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Pardon Anything, crônica de Gregório Duvivier

Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas, it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of Brazil, you can give how much beijinhos you want. In Rio, the beijinho is in the shoulder. The house is yours. Fica à vontade. Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the metrô, it’s forever. Never say you are a gringo. Yes, people love gringo but people also love money and gringos have money so people vai cobrar de você mais money because you are gringo. Say you are from Florianópolis. People de Florianópolis look like ...
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O Perfume, conto de Mia Couto

- Hoje nós vamos ao baile!    Justino assim se anunciou, estendendo em suas mãos um embrulho cor de presente. Glória, sua esposa, nem soube receber. Foi ele quem desatou os nós e fez despontar do papel colorido um vestido não menos colorido. A mulher, subvivente, somava tanta espera que já esquecera o que esperava. Justino guardava ferrovias, seu tempo se amalgava, fumo dos fumos, ponteiro encravado em seu coração.  Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrara o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerremes.  O amor, afinal, que utilidade tem?    De onde o espanto de Glória, deixando esparramar o vestido sobre seu colo. Que esperava ela, por que não arranjava? O marido, parecia ter ensaiado brincadeira. Que lhe aconteceu? O homem sempre dela se enciumara, quase ela nem podia assomar à janela, quanto mais. Glória se levantou, ela e o vestido se arrastaram mutuamente para o quarto. Incrédula e sonambulenta, a...

Aos Nossos Filhos, Ivan Lins e Vitor Martins

Perdoem a cara amarrada Perdoem a falta de abraço Perdoem a falta de espaço Os dias eram assim Perdoem por tantos perigos Perdoem a falta de abrigo Perdoem a falta de amigos Os dias eram assim Perdoem a falta de folhas Perdoem a falta de ar Perdoem a falta de escolha Os dias eram assim E quando passarem a limpo E quando cortarem os laços E quando soltarem os cintos Façam a festa por mim Quando largarem a mágoa Quando lavarem a alma Quando lavarem a água Lavem os olhos por mim Quando brotarem as flores Quando crescerem as matas Quando colherem os frutos Digam o gosto pra mim Ouça aqui Em: Saudade do Brasil - 1980

Por que Um Cartão Postal da China Me Fez Voltar Aos 16 Anos de Idade? Ignácio de Loyola Brandão

Ao organizar minha biblioteca, em desordem total, Carli, que dirigiu o Departamento Cultural da Porto Seguro, encontrou um postal da Muralha da China. Voltei aos 16 anos e às aulas de geografia do professor Walter. Mas como ele estava ali se eu o tinha dado a ele?      No científico, final dos anos 1950 em Araraquara, havia um professor que, no último mês antes dos exames, facilitava aos alunos obter uma nota dez máxima, mediante um recurso. Walter Medeiros Mauro, mestre de geografia, prometia a nota a quem trouxesse dez cartões-postais do Brasil ou do mundo. Saíamos pela cidade, batíamos em todas as portas de pessoas que viajavam ou que se correspondiam com o mundo. Sabíamos quem eram porque essas pessoas, ao viajar, faziam questão de anunciar que tinham ido a Veneza, Lisboa, Madri, Paris e havia mesmo um ricão que garantiu ter ido à China. O cartão da China, segundo soubemos, tinha caído nas mãos de Roberto Ramalho. Como? Amigo meu de uma vida, provocava inveja porque t...

Éramos Todos Selvagens, Giovana Madalosso

Lembra como éramos? Viajávamos para a praia em sete pessoas num carro pequeno. No banco da frente, o pai sem cinto de segurança. Ao seu lado, a mãe segurando no colo o irmão mais novo que, por sua vez, segurava um cachorro. Obviamente, todos sem cinto. Em trajetos mais curtos, quando éramos muitos, um ou outro embarcava no porta-malas. Ou na moto sem capacete. Ou de pé na carroceria da camionete, rolando soltos lá atrás feito melancias. Os pequenos fumavam cigarros de chocolate. Os adultos, de nicotina. Em restaurantes, escritórios, aviões. Cheguei a pegar um elevador em que havia um cinzeiro. Fiquei sabendo de um ginecologista que não largava o cigarro nem para examinar as pacientes. As pernas abertas, ele apoiando o cigarrinho num canto, a baforada quase entrando na vagina. Refrigerante era água. Como meu pai tinha um restaurante, já dávamos largada com Fanta sabor laranja no café da manhã. Quando minha mãe resolvia ser saudável, servia Tang. Não era só na minha casa: festa de cr...

Retrato no Parque, Mário Quintana

Como se fosse numa tela De Marie Laurencin, O que se vê são seus olhos De animalzinho atento. Tudo é tão atmosfera, O gesto, a cor, o movimento Que se supõe seja ela Uma inventiva do vento. Talvez não esteja pronta… Porém, em tanto mutar, Tem aqueles olhos graves E os seios bem no lugar. Em:Mário Quintana, seleção de Fausto Cunha Ed.Global 2006 pág.54 Imagem: A Journey for Love, the japan times. Museu de arte da prefeitura da nagasaki

Anúncio, poema de Viviane Mosé

O poema começa, tudo se afasta Tento buscar as coisas que fogem. O mar sempre foge, antes de cuspir ondas gigantes. Aos poucos tudo foge. Os carros, as pessoas, os prédios, o chão Ergo os braços em busca de auxílio Mas não há nada nem ninguém apenas uma luz estranha e difusa. Tudo é longe. E ri do meu desamparo. Com suas longas distâncias mínimas Crateras abertas na terra dos poros. O poema antes de nascer ferve. O centro do peito, que aflora O poema se confunde com o amor que jorra. Em: Calor, ed. Usina Pensamento,2017