Para Silvinha O céu de minha infancia era cheio de bichos de nuvem. Olhávamos para ele com o mesmo olhar de quem gosta de cinema. Havia uma grama verdinha, ao lado do rio; e nós dois, eu e minha irmã, deitados de papo pro ar, olhávamos as imagens efêmeras. As nuvens passando. Não ficou vestígio, só a memória do que vimos. - Está vendo aquela? Um carneiro! Ríamos. Agora é um coelho As nuvens são como águas do rio. Passam As águas do rio a gente sabe onde vão dar. Vento fresco da manhã. - Eu acho que as nuvens ficam nervosas com o vento. Ficam mais apressadas. O vento, você sabe o quê? É o cavalo das nuvens. Em: O Livro das Personagens Esquecidas, Cícero Belmar, ed. CEPE, 2022, pág.89
E de repente aquela dor intolerável no olho esquerdo, este lacrimejando, e o mundo se tornando turvo. E torto: pois fechando um olho, o outro automaticamente se entrefecha. Quatro vezes no decorrer de menos de um ano um objeto estranho agrediu meu olho esquerdo: duas vezes ciscos não identificados, uma vez um grão de areia, outra um cílio. Das quatro vezes tive que procurar um oftalmologista de plantão. Da última vez que perguntei àquele que realiza a sua vocação através de cuidar por assim dizer de nossa visão do mundo: por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência? Ele respondeu que não. Que, por mais normal que seja uma vista, um dos olhos vê mais que o outro e por isso é mais sensível. Chamou-o de olho diretor. E este, por ser mais sensível, prende o corpo estranho, não o expulsa. Quer dizer que o melhor olho é aquele que é a um só tempo mais poderoso e mais frágil, atrai problemas que, longe de serem imaginários, não poderiam ser mais reais que a ...