segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Paulina Chiziane, chave de ouro moçambicana fecha Fliporto



FLIPORTO 2008

Paulina Chiziane, cujo único livro publicado no Brasil é Niketche, uma história de poligamia torna-se maior celebridade na Fliporto. O sorrisão largo e simpatia contagiante da moçambicana atraem e levam o leitor a uma pessoa serena que quer falar de sua cultura.

Lí, Niketche (Cia das Letras) e Balada de Amor ao Vento (Editorial Caminho) em ambos fiquei surpresa com a poligamia, do uso de feitiços e da condição de inferioridade da mulher. De tudo isso ela falou quando confessou preferências em sua literatura;
“Falo de crenças e de regras que as pessoas acabam acreditando e que causam sofrimento. Sou muito interessada nas vítimas do feitiço. Todos nós somos enfeitiçados e também fazemos os outros sofrerem”,“Os homens criam as tradições e as regras e esquecem que um dia foram eles mesmo que inventaram. Quando vamos entender que os feitiços e tradições não são naturais?”
Referindo-se a Niketche:“Esse livro é também compreendido por pessoas de países que têm cultura de monogamia. Algumas mulheres européias lêem o livro e dizem ‘meu marido fez algo parecido comigo’”. “Não existe fidelidade, nem masculina nem feminina. Fidelidade é ilusão. As mulheres também são infiéis, mas são bem mais discretas. Os homens são descarados”, diferencia.
“As lutas pela libertação do país acabaram, mas ainda existe uma batalha sendo travada dentro de casa. É o marido que maltrata a mulher e a mulher que maltrata a criança. A relação de poder do colonizador com o colonizado permanece.
Referindo-se à condição de inferioridade da mulher:“Quando um menino nasce, a cerimônia de nascimento é realizada dentro de casa. Quando uma menina nasce, tudo é feito do lado de fora, porque a mulher nasce para ir embora. Ela não pertence à família original, sua função é passar adiante com o casamento”, explicou.
Balada de Amor ao Vento pode ser encomendado, já que não tem edição no Brasil.
Paulina Chiziane escancara uma cultura que oprime as mulheres e por conseqüência atrasa o país. Mas nós, leitoras brasileiras, não devemos ler seus livros como quem está sabendo de algo em terras distantes. Devemos, antes, ler nos encontrando exatamente nas mesmas condições. Com uma diferença apenas: fazemos de conta que nada daquilo existe aqui. O que é pior.