quarta-feira, 16 de julho de 2008

Livros - sempre uma boa companhia

EXEMPLO DE CIDADANIA Entre a miséria e a lição dos livros
Publicado em 16.07.2008 (Jornal do Commércio - cad. Cidades)
Numa palafita da comunidade do Bode, Ricardo abriga um sonho comunitário. É lá que se esconde a Livroteca Guardiã, onde crianças descobrem a aventura de ler, pelas mãos dos mestres da literatura
A esperança de uma comunidade inteira mora, apertada, numa palafita do Bode, no bairro do Pina, Zona Sul do Recife. Lá, bem na beira do rio, lugar onde a miséria insiste em se equilibrar para sempre, repousam em poucas prateleiras e, também no chão, Machado de Assis, Cecília Meireles, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, entre outros tesouros da literatura. Difícil de acreditar. A pobreza com um Augusto dos Anjos nas mãos. Quem não tem nada, agora já conhece Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes.
E foi assim, sem nada ao redor, só com livros, que o auxiliar de áudio Ricardo Gomes Ferraz, o Kcal Gomes, 34 anos, morador de palafita do Bode, ergueu há um ano o que apelidou de sonho comunitário. É a Livroteca Guardiã, refúgio das crianças pouco lembradas. Muitas não sabem nem ler. Pegam livros por curiosidade. Passam as páginas para olhar as figuras. Joana, 8 anos, estava com um Manuel Bandeira na mão. “Não sei ler.” O que importa é criança tocando nos livros. “Não tenho nada, mas faço tudo. Minha irmã vende crack na comunidade. Eu sou traficante de livros”, se autodefine Kcal.
A história dele é um livro. Cheia de frases de efeito. “Sou um louco responsável. Eu sou apenas mais um brasileiro. Dividido entre a escola, o sonho e o emprego. Se eu estudar serei um sábio com fome. Se eu trabalhar, mais um cidadão sem nome”, apresenta-se em forma de poema. Nascido na palafita, já viu de tudo. Perdeu uns 15 amigos assassinados no Bode. Por muitos anos, usou drogas e colocou um pé na criminalidade. “Já usei drogas. Agora, só uso livro”, diverte-se.
Aos 11 anos, leu o primeiro. Eram poemas de Cecília Meireles. Apaixonou-se e não parou mais. Conheceu Lispector e ficou ainda mais viciado nas letras. Um leitor compulsivo. “Ele fica lendo oito horas seguidas. Dorme às 5h”, comenta a mulher, Valquíria de Carvalho, 31. Não sabe precisar quantos livros já leu. “Mais de cem”, chuta. Acolhido por uma instituição chamada Criança Urgente, que atende adolescentes no bairro do Pina, enfrentou dificuldades por causa das drogas. “Sofreu muito, mas virou exemplo”, conta a irmã da Igreja do Pina Anatílica de Souza Viana, responsável pela entidade.
Kcal continuou lendo tudo o que via pela frente e passou a freqüentar os sebos do recife. Juntava alguns trocados e seguia para o centro da cidade. Algumas vezes teve que voltar caminhando do centro até o Bode. O dinheiro da passagem se transformou em um livro de Machado de Assis. “Comprei na ponte de ferro. Só tinha o dinheiro do ônibus. Demorei muito para chegar em casa e minha mulher brigou comigo. Mas tudo vale a pena, não é?”, pergunta.
A palafita, onde morava com a mulher e dois filhos, ficou pequena por causa dos livros. “Transformei minha casa, numa casa de ler. Aluguei uma por R$ 200 aqui no Bode. Um poeta italiano, amigo meu, manda R$ 100 para ajudar. Trabalho num estúdio no Pina e a situação é muito complicada. Mas não sou coitado, sou um guerreiro.” Mais de 20 crianças passam por lá todos os dias. Adriana Almeida, 12, já leu mais de 20 livros. “A gente sempre vem para cá. Eu até já sonhei com a história que tinha lido”, conta. Ao lado, Aline Maria indicava para as amigas o livro A História de Cada Um. “É sobre o retrato de sua família”, contou. Quem quiser ajudar pode encaminhar livros para o endereço Rua Eurico Vitrúvio, 124, Pina.
Para onde se olha, as letras estão lá. Os recados, que saem dos livros, são pintados nas paredes forradas de jornal. “Não somos pobres, somos roubados” é uma das mensagens. Ao lado, está escrito na janela “Todos nós estamos sentados na lama, mas alguns de nós estão olhando estrelas.”
A supervisora do Programa Educação Para Cidadania do Gabinete de Apoio às Organizações Populares (Gajop), Edna Jatobá, esteve ontem no local. Aproveitou e leu algumas histórias para as crianças. “A nossa idéia é que a juventude se reúna aqui para discutirmos políticas públicas de segurança.” Em vários momentos da entrevista, o auxiliar de áudio parou como se não acreditasse no que estava vendo. Ficou em silêncio quando foi questionado quantos amigos já haviam sido assassinados na comunidade. Algumas crianças ouviram ele recitar o poema Rio Vermelho. O fim trágico ainda é a história mais contada no Bode.