quarta-feira, 7 de março de 2012

Quarta-feira é dia de: Caprichosos da Tijuca, Marques Rebêlo

Eram oito horas e acabara de jantar.Minha mulher subira para o quarto e eu, ouvindo o rádio, fumando espichado no velho sofá de palhinha, fazia hora para me meter à obra num romance que ando escrevendo e que me parece infindável. Foi quando bateram palmas no portão. Indiana foi ver que era e voltou informando que se tratava "de um homem que queria falar com o dono da casa".
   - Mas não disse o que quer?
   - Eu perguntei, sim senhor, mas ele disse que queria falar com o dono mesmo.
   Levantei-me
   - Pois vamos vê-lo.
   Era um sujeito magro, pescoço alto de galo de briga, grande nariz bicudo. Tinha o chapéu na mão, não trazia colarinho. Pensei com meus botões: temos facada.
   Sou eu o dono da casa, meu amigo. Que deseja o senhor?
   Ele, com rústica delicadeza, lamentou me incomodar e se apresentou como membro da comissão angariadora de auxílios para o carnaval dos Caprichosos da Tijuca.
   Na véspera, por volta da meia noite, passara um rancho pela minha rua, em passeata de ensaio, com cadência bem marcada, vozes afinadas, um mundo de cuícas e tamborins fechando o cortejo. A barulho acordou os pequenos.
   - Que é mamãe? - perguntou assustado o Zeca, que vai para os três anos.
   - São os malandros; dorme - respondeu ela.
   Zeca não dormiu, ela também não, ninguém na rua dormiu antes que a música se perdesse, grave e comovente, em ruas mais além.
   Foi a razão porque eu perguntei:
   - É aquele rancho que passou ontem por aqui?
   - Não doutor. Não foi. O nosso rancho ainda não saiu na rua. Está em ensaios internos ainda. Deve ter sido o Formigas - e a voz trazia um tom de evidente desprezo.
   - Rivais não é?
   - Mais ou menos , doutor. Mas o nosso é mais antigo.
   Resolvi cortar a conversa:
   - Pois, pelo que suponho, o senhor deseja  um auxílio, não é?
   - É, doutor.Estamos tirando no bairro. Todos os anos fazemos assim - e apresentou uns papéis: - faça o favor de ler.
   - É a licença?
   - Não doutor. É o pedido da diretoria.
   A polícia avisara insistentemente pelos jornais e pelo rádio que só atendessem aos pedidos dos clubes devidamente licenciados por ela. Deviam os angariadores apresentar a competente licença.
   - E o senhor tem licença?
   O homem se perturbou: ter, não tinha. A licença estava com Elizário, que era o diretor da comissão. Mas parecia que não precisava. O clube era muito conhecido.
   - Mas se o doutor está desconfiado, eu trago a licença para o doutor ver.
   Fiquei meio atrapalhado. O homem parecia sério. Mas há tanto malandro com cara de sério... E o diabo é que não trazia licença. Dez, vinte mil réis que perdesse não era nada, afinal de contas, Mas era triste ser embrulhado por um espertalhão sem colarinho, de tamanco e com cara de honesto. Procurei dar um jeito.
   - Não estou desconfiado, absolutamente. Mas é que agora estou desprevenido. O senhor não pode passar amanhã?
   - Posso doutor. À mesma hora?
   - À mesma.
   - Se eu não puder vir, vem o Bastinho pessoalmente. Eu vou falar com ele.
   - É seu companheiro de comissão?
   - Não. É o presidente do clube. - depois que disse, fez uma cara de incredulidade: - O senhor não conhece o Bastinho?
   - Não. Não tenho o prazer.
   O homem mostrou um semblante severo:
   - Pois me admiro, doutor. É muito conhecido. Não há ninguém que não conheça o Bastinho aqui no bairro.
   - Remendei:
   - Então é por isso. Me mudei faz pouco tempo para cá. Morava no centro.
   - Ele mostrou-se satisfeito:
   - Sim, então é isso. Mas ele é muito conhecido. Mora aqui há mais de trinta anos. Foi quem fundou o clube. O clube é velho. O comércio daqui para ele não nega. É só entrar e pedir. O doutor gostaria de conhecê-lo. Ele tem estudos. É de cor, mas tem estudos. Vou falar para  ele mesmo vir aqui. O doutor vai gostar.
   - Agradeci e ele tornou:
   - Mas agora é que estou me lembrando: se o senhor veio para cá de pouco não conhece os Caprichosos.
   - Realmente - atalhei - não conheço e tinha gosto de conhecer.
Já tenho ouvido falar muito dele.
   - É mais antigo, doutor. Tem os Formigas aí no morro. Foi o que o doutor viu ontem. Tem o Estrela da Tijuca mais acima. Mas os Caprichosos é o melhor. Tem muitos campeonatos. No ano passado mesmo levamos a taça de Harmonia. No ano retrasado pegamos a taça de Evoluções. Muitos prêmios. Está tudo lá na sede, muito bem arranjado. Por que o doutor não vai visitar a sede? Era uma honra para nós.
   - Perfeitamente, meu amigo. Quando o senhor quiser.
   - Pois pode ser amanhã mesmo. Amanhã tem ensaio às nove horas. O doutor vai apreciar. O pessoal é afiado. E pode levar sua senhora, sem medo. A sociedade é familiar, doutor. Gente pobre, mas decente. O Bastinho faz questão. As filhas dele estão lá também.
Formam junto com a gente.
   - Pois, então, está feito. amanhã estarei lá. Mas onde é?
   - Não tem que errar, doutor. Sabe onde fica a fábrica de rendas?
   - Sei.
   - Pois é defronte. Naquele terreno grande, perto do rio. O doutor vê logo.É um sobrado. Tem um mastro na sacada com o escudo do clube. O doutor vê logo. Mas se se atrapalhar é só perguntar no botequim, na farmácia, na padaria. Lhe mostram logo onde é.
   - Pois estarei lá.
   Conto com o doutor. Vou falar com  o bastinho. ele não começará sem o doutor chegar.
   E estendeu-me a mão. Era uma mão calosa. Senti vontade de dizer que esperasse, ir lá dentro, vo,tar com uma nota para os Caprichosos. Mas já tinha mentido, não quis me desmentir. apertei-a com calor:
   - Pode contar. E não me esquecerei do auxílio. Não será muito, minhas posses são modestas, mas será dado de boa vontade. Até amanhã às nove. Desculpe a maçada. Lindolfo alves, um seu criado.
   - Não tem nada que agradecer, Seu Lindoufo. Disponha.
   E ele partiu, batendo os tamancos no cimento da calçada.
   Minha mulher descera, perguntouquem era. contei-lhe a conversa toda, rimos, ficamos de ir ao ensaio dos Caprichosos no outro dia.
   - Deve ser engraçado - palpitou ela.
   - Acredito que sim.
   Mas no outro dia cheguei em casa com extraordinárias disposições. Os personagens mexiam-se na minha cabeça furiosamente. Queriam sair, tinham que vier,precisavam viver. Uma cena queme parecera difícil e  que,desesperado, abandonaa no meio, veio clara, perfeita, exatamente como deveria ser. Era só escrevê-la... comi pouco e às pressas e caí no romance. Cena puxa cena. E diálogos, situações, descrições,conceitos, tudo escorria fácil e aproveitável. Poucos retoques mereceriam mais tarde. Fui me entusiasmando. As horas passaram. Minha mulher não me interrompeu. Esqueci-me do mundo, absorvido pelo mundo que ia compondo. Quando dei fé de mim, passava-se da meia noite. Lembrei-me dos Caprichosos - que diabo! 
   - Por que você não me chamou? queixei-me à minha mulher.
   Havia prometido e não tenho o hábito de faltar à minha palavra.
   - Bem que eu me preparei, mas vi você tão entretido, tão disposto, que não tive  coragem de te chamar. Afinal,você não tem que se zangar. Primeiro, o romance.
   - Sim, primeiro o romance.
   Requisitei um cafezinho e voltei para a obra com o mesmo apetite. Os Caprichosos ficariam para o dia seguinte. Foi impossível. No outro dia tivemos amigos para jantar. Velhos amigos, talvez bons amigos, chegaram de repente, num grande pagode, trazendo garrafas de cerveja. Era uma precaução, afirmavam.  Se a nossa comida não desse, defender-se-iam com elas. Deu para todos. A cerveja alegrou os ânimos. A noite correu depressa. Nem me lembrei dos Caprichosos. Talvez nunca mais me lembrasse,se na noite seguinte, pelas oito horas, não me btessem no portão. cheguei à janela - era o Lindolfo.
   Boa noite, doutor. Vim lhe buscar para o ensaio - falou alegremente - o Bastinho está a sua espera para começar.
   Fui eu próprio abrir-lhe o portão, quis que entrasse, ele recusou, esperaria na varandinha mesmo. Eu me desfiz em desculpas:fora inteiramente impossível, tivera quetrabalhar, não imaginasse...
   - Eu sei, doutor. Eu sei. O doutor é um homem de trabalho. Nós vimos.
   - Vimos? me admirei.
   -Vimos sim, doutor. Eu lhe conto. De primeiro o Bastinho ficou zangado com a sua falta. Pudera! - riu. Preparara o pessoal, formara a diretoria para receber o doutor, bateu nove, bateu nove e meia, bateu dez horas e doutor nada! Ele me perguntou mais de cem vezes: - Mas ele prometeu Lindolfo? - Jurava que sim. Quando bateu dez e meia, ele gritou: - pouco caso! E mandou principiar o ensaio. Eu fiquei assim. Falei com ele: Eu acho que não foi desprezo do doutor, Seu Bastinho. O doutor é homem de ocupações. Quem sabe não pôde  vir? ... Ele não queria saber: pouco caso, sim, dizia e redizia. Afinal tivemos uma zada. Ele teimava para um lado, eu teimava para o outro. Resolvemos tirar a teima. viríamos até aqui ver se o doutor estaa em casa, se o doutor tinha saído, apurar a questão. Chegamos, espiamos pela janela, o doutor nem deu sentido de nós. Estava escrevendo, escrevendo, nem levantava a cabeça. O Bastinho só disse uma coisa: - Deve ser uma causa urgente. E me perguntou se o doutor era do crime. Eu não sabia. Ele explicou tudo a diretoria - o doutor estava abafado! ... Ontem não havia ensaio, não adiantava vir lhe importunar. Hoje vale a pena. É ensaio geral.
   Fui. Fui com minha mulher. A diretoria me esperava formada na escada. Deram vivas, houve saudações com cerveja, fui obrigado a fazer um pequeno discurso de agradecimento. Bastinho fez outro por cima do meu: que agradecimento ali só podia ser um - o da sociedade, que se orgulhava de receber em seus salões uma figura da inteligência, etc., etc. Preto, alto e gordo, Bastinho era uma simpatia transbordante. Apertei o mês em casa mas deixei cem mil réis no Livro de ouro.

Contos reunidos, Marques Rebelo

(Este blog manteve a grafia original)