quarta-feira, 11 de julho de 2012

Quarta-feira é dia de: Monteiro Lobato.


      Houve uma jovem cigarra que tinha de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
     Mas o tempo passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados passavam o dia cochilando nas tocas.
     A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
     Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se foi para o formigueiro. Bateu - tic tic-tic...
     Aparece uma formiga friorenta embrulhada num xalinho de paina.
     - Que quer? - perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
     - Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu vivo ao relento.
     A formiga olhou-a de alto a baixo.
     - E que fez durante o bom tempo, que não construiu uma casa?
     A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse:
     - Eu cantava, bem sabe...
     - Ah! ... exclamou a formiga, recordando-se. Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
     - Isso mesmo, era eu...
     - Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraia e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade termos como vizinha tão bela cantora! entre, aiga, que aqui terá cama e mesa durante o mau tempo.
    A  cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.

Vamos aprender?
Faina: atividade intensa
Tulha: celeiro, silo.
Labutar: esforçar-se, trabalhar.
Paina: fibra natural semelhante ao algodão.
Manquitolar: mancar, coxear
Monteiro Lobato, fez nesta fábula  uma releitura da versão de La Fontaine em que a formiga não foi generosa com a cigarra. Monteiro Lobato, considerou o cantar da cigarra como um trabalho ao passo que La Fontaine viu como vagabundagem.