quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Quarta feira é dia de conto: Dalton Trevisan

Clínica de repouso



Dalton Trevisan


     Dona Candinha deparou na sala o moço no sofá de veludo e a filha servindo cálice de vinho doce com broinha de fubá mimoso.
     Mãezinha, este é o João.
     Mais que depressa o tipo de bigodinho foi beijar a mão da velha, que se esquivou à gentileza. O mocinho servia o terceiro cálice, Maria chamou a mãe para a cozinha, pediu-lhe que aceitasse por alguns dias.
    Como pensionista?
    Não, como hóspede da família. Irmão de uma amiga de infância, sem conhecer ninguém de Curitiba, não podia pagar pensão até conseguir emprego.
     Dias mais tarde a velha descobriu que, primeiro, o distinto já estava empregado (colega de repartição de Maria) e, segundo, ainda que dez anos mais moço, era namorado da filha. A situação desmoralizava a velha e comprometia a menina. Dona Candinha discutiu com a filha e depois com o noivo, que achava a seu gosto a combinação.
    Sou moço simples, minha senhora. Uma coxinha de frango é o que me basta. Ovo frito na manteiga.
    Dona Candinha os surpreendia aos beijos no sofá. A filha saia com o rapaz, voltavam depois da meia-noite. Ás três da manhã a velha acordava com passos furtivos no corredor.
    Você põe esse moço na rua. Ou tomo uma providência.
    A senhora está louca.
    Maria era maior, podia entrar a hora que bem quisesse, a velha estava caduca. Assim que a filha saiu, dona Candinha bateu na porta do hóspede, ainda de pijama azul de seda com bolinha branca:
    - Moço, você ganha a vida. Tem como se manter.trate de ir embora.
    De volta das compras (delicadezas para o príncipe de bigodinho), a filha insultou dona Candinha aos gritos de velha doida, maníaca, avarenta.
    Não vai me dar nem um tostão para esse pilantra. Ai, minha filha, como me arrependo do dia em que noivou.
    Maria nem pode responder:
    - Eu, sim, me arrependo do dia em que a senhora casou.
    Sentiu-se afrontada a velhota, com palpitação, tontura, pé frio. Arrastou-se quietinha para a cama, cobriu a cabeça com o lençol:
    - Apague a luz – ela gemeu – que vou morrer.
    Susto tão grande que o rapaz decidiu arrumar a mala. Manhã seguinte a velha pulou cedo, alegrinha espanou os elefantes coloridos de louça. A filha não almoçou e antes de bater a porta:
    O João volta ou saio de casa. A vergonha é da senhora.
    Dona Candinha fez promessa para as almas do purgatório. Tão aflita, em vez de rezar dia por dia, rematou a novena numa tarde só.
     - Menina, não se fie de moço com dente de ouro.
     - Lembre-se, mãe, a senhora me despediu.
     -Vá com seu noivo. Depois não se queixe, filha ingrata.
     De tanto se agoniar dona Candinha caiu de cama.
     - A senhora não me ilude. Finge-se doente para me castigar. Com este calor debaixo da coberta.
     - Muito fraca. Eu suo na cabeça. O pé sempre frio.
     Deliciada quando a moça trazia chá com torrada. Terceiro dia, a filha inrompe no quarto, escancara a janela. Introduz o gordo perfumado:
     - O médico para a senhora.
     O doutor examinou-a e, para o esgotamento nervoso, receitou cura de repouso.
     - A senhora vai por bem – intimou a filha – ou então à força.
    Queria o convento das freiras e não o hospital, que lhe recordava o falecido, entrevado na cadeira de rodas. Umas colheradas de canja, cochilou gostosamente. Às duas da tarde, o aposento invadido pela filha, o noivo e um enfermeiro de avental sujo.
    É já que vai para a clínica.
    Eu vou se não for asilo de louco. Bem longe do doutor Alô.
    Um táxi esperava na porta, o noivo sentou-se ao lado do motorista, ela apertada entre a filha e o enfermeiro. Quando viu estava no Asilo Nossa Senhora da Luz, perdida com doida, epilética,alcoólatra.        
Nunca entra sol no pavilhão, a umidade escorria da parede, o chão de cimento. De noite o maldito olho amarelo sempre aceso no fio manchado de mosca.
    - Quem reclama – era o sistema do doutor alô – ganha choque!
    Ao menor protesto ou queixume:
    Olhe o choque, melindrosa! Olhe a injeção na espinha! Olhe a insulina na veia!
    Um banheiro só e,depois esperar na fila, aquela imundície no chão e na parede. A louquinha auxiliava a servente que, essa, fazia de enfermeira. Intragável o feijão com arroz, dona Candinha sustentava- se a chá de mate e biscoito duro. Engolia com esforço o caldo ralo de repolho.
     Vinte e dois dias depois recebeu a visita da filha, o noivo fumava na porta.
     A senhora fazendo greve de fome?
     Na minha casa o arroz é escorrido, o feijão lavado.
     Só de braba não come.
     Daí a tortura da sede. Servia-se da torneira no banheiro, não é que uma possessa vomitou na pia? Foi encher o copo, deu com tamanho horror. Embora lavada a pia, guardou a impressão e sofria a sede.
    - Doidinha eu sou – disse uma das mansas – Meu lugar é aqui. Mas a senhora fazendo o quê?
    Uma lunática oferecia-lhe bolacha e fruta. Mandou bilhete na sua letra caprichada, a filha só apareceu domingo seguinte.
      A senhora não está boa. Nem penteia o cabelo. Não cumprimenta o doutor Alô.
      Essa ingratidão não posso aceitar – e abafava o soluço no pavor do choque – Não sou maluca e sei me mandar.
     - Prove.
     - Com o túmulo de seu pai. Já pintado de azul.
     Instalado na casa, o noivo regalava-se com ovo frito na manteiga,coxinha gorda de frango.
     Quem não come – advertia a servente – vai para o choque!
     Dona Candinha encheu-se de coragem e choramingou para a freira superiora que não tomava sol, sofria de reumatismo, coma gritaria das furiosas que podia dormir?
     Ao cruzar a enfermaria, a freira chamou uma das bobas
     - Você é nova aqui?
     - Entrei ontem , sim senhora.
     - Se tiver alguma queixa, fale com dona Candinha. – e batendo palmas de tanta graça. – é a palhaça do circo. 
    A servente largava o balde e o enxergão, sem lavar as mãos aplicava insulina na veia de uma possessa. Dona Candinha fingia tossir e cuspia a pílula escondida no buraco do dente.
    Chorando de manhã ao se lembrar do tempo feliz com o finado. Á noite, chorava outra vez: menina tão amorosa, hoje feroz inimiga. Não doía ter sido internada. – culpa sua não sair da cama – Mas sabendo o que sofria, a moça não a tirasse dali.
     Minha própria filha? Estalou baixinho a língua ressequida. – que não me acudiu na maior precisão?     Surpreendida rondando o portão, confiscaram-lhe a roupa, agora em camisola imunda e chinelo de pelúcia. ?Sem se aquecer ao sol, sobrevivendo aos golinhos de chá frio e bolacha Maria. Tão fraca nem podia ler, as letras embaralhadas mesmo de óculo.
     - Olhe essa mulher ,doutor – era a filha, vestido preto de cetim, lábio de púrpura, pulseira prateada. –domingo de sol, uma pessoa deitada? O dia inteiro chorando e se queixando. Aqui não falta nada, que mais ela quer?
     - Vá-se embora – respondeu docemente a velha. Desapareça de minha vista. Você mais o dente de ouro.
     - De dia o rádio ligado a todo volume. Á noite, a gritaria furiosa das lunáticas. Sentadinha na cama, distrai-se a velha a espiar uma nesga de céu. Com paciência, amansa uma mosca nas grades, que vem comer na sua mão arrepiada de cócegas. Há três dias, afeiçoada à velhinha, não foge a mosca por entre as grades da janela..


(20 contos menores – 1979)