Ao organizar minha biblioteca, em desordem total, Carli, que dirigiu o Departamento Cultural da Porto Seguro, encontrou um postal da Muralha da China. Voltei aos 16 anos e às aulas de geografia do professor Walter. Mas como ele estava ali se eu o tinha dado a ele? No científico, final dos anos 1950 em Araraquara, havia um professor que, no último mês antes dos exames, facilitava aos alunos obter uma nota dez máxima, mediante um recurso. Walter Medeiros Mauro, mestre de geografia, prometia a nota a quem trouxesse dez cartões-postais do Brasil ou do mundo. Saíamos pela cidade, batíamos em todas as portas de pessoas que viajavam ou que se correspondiam com o mundo. Sabíamos quem eram porque essas pessoas, ao viajar, faziam questão de anunciar que tinham ido a Veneza, Lisboa, Madri, Paris e havia mesmo um ricão que garantiu ter ido à China. O cartão da China, segundo soubemos, tinha caído nas mãos de Roberto Ramalho. Como? Amigo meu de uma vida, provocava inveja porque t...
Lembra como éramos? Viajávamos para a praia em sete pessoas num carro pequeno. No banco da frente, o pai sem cinto de segurança. Ao seu lado, a mãe segurando no colo o irmão mais novo que, por sua vez, segurava um cachorro. Obviamente, todos sem cinto. Em trajetos mais curtos, quando éramos muitos, um ou outro embarcava no porta-malas. Ou na moto sem capacete. Ou de pé na carroceria da camionete, rolando soltos lá atrás feito melancias. Os pequenos fumavam cigarros de chocolate. Os adultos, de nicotina. Em restaurantes, escritórios, aviões. Cheguei a pegar um elevador em que havia um cinzeiro. Fiquei sabendo de um ginecologista que não largava o cigarro nem para examinar as pacientes. As pernas abertas, ele apoiando o cigarrinho num canto, a baforada quase entrando na vagina. Refrigerante era água. Como meu pai tinha um restaurante, já dávamos largada com Fanta sabor laranja no café da manhã. Quando minha mãe resolvia ser saudável, servia Tang. Não era só na minha casa: festa de cr...