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Éramos Todos Selvagens, Giovana Madalosso

Lembra como éramos? Viajávamos para a praia em sete pessoas num carro pequeno. No banco da frente, o pai sem cinto de segurança. Ao seu lado, a mãe segurando no colo o irmão mais novo que, por sua vez, segurava um cachorro. Obviamente, todos sem cinto. Em trajetos mais curtos, quando éramos muitos, um ou outro embarcava no porta-malas. Ou na moto sem capacete. Ou de pé na carroceria da camionete, rolando soltos lá atrás feito melancias. Os pequenos fumavam cigarros de chocolate. Os adultos, de nicotina. Em restaurantes, escritórios, aviões. Cheguei a pegar um elevador em que havia um cinzeiro. Fiquei sabendo de um ginecologista que não largava o cigarro nem para examinar as pacientes. As pernas abertas, ele apoiando o cigarrinho num canto, a baforada quase entrando na vagina. Refrigerante era água. Como meu pai tinha um restaurante, já dávamos largada com Fanta sabor laranja no café da manhã. Quando minha mãe resolvia ser saudável, servia Tang. Não era só na minha casa: festa de cr...
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Retrato no Parque, Mário Quintana

Como se fosse numa tela De Marie Laurencin, O que se vê são seus olhos De animalzinho atento. Tudo é tão atmosfera, O gesto, a cor, o movimento Que se supõe seja ela Uma inventiva do vento. Talvez não esteja pronta… Porém, em tanto mutar, Tem aqueles olhos graves E os seios bem no lugar. Em:Mário Quintana, seleção de Fausto Cunha Ed.Global 2006 pág.54 Imagem: A Journey for Love, the japan times. Museu de arte da prefeitura da nagasaki

Anúncio, poema de Viviane Mosé

O poema começa, tudo se afasta Tento buscar as coisas que fogem. O mar sempre foge, antes de cuspir ondas gigantes. Aos poucos tudo foge. Os carros, as pessoas, os prédios, o chão Ergo os braços em busca de auxílio Mas não há nada nem ninguém apenas uma luz estranha e difusa. Tudo é longe. E ri do meu desamparo. Com suas longas distâncias mínimas Crateras abertas na terra dos poros. O poema antes de nascer ferve. O centro do peito, que aflora O poema se confunde com o amor que jorra. Em: Calor, ed. Usina Pensamento,2017

Atrás do Tronco, poema de Marina Colasanti

Toda  vez que o nome do meu pai ou essa expressão “meu pai” vem combinada com a palavra "guerra” uma alta palmeira cresce em mim e atrás do tronco há um homem escondido. Um homem escondido que pode ser um morto ou pode ser assassino um homem tão culto quanto oculto é seu destino. É o inimigo ali posto pela voz do meu pai quando lhe perguntei se havia matado muitos nas tantas guerras de que se orgulhava. Na guerra disse ele é impossível saber se o inimigo escondido atrás do tronco aquele em que adotamos em defesa e que não mais se vê está vivo está morto está ferido ou se sequer estava atrás do tronco. Em: Gargantas Abertas, Marina Colasanti, Ed. Rosso, 1998, pág.90

A Praça dos Deuses, conto de Mia Couto

                  (Ao Che Amur que me contou a versão que serve de caroço a esta estória)      1926: foi o ano da data. Aconteceu a estória do comerciante Mohamed Pangi Patel, homem poderoso que despendeu vida e riqueza na Ilha de Moçambique. Comportadamente decorriam os tempos e Mohamed Pangi dava graças a Deus pela amabilidade do mundo e das suas belezas. O ismaelita vivia engordado de seu próprio nome, cheio de disposição. Mais satisfeito ele ainda se instaurou quando seu filho único lhe veio anunciar a decisão do casamento.         -Sabe, filho? A vida é um perfume!      E iniciaram os imediatos preparativos do matrimónio. Festa igual nunca mais se iria ver naquelas paragens. Vieram músicos de Zanzibar, convidados de Mombaça, gentes de Ibo e Angoche. A festa demorou trianta dias de tempo. Em cada um desses dias, a praça se cobriu de mesas, recheadas de refeiçoes. De manhã à noite, se ...

Nem 1 Amor Verdadeiro, conto de Natascha Duarte

O que Sara não conta é que escreve no ar. Quando está no vagão do trem, chama muito a atenção. A mania de escrever nas costas das pessoas que vão em frente no trem a destaca da multidão sem nome que, no mesmo horário, todo santo dia, sobe no vagão. As pessoas que servem de papel não veem o movimento coordenado das mãos de Sara. As outras pessoas do trem sim. De início Sara é tímida. Levanta o braço direito e tece pequenas letras no ar como uma bailarina em seu primeiro solo. Como uma professora infantil, brinca com as palavras, buscando cada uma cuidadosamente. O contorno dos seus dedos escreve coisas como:Se-u-gran-de-fi-lho-da-mãe. Sara não respeita a gramática. Coloca hífen onde quer e onde não tem, coloca pressão pela vida que leva. Faz longas pausas entre um escrito e outro e respira desenhando delicadas vírgulas. com ambas as mãos, coloca as pas e faz lindos travessões: -Eu,"cuidu",de,Mim. Alterna maiúsculas e minúsculas e erra da maneira correta. Quem vê acha que...

Os Porcos, conto de Júlia Lopes de Almeida

  A Arthur Azevedo       Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem.       O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembravase, encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.       Todo o tempo da gravidez pensou, numa obsessão crudelíssima, torturante, naquele bracinho nu, solto, frio, resto de um banquete delicado, que a torpe voracidade dos animais esquecera por cansaço e enfartamento.       Umbelina sentava-se horas inteiras na soleira da porta, alisando com um pente vermelho de celuloide o cabelo negro e corredio. Seguia assim, preguiçosamente, com olhar agudo e vagaroso, as linhas do horizonte, fugindo de fixar os porcos, aqueles porcos malditos, que lhe rodeavam a casa desde manhã at...