quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Quarta-feira é dia de: Medo de Injeção é Boiolice, Dirceu Kuhn


Um vizinho me confessou um humilhante desassossego diante das medicações injetadas via subcutânea, intramuscular ou endovenosa. Eu, corajoso em qualquer situação, quase não contive o sarcástico riso debochador. Pensei comigo mesmo que esse negócio de homem sentir medo não passa duma fraqueza inexplicável; uma, digamos, falta de coragem pra assumir o lado... feminino... Ao inverso de mim, que me julgo deveras valente, destemido, uma impávida fortaleza de cálcio petrificado (tenho ossos fortes; aliás, quase só tenho ossos).
Pois sou neto de alemães bravios (verdade que meus ascendentes rapidamente fugiram ao Brasil na Segunda Guerra Mundial. Mas fugiram porque eram machos e não bobos!). Retomando o fio da miada, eis que nasci nas selvas paranaenses, nas quais amedrontei cascavel no chute e destrocei jaguatirica no dente: isto quando não brincava de agarrar jacaré à unha e espantar marimbondo a soco! (alguma dúvida quanto à masculinidade retumbante?). Contudo, porém, entretanto e todavia, apesar de tanta robustez e ousadia, não saí do ventre materno assim tão inabalável não.
Porque, uma vez criança (criancinha), me deparei frente a frente com algumas coisas aterrorizantes. Uma delas foi no dia em que pela primeira vez trepei... trepei numa árvore desafiadora. Terminou possuindo-me um pequeno medo corriqueiramente latente se em altura superior à incrível marca de... um metro. Então, abraçado ao tronco igual tamanduá robusto ou bicho-preguiça amedrontado, fechei os olhos e berrei até o meu pai me recambiar de lá (contra a vontade, ressalto). No entanto, intentando a perfeição, fui paulatinamente me elevando mais e mais sem sentir tonturas, enjoos, ânsias de vômito, e demais sintomas de falsa gravidez. Hoje, numa prova de inacreditável evolução, subo tranquilamente à cerca de quinze metros do solo sem me borrar todo (se vinte, enfarto).
Outro desafio assombrante de que me considero definitivamente liberto? Sim, o de dormir sozinho no escuro. Houve tempos a jamais cair no sono sem ouvir um “Nana neném, que a cuca vem pegar”. Somente esta cantoria espantava o pavor de bicho-papão, fantasma, alma penada, boitatá, água-viva, água-morta, saci-pererê, mula-sem-cabeça, Papai Noel, coelhinho da Páscoa, monstros, vampiros, assaltantes, deputados. Atualmente, e assumida esta condição de adulto, crescido, consciente, absolutamente nada perturba (embora ainda vigente o medo dos deputados). Aliás, também efervesce em mim um estagnante calafrio do calcanhar à testa se penso em cemitério ou disco voador. Não passo à noite perto dum campo-santo nem morto, não ponho o pé fora de casa às sexta-feiras nem pra urinar, não me aproximo de qualquer lugar escuro nem se iluminado. Enfim, apenas utilizo os mais lógicos critérios de mera precaução por não me faltar coragem, que fique claro.
Dentre estes, cito: não cruzar por debaixo de escadas; fugir sumariamente de prováveis e improváveis discussões; trancar as portas e janelas usando três sistemas de fechadura; cobrir a cabeça com travesseiros a fim de não escutar ruídos nem gemidos horripilantes; não assistir filmes de terror e violência nem amordaçado; não olhar de forma direta nem indireta à mulher do próximo se o próximo está próximo (este último, sem falseamentos, já enfrento bravamente).
Por complemento, vivo rezando nove vezes ao dia no propósito de se afastarem de mim os acidentes, incidentes, dementes, inclementes, advogados, endemoninhados, viciados, afogamentos, atropelamentos, estrangulamentos, agiotas, marmotas, poliglotas, alucinações, assombrações, despressurizações, dragões, escorpiões, eletrocussões, furacões, hipermedicações, insolações, inundações, tubarões, vulcões, androides, debiloides, andromedranos, jupiterianos, marcianos, netunianos, plutanianos, saturnianos, uranianos, venusianos, anti-cristos, árbitros de futebol, arranhas, asfixias, bruxarias, feitiçarias, histerias, magias negras, ataques cardíacos, ataques epiléticos, balas perdidas, balas certeiras, buracos negros, buracos brancos, cachorros loucos, caiporas, capetas, carcereiros, maconheiros, carrascos, centauros, dinossauros, minotauros, tiranossauros, chupa-cabras, ciclopes, claustrofobias, cleptomanias, hidrofobias, cobradores, devedores, doutores, escritores, gladiadores, sequestradores, cobras venenosas, coices de cavalo, chifradas de touro, comas alcoólicos, cometas, corruptos, curumins, derrames cerebrais, encostos, entrecostos, endemoninhados, falsos profetas, charlatães verdadeiros, fanáticos, fantasmas, fuligens, vertigens, hecatombes, hereges, hidras, invejosos, lobisomens, lobos maus, lunáticos, maldições, mamutes, maremotos, terremotos, mastodontes, rinocerontes, maus-olhados, maus espíritos, medusas, meteoritos, meteoros, monstros titânicos, morcegos, necroses, neuroses, verminoses, onças, pedaços de satélite ou foguete, perversos, pesadelos, piripaques, polvos gigantes, pragas, produtos tóxicos, raios, sanguessugas, tonturas, ursos polares, astros celestes, astros de reality show, e demais riscos costumeiros.
Em suma, finalizando e destacando o lado pedagógico deste escrito, repasso gratuitamente aos mais medrosos um infalível método de enfrentamento de medos, especialmente em relação ao chilique das injeções. Ei-lo: Exiba coragem de sobra, não sue gelado, não se deixe levar pela quentura no rosto, não grite, não tema, nem trema. E como? Ora, ouça as sábias vozes da experiência e faça como eu: desmaie antes (os mal-estares acabam instantaneamente).


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