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O Filho de Ana Maria, crônica de José Paulo Cavalcanti


     “Esse homem não é meu filho, doutor. Não pode ser.”
     Joaquim era réu numa ação de reconhecimento de paternidade. E o autor, já com 25 anos, produto do desencontro entre duas pessoas que um dia estiveram juntas e se perderam nesse mundão de Deus. Joaquim amava Ana Maria perdidamente. Problema é que Ana Maria, por respeito à verdade se diga, não gostava de Joaquim do mesmo jeito que Joaquim gostava dela. Bonita de rosto, e ainda mais de corpo, tinha outros pretendentes. E lhes dedicava uma atenção incompatível com aquela veneração de Joaquim. Assim foi até quando confessou que já não gostava dele como antes. Melhor se afastar. Joaquim concordou, meio constrangido, antevendo algo para ele impossível de aceitar - que seria o fato de ser traído. Mas nunca esqueceu de Ana Maria. Tanto que, bem depois, confessou ao seu advogado: “Se soubesse que a saudade iria doer tanto, teria resolvido esse caso de outra maneira.” Só que acabaram se separando, era mesmo inevitável.
     Pouco depois, Ana Maria mudou-se para a Bahia. E saiu da vida de Joaquim. Saiu da vista de Joaquim, melhor dizendo. Porque ficou presa, na sua memória, como tatuagem. Tanto que sonhava com ela todas as noites. E gostava daquele sonhar fora de hora, sem futuro e sem propósito. Quando o advogado perguntou qual o nome dela, respondeu somente “Amor da minha vida". Só que o produto desse amor da vida de Joaquim insistia em saber da verdade. Aquele registro como filho de pai desconhecido, na carteira de identidade, incomodava. Mais ainda, não conhecer o rosto desse pai que não tivera nunca. Os atores da trama ocupavam seus lugares. Joaquim, sonhando todas as noites com o passado que passara. A mulher, vivendo seu presente no seu papel de mãe sofrida. E o filho, vítima do destino, querendo futuro diferente.
     O filho de Ana Maria decidiu, então, vir ao Recife. Procurou Joaquim na loja. E disse que era seu filho. Sem rodeios. Dele e de Ana Maria. Ruim, para Joaquim era sobretudo que a mulher nunca falara dele. Como deveria fosse mesmo filho seu, assim pensava. Ou não, pensava Ana Maria. Prova é que nunca lhe pedira ajuda para nada. Joaquim olhou para um homem já feito, tentou vê-lo como filho e o que viu foi um desconhecido. Pediu que mostrasse os documentos. Viu que neles não constava o nome do pai. E prestou atenção na data do nascimento. Fez as contas, mentalmente, e se sentiu desalentado - ao perceber que, nos dias em que fora gerado, Ana Maria ainda fazia parte de sua vida. Mas nada, no rosto do estranho, confirmava essa suspeita. Poderia ser até seu filho, no sangue. Mas não era por dentro. Não filho de verdade. E isso lhe disse com toda franqueza.
     Resultado é que o filho de Ana Maria decidiu entrar com o tal processo. Joaquim declarou sereno, ao advogado, “Não vou reconhecer”. “Mas o juiz vai mandar você fazer exame de DNA.” “Não faço. Ele nunca vai ter certeza disso.” E o que é que você quer de mim, Joaquim?” “Que ganhe tempo doutor. Quem sabe morro antes.” Anos depois, não podia ser diferente, Joaquim foi intimado a depor.
     Na sala de audiências do fórum, entrou por uma porta com seu advogado. E o juiz mandou entrar por outra, mãe e filho. Não esperava por isso. Olhou para Ana Maria, depois de tantos anos, e viu a mesma mulher de antes. Com o coração batendo fora do compasso. Em seguida o juiz perguntou, ao advogado, se o réu mantinha sua decisão de não fazer teste de DNA. Assim fosse, iria colher depoimento e proferir a sentença naquela audiência mesma. O advogado advertiu seu cliente de que seria condenado. Joaquim olhou para Ana Maria. Para o filho de Ana Maria. Para Ana Maria novamente. Agora, já não sabia o que queria. Mas sabia o que não queria. E não queria reviver dores antigas, naquela sala, com tantas testemunhas. E pior,para ele, com o amor da minha vida na sua frente.
     Então perguntou ao juiz, quase como se pedisse ajuda: Se fizer o DNA, o senhor dispensa os depoimentos? O juiz disse que sim. A prova científica era suficiente. Joaquim olhou para Ana Maria, mais uma vez. “Então faço.” Curioso é que não só Joaquim ficou satisfeito com a solução. Ana Maria também parecia aliviada. Sem razões aparentes para isso, que lhe bastaria dizer como tudo acontecera. O advogado estranhou. Mas preferiu ficar em silêncio. Fim de audiência.
     O exame foi feito segundo as regras de segurança adotadas então pelo Tribunal. Com o sangue, tirado no Recife, indo até Minas Gerais - onde ficava o laboratório que fazia esses exames. O tempo foi passando. Até quando chegou, ao escritório do advogado, o resultado. Enquanto abria o envelope, uma secretária ligou para Joaquim. Ele atendeu antes que o advogado conseguisse localizar a conclusão do laudo. Após muita conversa jogada fora, e muitas páginas viradas, afinal o resultado. Joaquim não era o pai. Então, satisfeito com o inevitável desfecho da ação em favor de seu cliente, disse: “Joaquim, está ouvindo?” “Estou, doutor.” “Você não é o pai.” Silêncio. O advogado insistiu: : “Joaquim, vamos comemorar que você não é o pai.” foi só acabar de falar e o cliente gritou: “Essa puta!!!”E, junto com as palavras, o som de plástico se quebrando - que o advogado interpretou como sendo ele se vingando no telefone. O advogado esperou que Joaquim ligasse logo depois e nada. Então compreendeu que doía nele, mais que ter sido abandonado, a traição. Compreendeu que a mãe nunca dissera ao filho quem era o pai simplesmente por não ter certeza. Criara seu menino sozinha, sem ajuda nenhuma. Com a insistência do filho, falara de Joaquim só porque morava longe. E estava bem de vida. Ao contrário dos seus demais casos. Sem contar que já nem sabia onde andavam alguns desses outros. Nunca imaginou foi que o filho pudesse vir até o Recife, na busca do pai anunciado. Menos ainda que, sem antes conversar com ela, decidisse entrar com o tal processo. O advogado compreendeu, também, porque ficou tão constrangida na audiência. Era receio, e vergonha, de que o exame revelasse o seu segredo.
     Dia seguinte, Joaquim ligou. Para se explicar pelo destempero da véspera. O advogado aproveitou e perguntou; “Você preferiria que tivesse dado positivo?” “Preferia sim. O senhor não tinha nada de ter insistido para que fizesse o exame.” Silêncio. “O senhor sabe, doutor, o que é sonhar com uma mulher todas as noites e, depois de velho, descobrir que ela era puta?” O doutor disse qualquer coisa sem importância. “Pois é, doutor, ontem não consegui mais sonhar com ela. Dormi mal.” “Isso passa Joaquim.” “Passa não, doutor. É muito ruim.” “Perdão Joaquim.” “Desculpe, doutor, mas não vou poder lhe perdoar nunca.” E desligou.

Em Somente a Verdade, José Paulo Cavalcanti Ed. Record 2016, págs. 53 a 57


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