terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Feliz você em 2014 !!



Feliz você que sabe que pode viver e agir como se não houvesse céu, nem inferno, nem países separando as pessoas, nenhuma razão pra matar ou morrer também.  Tudo bem, eu sou assim e isso significa que John Lennon não era tão sonhador. Quem sabe você no novo ano não se junta a nós?  Se você consegue.... Feliz você em 2014!!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Até a volta.


O blog LivroErrante entra de férias.
 Encontro vocês em fevereiro de 2014,

 abraço.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Valter Hugo, de volta à minha estante

Acabei de receber do volta O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe. É sempre bom receber correspondência e se for livro melhor ainda. No meu caso ou recebo porque comprei algum livro que queria ou porque voltou às minhas mãos algum exemplar que emprestei a várias pessoas, tendo o livro saído de uma cidade para outra até voltar.


O Filho de Mil Homens me emocionou muito. Ofereci no grupo formado para leitura de escritores africanos de língua portuguesa, que denominamos Morena de Angola.O livro saiu do Recife em Março. Passou por Fortaleza, São Paulo, Goiânia,Santa Maria de Jetibá (ES), Porto Alegre e  agora está comigo vindo de João Pessoa.









Saiu de minha casa, com um bilhetinho  e voltou com vários. Janete, que recebeu de Neto, leu o livro em abril. Diz que V.H.M é apaixonante. Acrescenta que não acredita na libertação do autor em relação a seu mentor, Saramago. No próximo ano vou na casa de Janete. A Tânia, em Maio, diz que a leitura flui verdades com delicadeza. Suzie acha que o autor consegue ser duro e triste sem ser cruel, ressalta que o amor, sob a ótica de Valter Hugo Mãe, não olha diferenças, escreveu num bilhetinho em junho; Marilda diz ter gostado muito e me convida a conhecer a cidade onde mora, escreveu essa declaração num belo cartão no mês de novembro. Por fim, já no mês de dezembro Amanda diz ter gostado do livro e me manda um cartãozinho de natal junto com o livro que terminou a trajeto.

Ah, ainda dentro do livro alguém esqueceu um papel que nada tem a ver com Valter Hugo.   Enfim, no postal de POA e no convite para conhecer Goiânia vieram o
orgulho de ser gaucha e o carinho por Cora Coralina, retratado no cartão; No cartãozinho de Natal com letrinha caprichada veio a delicadeza da paraibana minha vizinha, no bilhetinho cearense o amor declarado à cidade do Recife e na folhinha amarela com enfeite clássico veio a sobriedade e delicadeza paulista. Cada um pôs um pouco  de si pra trazer de volta o gato angolano Valter Hugo Mãe à minha estante. Estou feliz. 


Beijo bem frevado em cada uma de vocês. Até a próxima.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal.

Toada à Toa
Ferreira Gullar

A vida, apenas se sonha
que é plena, bela ou o que for.
Por mais que nela se ponha
é o mesmo que nada por.

Pois é certo que o vivido
- na alegria ou no desespero -
como o gás é consumido...
Recomeçamos do zero.



Recomecemos, pois, a partir de hoje, do zero.
Feliz Natal.

LivroErrante.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Uma Véspera de Natal, Marques Rebelo

Ventava, mas a noite era quente, luzindo estrelas por cima do recorte dos morros. O grilo cantava no meio da grama, no jardinzinho quieto.
Ele ouvia, pensativo. Quando o grilo sossegou, saiu da janela, acendeu outro cigarro, chegou-se para a poltrona onde ela se reclinava e venceu o silêncio que se prolongara.
     - Não te vais vestir?
Continuou com a cabeça loura tristemente apoiada na mão, e respondeu sem entusiasmo:
     - Vou. Tem tempo. Que horas são?
     - Dez.
     - Já?
Mostrou-lhe o relógio-pulseira, chegou-se mais e beijou-a:
     - Estás triste?
Deu um suspiro, fitou-o longamente:
     -Não. Por quê?
     - Não sei.
Não sabia mesmo. Parecia, porém, que estava,tão distante se mostrava. Pegou-lhe na mão, revirou-a, mirando a anel.
     - Papai Noel é pobre...
     - Você duvida meu bem?
     - Duvido duma coisa.
     - De quê?
     - Da tua memória.
     - Memória?! – Até se espantou, virando os olhos verdes e fundos.
     - Sim, memória. Queres ver? Vejamos: que é que aconteceu há sete anos?
Riu com meiguice: bobo. Chamou-o para junto de si, estreitou-o contra o peito, beijou-o e fugiu para o quarto.
     - Vou me vestir, ouviu. É um minutinho.
Ficou só na salinha, que o abajur de crepe tenuemente iluminava, de smocking, pronto, esperavam, um fecho divertido Para aquele dia que lhe correra tão bem. Recebera  a gratificação, trouxera um bonito presente, jantaram entre flores. Fazia justamente sete anos que se conheceram, casando pouco depois. Tivera alguns maus dias, padecera privações, mas sempre encontrara o apoio da esposa, que não o fizera fraquejar. Sete anos já se iam, e conservavam-se sempre unidos, muito amigos, sempre amorosos. Somos um casal feliz, dizia, às vezes.  
E Dona Cidoca, a prestimosa vizinha, não perdia ocasião para firmar “que a vida deles era uma eterna lua de mel”. Não compreendia, pois, a melancolia de Maria de que se achava possuída e que não conseguira, apesar das negativas, dissimular. Também, raciocinava, jantaram tão solitários... Fizera mal não convidar alguém. Estava um jantarzinho tão bom! Ao menos, tia Lulu, tão amiga deles, tão bondosa... Poderia parecer-lhe ingratidão. A história dela teimar em não ter telefone dava daquelas. Pouco importa. Poderia tê-la avisado de outra forma. Fora mesmo um grande esquecimento que não se repetiria. Enfim, iriam para o réveillon. Lá, sim, entre amigos, não faltaria alegria.
     Sentiu-se inquieto, apressado:
     - A minha princesa ainda demora muito?
     Ela aparecia radiosa, linda no seu vestido azul, comprido, quase escondendo os pés. Teve um sincero orgulho da esposa.  Não se conteve:
     Estás encantadora! Maravilhosa!
Correu para ela e enlaçou-a:
     - Vamos dançar muito, estás ouvindo? Havemos de nos divertir bastante para desanuviar este coraçãozinho!
     E marcando o compasso das palavras com o dedo conselheiral:
     Faz hoje sete anos...
     Ela abaixou os olhos, ele acompanhou-os com os seus, foram pousar na capa da revista, sobre a mesinha, uma singela alegoria – crianças brincando à volta duma árvore de Natal.
     Compreendeu tudo num relance. Que tolice pensar em tia Lulu, em amigos, em danças, em réveillon. Ver passar ,como passavam, aquela noite feita para  outras, tão diversas alegrias, era realmente doloroso.
     Tirou os olhos da revista e gemeu desconsoladamente:
     - Eu não tenho culpa.
Ela também não tinha. Agasalhou-se no mantô, deu-lhe um beijo triste:
     - Deus não quer.
Ficou parado,sem palavras, sem gestos, sem saber o que fazer.
Ela, então, gritou para a criada:
     - fecha tudo direito, Francisca. Olha que andam muitos ladrões pó aí!
E, enchendo-se de doçura, virou-se para ele:

- Não vai chamar o automóvel?

domingo, 22 de dezembro de 2013

Símbolos do Natal

                     Tão acostumados estamos com as mensagens natalinas, as árvores, o Papai Noel, presépio etc que nem notamos  que pouco ou nada sabemos a respeito dos símbolos do natal.   Hoje o blogueira deixa o tema da Literatura e posta a respeito das lendas e adereços que estão presentes nos nossos finais de ano. 

Pinheiro:
De origem germânica, sua tradição é atribuída a São Bonifácio - séc. VII. O pinheiro ( a árvore da vida na liturgia cristã) foi instituído pelo missionário em substituição ao sacrifício cristão ao carvalho sagrado do deus Odim. Representa a promessa do renascimento das outra árvores e de toda a vegetação. O costume de enfeitar árvores de Natal espalhou-se pela Europa e em seguida pelas Américas.







Presépio:
Origem ligada a São Francisco de Assis, no séc.XIII. no Natal de 1223, em Grécia, ele representou o nascimento de Cristo em um estábulo de verdade. A ideia se espalhou e até  a Sagrada Família, Reis Magos, pastores, anjos e figuras da vida camponesa são representados em miniatura.



 Velas e bolas
As velas anunciam as flores da primavera. Também simbolizam a alegria da chegada da luz com o fim o inverno. Os frutos (verdadeiros ou imitação) que se penduram nos pinheiros foram substituídos por bolas coloridas e são bons sinais para colheitas vindouras.





Cartões de Natal:
O hábito surgiu na Inglaterra por volta de 1843. Um inglês, Sir Henry Cole, pediu a John Horsley que desenhasse algo alusivo ao Natal, para distribuir com os amigos. John desenhou uma família brindando à saúde de um amigo distante. O desenho escandalizou a sociedade e o desenhista foi acusado de incentivar a bebedeira. A ideia, no entanto, foi aprovada e em 1851 os cartões começaram a ser impressos.

Dar presentes  colocando as caixas sob as árvores de Natal.
É uma tradição ligada aos festejos de São Nicolau, o atual Papai Noel, surgida na Holanda. Tem origem pagã. Entre os cristãos o costume surgiu com o papa Bonifácio, séc. VII. No tempo dele, no final das missas os paroquianos recebiam pães. No dia seguinte os padres eram presenteados.

E, por fim, ho ho ho...
Papai Noel:

                                                     Velhinho, gordo,pele clara, bochechas avermelhadas,cabelos, barba e bigodes brancos e bom coração. É essa a imagem que temos de Papai Noel há muitos anos.  Ah, tem também a parte de que ele, nas noites de Natal,  desce pelas chaminés ou pula sem ser visto as janelas das casas.  A história desse personagem surgiu há  17 séculos no culto a São Nicolau, bispo de Mira,na Ásia Menor.

Dizem que  em Patara, na Lícia (Turquia atual) por volta de 270, o  casal: Epifânio e Joana,  idosos ricos, tiveram um menino a quem deram o nome de Nicolau (pessoa vitoriosa). No ano 300, Nicolau conheceu 3 irmãs que não conseguiam casar por serem pobres. Ele resolveu ajudá-las. Todas as noites ele jogava moedas de ouro na casa delas, que caiam dentro de uma meia.(Daí o costume de pendurar meia ou sapato nas janelas ou lareiras, iniciada nos Países Baixos). 
Conhecido por sua bondade, Nicolau morreu entre os anos 345 e 352, em Mira. Foi sepultado na igreja da cidade. Depois de sua morte, passou a ser cultuado e a partir de 987 transformou-se no protetor da Rússia.
Quando em 1807 Mira foi dominada pelos turcos, seus restos mortais foram levados pelos monges e marinheiros para a cidade de Bari, na Itália.
Durante a Idade Média, São Nicolau era representado como um distribuidor de presentes, vinho e pão, ricamente trajado. O costume de presentear as crianças no dia de São Nicolau ( 6 de dezembro) foi transferido para a noite de 24 de dezembro. No séc. XVII ele foi levado para a América pelos holandeses. O Papai Noel conhecido dos brasileiros foi desenhado pelo professor de Teologia Clemet Clark Moore, nos USA em 1856. O Chamado bom velhinho, chegou no Brasil no séc. XVIII trazido pelos imigrantes.
 (Fonte: JC.25.12.1994- Cidades)


Papai Noel, como existe agora, não foi criação da Coca Cola, a referida empresa usou a imagem numa propaganda  e impulsionou enormemente seu uso comercial, fixando definitivamente o personagem no ocidente.



Ded Moroz (esquerda), correspondente russo do nosso Papai Noel.

São Nicolau (direita)








Não sei a origem das renas e trenós. Seus nomes em português são: Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago. Quem souber a respeito, explique por favor.





sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Maravilhosos Cabelos de Algodão - Galeria


           Notei que algumas das personalidades de que gosto bastante têm em comum os cabelinhos de algodão. Fiz, afetivamente, uma galeria deles e o mais novo integrante, completa hoje 97 anos. Trata-se  do escritor mato-grossense Manoel de Barros,
                                       Este criativo escritor de estilo personalíssimo nasceu em Cuiabá, tem uma obra imperdível que este blog já trouxe em Caso de Amor e, mais recentemente, em Parrrede!

Outro talento de cabelos brancos em minha galeria  não é escritor. Aliás, não escreve com palavras, mas faz poemas ou crônicas, com bronze, cimento, argila. Exagerado em talento também arrasa com pincéis e nanquim. Tive o prazer de conhecê-lo e  posso garantir que Abelardo da Hora, hoje com 89 anos, é uma pessoa interessantíssima. Falante, arguto e excelente contador de histórias. Ah, e sabe cantar!!





Sobre Ariano Suassuna, todos já sabem. Conheci há algum tempo numa aula espetáculo, que depois revi em vídeo.  Tem uma entrevista concedida por ele ao jornalista Geneton Moraes Neto que é imperdível. Me fez repensar sobre o perdão e sobre religiosidade. Neste blog tem o aniversário de 40 anos de um de seus livros mais famosos: A Pedra do Reino.












E, por fim, o mais jovem de minha galeria: Ignácio de Loyola Brandão com quem tenho um ponto em comum: incapacidade para matemática. Seu livro mais recente, Solidão No Fundo da Agulha está aqui no blog e meu exemplar com dedicatória seguiu para o Rio de Janeiro de onde vai para Cuiabá antes de voltar pra minha estante.  Morram de inveja de minha galeria de cabelinhos de algodão.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Crônica Mais Acessada

 
 Rubem Braga o mais importante cronista do país nasceu na mesma cidade de Roberto Carlos: Cachoeiro de Itapemirim. 

Esta é a Casa dos Braga, tombada como patrimônio cultural de Cachoeiro de Itapemirim  foi por muitas décadas a residência  da família do cronista  e seus trabalhos começaram a ser feitos quando ela ainda residia lá.  

Finalizando o ano de 2013, trago hoje a crônica mais acessada no blog: Louvação, de Rubem Braga, começa assim:


 "Já escrevi sobre isso: mas a coisa me impressionou, e além do mais ainda não recebi os jornais, são seis e quarenta, e Chico Brito combinou de passar às 8 horas para irmos às enxovas. Se começar a procurar assunto, acabo perdendo a pescaria. E acontece que há pouco , quando acordei,eu estava sonhando com isso. Via um homem de avental e touca, como se fosse um sacerdote, mas um sacerdote em paramentos brancos de padeiro."  

Continue lendo Louvação.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Casa Grande & Senzala, 80 anos.

                                        


 Neste mês de dezembro um os livros brasileiros mais importantes completou 80 anos.  Obra de referência para estudiosos principalmente de de História, Sociologia e Antropologia o livro também é  alvo de críticas.  Leia resumo  de Casa Grande & Senzala. conheça também outros produtos ligados à obra:









 Arrasando na terceira idade, está na  48ª edição no Brasil e possui edição em quadrinhos:

          Pode ser encontrado em DVD , numa produção de 1998 feita por Nelson Pereira dos Santos.


E há também, descobri hoje, um poema de Manoel Bandeira:

Casa Grande & Senzala
Grande livro que fala
Desta nossa leseira 
          Brasileira.

Mas com aquele forte
Cheiro e sabor do Norte
- Dos engenhos de cana
      (Massangana!)

Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fuôs
      Com sinhôs.

A mania ariana
Do Oliveira Viana
Lava aqui a sua lambada
      Bem puxada

Se nos brasis abunda
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns
       Octoruns,

Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
           - Diz o Boas -

É coisa que passou
Como o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço
      Não está nisso.

Está nas causas sociais,
De higiene e outras que tais:
Assim pensa, assim fala
     Casa Grande & Senzala.

Livro que à ciência alia
a profunda poesia
Que o passado revoca
     E nos toca

A alma de brasileiro
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
     Infeliz
   

O Jornal do Commércio na edição domingueira de 15.12.2013 traz matéria comemorativa dos 80 anos da obra de Gilberto Freyre.
Caderno Cidades páginas 1,6 e 7  e Caderno C páginas 1 e 6  - Matéria da jornalista Fabiana Moraes

Na web: jconline.com.br/casagrandeesenzala.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Minhas Melhores Capas de Livro 2013

        Passear em livrarias é uma festa. Estive em uma mega store de São Paulo pesquisando títulos interessante para um projeto que vou desenvolver com adolescentes de uma cidade do interior e aproveitei para ver capas de livro.  As capas por si, já são capazes de atrair o leitor e eu, confesso, que já comprei guiada apenas pelo visual atraente.   Pois bem, deste meu agradabilíssimo passeio à FNAC, tirei Minhas melhores Capas de Livro de 2013.

Beijos Dados e Não Dados
Roger Olmos e David Aceituno
Ed.Octavo Ltda
Lit. Nacional
Meu Kafka
Textos de Kafka
Ilustrações: Stefanie Harges
A Bela Velhice
Mírian Goldenberg
Ed.Record
Só Gosto do Cara Errado
Laura Conrado
Ed.Novo Século
O Conto do Amor
Contardo Caligaris
Ed. Cia das Letras

Azar o Seu
Carol Sabar
Ed. jangada
Morrer de Prazer
Ruy Castro
Ed.Foz Impressos
A Arte de Ser Leve
Leila Ferreira
Ed. Globo

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Caso de Amor, Manoel de Barros

Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja que fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois, Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei  ela bem acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando vem  um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e  de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessam para ver o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor.

(Em: Memórias Inventadas As infâncias de Manoel de Barros - Ed. Planeta 2010)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Poema de Amor Sem Exagero, Joaquim Cardozo- Segunda-feira poética



Eu não te quero aqui por muitos anos
nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas da noite.
Para que tanto Corpo!
Mas ficaria contente se me desses
por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
Do teu corpo de nuvem.



Joaquim Cardozo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Portugal Telecom para Pernambuco

Da esquerda para a direita: Eucanaã, José Luiz e Cíntia

                         Nesta última edição do conceituado Prêmio Portugal Telecom de literatura um dos vencedores é um Pernambucano que eu não conheço. José Luiz Passos, é o ganhador na categoria Romance, e prêmio principal com o livro
Sonâmbulo Amador, editado pela Alfaguara.  

                                   Prêmio Portugal Telecom premiou também: Essa coisa Brilhante Que É A Chuva, de Cíntia Moscovich na categoria contos/crônicas (Ed.Record) e  Sentimental de Eucanaã Ferraz, categoria Poesia. (Ed.Cia das Letras)

Aprendi agora que o conterrâneo José Luiz Passos, é um jovem nascido na zona da mata do estado, vive nos Estados Unidos e é professor da Universidade da Califórnia.  

     Sonâmbulo Amador,   é a história de um funcionário da indústria têxtil internado em uma clínica psiquiátrica cujos sonhos se misturam com acontecimentos políticos do fim da década de 60 (release da editora).

O romance vencedor do ano passado foi:
A máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe – Cosac Naify

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A Varanda do Frangipani, Mia Couto

A  visão daquela morte me fez lembrar meu próprio fim. Chegara minha vez de me reassombrar. Acenei, triste, para os velhos. Me despedi da luz, das vozes, do cacimbo. Me comecei a internar na areia, pronto a me desacender. Mas, em meio disso, hesitei: o caminho do regresso não podia ser aquele. Aquele chão já não me aceitava. Eu tinha me tormado num estrangeiro no reino da morte. Agora, para atravessar a derradeira fronteira eu carecia de clandestinidade. Como me transitar, transfinito?   
     Recordei ensinamentos do pangolim. A árvore era o lugar do milagre. então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu, como sémen da terra. A cada gesto meu o frangipani renascia. E quando a árvore toda se reconstituiu, natalícia, me cobri com a mesma cinza em que a planta se desintactara. Me habilitava assim a vegetal, arborizado. Esperava a final conversão quando um fiozinho de voz me fez parar:
     - Espere, eu vou consigo, meu irmão.
Era Navaia Caetano, o velho-menino. O tempo já lhe tinha confiscado o corpo. Estava encostado no tronco, perdia  as naturais cores da vida. E repetia:
     - Por favor, meu irmão.
Me chamava de irmão. O velho me ratificava de humano, sem culá de eu, em vida, não te sido outro. Me estendeu a mão e pediu:
     - Me toque, por favor. Eu também quero ir...
     Segurei sua mão. Mas então reparei que ele trazia, a tiracostas, o arco de brincar. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. Lá os metais eram interditos. Mas a voz do pangolim me chegou corrigente:
     - Deixe o brinquedo entrar. Este não é um caso de última vez...
     E Navaia  se iluminou de infâncias. Me apertou e, juntos, fomos entrando dentro de nossas próprias sombras. No último esfumar de meu corpo, ainda notei que os outros velhos desciam connosco, rumando pelas profundezas da frangipaneira. E ouvi a voz suavíssima de Ernestina, embalando um longíquo menino. Do lado de lá, à tona da luz, ficavam Marta Gimo e Izidine Naíta. Sua imagem se esvanecia, deles restando a dupla cintura de um cristal, breve cintilação de madrugada.
     Aos poucos, vou perdendo a língua dos homens, tomado pelo sotaque do chão. Na luminosa varanda deixo meu último sonho, a árvore do frangipani. Vou ficando do som das pedras. Me deito mais antigo que a terra. Daqui em diante, vou dormir mais quieto que a morte.
 
Ed. Cia das Letras
Ano 2007)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Seara Africana, Ricardo Alves


Chora Maria.
Quem firma teus pés ao solo,

É a dor.
E a ginga entorpece,
Girando a saia rodada,
O tempo, o vento e a poeira ao subirem,
Chegam e lá vivem inertes
Fica cravado em teu corpo o suor,
Que destemido, aventureiro,
Atravessa,
Teus seios,
teus sonhos,
Tua penha por inteiro.
Tua liberdade implora seguindo um andor.
Chora Maria,
Através de ti a terra senti, cheia,
Enquanto lá fora seca,
Somente o que quer viver.
Mas esse tudo é baseado na frieza.
Quem viu nascer o mundo,
Viu também morrer um povo.
Sangue na senzala,
Quiçá não seja d`outro,
Este que por inconsciência,assumes te,
E te remete a paredes mudas, frias, mas não surdas.
Por ele que desejas falar.
A pino ardor na pele, filho do sol.
Chora Maria.
Oxalá traz a manta que enxugará,
Levando a vida do senhor da terra, que cedo,
Rasgando o véu, 
O vértice do continente,
Tua pele partia.
Chora Maria
Que em verdade, 
Não chora.


Ricardo Alves


sábado, 30 de novembro de 2013

Última Crônica-cantada de 2013




              No ultimo sábado do mês posto também a última crônica cantada do ano. Tenho uns dias fixos no blog: a segunda-feira é para poesia, a quarta para crônica, conto ou artigo e o sábado para uma música crônica. Pela dificuldade, esta é a postagem menos correta que faço. Algumas vezes coloco apenas uma música. Boa, é certo, porém que não pode ser considerada crônica.
Pois bem, como dezembro é um mês difícil para audiência em alguns tipos de blog e eu mesma vou me dar férias, encerro hoje com uma música super antiga e que é verdadeiramente uma crônica.
Negue - Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos é uma das músicas que Ignácio de Loyla Brandão usa como inspiração em " Como Foi Que O Tempo de Tania Ficou Paralizado em 1960" que está no magistral livro Solidão No fundo da Agulha, que eu já trouxe aqui no blog.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Parrrede!!, Manoel de Barros

Só recentemente conheci Manoel de Barros, mais exatamente o livro Memórias Inventadas -As Infâncias de Manoel de Barros. Me deparei com um livro sensacional: conteúdo e continente. Capa dura, ilustrações primorosas feitas por sua filha Martha Barros  e os textos muito bons. O autor tem um estilo muito original de falar de coisas cotidianas. Poético, engraçado, surpreendente.




Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte  a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu para decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
-Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas de Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu a fascinado pra parede.
desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do do cheiro das letras.
fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes. 






Memórias Inventadas As Infâncias de Manoel de Barros
Ed.Planeta
Ano 2010
Iluminuras de Martha Barros

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Romance Perdido, Joaquim Cardozo - Segunda feira poética

Quando cheguei, quando venci por fim as incertezas do caminho,

Já a noite dormia sob as árvores do parque.
Somente na sombra o olhar de um lago frio,
Somente no musgo das pedras o contato de mãos macias,
Somente no céu a nudez das nuvens inconstantes,
Somente, Josefina


O vento gelado apagara  o teu desejo,
A noite modesta vestira teu corpo.

sábado, 23 de novembro de 2013

Vou ler por causa das ilustrações: Decameron

Há 700 anos nascia Boccaccio (Bocage, no Brasil) e  por causa da data, a Ed.Cosac Naify  lança uma edição especial de sua obra mais popular Decameron, com ótimas ilustrações do artista plástico paulista Alex Cerveny.  


Decameron é um conjunto de 100 novelas, que dá início ao realismo na literatura. Foi escrito durante 5 anos no século XIV. 
A obra se passa no período da peste negra que dizimou milhares na Europa. É um relato desse flagelo. Boccaccio fala da doença e da reação das pessoas.   Não posso falar mais a respeito sem ir ao Google porque mal comecei a leitura.  Alguém mais culto, pode contribuir?








Tenho esse livro há quase 10 anos, sem jamais ter me interessado por ele. Agora, igual criança, fui atraída pelas ilustrações e me animei. Vou ler.






Cordel do Fogo Encantado canta João Cabral de Melo Neto



O Texto recitado pelo grupo Cordel do fogo encantado, é a fala de Joaquim no poema Dos Três Mal Amados,  de João Cabral de Melo Neto.

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.