sábado, 9 de março de 2013

Comprei um livro e ganhei pedrinha..

Livro, marcador e pedrinha branca.
Coisa interessante me aconteceu: simpatizante de sebos e, sem modéstia, habilidosa em achar boas coisas, comprei recentemente Poesias Completas de Joaquim Cadozo. Negocição rápida, informações dadas, pagamento efetuado aguardei. No dia aprazado, o vendedor informa o código de postagem dos correios e me envia uma crônica.  Fiquei encantada com a forma inusitada do pós venda.


Pedras Brancas





Para descansar, não há nada melhor do que uns dias na praia. Não digo aqueles de alta temporada, pois nessa época é provável que a pessoa volte mais cansada do que foi.

Sei que essa questão de gosto é individual. Para alguns uma semana de compras em país estrangeiro é deleite garantido, para outros é o contato com as matas fechadas, outros ainda relaxam enquanto visitam museus dos mais diversos tipos. Cada um tem sua preferência. Quem irá dizer o que realmente nos faz bem, senão nós mesmos?

A última vez em que estive na praia, fiz a coisa que mais gosto de fazer, por ali, que é caminhar descalço na areia. Ah como é bom caminhar na areia! Os pés tocando o solo, descarregando nosso corpo das vibrações negativas. Caminhando, comecei a pensar nas pessoas que amo. A maioria estava longe e me deu uma vontade muito grande de estar perto delas.

Imediatamente me pus a pegar do chão pedrinhas brancas. Por que brancas? Os motivos, irei dizer a seguir. Escolhi as de cor branca, por simples analogia à cor da paz e da pureza. E, diante de tanta variedade de pedras, haveria de fazer uma escolha, porque senão juntaria uma pedreira.

Fui caminhando ali, agachando a cada pedra “preciosa” que encontrava, e colocando-as em um saquinho de plástico. Levaria comigo quantas fosse capaz de recolher.

Há algum tempo um livro me ensinou que não existe nada, mas nadinha, mais precioso do que o poder da gratidão. É certo que se deve almejar sempre algo mais ou melhor. Mas, por outro lado, não conseguiremos isso maldizendo a vida que possuímos, as coisas materiais que temos, reclamando das pessoas em torno de nós.

Um dos autores desse livro queria dedicar um ou dois minutos de seu dia para agradecer por tudo aquilo que a vida lhe entregara, mas, com o atropelo da rotina, quase sempre se esquecia. Um dia, olhando uma gaveta, achou uma velha pedrinha que sua filha, quando ainda era uma criança, lhe deu como presente. Sorriu com satisfação. Era uma lembrança boa. Agradeceu pelos filhos perfeitos que possuía.  

Pegou a pedra na mão e teve uma brilhante ideia: “Vou levar essa pedrinha comigo, em meu bolso, todos os dias”. Todas as manhãs a rotina se cumpria, junto a sua carteira, aliança, celular, lá estava sua pedrinha. Ao pegá-la agradecia em pensamento tudo aquilo que fazia parte de sua vida. À noite, quando chegava em casa, repetia o ritual ao contrário, pois ao esvaziar os bolsos estava lá o “lembrete” simbolizado pela pedra. E, novamente, fazia seus agradecimentos.

Esse livro diz que se há alguma coisa de extrema relevância em nossos pensamentos é a força da gratidão. Após tomar conhecimento, adorei a ideia e fiz o mesmo. Interessante lembrar que tinha guardado uma pedrinha que minha filha Maria me deu, então automaticamente passei a adotar tal procedimento.

Enquanto caminhava na praia, tive a ideia de levar “pedrinhas da gratidão” a todos os que me são caros, pois, juntamente com um papel escrito, entenderiam os motivos que me levaram a presentear meus amigos e familiares com simples pedras brancas.

Já no caminho de volta, pensei na cena: eu dando uma pedra para cada um. Fiquei com vergonha. Naquele momento pensei: as pessoas não vão entender o meu presente, algumas prefeririam camisetas, bonés, ou qualquer coisa que se possa usar sobre o corpo. Desisti da ideia pensando que alguns iriam dizer que fiz isso simplesmente por economia... Penso que muitos não entenderiam o que imaginei.

Muito mais importante do que um presente que proporcione o uso é oferecer um presente que provoque alguma mudança positiva nas pessoas. Mas não tive peito pra isto. Ao desfazer as malas foi deixada na estante da sala a riqueza que eu trouxera da praia: minhas pedras brancas.

Fui até o tanque e lavei-as, para tirar o que sobrou de areia. Depois coloquei-as em um vidro e completei com água juntamente com um produto para deixá-las mais claras. Minha tristeza foi não conseguir fazer como havia planejado, faltou-me coragem; e, por isto, as deixarei à espera de pessoas que valorizem as pequenas coisas.

Quem aí, entre os meus leitores, gostou da ideia que me procure, pois poderei entregar uma pedrinha dessas a você. Porque elas são muito preciosas para estarem nas mãos de pessoas que não as valorizem. Então escolhi entregá-las à medida que forem sendo pedidas. Sei que muitos daqueles para os quais peguei as pedras irão pedi-las. Posso ter feito mau juízo de alguns, mas, podem ter certeza, cada um dos que pedir me trará uma alegria para o coração. Saberei então que estamos sintonizados na mesma rádio. Será um prazer poder dividi-las.


Beto Chade 

Livreiro dos Araçás
Na Estante Virtual:
http://www.estantevirtual.com.br/livreirodosaracas