Antes de tocar a pele, acende uma ideia dentro, como se o pensamento sentisse primeiro e só depois o corpo concordasse. O mar segura a luz na linha do horizonte, como quem demora num segredo. E ele surge, solto do abraço das águas, e tudo muda de tom sem fazer alarde. A luz não manda, não empurra, não disputa. Ela vem baixa, molhada, misturada de sal e ouro, e o mundo vai ficando possível. O azul não some: amacia. O vento não corta: afaga. O calor não queima: aquece. E o peito, que às vezes pesa, ganha espaço, como quem abre uma janela por dentro. Não se pede prova. Não se tem pressa. Numa alquimia quieta: pensamento vira calma, calma vira gesto, gesto vira presença. O brilho muda de formato. Uma nova hora. Um novo tempo. O seu momento. Nasce do mar e, por alguns minutos, é como se a vida dissesse, sem falar: aqui. agora. de novo. Não grita, não disputa, não performa. Apenas revela o que sempre esteve ali.
Está secando o velho Chico. Está mirrando, está morrendo. Já não quer saber de lanchas-ônibus, nem de chatas e seus empurradores. Cansou-se de gaiolas e literatura encomiástica e mostra o leito pobre, as pedras, as areias desoladas onde nenhum caboclo-d’água, nenhum minhocão ou cachorrinha-d’água, cativados a nacos de fumo forte, restam para semente de contos fabulosos e assustados. Ei, velho Chico, Já te estranham, meu Chico. Desta vez, encolheste demais. O cemitério de barcos encalhados se desdobra na lama que deixaste. O fio d’água (ou lágrimas?) escorre entre carcaças novas: é brinquedo de curumins, os únicos navios que aceitas transportar com desenfado. Mulheres quebram pedra no pátio ressequido que foi teu leito e esboça teu fantasma. Não escutas, ó Chico, as rezas músicas dos fiéis que em procissão imploram chuva? São amigos que te querem, companheiros que carecem de teu deslizar sem pressa (tão suave que corrias, embora tão artioso que muitas vezes tiravas a terra de um lado e ...