segunda-feira, 7 de julho de 2008

Um Conto Quase Roteiro, Regina Porto


     Conheci aqueles dois. Ele recém-chegado aos cinquenta, ela pouco mais que isso, viveram uma história de amor que bem poderia ser levada ao cinema.
     Vânia tinha o olhar pidão, ele exalava  ternura e safadeza.
Esperavam um produtor que juntasse esses ingredientes numa comédia romântica fadada a grande bilheteria. Não deu tempo. O acaso chegou primeiro e, viveram uma paixão. 
     Adolescente no começo, mas com o roteiro necessário da afinidade, sensualidade adulta, experiência mútua, chegaram ao amor maduro.
     Beleza de cenas, tomadas, trilha sonora. Às vezes dublaram, eles mesmos, em espanhol. 

     Vânia e ele já atuavam, dirigiam-se, e mudavam o roteiro. Eram os donos das cenas e, garantiam plateia vivendo, na tela e na vida, uma história real, mas que poderia ser de cinema.      Impedimentos? Sim, claro. Sem contraponto o filme fica monótono. Um deles era casado. O outro, como no filme Escrito Nas Estrelas *, iria casar dentro em breve. 
     Fazer o quê? Nem tudo é cinema. 
     Ou será que é?
   Bem, o que sei é que brigaram, mentiram, se perdoaram, juraram, cumpriram.   Viveram. E... Nossa! Viveram intensamente.
     Apaixonados que estavam e envolvidos nas próprias cenas, não sabiam mais terminar o filme. 

     Então, sentados na praça, cenário da próxima tomada, decidiram, apenas pelo olhar,  dar-se  as costas. Nada mais disseram, deixaram ou levaram. Somente, “Veinte Años", instrumental, para que o espectador não se frustrasse.
     Outro dia, sentada na praça que serviu de modelo para o filme, encontrei, abandonado num banco, um exemplar usado do livro “O Sol Também se Levanta”, de E. Hemingway.   Estava lacrado e eu abri. Dentro, encontrei um recado: “Não fizemos a cena final: Volte! A gente se ama”.
      Surpresa procurei com os olhos o possível remetente. Praça vazia. Volto a lacrar o livro e deixá-lo onde encontrei.
     Quem sabe, um dia, e, novamente como no filme “Escrito nas Estrelas” o recado não chegue, pelas mãos do acaso, ao destinatário?

   Roteiristas, personagens e, principalmente, protagonistas de uma grande paixão, merecem um belo final. E eu estarei também no elenco do filme. 


Título original:Serependity -Dir. Peter Chelsom - Lançamento no Brasil: 2002

6 comentários:

  1. UAU!!!!!!!!!!Em caixa alta mesmo. Para ser bem gritado. UAU!

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  2. Poxa! Dez! E o gostoso é perceber em textos assim como o mundo da comunidade Errante construiu casa dentro da gente, melhor dizer aldeia, é um mundo grande. Já fazemos parte disso, já aparece em nossas ações, nos gestos, nas palavras...
    Cada vez me impressiono mais ao ver como uma idéia acaba fazendo parte da nossa biografia.

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  3. Maravilhoso!
    Delícia de texto.
    Adorei!

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  4. Parabéns pelo texto curto, sensível e emocionante.
    Cristiane Rose.

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  5. Menina, que é isso? Muito fofo seu texto. Engoli e digeri num piscar de olhos. Foi como ler uma poesia melodiosa e intensa. Continue se aventurando e não nos prive de suas letras musicais. Cantarole sempre!

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