Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos docesEstendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos a...
Franco, direto e sem rodeios, João Cabral de Melo Neto escreveu: A Palo Seco ( poesias completas 1975) 1.1. Se diz a palo seco o cante sem guitarra; o cante sem; o cante; o cante sem mais nada; se diz a palo seco a esse cante despido: ao cante que se canta sob o silêncio a pino. 1.2. O cante a palo seco é o cante mais só: é cantar num deserto devassado de sol; é o mesmo que cantar num deserto sem sombra em que a voz só dispõe do que ela mesma ponha. 1.3. O cante a palo seco é um cante desarmado: só a lâmina da voz sem a arma do braço; que o cante a palo seco sem tempero ou ajuda tem de abrir o silêncio com sua chama nua. 1.4. O cante a palo seco não é um cante a esmo: exige ser cantado com todo o ser aberto; é um cante que exige o ser-se ao meio-dia, que é quando a sombra foge e não medra a magia. 2.1. O silêncio é um metal de epiderme gelada, sempre incapaz das ondas imediatas da água; A pele do silêncio pouca coisa arrepia: o cante a palo seco de diamante precisa. 2.2. Ou o silê...