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A Praça dos Deuses, conto de Mia Couto

                  (Ao Che Amur que me ontou a versão que serve de caroço a esta estória)      1926: foi o ano da data. Aconteceu a estória do comerciante Mohamed Pangi Patel, homem poderoso que despendeu vida e riqueza na Ilha de Moçambique. Comportadamente decorriam os tempos e Mohamed Pangi dava graças a Deus pela amabilidade do mundo e das suas belezas. O ismaelita vivia engordado de seu próprio nome, cheio de disposição. Mais satisfeito ele ainda se instaurou quando seu filho único lhe veio anunciar a decisão do casamento.         -Sabe, filho? A vida é um perfume!      E iniciaram os imediatos preparativos do matrimónio. Festa igual nunca mais se iria ver naquelas paragens. Vieram músicos de Zanzibar, convidados de Mombaça, gentes de Ibo e Angoche. A festa demorou trianta dias de tempo. Em cada um desses dias, a praça se cobriu de mesas, recheadas de refeiçoes. De manhã à noite, se e...
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Nem 1 Amor Verdadeiro, conto de Natascha Duarte

O que Sara não conta é que escreve no ar. Quando está no vagão do trem, chama muito a atenção. A mania de escrever nas costas das pessoas que vão em frente no trem a destaca da multidão sem nome que, no mesmo horário, todo santo dia, sobe no vagão. As pessoas que servem de papel não veem o movimento coordenado das mãos de Sara. As outras pessoas do trem sim. De início Sara é tímida. Levanta o braço direito e tece pequenas letras no ar como uma bailarina em seu primeiro solo. Como uma professora infantil, brinca com as palavras, buscando cada uma cuidadosamente. O contorno dos seus dedos escreve coisas como:Se-u-gran-de-fi-lho-da-mãe. Sara não respeita a gramática. Coloca hífen onde quer e onde não tem, coloca pressão pela vida que leva. Faz longas pausas entre um escrito e outro e respira desenhando delicadas vírgulas. com ambas as mãos, coloca as pas e faz lindos travessões: -Eu,"cuidu",de,Mim. Alterna maiúsculas e minúsculas e erra da maneira correta. Quem vê acha que...

Os Porcos, conto de Júlia Lopes de Almeida

  A Arthur Azevedo       Quando a cabocla Umbelina apareceu grávida, o pai moeu-a de surras, afirmando que daria o neto aos porcos para que o comessem.       O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem. Ela mesma, lembravase, encontrara uma vez um braço de criança entre as flores douradas do aboboral. Aquilo, com certeza, tinha sido obra do pai.       Todo o tempo da gravidez pensou, numa obsessão crudelíssima, torturante, naquele bracinho nu, solto, frio, resto de um banquete delicado, que a torpe voracidade dos animais esquecera por cansaço e enfartamento.       Umbelina sentava-se horas inteiras na soleira da porta, alisando com um pente vermelho de celuloide o cabelo negro e corredio. Seguia assim, preguiçosamente, com olhar agudo e vagaroso, as linhas do horizonte, fugindo de fixar os porcos, aqueles porcos malditos, que lhe rodeavam a casa desde manhã at...

Uma Vela Para Dario, conto de Dalton Trevisan

     Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.       Dois ou tręs passantes rodearam-no e indagaram se năo se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.       Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.       Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora năo o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças fora...

Famigerado, conto de Guimarães Rosa

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.  Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.  Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado qu...

Buganvilia 2, Pepetela

      Estou de férias. E é bom passar as féris na quinta.  Quando quero distrair-me vou a Luanda: são só vinte quilômetros.      Fico a ver os trabalhadores bailundos a tratar das árvores de fruta e a fazer a horta. Depois leio. Como, durmo, vejo os trabalhadores, leio. E brinco com o Lucapa. Não é uma rica vida?      No outro dia veio a Odete visitar-me. ficámos todo o dia a convesar. Ela tem um exame na segunda época, por isso não pode ir passar férias comigo. É uam pena, é a minha melhor amiga.      O António, o mais velho dos trabalhadores bailundos, trouxe-nos as primeiras goiabas. A Odete disse que na zona de Luanda nunca tinha visto goiabas tão boas. O meu pai é da mesma opinião. Vai começar a mandar vendê-las na cidade. As laranjas e as tangerinas ainda não estão maduras.      A bunganvília continua a crescer e um ramo já se agarrou a um arame do alpendre e sobe. Em breve dará flores. De que cor ser...

A Vitória de Cabo Verde, crônica de Miguel Esteves Cardoso

    A pergunta que agora mesmo está a ser posta às selecções de futebol de todo o mundo, pela boca dos treinadores, é esta: "mas porque é que vocês não são mais como os jogadores de Cabo Verde?" Foi este o grande triunfo dos cabo-verdianos no mundial: demonstraram que não há desculpas.      Os "tubarões azuis" - à maneira dos tubarões não se deixam impressionar pelas pernas que entram no mar. Para os tubarões, todas as pernas são iguais - as dos presidentes e as dos serventes, as dos génios e as dos tontos. E são iguais porque todas servem para comer. Todas são nutritivas. E nunca se deve ter medo de um petisco.      Os treinadores estão a pedir aos jogadores que adoptem, por amor de Deus, a atitude da selecção de Cabo Verde. Mas não é só a atitude - não ter medo, quere ganhar, ter orgulho na camisola - são coisas que muitas outras selecções têm.      Na selecção de Cabo Vede havia maia qualquer coisa. E não era amor à camisola. Era...