quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quarta-feira é dia de: Binóculo - Mário Prata

          Ganhei muitas flores de aniversário. E um binóculo, da Ângela, que vive de pesquisas históricas. Só mesmo uma historiadora para ter uma ideia dessas. Os historiadores gostam de ver tudo de perto.Principalmente fatos distantes.
          As flores murcharam, à média distância. E o binóculo alí, na mesinha, a me observar.Bonito, prateado.Deve ter custado caro. Claro que quem dá um binóculo para uma pessoa como eu, solteiro rodeado de prédios e janelas tentadores e indiscretas, tá mais a fim de me ver procurando mulher pelada. Todo mundo sabe que a única finalidade de binóculo é peito nu da vizinha. Foi inventado em 1645 com essa primordial finalidade. O meu filho viu a peça, pegou. Todo mundo que vê um binóculo, pega. E procura a janela. Depois me informou que luneta é melhor. Melhor, para quê? Li o manual de instruções, em alemão. Entendi tudo porque tinha desenhinho.
          Ainda bem que era alemão, porque é impossível entender qualquer manual de instruções em português. Não é? Experimente, um dia, trocar o pneu do seu carro lendo o manual de instruções. Experimente. Melhor não experimentar. Dá pra ver até o guarda joias da vizinha da direita.
           Há uma semana, comecei a usar o binóculo. Minha vida nunca mais seria a mesma. Vicia. Esse troço devia ser proibido. Hitchcok, o mago, do suspense saba disso. O que seria daquela janela sem o binóculo?
           A empregada do oitavo andar(prédio da frente) por exemplo, não era bem o avião que eu sempre imaginei. Além da falta de um canino, tem um joanete descomunal, posto em observação quando ela senta na mureta para limpar os vidros. 
Os peitinhos, razoáveis. Não raspa as pernas.
          Já aqui no prédio da esquerda, no quinto andar o casal vai mal. Infelizmente o meu binóculo não é sonoro, mas, pela movimentação elisiana* dos braços e mãos da mulher, a coisa vai de mal a pior. O marido não fala nada. Ouve. Há cinco dias que ele ouve. Enquanto isso, no quarto da empregada, a residente lê Caras, com caras e bocas.
           No andar de cima, aquele  aposentado (sim, não sai de casa nunca) faz palavras cruzadas (nível fácil) o dia inteiro. Na piscina, a mais gostosa é mesmo a loiraça de décimo primeiro que só faz malhar. Casada - vejo daqui a aliança - está sempre com o desempregado do quinto, também de aliança.
             Venho torcendo para rolar alguma coisa - afinal, a cama dela possibilita boas imagens aqui no meu potente Tasco (é a marca dele). Acho que vai rolar. Mulher quando rí muito das besteiras dos homens, está a um passo de perguntar o horóscopo, o que, como você sabe, é propor eminente e iminente sacanagem.
           Mas como!? Aquela que briga com o marido está, neste momento, fazendo uma mala. Dela? Dele? Ele não está em casa. Ela joga tudo dentro. Agora dá pra ver. São roupas de homem. Meu Deus, quando ele chegar (sempre por volta das oito) a coisa vai ficar boa. É só apagar todas as luzes do meu apartamento, virar a poltrona e esticar o pescoço e as lentes. E um pouco de imaginação.
          O casal gay da direita, terceiro andar,é felicíssimo. Jantam, veladamente, à luz de velas. Um exemplo para o casal que mora no andar de cima: jovem, constituido de homem e mulher. Ela tem sistema nervoso, como diria a minha empregada. Não sei se ainda  há algum prato na casa dela. Outro dia um voou até pela janela, indo atingir a perna do filho do zelador, lá em baixo. Veio polícia e tudo, mas não descobriram de onde partiu o prato. Eu fiquei na minha.
           Tudo ia bem na minha vida até que descobri que o adolescente do décimo primeiro, da direita, tem uma fantástica luneta, direcionada diretamente para minha janela. isso foi o bastante para que eu fizesse um levantamento de todas as minhas realizações aqui da sala, de um mês para cá, e ficasse envergonhado. E o bastante para que fechasse todas as janelas.
          E agora a situação está assim. Basta eu abrir um pouco a janela e olhar, que ele está lá, a postos, seguindo a minha vida.
           Eu aqui escrevendo e o garoto lá, seguindo a minha vida. Vai virar cronista, quando crescer.

*De Elis Regina, que no início da carreira cantava girando os braços como hélices.

(Minhas tudo
Ed.Planeta do Brasil - 2011)