segunda-feira, 22 de maio de 2017

Segunda-feira poética:Estampas Eucalol, Hélio Contreiras


Montado no meu cavalo
Libertava prometeu
Toureava o minotauro
Era amigo de Teseu
Viajava o mundo inteiro
Nas estampas Eucalol
A sombra de um abacateiro
Ícaro fugia do sol.
Subia o monte Olimpo
Ribanceira lá do quintal
Mergulhava até netuno
No oceano abissal
São Jorge ia pra lua
Lutar contra o dragão
São Jorge quase morria
Mas eu lhe dava a mão
E voltava trazendo a moça
Com quem ia me casar
Era minha professora
Que roubei do Rei Lear.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Segunda-feira poética: Palavras Para Minha Mãe, José Luis Peixoto


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

domingo, 14 de maio de 2017

Dia das Mães: Vó Eduarda, Marcius Malhem

Neste dia das mães eu quero falar sobre a mãe da mãe da minha mãe - também conhecida como minha bisavó. Para mim, vó Eduarda.
     Ela morreu quando eu tinha 16 anos , em 1988. Até meus 8 anos eu dormia muito na casa dela. Tempo suficiente para que a vpz com sotaque daquela velhinha portuguesa que cheirava a leite de Rosas nunca mais  saísse de minha memória.
     Lembro também, do Toddy gelado pela manhã, da farofa de ovos no almoço e do caqui no lanche.
     Ela chamava rabanada de "orelha de português", e me ajudava a pegar romã no pé com um bambu.
     Vovó era diabética  e se aplicava injeções de insulina mais de uma vez ao dia, na veia, amarrando o próprio braço. Antes ela fazia um teste para ver o nível de glicose, que consistia em urinar num tubo e pingar um reagente. Decorei que, se o líquido ficasse azul, da cor dos olhos dela, estava tudo bem.
     O dia mais importante do ano para ela não era seu aniversário, mas o 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima. Como o destino gosta de aprontar, foi nesse dia que nasceram minhas duas filhas.
     Era uma mulher forte, livre, dona do seu nariz. Ela me ensinou muito sobre amor e liberdade.
     Vó Eduarda teve cinco filhos com meu bisavô.Quando o mais novo tinha dois meses, ela se separou para viver um grande amor. É preciso muita coragem para se separar de um casamento com cinco filhos, nos anos 1930, em Nilópolis, cidade pequena na Baixada Fluminense.
     Mas o mais admirável nessa busca sincera pela felicidade é que o grande amor da vó Eduarda era uma mulher: dona Olga, ou a Velha, como ela chamava.
     Vovó e a Velha se conheceram me 1937 e se apaixonaram. Meu bisavô era jardineiro da casa de dona Olga, uma mansão na zona sul Rio.
     Vovô saiu de casa e Velha, deserdada, foi morar com vó Eduarda.
     Viveram essa paixão por mais de 40 anos, até a morte da Velha, em 1979, quando eu tinha sete.
     O amor daquelas duas mulheres conquistou o respeito de toda a idade e iluminou quem teve a oportunidade de conviver com elas, Eu tive essa sorte e me esforço - com Joana - para que minhas filhas também entendam que o importante é o amor.
     Outro dia brinquei com uma as meninas: "Filha, esse amigo aqui é namorado do papai há dois anos". "Claro que não é". Achei que era reflexo da velha visão de relação só homem/mulher, mas ela completou: "Dois anos? Você já teria me contado".
     Valeu, Vó.

Transcrito do Jornal do Commércio 14.05.2017

sábado, 13 de maio de 2017

Crônicas da MPB: Resignação, Luiz Carlos Paraná


Não, não foi surpresa para mim o que se deu
Foi tão natural saber
Que o nosso amor morreu
Não foi nada menos, nada mais do que esperei
Pois tudo na vida que eu não vi, imaginei
Já é difícil para mim perder a paz
E não é fácil eu chorar ou mesmo rir
Meu coração não bate à toa, nem demais
Já vi chegar o tanto quanto vi partir
Fizeste mal, mas só depois de tanto bem
Não é preciso que de mim se tenha dó
Quando chegaste eu já sabia ter alguém
Quando partiste eu já sabia viver só.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Quarta-feira é dia de: O Homem do Patchuli, Marcos Rodrigues

pogostemon cablin - patchouli       O Barbosa sempre teve algum sucesso com mulheres. Não por beleza, cabeça ou dinheiro, mas por gostar de dançar, o que é muito raro entre homens. No Clube Piratininga, ele sempre dança com uma, depois com outra e mais outra e assim vai noite adentro. No fim da noite, dançou com uma fieira delas, nunca de mesas próximas. Além de dançar bem, ele conduz bem e elas, assim, dançam melhor. Sentem-se melhor. Ele vai sem carro e sempre acaba pegando carona com alguma delas. 
É esse seu jeito discreto de ser.
     No final de 2009, o Barbosa foi para a Chapada dos Veadeiros em caminhada com amigos de Brasília. Passou a noite do Ano Novo em Alto Paraíso, vendo estrelas e esperando extraterrestres, muito comuns na região. Na volta, em Cristalina, topou com um viveiro de plantas à beira da estrada e encostou a picape. Ele sempre traz umas novidades de suas viagens.  
     Foi andando em meio às mudas e se interessou por um arbustinho sem vergonha. A dona do viveiro, uma morena alta, maior que ele, disse que era patchuli. Ele nunca vira a planta patchuli. Só conhecia a essência, os incensos, loções e perfumes, sempre associados à sensualidade.
     A mulher amassou umas folhas na mão e ofereceu para ele cheirar. Explicou que extrair a essência do patchuli era complicado, mas que ela, por exemplo, passava sua roupa de baixo com folhas de patchuli.
Aquelas palavras fisgaram o Barbosa. Com o olho brilhando, ele seguiu conversando até o anoitecer. Acabou ficando por lá. Quando acordou, sua roupa já estava lavada, secando no varal. Antes do meio-dia, a mulher passou as cuecas dele com folhas de patchuli e serviu o almoço. No que ele fechou a mochila, ela ajeitou as mudas na caçamba e empurrou o Barbosa pra estrada. Sabe-se lá porquê.
     Foi a partir daí que ele passou a usar cuecas passadas com patchuli, sua homenagem à goiana. Um tributo que lhe trouxe paz e serenidade. Para seu entorno também.
No Piratininga, teve ainda mais sucesso com as mulheres, sobretudo as maduras. Criou reputação. Todas sabiam quem era o homem do patchuli. Que conversa e dança, vem sem carro e volta de carona.
      Com o tempo, suas parceiras foram se conhecendo, conversando e, por fim, sentavam todas na mesma mesa. Eram as sete do Barbosa. E ele ali no meio, sempre alegre. Conversando e dançando.
     Não tardou muito para os outros começarem a falar mal daquele arranjo. As línguas ferinas diziam que ele usava as sete. Os homens diziam que ele era usado pelas sete. Incomodava aquele jeito alegre e divertido que os oito encontraram para viver. Talvez até por inveja, deitaram a falar mal deles. E muito.
     As sete, que em comum só tinham o Barbosa, amedrontadas foram se espalhando pelo salão. Foram se afastando, disfarçando. Deram um gelo no Barbosa. Uma tristeza.
     O Barbosa, que gostava delas, foi perdendo a confiança. Foi minguando. Por fim, desencanou e sumiu na poeira.
     Até hoje elas estão lá, à espera de um homem que converse, não reclame, seja alegre e dance. Às vezes conversam umas com as outras e há consenso.  Se já é difícil encontrar um homem que preste, imagine sete.

Fonte: Brasileiros

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Segunda-feira poética: Andar a Esmo, Sentir a Vida. José Antônio Pajeú


A esmo, caminhando pela Rua,
Percorri, canto a outro, a Imensidão.
O Imenso clarão da Bela Lua,
Derramando Luz e Cores pelo chão.
O cheiro denso da Brisa que flutua,
A roçar no meu rosto em Efusão.
O Barulho do Silêncio, eu só, a Rua,
O Intenso desejo da Paixão.
Tendo a vida, como Guia e Sentinela,
A levar-me pelas vias da razão.
A mostrar que a IMENSIDÃO é tão singela,
E que ela, a vida, é tão, tão bela,
Que vivê-la e sentir-se dentro dela,
Nos faz ver, que é bela, até, a SOLIDÃO.

Salve Jorge!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Polígamo, Tahar Ben Jelloun

     
Minha primeira mulher foi minha mãe quem me deu, Eu ainda era criança quando desposei a filha de minha mãe. Achava sua beleza natural, evidente, nas difícil de definir. Levei tempo para descobrir que eu não era seu único amante.
     Minha segunda mulher eu encontrei sozinho, ou quase. Ela me foi oferecida, mas era preciso seduzi-la, brincar com ela e envolvê-la para a merecer e conservar.  Apliquei-mea isso com batante energia.
     Agora que cheguei aos quarenta, convivo bem com uma e outra. Minhas duas mulheres não se entendem. Há um problema de comunicação. Elas são obrigadas a passar por mim para se falarem e até para brigar.
     Tenho preferência pela segunda, porque ela é estrangeira à tribo, e me ensinaram a ser cortês e hospitaleiro com os estrangeiros, particularmente comas estrangeiras. Minha cortesia não passa de aparência. Na verdade, sou violento. Gosto de dobrar essa estrangeira. Mas devo confessar que, muitas vezes, ela é quem leva a melhor. Ela me domina e ue me deixo levar. Eu sei: qualquer resistência é inútil. A prova: é ela quem fala por mim e expressa as palavras e a terra natal.
     A outra às vezes se insurge; toma o poder sem que eu perceba e se insinua nas dobras íntimas da outra face.
     Embora não se comuniquem, elas se enfrentam e armam emboscadas uma para a outra. Adoro quando tudo se agita, quando há troca de flechas, de frases e de imagens. Uma vira a outra e ambas zombam de mim. Elas se aliam contra mim. Vejo-me afinal sem recursos, isolado, despojado e abatido. Nessa hora, consulto o dicionário. É um amigo;mas um tanto rígido. Não tem muito humor. Ele me informa, mas não me ajuda em meus conflitos conjugais. É a favor da ordem e da moral. É justo e inequívoco, frio e intransigente. Ele me deprime e me desencoraja. Eu sou amoral. Isso não tem perdão, sobretudo num dicionário.
     Então, opto pelo silêncio. De minha janela, observo o silêncio. Vejo-o passar pela rua. vou ao seu encontro; ele me envolve e eu escuto. Muitas vezes ele é enganador. Levanta problemas que é preciso adivinhar. Eu grito.
    Grito para precipitar os acontecimentos. Nessa hora, minhas duas mulheres, assustadas, intervêm e cada uma se dispõe a me acalmar, a me dar o que me falta, a ternura e o amor, o orgasmo e o sol.
     Tão logo me sacio, elas me abandonam e vão se dar a outros. 
    Foi por isso que um dia resolvi ter uma escrita própria, que, boa ou ruim, bonita ou feia, simples ou complicada, iria ser minha, parecer-se comigo e satisfazer minha intimidade mais secreta.
    Enquanto isso, fui tentado por uma terceira história de amor. Subitamente, deparei-me com alguém estranho e ambíguo; caí ma ilusão  e no erro. Era noite;não lhe vi bem o rosto. Era uma aparição, um fantasma, uma espécie de travesti que me disse: "Vai, vai reencontrar tuas mulherzinhas! Tu as satisfazes, pelo menos? ..."
     Desde então, minha fidelidade é exemplar: eu vou de uma à outra e sei que dou mais à segunda porque ela é estrangeira, e as estrangeiras eu a prendi a amar.
     Esses amores me enriquecem. Não pago imposto. quando o fiscal da receita vem ver o que acontece, não entende grande coisa, perde-se nesta casa de muitos andares e muitas portas, e vai embora jurando que da próxima vez conseguirá me acuar.    
      Apaixonado, polígamo e fiel! Isso o irrita.
     Às  vezes me acontece sair da enorme casa. Aproveito-me do sono da primeira para levar a estrangeira a passear pelas ruelas de medina. Ela não usa djelaba nem véu no rosto. Caminha dando-me o braço; está nua. Não por ser impudica ou malcriada, mas por ser tão atraída  pelos tecidos da minha velha memória, pelas cores loucas das minhas raízes, que se cobre com elas à medida que entramos no labirinto de medina e da infância árabe.
     Minha primeira esposa não se deixa facilmente despojar de suas vestes. É altiva e muda em seu orgulho. Quando tento levá-la a um jantar dançante ou a uma festa-surpresa, empaca e se recusa a me seguir. Não sem violência, lembra-me suas origens, nobres e  sagradas inscritas no Livro santo, o Corão.
     Nisso a coisa é séria! Fica difícil brincar! O Corão é um milagre, inimitável e intocável. Ele me intimida. Ele me esmaga pela inacessível beleza de sua poesia.
     Então eu volto para a outra; e me liberto. Ela me acolhe de braços aberto, me dá seus lábios, me cobre com seus cabelos e nós fazemos amor na luz, acompanhados pela música de Vivaldi ou de Bach.
     Ela me ama. Ela me ajuda a viver. Temos conflitos. Mas "só a morte é tão rasa"!

Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, 2002, págs,167-170

Algumas obras do autor editadas em português (Estante Virtual  e Liv. Saraiva):


Moha o louco Moha o sábio
Os frutos da dor
Partir
O último amigo
Felicidade
O primeiro amor é sempre o último
O menino da areia
O racismo explicado à minha filha
O racismo explicado aos jovens
As cicatrizes do atlas
O Islamismo explicado às crianças



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Quarta-feira é dia de: Fernanda Torres



Padre Graça acordou de madrugada. Rezou, fez a higiene matinal, comeu pouco, como de hábito, e preparou a pequena mala com os objetos litúrgicos. O São João Batista o aguardava. Havia vinte e quatro anos cumpria a função de levar a palavra de Deus para famílias que perderam seus entes queridos. No início, via sentido em ser capelão, não mais. Preferia ser transferido para uma comunidade pequena, onde ainda houvesse fieis. Via o quanto os seres urbanos eram hostis e descrentes da paz eterna. O entusiasmo de seminarista cedera espaço a um isolamento estéril, sem saída. O convívio excessivo com a morte o tornara insensível. Não se adequava mais ao cargo. O pedido de transferência fora enviado meses antes, mas os superiores não demonstravam pressa para encontrar substituto. Padre Graça esperava resignado. Por isso, a perspectiva de enfrentar a sequência de velórios, no longo dia quente que se anunciava, lhe consumiu os sentidos. Teria perdido a fé?

     Quem o visse entrar no 136, em Botafogo, não suspeitaria da batalha que travava no silêncio do espírito.  A ideia de abandonar a batina o seduzia especialmente à noite, como um demônio insistente. O padre lhe dava as costas, mas, de uns tempos para cá, gastava as horas a se revirar, sem conseguir espantar a vontade traiçoeira. Seria professor, enfermeiro, bancário, cuidaria ele mesmo de Deus, sem ter que impô-Lo a ninguém. Estava cansado da cruzada contra o fogo amigo dos evangélicos e o inimigo dos ateus. Perdemos a luta.

     E foi dominado por dúvidas que padre Graça abriu os trabalhos naquela manhã, encomendando a alma de uma bisavó de sete, avó de quinze, mãe de quatro e viúva de um. Apesar da tristeza, os parentes se mostraram resignados co a partida da matriarca. Católicos praticantes, se empenharam na missa. O santo homem chegou a esquecer, por breves instantes, a atual rejeição que nutria pela própria função. No final, agradeceu aos presentes e confessou: Entrei aqui sem esperança, saio com ela redobrada.

     As visitas seguintes reduziram a cinzas a comunhão da manhã. Um adolescente, uma mãe ainda jovem e um pai atencioso. De um total de cinco, apenas a anciã da manhã e um velho ao cair da tarde seguiam a lógica natural, a ordem que deveria impedir que as mães enterrassem rebentos, que os bebês se vissem privados do carinho materno e que os pais faltassem na hora da necessidade. Novamente abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir, padre Graça se deixou arrastar pelo pessimismo. Sou um coveiro de Deus, desabafou em voz baixa.

     No estertor do dia, subiu amargurado as escadas da capela a caminho do salão de número 10.Chegou a reduzir a marcha, certo da incapacidade de oferecer conforto. Preciso eu de consolo. Quem me dará? Foi quando surgiu o ensejo, a ideia, a tentação. Cabia ao pároco ser firme no justo instante em que o rebanho se mostra mais vulnerável. A fragilidade diante da morte torna propícia a revelação. O engano residia na benevolência passiva do sacerdote. De que serve a misericórdia? O catolicismo deve eleger a firmeza como aliada. Afaste de mim a bondade. Serei impiedoso, viril, romano, bélico e voraz. O lado terrível do ser divino. O Antigo Testamento é meu guia.

     E, certo da recente convicção, adentrou o salão de número 10 às quatro e quarenta e cinco da tarde daquela terça-feira, estancou na soleira e bradou a cruel pergunta:

       - Quem será o próximo?

      Padre Graça calou-se, parado, segurando a porta entreaberta, sem saber se aquele era o início ou o grand finale da missa. A questão do fim iminente deveria despertar a consciência dos vivos, mas não havia sinal de elevação. A estupefação dos ouvintes exprimia apenas reprovação. Padre Graça pousou os olhos numa velha dama elegante que o mirava assombrada. Era Irene. A próxima. Graça arrependeu-se da bravata, ensaiou uma reverência acanhada e partiu sem fechar a porta. Desceu a escadaria, foi até a secretaria; não havia ninguém por quem orar. O dia estava encerrado. Sua carreira também.



In: Fim. Fernanda Torres, São Paulo,
Cia. Das Letras, 2013, págs.40-42.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Desafio da Livraria Cultura.

Recebi de minha filha o desafio da Livraria Cultura, vejam só:

São apenas oito itens e eu até pensei que me daria bem.  Fui derrotada duas vezes. 

* Um livro ganhador do Prêmio Pulitzer.
Consegui: O Velho E O Mar, de Ernest Hemingway

* Um livro com mais de 500 páginas: 
Consegui: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Aproveito pra recomendar essa leitura. 

* Um livro de autor lationo-americano
Consegui. Esse item foi facílimo porque li vários García Márquez, Vargas Llosa, Isabel Allende, Eduardo Galeano, Neruda ...Vou dar um título de cada um: Cem Anos de Solidão, A Festa do Bode, Paola, O Livro dos Abraços, 20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. 

* Um livro que foi proibido ao ser lançado.
Consegui: pensei de imediato em Henri Miller, com Trópico de Câncer. Ví ontem que O Crime do Padre Amaro de Eça de Queiroz também foi proibido em Portugal.  Consegui dois livros, então.

* Um livro escrito antes de 1900.
Esse foi difícil.  Não fazia ideia de um livro escrito no século XIX, mas aí achei o de Eça para o item anterior. O Crime do Padre Amaro foi lançado em 1875. 

* Um livro que virou musical.
Não consegui.   Tem um musical sensacional O Mágico de Oz (1939), que foi baseado no livro homônimo de L. Frank Baum. Só que esse não voga. Vi o filme mas não li o livro. Aliás, nem sabia que existia o livro. Penso que o filme ficou mais famoso.

* Um livro lançado no ano em que você nasceu.
Consegui: A Bíblia!

* Um livro em que o título contém o nome do protagonista.
Consegui: Ana Terra  e Um Certo Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo, Gabriela e Tereza Batista Cansada de Guerra de Jorge Amado.

domingo, 23 de abril de 2017

23 de Abril: Dia Mundial do Livro e de São Jorge.

Inca Garcilaso de la Vega
William Shakespeare
 Descobri hoje que na Catalunha já existia  uma celebração, muito simpática, por sinal, aos livros feita no dia 23 de abril. Consistia em, no dia de São Jorge, dar uma rosa a quem comprasse um livro. Achei essa muito  fofa  essa ideia dos catalãs. Bem, mas inspirada ou não nessa celebração da Espanha a UNESCO aproveitou o dia (23 de abril) de morte de Shakespeare, Cervantes e La Vega e criou o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor. A intenção foi incentivar a leitura e lembrar, principalmente jovens, da importância do livro e dos autores através dos séculos.

Miguel de Cervantes
São Jorge
Especialmente neste 23 de abril de 2017, a Saraiva,  destina à UNESCO  R$1,00 de cada compra feita em suas lojas físicas e ou on line. E tenho orgulho de dizer que sou leitora viciada, fiz de meus filhos bons leitores e há pouco mais de uma década sou integrante de um grupo de leitura que além de saciar o vício da leitura, incentiva concreta e generosamente o hábito em crianças.   E se você, mesmo não sendo adepto da leitura, compreende a importância dos livros e quer contribuir com a UNESCO, aproveite e compre um livro na Saraiva. Conto com você, viu?



Fontes: Calendarr e Nações Unidas


quarta-feira, 19 de abril de 2017

As Formigas, Lygia Fagundes Telles



    
Quando minha prima e eu descemos do táxi, já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.
– É sinistro.
Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.
– Pelo menos não vi sinal de barata – disse minha prima.
A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro, descascado nas pontas encardidas. Acendeu um charutinho.
– É você que estuda medicina? – perguntou soprando a fumaça na minha direção.
– Estudo direito. Medicina é ela.
A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho.
Vou mostrar o quarto, fica no sótão – disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. – O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.
Minha prima voltou-se:
– Um caixote de ossos?
A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e, pondo-se de joelhos, puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.
– Mas que ossos tão miudinhos! São de criança?
– Ele disse que eram de adulto. De um anão.
– De um anão? é mesmo, a gente vê que já estão formados… Mas que maravilha, é raro a beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí – admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. – Tão perfeito, todos os dentinhos!
– Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente extra. Telefone também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa recomendou coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada final: – Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.
Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada.
Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana, prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassman e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou- a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.
– Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.
Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até de madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.
– De onde vem esse cheiro? – perguntei farejando. Fui até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho. – Você não está sentindo um cheiro meio ardido?
– É de bolor. A casa inteira cheira assim – ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.
No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no quarto! mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.
– Que é que você está fazendo aí? – perguntei.
– Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo?
Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como um exército em marcha exemplar.
– São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida – estranhei.
– Só de ida.
Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.
– Está debaixo dela – disse minha prima e puxou para fora o caixotinho. Levantou o plástico. – Preto de formiga. Me dá o vidro de álcool.
– Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra fora.
– Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vem fuçar aqui.
Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.
– Esquisito. Muito esquisito.
– O quê?
– Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?
– Deus me livre, tenho nojo de osso. Ainda mais de anão.
Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do seu chá. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos a cabeça, como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.
Voltei a sonhar aflitivamente mas dessa vez foi o antigo pesadelo em torno dos exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha estudado. Às seis horas o despertador disparou veementemente. Travei a campainha. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de cimento, a procura delas
. Não vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e então entreabri as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas no caixotinho coberto.
Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. Então me lembrei:
– E as formigas?
– Até agora, nenhuma.
– Você varreu as mortas?
Ela ficou me olhando.
– Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?
– Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo… Mas então quem?!
Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.
– Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.
Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Não me parecia um cheiro assim inocente, quis chamar a atenção da minha prima para esse aspecto mas estava tão deprimida que achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia flor de maçã por todo o quarto (e se ele cheirasse como um pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho que competia nas repetições com o sonho da prova oral: nele, eu marcava encontro com dois namorados ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só restou o oco de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.
– Elas voltaram.
– Quem?
– As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão todas aí de novo.
A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá dentro. Sem caminho de volta.
– E os ossos?
Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.
Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta senti que no quarto tinha algo mais, está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formiga, você lembra? não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão… estão se organizando.
– Como, organizando?
Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu cobertor. Cobri meu urso com o lençol.
– Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto, mais um pouco e… Venha ver!
– Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?
Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a com o maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula. No chão, nem sombra de formiga, mortas e vivas, desapareciam com a luz do dia.
Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule fumegando no fogareiro.
– Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia – ela avisou.
O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso.
– Estou com medo.
Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.
– Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu nenhuma, não está na hora delas, é daqui a pouco que começa. Examinei com a lupa debaixo da porta, sabe que não consigo descobrir de onde brotam?
Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão me agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo até o quarto, acorda, acorda! Demorei para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava lívida. E vesga.
– Voltaram – ela disse.
Apertei entre as mãos a cabeça dolorida.
– Estão aí?
Ela falava num tom miúdo como se uma formiguinha falasse com sua voz.
– Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava…
– Que foi? Fala depressa, o que foi?
Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama.
– Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.
– Você está falando sério?
– Vamos embora, já arrumei as malas.
A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.
– Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?
– Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos, levanta.
– E para onde a gente vai?
– Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto.
     Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Calcei os sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei o urso no bolso da japona e fomos arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha do quarto, deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?
No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.