segunda-feira, 24 de abril de 2017

Desafio da Livraria Cultura.

Recebi de minha filha o desafio da Livraria Cultura, vejam só:

São apenas oito itens e eu até pensei que me daria bem.  Fui derrotada duas vezes. 

* Um livro ganhador do Prêmio Pulitzer.
Consegui: O Velho E O Mar, de Ernest Hemingway

* Um livro com mais de 500 páginas: 
Consegui: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Aproveito pra recomendar essa leitura. 

* Um livro de autor lationo-americano
Consegui. Esse item foi facílimo porque li vários García Márquez, Vargas Llosa, Isabel Allende, Eduardo Galeano, Neruda ...Vou dar um título de cada um: Cem Anos de Solidão, A Festa do Bode, Paola, O Livro dos Abraços, 20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. 

* Um livro que foi proibido ao ser lançado.
Consegui: pensei de imediato em Henri Miller, com Trópico de Câncer. Ví ontem que O Crime do Padre Amaro de Eça de Queiroz também foi proibido em Portugal.  Consegui dois livros, então.

* Um livro escrito antes de 1900.
Esse foi difícil.  Não fazia ideia de um livro escrito no século XIX, mas aí achei o de Eça para o item anterior. O Crime do Padre Amaro foi lançado em 1875. 

* Um livro que virou musical.
Não consegui.   Tem um musical sensacional O Mágico de Oz (1939), que foi baseado no livro homônimo de L. Frank Baum. Só que esse não voga. Vi o filme mas não li o livro. Aliás, nem sabia que existia o livro. Penso que o filme ficou mais famoso.

* Um livro lançado no ano em que você nasceu.
Consegui: A Bíblia!

* Um livro em que o título contém o nome do protagonista.
Consegui: Ana Terra  e Um Certo Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo, Gabriela e Tereza Batista Cansada de Guerra de Jorge Amado.

domingo, 23 de abril de 2017

23 de Abril: Dia Mundial do Livro e de São Jorge.

Inca Garcilaso de la Vega
William Shakespeare
 Descobri hoje que na Catalunha já existia  uma celebração, muito simpática, por sinal, aos livros feita no dia 23 de abril. Consistia em, no dia de São Jorge, dar uma rosa a quem comprasse um livro. Achei essa muito  fofa  essa ideia dos catalãs. Bem, mas inspirada ou não nessa celebração da Espanha a UNESCO aproveitou o dia (23 de abril) de morte de Shakespeare, Cervantes e La Vega e criou o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor. A intenção foi incentivar a leitura e lembrar, principalmente jovens, da importância do livro e dos autores através dos séculos.

Miguel de Cervantes
São Jorge
Especialmente neste 23 de abril de 2017, a Saraiva,  destina à UNESCO  R$1,00 de cada compra feita em suas lojas físicas e ou on line. E tenho orgulho de dizer que sou leitora viciada, fiz de meus filhos bons leitores e há pouco mais de uma década sou integrante de um grupo de leitura que além de saciar o vício da leitura, incentiva concreta e generosamente o hábito em crianças.   E se você, mesmo não sendo adepto da leitura, compreende a importância dos livros e quer contribuir com a UNESCO, aproveite e compre um livro na Saraiva. Conto com você, viu?



Fontes: Calendarr e Nações Unidas


quarta-feira, 19 de abril de 2017

As Formigas, Lygia Fagundes Telles



    
Quando minha prima e eu descemos do táxi, já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.
– É sinistro.
Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.
– Pelo menos não vi sinal de barata – disse minha prima.
A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro, descascado nas pontas encardidas. Acendeu um charutinho.
– É você que estuda medicina? – perguntou soprando a fumaça na minha direção.
– Estudo direito. Medicina é ela.
A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho.
Vou mostrar o quarto, fica no sótão – disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. – O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.
Minha prima voltou-se:
– Um caixote de ossos?
A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e, pondo-se de joelhos, puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.
– Mas que ossos tão miudinhos! São de criança?
– Ele disse que eram de adulto. De um anão.
– De um anão? é mesmo, a gente vê que já estão formados… Mas que maravilha, é raro a beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí – admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. – Tão perfeito, todos os dentinhos!
– Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente extra. Telefone também. Café das sete às nove, deixo a mesa posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa recomendou coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada final: – Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.
Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada.
Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana, prendi na parede, com durex, uma gravura de Grassman e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou- a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.
– Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.
Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até de madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.
– De onde vem esse cheiro? – perguntei farejando. Fui até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho. – Você não está sentindo um cheiro meio ardido?
– É de bolor. A casa inteira cheira assim – ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.
No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no quarto! mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.
– Que é que você está fazendo aí? – perguntei.
– Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo?
Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como um exército em marcha exemplar.
– São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida – estranhei.
– Só de ida.
Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.
– Está debaixo dela – disse minha prima e puxou para fora o caixotinho. Levantou o plástico. – Preto de formiga. Me dá o vidro de álcool.
– Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra fora.
– Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vem fuçar aqui.
Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.
– Esquisito. Muito esquisito.
– O quê?
– Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?
– Deus me livre, tenho nojo de osso. Ainda mais de anão.
Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do seu chá. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos a cabeça, como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.
Voltei a sonhar aflitivamente mas dessa vez foi o antigo pesadelo em torno dos exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha estudado. Às seis horas o despertador disparou veementemente. Travei a campainha. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de cimento, a procura delas
. Não vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e então entreabri as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas no caixotinho coberto.
Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. Então me lembrei:
– E as formigas?
– Até agora, nenhuma.
– Você varreu as mortas?
Ela ficou me olhando.
– Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?
– Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo… Mas então quem?!
Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.
– Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.
Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Não me parecia um cheiro assim inocente, quis chamar a atenção da minha prima para esse aspecto mas estava tão deprimida que achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia flor de maçã por todo o quarto (e se ele cheirasse como um pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho que competia nas repetições com o sonho da prova oral: nele, eu marcava encontro com dois namorados ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só restou o oco de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.
– Elas voltaram.
– Quem?
– As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão todas aí de novo.
A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá dentro. Sem caminho de volta.
– E os ossos?
Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.
Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta senti que no quarto tinha algo mais, está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formiga, você lembra? não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão… estão se organizando.
– Como, organizando?
Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu cobertor. Cobri meu urso com o lençol.
– Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto, mais um pouco e… Venha ver!
– Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?
Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a com o maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula. No chão, nem sombra de formiga, mortas e vivas, desapareciam com a luz do dia.
Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule fumegando no fogareiro.
– Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia – ela avisou.
O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso.
– Estou com medo.
Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.
– Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu nenhuma, não está na hora delas, é daqui a pouco que começa. Examinei com a lupa debaixo da porta, sabe que não consigo descobrir de onde brotam?
Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão me agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo até o quarto, acorda, acorda! Demorei para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava lívida. E vesga.
– Voltaram – ela disse.
Apertei entre as mãos a cabeça dolorida.
– Estão aí?
Ela falava num tom miúdo como se uma formiguinha falasse com sua voz.
– Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava…
– Que foi? Fala depressa, o que foi?
Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama.
– Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.
– Você está falando sério?
– Vamos embora, já arrumei as malas.
A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.
– Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?
– Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos, levanta.
– E para onde a gente vai?
– Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto.
     Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Calcei os sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei o urso no bolso da japona e fomos arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha do quarto, deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?
No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Os Lados, Paulo Mendes Campos

Há um lado bom em mim.
O morto não é responsável
Nem o rumor de um jasmim.
Há um lado mau em mim,
Cordial como um costureiro,
Tocado de afetações delicadíssimas.

Há um lado triste em mim.
Em campo de palavra, folha branca.
Bois insolúveis, metafóricos, tartamudos,
Sois em mim o lado irreal.
Há um lado em mim que é mudo.
Costumo chegar sobraçando florilégios,
Visitando os frades, com saudades do colégio.
Um lado vulgar em mim,
Dispensando-me incessante de um cortejo.
Um lado lírico também:
Abelhas desordenadas de meu beijo;
Sei usar com delicadez um telefone,
Nâo me esqueço de mandar rosas a ninguém.
Um animal em mim,
Na solidão, cão,
No circo, urso estúpido, leão,
Em casa, homem, cavalo…
Há um lado lógico, certo, irreprimível, vazio
Como um discurso,
Um lado frágil, verde-úmido.
Há um lado comercial em mim,
Moeda falsa do que sou perante o mundo.
Há um lado em mim que está sempre no bar,
Bebendo sem parar.
Há um lado em mim que já morreu.
Às vezes penso se esse lado não sou eu.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A Caderneta Vermelha, Antoine Laurain.

O táxi a deixou na esquina do bulevar. Ela só precisava caminhar cinquenta metros para chegar em casa. A rua era iluminada pelos lampiões que coloriam as fachadas com reflexo laranja, mas ainda assim, como sempre lhe acontecia tarde da noite, ela ficou apreensiva. Olhou para trás e não viu ninguém. A luz do hotel, ali em frente, inundava a calçada entre dois arbustos plantados em vasos que delimitavam a entrada do hotel três estrelas. Ela parou diante do seu prédio, abriu o zíper do meio de bolsa para pegar o chaveiro com o controle remoto, e depois tudo aconteceu muito depressa. Uma mão segurou a alça, uma mão surgida do nada e pertencente a um homem moreno, vestido com uma jaqueta de couro. O medo levou apenas um segundo para atravessar todas as suas veias e subir até o coração, para ali explodir numa chuva gelada. Por reflexo, ela se agarrou à bolsa, o homem puxou e, encontrando resistência, pousou a mão sobre o rosto dela e empurrou a cabeça contra o metal da porta.

A caderneta Vermelha, Antoine Laurain
Tradução:Joana Angélica D´ Ávila Melo,Alfaguara 2016, pág. 7

Nesse primeiro livro com tradução para  o Brasil, o autor traz uma história simples ambientada em Paris e que me prendeu logo na primeira página. Tenho hábito de me deixar levar a lugares fatos e objetos que encontre em livros. Assim, descobri que o autor citado na historia tem 71 anos e é um Nobel nascido em Boulogne-Billancourt (FR); Habanita, o perfume que estava dentro da bolsa, foi criado em 1921 e ainda existe. Vou confessar: fiquei interessada.  Antoine juntou fatos absolutamente possíveis a um nem tanto, meio parecido com novela das 9, pra fazer um livro cativante que o leitor não quer largar sem ver o final.  
Recomendo.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quarta-feira é dia de: A Mulher e o Amor, Marlene Canarim Danesi




Tenho sido amada, não o suficiente. Porque nunca se quer o suficiente: uma vida só não basta.

                                                                            
Frida Kahlo

Mulher e Amor questões instigantes e enigmáticas. O universo feminino está permanentemente relacionado com o amor. Não foi diferente com Frida Kahlo, uma das mais fortes personalidades entre as mulheres da era revolucionária, no México. Paixão, romance, dor, traição, luxuria e dramas resumem a vida desta ousada e intrigante artista mexicana. São várias Fridas, e a multiplicidade de aspectos de sua personalidade é a razão, que mesmo transcorridos tantos anos de sua morte, as pessoas sintam uma forte identificação com esta mulher a frente de seu tempo, única e intensa. Uma mulher cheia de vida, ícone das artes, que soube transformar suas deficiências em estilo. Apesar de uma vida cheia de dificuldades, desde doenças e traições, Frida sentiu que tinha energia suficiente para fazer qualquer coisa , quando um acidente a impediu de cursar Medicina , sua primeira escolha profissional. Ela costumava dizer que foram dois os acidentes em sua vida: o bonde e Diego.
O grave acidente de trânsito em 17 de setembro de 1925 deixou destroçado o corpo de Frida, inviabilizou a maternidade, motivo de enorme frustração, sofrimento e dor nos três abortos sofridos. O acidente aconteceu dez anos antes, de outro dezessete de setembro, o nascimento de Helena marcado também por circunstâncias quase trágicas. Mas não foi só esta a coincidência que, guardadas as devidas proporções, aproximou a vivência das duas mulheres. O nome da mãe de ambas ser Matilde, a origem indígena, a de Frida oaxaquenha, a de Helena dos índios carijós. E ainda a rebelião, o gosto por tequila, e o amar e desejar com loucura. Ambas estiveram sempre em busca de algo que preenchesse o vazio e a angústia, na expectativa de encontrar através do amor, a resposta para a felicidade.
Exótica, ambígua, autentica, feminina traços responsáveis da admiração de Helena por Frida. O desejo de conhecer a Casa Azul, onde a artista nasceu e morreu a leva ao México. Acompanhada de Rodrigo, um amigo mexicano, chegam ao Museu Frida Kahlo, situado em um dos bairros mais belos e antigos da capital. Percebe de imediato a intensa relação da obra de Frida com sua casa. Cada objeto diz algo sobre a pintora. Coletes ortopédicos, que ela soube tão bem ocultar a verdadeira função, enfeitados com cores vivas e flores, lembram o sofrimento físico. Os vestidos e joias retratam a mulher vaidosa e a colecionadora. A cozinha e o comedor falam da vida cotidiana, mas nos remetem também as festas que Frida e Diego costumavam oferecer aos amigos, regadas sempre com muita tequila. A pintura azul por dentro e por fora lembra o aconchego do céu. A Casa Azul é a síntese do gosto do casal pela arte e cultura mexicana. Frida é o México antigo, no ritmo da dança, do uso de máscara de seus ancestrais, na figura da índia que amamenta e enlaça a criança.
A visita fascina Helena, mas sua maior curiosidade é saber mais do Modelo tehuana adotado por Frida. Conforme lhe conta Rodrigo, as mulheres desta tribo costumavam nos tempos do México antigo, enfeitar-se com  colares  e peças de ouro.E ainda  hoje  usam  acessórios  chamativos, blusas  azuis  ou laranjas e vestidos longos  com bordados coloridos.Mulheres sem inibição,sexualidade livre,apaixonadas  pela música  e pela dança e envolvidas pela magia.Verdadeiros símbolos da indianidade e da rebelião feminina. Tudo que Frida foi e tudo que Helena sempre quis ser.

Entusiasmada em conhecer as origens destas mulheres belas e audaciosas, aceita o convite do amigo e vão a Tehuantepec. Não encontra a mesma opulência do passado, mas herança e tradição estão presentes. Participa de uma festa.  Os nativos tocam canções delicadas e melancólicas em instrumentos primitivos. É um ritmo lento, mas que se pode valsear. Ela começa aprender com Rodrigo a Sanduga, dança estranha, com nome africano, que inicia lenta e depois se acelera progressivamente. Baila ao estilo das tehuanas, de pé descalços, com flores nos cabelos e com o vestido colorido e longo varrendo o chão. Helena sente a dança vibrante como uma expressão erótica do mundo pré-hispânico, um mundo que ainda vive, apesar da violência e da sujeição da conquista. Sente também que em Tehuantepec percorre um pouco os caminhos trilhados por Frida Kahlo.E nesta cidade  compreende  e  encontra  as raízes  do  sentimento  de  identificação  da  artista com  seu país.     




In: As Viagens de Helena, Marlene Canarim Danesi

Nota: o texto foi gentilmente cedido e enviado para postagem pela autora..