domingo, 14 de julho de 2013

A Arte Virou Bobagem - Ferreira Gullar

Entrevista concedida à jornalista Luiza Maia e originalmente publicada no Diário de Pernambuco em 10.07.2013



Qual a sua opinião sobre os protestos recentes?
Eu acho que é uma coisa muito importante, que o povo tenha finalmente despertado. Na crônica que escrevo (para o jornal Folha de S.Paulo), falava sobre o fato de ninguém protestar. Parece todo mundo indiferente à corrupção, às coisas mais absurdas. O Congresso é uma vergonha. A PEC 37 é uma coisa evidentemente feita para anular a ação do Ministério Público, porque é uma ameaça aos corruptos. E isso iria ser aprovado, porque é do interesse deles. Com esse movimento, eles recuaram.

O que o senhor achou dos pronunciamentos de Dilma Rousseff?
Um oportunismo. Primeiro, ela falou como se fizesse parte do protesto, não como se fosse um dos alvos. “Vamos fazer um plebiscito, realmente é preciso combater a corrupção”. Mas a corrupção vergonha está aí desde o mensalão e eles tomam medidas para impedir que a punição seja levada a cabo. A direção do PT chegou a mandar petistas para o movimento, para fazer de conta que eles faziam parte do protesto. É tudo uma mentirada, uma farsa, para se safar diante de um movimento do país inteiro.

Quem vai sair fortalecido desse momento político?
Certamente a oposição. As pessoas que não estão diretamente envolvidas com o governo sofrem menos, embora o movimento seja contra todos os políticos. Indistintamente, eles veem que, no Congresso, tudo é feito com o objetivo de manter o poder, que é a característica do populismo. Essa manifestação que está na rua é da classe média, não é do pobretão, do cara do subúrbio, do favelado que recebeu Bolsa Família. Quem está na rua é a classe média, que não recebeu nada e não tem educação, saúde. Ela que paga o pato porque o Lula resolveu fazer um governo para o povo ignorante que, recebendo R$ 200 por mês, vota nele de olhos fechados.

Suas críticas a Lula sempre foram mais ferrenhas do que as críticas a Dilma…
Porque ele é que é o responsável. Ela é um instrumento dele, faz o que ele manda. Agora, com as passeatas, ela se tocou para São Paulo para saber a opinião dele. Um presidente da República ir atrás do ex-presidente para saber o que vai fazer?! Não existe isso. Aí ela não sabe o que fazer e propõe um plebiscito. Aí é inconstitucional. E já voltou atrás. Evidentemente, ela tem assessores para dizer que aquilo é inviável. Mas tinha que fazer alguma coisa para dar a entender à opinião pública que não é ela o objetivo do protesto e que ela está a favor das manifestações populares. Mas como? Se eles são o governo há 10 anos? Quem é o responsável, se não eles? É Deus?

Se o senhor fosse fazer a pauta dos protestos, o que reivindicaria?
O que eles estão dizendo é exatamente isto? Educação, saúde, segurança, são as coisas fundamentais. Setores nos quais não foram feitos investimentos. É infraestrutura, estrada. O Brasil está numa posição econômica complicada porque não consegue competir com os outros países na exportação de seus produtos. Do lugar onde é produzida até chegar ao porto aonde vai, as estradas são péssimas, as condições de transporte são péssimas. Termina ficando uma coisa muito cara, que não consegue competir. Por que isso? Porque não se investiu.

Quais são os candidatos mais fortes para as próximas eleições?
Os candidatos que tem aí são o Eduardo Campos, que é um candidato importante, do Partido Socialista Brasileiro, é o Aécio (Neves), que está se pronunciando, está mais ativo atualmente, é a Marina. E levantaram o nome do Joaquim Barbosa. Se o Eduardo, o Aécio e a Marina se juntassem e fizessem do Barbosa o candidato, ganhariam a eleição, porque ele representa o oposto do que está aí. E eu acho que ele não está repelindo a ideia com muita veemência.

O senhor apoiaria?
Sim, porque tem que sair. Se os partidos perderam a importância, só uma personalidade determinada poderia abrir o caminho. É difícil, porque não há nenhum grande líder. E os partidos perderam a importância diante da população.

O que o senhor acha da expulsão de pessoas com bandeiras políticas nos protestos?
Não acho bom nem ruim. Mas eles não poderiam aceitar isso, porque o movimento não é partidário. Eles não poderiam deixar que A ou B se aproveitasse daquilo. Os partidos não fizeram nada, nem os de esquerda. Na hora em que o povo vai para a rua, eles querem aderir? Aí é oportunismo. Isso dá uma dimensão maior: “não estamos aqui em nome de partido, mas em nome do país, da nação”.

O que o senhor acha de Eduardo Campos?
Acho que poderia ser um nome. O próprio Aécio poderia ser. A Marina é inteligente e tem uma postura íntegra. Mas o que atrapalha é esse lado evangélico.

O senhor faz duras críticas à arte contemporânea. Ainda acompanha as exposições?
Não vou me tocar daqui para Paris para ver exposição. De quê? De cocô na lata? De urubu na gaiola? Pessoas nuas no MoMa? A arte virou uma bobagem. Eu não quero saber disso. Se forem casais nus em casa, não é obra de arte. Se for no museu, é. Então é o museu que transforma aquilo em obra de arte? Mas que vanguarda é essa, que precisa da instituição para ter valor? É uma decadência. Existem os caras que continuam pintando, fazendo seus trabalhos, mas esses não têm vez. O cara não vende os casais nus. Então ele fica famoso e vende o desenho que faz, que é em geral de má qualidade. O Tunga expôs uma vez uma bola gigantesca de cobre desfiado numa galeria. Aí perguntei “ele vende isso?”. “Não, ele vende isso”. E abriu a gaveta e mostrou os desenhos. A exposição dá notícia, discussão, é um artista de vanguarda, famoso. Então, se eu tiver um desenho dele, já estou contente. Duvido que alguém ache de fato que três urubus em uma gaiola são arte. Pode ter um esnobe que invente uma teoria cretina, mas ninguém acha, só se for débil mental. É uma besteira, uma bobagem.

Quais as bases dessa arte contemporânea?
Alguma razão tem. Não é um coisa gratuita. Tem a ver com essa sociedade midiática. Tem a ver com o processo de vanguarda no início do século 20, que destruiu a linguagem da arte. Tem uma série de fatores envolvidos. Mas, certamente, isso que se chama arte contemporânea não sobrevive. As bienais estão acabando. Claro, não tem mais arte. Vai expor o quê? Isso é uma crise profunda. É uma coisa grave. E isso é a expressão de uma crise.

O senhor acredita que essa arte contemporânea vai acabar?
Já está acabando. O que resta disso são os últimos vagidos de um troço que está no fim. Vai ficar a vida inteira colocando gente nua, urubu? Chega uma hora que perde a graça? Aliás, já está perdendo. A própria Bienal (de São Paulo) não tem mais aquelas obras que tinha antigamente. Uma grande parte da Bienal já tem pintura, porque é o que as pessoas fazem de interessante.

A arte contemporânea estaria se reinventando?
Eu não sei o que vai acontecer, não sou profeta. Só digo que isso não se mantém. É uma bobagem. Isso não se mantém. Os museus dão abrigo a isso porque fazem parte do mesmo esquema midiático. O diretor do MoMa não tem coragem de dizer que não vai colocar casais nus para não ser chamado de retrógrado. Então aceita qualquer coisa. Não tem coragem de dizer que é bobagem, para não ser tachado de reacionário. Duvido que o cara leve o urubu para casa como obra de arte. Nem o urinol do Duchamp o cara bota na sala.

Quem faz arte no Brasil hoje?
Siron Franco, João Câmara, do Recife, tem outros pintores no Recife, aqui no Rio, tem Ana Letícia, que continua fazendo arte. Não tem a repercussão que teria em outras circunstâncias, porque hoje a repercussão é para essas bobagens.

O senhor acompanha os jogos da Copa das Confederações? (entrevista realizada antes do encerramento do campeonato)
Acompanho, vejo com minha companheira, Cláudia, a família.

O que o senhor acha das campanhas contra a Copa do Mundo?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A campanha é contra o dinheiro gasto nos estádios. Fazer um estádio de futebol gastando um R$ 1,2 bilhão (preço do Mané Garrincha, em Brasília) é um absurdo. Não há futebol profissional em Brasília. Mas a presidente da República tinha que inaugurar o estádio.

O senhor acredita que a conquista da Copa do Mundo pode ter efeito político, como em 1970, guardadas as devidas proporções?
Sempre tem, mas eu duvido que o Brasil ganhe a Copa do mundo. Mas não sou contra. A vida política de um país como Brasil, de 240 milhões de habitantes, não é assim. Isso tem uma influência momentânea, em um ponto ou outro. É muito bom que ganhe, porque tem o aspecto de conformismo, mas também de otimismo, até de lutar, acreditar no país. É bom.

Na internet, muitos reclamaram de uma virada da cobertura midiática dos protestos. O que o senhor acha disso?
Eu não vi isso. Não vi a imprensa contra a manifestação em momento algum. Quem mais critica o governo é a imprensa. E eles estão reclamando dessas coisas porque viram na imprensa. Eles vivem no Congresso, sabem o que está acontecendo lá? A imprensa teve um papel muito grande nessa rebelião, ajudou a opinião pública a saber o que estava acontecendo.

Há quem diga que esse momento é propício a uma nova ditadura. O que o senhor acha?
Não é provável que isso aconteça, mas entendo que certas pessoas temam. Não está inteiramente fora das possibilidades. Hoje, as forças armadas brasileiras não querem dar golpe. Mas uma situação como essa, que nega os partidos, que nega as instituições que estão aí poderia conduzir a uma situação dessas. Mas não vai acontecer isso. Primeiro, porque o movimento tem uma base real. De fato, a corrupção existe, ninguém está inventando coisas. As reivindicações são reais. E as próprias forças armadas não estão metidas em golpe. Têm outra cabeça. Naquela época, tinha o problema da Guerra Fria, comunismo contra capitalismo, os Estados Unidos infiltrados na América do Sul, estimulando golpes. Tinha um contexto político mundial. Não era uma coisa gratuita, que os militares resolveram dar golpe.

Naquela época, você era comunista…
O capitalismo produz riqueza que o socialismo não produz. Cuba é um desastre econômico. Socialismo tem a boa intenção de fazer sociedade justa, mas o caminho não é esse. Provou que está errado. Você não pode fazer sociedade justa sem produzir riqueza. No capitalismo, você está conversando e tem um milhão de pessoas inventado empresas. A economia é movida pelas pessoas, não por burocratas. O problema do capitalismo é a distribuição desigual, mas quem produz riqueza é o capitalismo.

E como resolver essa desigualdade?
Já avançou muito. Porque o capitalismo do século 19, quando Marx escreveu (O capital), era absurdo. O cara não tinha aposentadoria  trabalhava até morrer. Marx influenciou a mudança da relação capital e trabalho. No século 20, os trabalhadores passaram a ter direitos. Essa é a grande revolução. A intenção era boa, mas deu errado. Tem que reconhecer o que o capitalismo tem de positivo, que é a produção da riqueza, mas dividir com critério de igualdade. Não acredito em uma sociedade inteiramente justa, porque a natureza é injusta. Faz um cara competente e outro incompetente, faz um Pelé e um cara que não sabe chutar, faz um Bill Gates e um idiota, faz um cara saudável, atlético e um como o filho da minha empregada, que não fala, não anda. As pessoas são iguais segundo seus direitos, não segundo suas qualidades. O que não pode é o incompetente morrer de fome. Tem que ter uma maneira – e isso não sou quem vai resolver – de a sociedade ser menos desigual.