, e mesmo durante o lindo crepúsculo do verão - certa família jantava enquanto os quartos eram revirados no andar superior. O homem e sua esposa, conversando sobre o último roubo à mão armada no bairro, foram distraídos pela visão do gato de estimação do filhinho, chegando tranquilamente por cima do muro de mais de dois metros de altura, primeiro descendo com um rápido apoio das patas dianteiras esticadas para baixo, sobre a superfície completamente vertical e, depois, um lançamento gracioso, aterrissando no interior da propriedade, com o rabo executando movimentos delicados. A parede caiada
tinha marcas das idas e vindas do gato; e na parte do muro que dá para a rua havia borrões maiores em vermelho-terra, que poderiam ter sido deixados pelos tipos de tênis estragados que se viam nos pés de desempregados indolentes, sem qualquer destino inocente.
Quando o homem e a esposa e o filhinho levavam o cão de estimação para o passeio pelas ruas do bairro, não paravam mais para admirar a exposição de rosas ou os gramados impecáveis; tudo estava oculto atrás de uma sequência de grande variedade de cercas, muros e dispositivos de segurança. O homem, a esposa, o filhinho e o cachorro passavam por uma notável diversidade: Havia a opção de baixo custo, com pedaços de vidro fincados em cimento sobre toda a face superior de cada muro, havia as grades de ferro com lanças nas pontas, havia as tentativas de reconciliar a estética da arquitetura carcerária com o estilo das Villas espanholas (pontas pintadas em cor-de-rosa) e as urnas plásticas das fachadas neoclássicas (pontas de trinta centímetros, cheias de barbatanas, como se fossem zigue- -zagues de relâmpagos pintados em branco puro). Em alguns muros foram colocadas pequenas placas, divulgando nome e telefone da empresa responsável pela instalação dos dispositivos.
Enquanto o filhinho e o cão de estimação corriam na frente, o homem e a esposa se deram conta de que estavam analisando a possível eficácia de cada estilo, contrapondo-a ao seu aspecto visual; e, depois de várias semanas, quando eles pararam diante desta ou daquela barricada, sem precisar falar, ambos chegaram à conclusão de que somente uma delas valeria a pena. Era a mais feia, porém a mais honesta em seu estilo puro, sugestivo de campo de concentração, nada de firulas, simplesmente a evidente eficácia. Instalada em todo o perímetro dos muros, consistia de uma serpentina contínua de metal rígido e brilhante, serrilhada no formato de lâminas pontiagudas, de modo que não haveria como passar sobre ela, nem como passar pelo seu túnel interior sem se entranhar nas suas presas. Não teria como sair; somente uma batalha cada vez mais sangrenta, um fisgar e rasgar de carne mais profundo e mais cortante. A esposa estremeceu de olhar para aquilo. Você tem razão, disse o marido, qualquer um pensaria duas vezes... E eles seguiram a recomendação na pequena placa posta no muro: Fale com DENTES DE DRAGÃO As Pessoas Certas
Para Segurança Total.
No dia seguinte, uma tropa de trabalhadores chegou e esticou os rolos de cerca com lâminas afiadas sobre todos os muros da casa em que o marido e a esposa e o filhinho e o cão de estimação e o gato estavam vivendo felizes para sempre. O sol brilhava e a sua luz era refletida, sobre os recortes; os contornos dos espinhos afiados cercavam a casa, reluzentes.
O marido disse, Não se preocupe. Vai ficar mais discreta com o tempo. A esposa disse, Você se engana. Eles garantiram que é à prova de ferrugem.
Então esperou o filhinho ter corrido para longe, para brincar, antes que ela dissesse, Espero que o gato tome cuidado... O marido disse, Não se preocupe, querida, os gatos sempre olham antes de pular. E é verdade que, a partir daquele dia, o gato dormiu na cama do garotinho e nunca mais foi além do jardim, jamais arriscando violar a segurança.
Numa noite, para que o filho dormisse, a mãe lia um conto de fadas do livro dado pela sábia bruxa no Natal. No dia seguinte, ele fingiu ser o Príncipe que enfrenta a terrível moita de espinhos para adentrar o palácio, e beijar a Bela Adormecida e trazê-la de volta à vida: Ele arrastou uma escada até o muro; o túnel enrolado e reluzente tinha bastante espaço para que seu pequeno corpo deslizasse por seu interior, e com a primeira fisgada dos dentes cortantes em seus joelhos e mãos e cabeça, ele gritou e debateu-se e enroscou-se mais profundamente. A empregada de confiança e o jardineiro itinerante, de quem era aquele “dia”, vieram correndo; os primeiros a vê-lo e a gritar junto com ele, e o jardineiro itinerante rasgou as mãos tentando alcançar o garotinho.
Então o homem e a esposa correram desesperadamente para o jardim e, por algum motivo (o gato, provavelmente), o alarme disparou, berrando contra os gritos, enquanto a massa hemorrágica do garotinho era removida da cerca de segurança com serras, cortadores de arames, talhadores, e eles a carregaram - o homem, a esposa, a histérica empregada de confiança, o jardineiro aos prantos - para dentro da casa.

Tradução de:MARCELO CONCÁRIO
Professor Assistente Doutor, Língua Inglesa, Departamento de Ciências Humanas
- Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação - Unesp Bauru, SP.

E-mail: mconcario@faac.unesp.br