Você acaba de sair há menos de cinco minutos e de repente quarto ficou tão enorme, que resolvi te escrever. Claro que você nunca receberá esta carta, e eu mesma ainda não decidi se vou rasgá-la. Pode ser até que a ponha numa gaveta, não da mesinha de cabeceiras, mas do armário entre as combinações e camisolas de renda que não uso e insisto em conservar. Daqui a meses, dois anos, num dia de faxina geral, eu talvez a encontre e releia, talvez fique comovida e pense longamente em você, talvez chore com certa afetação diante do espelho, recordando o maior amor da minha vida. Depois não sei se voltarei a escondê-la entre a roupa e os sachês, ou se a picarei duramente em pedacinhos regulares, antes de atirá-la na lixeira com um secreto prazer. Depende - ainda é cedo para qualquer previsão. O ideal seria descobri-la, sorrir e continuar arrumando as gavetas. Coisas que acontecem, feliz e infelizmente: só o tempo é capaz de resolver situações semelhantes Em todo caso, agora ...
O presidente da república tinha acabado de discursar quando recebi a notícia de minha morte. Eu estava na cerimônia de inauguração do Instituto Moreira Salles e vi Marcos Sá Corrêa vindo em minha direção com o cabelo molhado de quem saiu do banho às pressas e a cara de quem estava vendo fantasma. De fato, eram as duas coisas. Viera cor-rendo de casa, ali perto, para me avisar que infelizmente eu tinha morrido. Acho que cheguei a esbo-çar um ar compungido ao ouvir o relato e devo ter dito que o falecido era um cara legal. O boato fora divulgado na Internet, on-line, pela Agência Estado, que se baseara no telefonema que um repórter deu para um antigo número meu: 267-0415. Quem atendeu disse que eu morrera num desastre de carro na Lagoa. O próprio repórter me contou depois: "a mulher deve ser uma louca, porque me atendeu chorando, dando detalhes de sua morte e dizendo que trabalhava com a familia há 14 anos: 'coitada da Mary, dos filhos', chegou a d...