terça-feira, 5 de outubro de 2010

No Restaurante,Carlos Drummond de Andrade


     - Quero lasanha
     Aquele anteprojeto de mulher - quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia - entrou decidido no  restaurante. Não precisava de nada. sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
     O pai, que mal  acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
    - Meu bem, venha cá.
    - Quero lasanha
    - Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe a mesa.
    - Não, já escolhi. Lasanha
    Que parada - lia- se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em  sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
    - Vou querer lasanha.
    - Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
    - Gosto, mas quero  lasanha
    - Eu sei, eu sei que você adora camarão. a gente pede uma fritada bem bacana de camarão, tá?
    - Quero lasanha, papai . Não  quero camarão.
    - Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
    -  Você come camarão e eu como lasanha
    - O garçom aproximou-se, e ela  foi logo instruindo: 
    - Quero uma lasanha
    O pai  corrigiu:
     - Traga uma fritura da camarão pra dois. Caprichada.  
     - A coisinha amuou. Então não podia querer? queriam  querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? essas interrogações também  se liam no  seu  rosto, pois os lábios mantinham  reserva. quando  o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
    - Moço, tem lasanha/
    - Perfeitamente, senhorita.
    O pai no contra-ataque:
    - O senhor providenciou a fritada/
    - Já, sim, doutor.
    - De camarões bem  grandes?
    - Daqueles legais, doutor.
    - Bem, então me vê um  chinite, e para ela... o que é que você quer, meu anjo?
    - Uma lasanha
    - Traz um  suco  de laranja para ela.
    com o  chopinho e o  suco  de laranja, veio  a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no  desenrolar dos acontecimentos, não  foi recusada pela senhorita. ao contrário, papou-a, e bem. a silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.
    - Estava uma coisa, heim? - comentou o pai, com um  sorriso bem alimentado - Sábado que vem, a gente repete, combinado?
    - Agora a lasanha, não é papai?
    - Eu estou satisfeito. uns camarões tão geniais! mas você vai comer mesmo?
    - Eu e você, tá?
    Meu amor, eu ...
    - Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
    O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. aí um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. o  resto da sala acompanhou. o pai não  sabia onde se meter. a garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem  cambaleia, vem  aí, com  força total, o poder ultrajovem.