quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Bilhete de Loteria, Anton Tchekhov

                                                                     

Ilustração da Poty
     Ivan Dimítritch, homem de classe média gastando com a família 1200 rublos por ano e muito satisfeito com a sua sorte, certo dia, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.
- Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando os pratos da mesa. –  Espia se não saiu a tabela das tiragens.
- Saiu,sim– respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não foi o teu bilhete que sumiu no penhor?
- Não, eu fui levar os juros na terça-feira e o encontrei.
- Que número?
- Série 9499, bilhete 26.
- Humm... vamos ver...… 9499 e 26.
Ivan Dimítritch não acreditava em sorte de loteria e, em outra ocasião, jamais coferiria a tabela das tiragens, mas agora, por falta  de assunto  e porque o estava mesmo diante dele, passou o dedo de cima para baixo pela coluna dos números de série. E no mesmo instante, como que zombando de sua falta de fé, logo na segunda linha em cima,  apareceu  diante de seus olhos, nítido e claro o numero 9499! Sem olhar  o número do bilhete, sem pensar, ele baixou o jornal para os joelhos num movimento brusco e, como se alguém lhe tivesse jogado um jato de  água fria, sentiu um arrepiozinho agradável no  ventre - uma cócega ao mesmo tempo pungente e gostosa.
     - Macha, 9499 é a série! disse ele em voz surda
     A mulher olhou para seu rosto admirado e assustado, e compreendeu que ele não estava brincando.
     - 9499? – perguntou ela, empalidecendo e soltando na mesa a toalha dobrada.
     - Sim, sim… é sério
     - E o número do bilhete?
     - É mesmo! Falta o número do bilhete. Mas, espera...pensa só... Não, que tal? Sempre é o número de nossa série! Sempre é, estás compreendendo?…
     Ivan Dimítritch, olhando para a mulher,sorria um sorriso largo e vago, como uma criança a quem mostrassem um objeto brilhante. A mulher também sorria:era-lhe também agradável que   ele mencionasse apenas a série e não se apegasse em saber do número do bilhete premiado. Adiar e brincar com a esperança da sorte possível- é tão doce, tão arrepiante!
     - Tem a nossa série– disse Ivan Dimítritch, após  um longo silêncio. – Portanto,existe a probabilidade de que tenhamos ganho. Apenas uma possibilidade, mas ela existe!
     - Bem, agora, olha.
     - Espera.Temos tempo para nos desiludirmos. A série esta na segunda linha de cima, quer dizer,  o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, mas uma força, um capital! E se eu olhar agora para a tabela, e vir  26? Heim? Escuta,o que será  se,de repente, nós ganhamos mesmo?
     Os esposos puseram-se a rir e ficaram longamente a se fitar em silêncio.  A possibilidade da sorte  os atordoara, eles não conseguiam nem mesmo devanear, dizer para que lhes serviriam esses 75 mil, o que iriam comprar, para onde viajar. Eles só pensavam nos números 9499 e 75 mil. Pintavam-nos na sua imaginação, mas na sorte propriamente dita, que era tão possível, eles não pensavam. 
     Com o jornal na mão,Ivan Dimítritch atravessou a sala dum lado para outro,algumas vezes, e só então, um pouco mais calmo depois da primeira impressão, começou a sonhar.
     - E que tal se ganhamos? – disse ele. – Mas isso será  a vida nova, toda uma catástrofe! O bilhete é teu, mas se ele fosse meu, a primeira coisa que eu faria, naturalmente, seria comprar algum imóvel qualquer por uns 25 mil, algo como uma granja,  uns 10 mil para despesas imediatas: mobíliário novo… uma viagem… pagar as dívidas etc. Os 40 mil restantes iriam para o banco, a juros…
     - Sim, uma granja, isso é bom – disse a mulher sentando-se e cruzando as mãos nos joelhos.
    – Algures,na província  de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, isso dispensa casa de campo, e em segundo, é sempre uma renda. 
     E na sua imaginação aglomeravam-se quadros cada qual mais risonho e poético, e em cada um deles se via satisfeito, sossegado, saudável, aconchegado - até quente!  Ei-lo, acabando de tomar um refresco bem gelado, de barriga para cima sobre a areia quente, ao lado do riacho ,ou no jardim, na sombra de uma tília… Faz calor… O filhinho e a filha brincam ao lado, cavocam a areia ou caçam  bichinhos na grama. Ele cochila deliciosamente, não pensa em nada, e sente com  o corpo inteiro que  não tem que ir para o emprego nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã. E quando enjoa de ficar deitado, ele vai para o campo ver cortar o feno, ou pra o bosque colher cogumelos ou olhar os mujiques pescando de rede.E quando o sol se põe,ele pega a toalha, o sabonete e vai sem pressa para o banho, despe-se lentamente, esfrega longamente o peito nu com as palmas das mãos, depois entra na água. E na água,ao lado dos foscos círculos de sabão , brincam peixinhos, balouçam juncos verdes. Depois do banho no rio, chá com creme e rosquinhas doces...À noite, um passeio, ou um joguinho de baralho com os vizinhos.
     - Sim, seria bom comprar uma granja – diz a mulher, sonhando também, e  vê-se pelo seu rosto que ela está enfeitiçada pelos seus  pensamentos.
     Ivan Dmítritch imagina o outono com chuvas, noites frias, o veraneio. Nesta época é preciso passear bastante pelo jardim, de propósito para esfriar bem o corpo, e depois entornar um bom cálice de vodka e "quebrar' com cogumelo em salmoura ou pepino azedo e... entornar outro.  As crianças vêm correndo da horta, carregando cenouras ou nabos, cheirando a terra fresca… E depois, refestelar-se no sofá e, sem pressa, folhear alguma  revista ilustrada, e depois cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se à sonolência
     Depois  do veraneio vem o tempo é feio, lamacento. Chove dia e noite, as árvores desfolhadas choram, o vento é úmido e frio. Cachorros, cavalos, galinhas – tudo está molhado, tristonho, encolhido. Não há passeios, não se pode sair de casa, fica-se o dia inteiro a andar de um canto para outro da casa  e a espiar  tristonho pelas janelas embaçadas. Que tédio!
     - Sabe, Macha, eu iria para o estrangeiro - disse ele.
     E ele pôs-se a pensar como seria bom, em pleno outono,viajar para o exterior,  para o sul da França, para a Itália…  a Índia!
     - Eu também iria para o estrangeiro, sem falta – disse a mulher. – Mas vamos, confere o número do bilhete!
     - Um momento...espere!
     Ele passeava pela sala e continuava a pensar ... Veio-lhe a ideia - e se, de fato, a mulher resolvesse ir para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres leves,despreocupadas, que vivem o momento presente, e não dessas que passam  a viagem inteira só pensando e falando dos filhos, suspirando, assustando-se e tremendo por causa da cada copeque . Ivan Dmítritch imaginou a sua mulher no vagão, com uma infinidade de trouxinhas, embrulhos,cestas. Ela suspira e  se queixa que a estrada lhe deu dor de cabeça, que já se gastou muito dinheiro; a toda hora tem-se que  correr para estação buscar água quente, pão com manteiga,  água fria.... E almoçar ela não pode, porque fica muito caro…
     “Mas não é que ela iria me pedir contas de cada copeque”, pensou ele, com um olhar de esguela  para a mulher. “Pois se o bilhete é dela, não é meu!Também para que ela quer ir para o exterior? O que é que ela nunca viu por ali? Vai  ficar plantada no quarto do hotel e eu nãovou poder me mexer...Sei disso!”
     E pela primeira vez na vida reparou ele reparou que sua mulher estava velhusca,feia,toda impregnada de cheiro de  cozinha, ao passo que ele ainda era moço, sadio,forte, bom para casar  segunda vez.
     “Naturalmente, tudo isso são tolices e bobagens”- pensava ele. “Mas… quando iria ela ao estrangeiro? que é que ela entende daquilo? Mas ela iria, iria mesmo… Imagino bem...E no entanto, para ela Nápoles ou  a aldeia de Klin é a mesma coisa. Só iria me atrapalhar. Eu ficaria dependendo dela. Estou imaginando - assim que recebesse o dinheiro,ela logo o trancaria a sete chaves, à maneira das mulheres… Esconderia o dinheiro de mim… Iria  fazer beneficência com a sua parentela, mas para mim pediria contas de cada níquel."
     E Ivan Dmítritch lembrou-se da parentela. Todos aqueles maninhos e maninhas, titias e titios, assim que soubessem da sorte-grande, sairiam de suas tocas, viriam todos pedinchando, sorrindo untuosamente, hipocritamente. Gente mesquinha, desagradável! Se a gente lhes dá, pedem mais; se recusa, vão maldizer a gente, caluniar, rogar toda sorte de pragas.
     Ivan Dmítritch relembrava os parentes, e seus rostos, que sempre lhe foram indiferentes,  agora lhe pareciam odiosos, insuportáveis.

Tchekhov, por ele mesmo

     “Que gentinha nojenta", pensava ele.
     E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso e insuportável. No seu coração subia uma raiva dela, e ele pensava maldosamente:
     “ela não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, iria me dar uns  cem rublos, e o resto  - a sete cadeados!”.
     E ele já olhava agora para a mulher, não com um sorriso mas  com ódio. Ela também olhou para ele com raiva. Ela tinha seus próprios sonhos radiosos, seus planos, seus pensamentos; ela compreendia  perfeitamente os devaneios do marido.  Ela  sabia muito bem quem seria o primeiro a estender a pata para o seu dinheiro.
     “É bom sonhar por conta alheia!”, dizia o seu  olhar. “Mas não, não te atrevas!"
     O marido compreendeu seu olhar: o ódio revolveu-se-lhe no peito e, só para aborrecer  sua mulher, por desaforo ele espiou rápido a quarta página do jornal e proclamou triunfantemente:
- Série 9499, bilhete 46! Não 26!
     A esperança e o ódio desapareceram ambos duma só vez, e no mesmo instante pareceu a Ivan Dmítritch e sua mulher que os seus quartos eram escuros, pequenos e baixos, que o jantar que eles acabaram  de comer não os satisfez, mas só está pesando no estômago, que as noites são longas e tediosas... 
     - É o diabo! – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. – Por onde quer que eu pise, está cheio de papeluchos debaixo dos pés, migalhas, cascas. Nunca  se  varre nesta casa! Acho que vou ter que sair de casa, e o diabo me carregue de uma vez! Vou embora e me enforco no primeiro poste.