quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Porque hoje é.... aniversário de Drummond


Hoje Carlos Drummond de Andrade faria 111 anos. Não vou falar nada sobre o poeta, claro. Ele desde há muito é de po todos querido e sabido. Procurei, então, a página 111 de um de seus livros e encontrei um poema que podia ser crônica, artigo, prosa... Drummond, exagerado em talento, tinha dessas coisas. Deixo abaixo o que encontrei na página 111 e, iurrúuuuu , ainda não tinha no Google!


Desenho de Ramon Muniz



Em Março, Esta Semana
Carlos Drummond de Andrade

Segunda-feira a gente ficou presa
não no distrito: em casa, ante o combate
de Cassius Clay e Frazier... Que tristeza
ver Muhammad Ali tatibitati,

hesitando, caindo, prolongando
por 15 rounds nossa aflição inglória:
Vai resistir? Virar a luta? Quando
acaba a cruenta e lenta história?

Sem apostar um dólar ou cruzeiro
pois nutro por tabefes sacro enjoo),
lamento haver perdido: o palradeiro
tem minha simpatia no seu voo

rumo  à ideia de paz,num mundo de guerra.
Até  um boxeador acusa o vício
de nos entretermos sobre a terra,
este açougue instalado num hospício.

Lá se foi Harold Lloyd, um velho chapa
do tempo em que o cinema era calado
e a gente é que falava... Eis que à socapa
voltam risos e sombras do passado.

- Viu Carlito no Circo? - Não quis ver,
pois já não sou broto carlitiano,
e procurando nele o antigo ser,
não mais o encontro ... Deve haver engano.

Mudaria Carlito ou mudei eu?
(Sempre me perseguindo o eterno Assis,
como se a vida não me houvesse assaz
revelado o segredo de uma noz
escondida num papo de avestruz.)

A rima neste ponto se perdeu,
mas que importa? Se a Light  não me apaga
a luz, visitarei com Geyse Bôscoli
(oh abram alas!) Chiquuinha Gonzaga
no livro que através o tempo fosco lhe
recorda o humano e musical perfil.
Que mulher e que mina de talento
Em polca, xote, valsa, tango, mil
Composições, arte lançada ao vento!

Mas que é isso, no Parque de Iguaçu?
Que diz o Frisch? Por manhas de posseiros
vejo as fontes secando e o solo nu?
Roubam nossos tesouros derradeiros?

Orlando Vilas-boas, por seu lado,
no Parque do Xingu, pede magoado:
- Mudem-me, por favor, esse traçado
de rodovia, que desmantelado

deixa o viver de índio na floresta
e nada lhe oferece além da triste
integração, essa ilusória festa
a que ele, sem defesa, não resiste.

Falar em índio, grande livro este,
novinho, de Darcy Ribeiro. Leste?
Uma serena avaliação de dados
a serem fundamente  meditados

enquanto não se extingue a velha raça
de teto errante e de ventura escassa.
Já não mais tranço as rimas, e daí?
Parelhas são, mas contam que li,

o que vi ( ou não vi) prestando ouvido
na direção do terceiro partido.
Quem é que vai fundar, que pioneiro,
um que falta; o primeiro e verdadeiro?

Havia de ser bom. Mas como? Onde?
o eco anda maroto, não responde.
E vem-me a tentação, mais uma vez,
de romper estruturas... Um, dois, três:

 “Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada...”
- Mas isso é Bilac ! – Então, adeus ... mais nada.


 Sugiro a audição do poema Morte No Avião, que o(a) internauta do Diário Caçadorense informa ser a página 111 do livro A Rosa do Povo. 

 

 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Medo de Injeção é Boiolice, Dirceu Kuhn

Um vizinho me confessou um humilhante desassossego diante das medicações injetadas via subcutânea, intramuscular ou endovenosa. Eu, corajoso em qualquer situação, quase não contive o sarcástico riso debochador. Pensei comigo mesmo que esse negócio de homem sentir medo não passa duma fraqueza inexplicável; uma, digamos, falta de coragem pra assumir o lado... feminino... Ao inverso de mim, que me julgo deveras valente, destemido, uma impávida fortaleza de cálcio petrificado (tenho ossos fortes; aliás, quase só tenho ossos).
Pois sou neto de alemães bravios (verdade que meus ascendentes rapidamente fugiram ao Brasil na Segunda Guerra Mundial. Mas fugiram porque eram machos e não bobos!). Retomando o fio da miada, eis que nasci nas selvas paranaenses, nas quais amedrontei cascavel no chute e destrocei jaguatirica no dente: isto quando não brincava de agarrar jacaré à unha e espantar marimbondo a soco! (alguma dúvida quanto à masculinidade retumbante?). Contudo, porém, entretanto e todavia, apesar de tanta robustez e ousadia, não saí do ventre materno assim tão inabalável não.
Porque, uma vez criança (criancinha), me deparei frente a frente com algumas coisas aterrorizantes. Uma delas foi no dia em que pela primeira vez trepei... trepei numa árvore desafiadora. Terminou possuindo-me um pequeno medo corriqueiramente latente se em altura superior à incrível marca de... um metro. Então, abraçado ao tronco igual tamanduá robusto ou bicho-preguiça amedrontado, fechei os olhos e berrei até o meu pai me recambiar de lá (contra a vontade, ressalto). No entanto, intentando a perfeição, fui paulatinamente me elevando mais e mais sem sentir tonturas, enjoos, ânsias de vômito, e demais sintomas de falsa gravidez. Hoje, numa prova de inacreditável evolução, subo tranquilamente à cerca de quinze metros do solo sem me borrar todo (se vinte, enfarto).
Outro desafio assombrante de que me considero definitivamente liberto? Sim, o de dormir sozinho no escuro. Houve tempos a jamais cair no sono sem ouvir um “Nana neném, que a cuca vem pegar”. Somente esta cantoria espantava o pavor de bicho-papão, fantasma, alma penada, boitatá, água-viva, água-morta, saci-pererê, mula-sem-cabeça, Papai Noel, coelhinho da Páscoa, monstros, vampiros, assaltantes, deputados. Atualmente, e assumida esta condição de adulto, crescido, consciente, absolutamente nada perturba (embora ainda vigente o medo dos deputados). Aliás, também efervesce em mim um estagnante calafrio do calcanhar à testa se penso em cemitério ou disco voador. Não passo à noite perto dum campo-santo nem morto, não ponho o pé fora de casa às sextas-feiras nem pra urinar, não me aproximo de qualquer lugar escuro nem se iluminado. Enfim, apenas utilizo os mais lógicos critérios de mera precaução por não me faltar coragem, que fique claro.
Dentre estes, cito: não cruzar por debaixo de escadas; fugir sumariamente de prováveis e improváveis discussões; trancar as portas e janelas usando três sistemas de fechadura; cobrir a cabeça com travesseiros a fim de não escutar ruídos nem gemidos horripilantes; não assistir filmes de terror e violência nem amordaçado; não olhar de forma direta nem indireta à mulher do próximo se o próximo está próximo (este último, sem falseamentos, já enfrento bravamente).
Por complemento, vivo rezando nove vezes ao dia no propósito de se afastarem de mim os acidentes, incidentes, dementes, inclementes, advogados, endemoninhados, viciados, afogamentos, atropelamentos, estrangulamentos, agiotas, marmotas, poliglotas, alucinações, assombrações, despressurizações, dragões, escorpiões, eletrocussões, furacões, hipermedicações, insolações, inundações, tubarões, vulcões, androides, debiloides, andromedranos, jupiterianos, marcianos, netunianos, plutanianos, saturnianos, uranianos, venusianos, anti-cristos, árbitros de futebol, arranhas, asfixias, bruxarias, feitiçarias, histerias, magias negras, ataques cardíacos, ataques epiléticos, balas perdidas, balas certeiras, buracos negros, buracos brancos, cachorros loucos, caiporas, capetas, carcereiros, maconheiros, carrascos, centauros, dinossauros, minotauros, tiranossauros, chupa-cabras, ciclopes, claustrofobias, cleptomanias, hidrofobias, cobradores, devedores, doutores, escritores, gladiadores, sequestradores, cobras venenosas, coices de cavalo, chifradas de touro, comas alcoólicos, cometas, corruptos, curumins, derrames cerebrais, encostos, entrecostos, endemoninhados, falsos profetas, charlatães verdadeiros, fanáticos, fantasmas, fuligens, vertigens, hecatombes, hereges, hidras, invejosos, lobisomens, lobos maus, lunáticos, maldições, mamutes, maremotos, terremotos, mastodontes, rinocerontes, maus-olhados, maus espíritos, medusas, meteoritos, meteoros, monstros titânicos, morcegos, necroses, neuroses, verminoses, onças, pedaços de satélite ou foguete, perversos, pesadelos, piripaques, polvos gigantes, pragas, produtos tóxicos, raios, sanguessugas, tonturas, ursos polares, astros celestes, astros de reality show, e demais riscos costumeiros.
Em suma, finalizando e destacando o lado pedagógico deste escrito, repasso gratuitamente aos mais medrosos um infalível método de enfrentamento de medos, especialmente em relação ao chilique das injeções. Ei-lo: Exiba coragem de sobra, não sue gelado, não se deixe levar pela quentura no rosto, não grite, não tema, nem trema. E como? Ora, ouça as sábias vozes da experiência e faça como eu: desmaie antes (os mal-estares acabam instantaneamente).


Leia mais no site: www.poetaescritor.com.br

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mané Garrincha

     "Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um dos seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos...Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho".
Isto é de Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta modernista brasileiro. E nunca foi lido pelo alagoano Amaro - analfabeto, bêbado,cafuzo e mulherengo. Porém, pai de Manoel Francisco dos Santos, o essencial Garrincha, um dos melhores boleiros do planeta, que nasceu em 28 de outubro de 1933, no distrito mageense de Pau Grande, no Estado do Rio de Janeiro.
     Mané era o quinto filho de casa e a irmã mais velha, Rosa, vendo nele o passarinho indomável e de canto suave, passou a chamá-lo de Garrincha. E ele,  bem como o apelido, desde cedo mostraria o que lhe era de gosto e temperamento. Daí, do lado indígena fulní-ô paterno, o futuro ídolo herdara o pendor alcoólico. E a alegria de viver e jogar vinha-lhe igualmente da negritude de seu  Amaro dos Santos. 
     Mas ninguém em Pau Grande discutia que o adolescente bebesse.Incrível era que ele jogasse bola com o joelho direito virado para dentro e o esquerdo para fora, o aleijão tornava uma perna menor que a outra deslocando a bacia. E que jogasse tanto no time da indústria têxtil América Fabril, onde o fujão operário Garrincha trocava o trabalho pelas peladas. Só que ele era o ás da equipe da fábrica, o que fez o Serrano de Petrópolis contratá-lo para remunerar o jogo.
Essa forma de salário criaria nele a ânsia de viver da terceira coisa - depois de sexo e bebida, nesta ordem - que mais gostava: jogar. E ainda fez seu tio Manoel Caieira - cachaceiro inveterado - querer transferí-lo  para um dos clubes cariocas de renome.
     Em 1950, Caieira levou-o aos Vasco e São Cristóvão. E, em 51, aos Flamengo e Fluminense - todos sem êxito. O caipira Garrincha quis desistir de time grande quando - já casado com Nair, operária que lhe dera uma filha - o Botafogo o convidou para um teste. E só em 10 de junho de 53 ele foi treinar. Nesse dia, Nilton Santos pediu que o contratassem - inclusive, para sossegar o resto da vida e ter certeza de que jamais seria desmoralizado por alguém no futebol.
     O Botafogo pagou míseros US$27 ao Serrano e a Garrincha um salário mixo, mas acima do da tecelagem. Para o Rio, Mané trouxe a amante, Iraci. E toda semana subia a serra para beber e transar com a negrinha Nair, em quem fez adiante mais sete filhas. No clube, ele cresceu na ponta-direita, mas o time de 53,54 e 55 esteve mal. Na Taça O'Higgins, em 19 de setembro de 1955, Garrincha estreou no selecionado brasileiro.E só em 57, quando o Botafogo foi campeão carioca, voltaria ao escrete. Ano seguinte, Mané venceu a Copa do Mundo da Suécia, onde além de beber o que tinha direito, fez numa namoradinha Ulf  Lindberg - irmão nórdico dos dois filhos que teve com Iraci, a mulata pau-grandense
a quem logo esqueceria.
Pássaro Garrincha
     Nos anos 59 e 60, pela seleção, Garrincha jogou amistosos e um sul-americano. Em 61, venceu as taças O'Higgins e Oswaldo Cruz, além do certame estadual pelo Botafogo. À época, separado de nair, amigou-se com a cantora Elza Soares. Ano seguinte, bisando o carioca, venceu o Rio-São Paulo (título repetido em 64) e fez 12 jogos no escrete para levar outra vez a Oswaldo Cruz e a Copa do Chile, onde foi o craque da competição - apesar de expulso de campo, fato isolado na carreira. Só voltou ao time do Brasil em 65, ano em que o venderam  ao Corinthians  E no Mundial de 1966,contra a Hungria, Garrincha perdeu pela única vez no escrete, sendo esta última partida pelo selecionado - contabilizando 61 jogos e 17 gols.
     A rigor, ele decaiu quando,com  artrose crônica e fora de peso, recebia infiltrações nos joelhos para dar renda ao Botafogo - com ele cota de US$12 mil; sem ele, só US$8 mil. Vendo a mina secar, esse clube o cedeu ao Corinthians  onde Mané fez só 10 jogos e ganhou a Rio-São Paulo de 66.Depois, para sobreviver, ele tentaria a sorte no colombiano Atlético Júnior, de Barranquilla. E, de volta ao Rio, ainda atuou sem brilho nos Flamengo,Olaria e Portuguesa.
    Na Itália do início dos anos 70, ele jogava em um time amador, adversário de equipes de várzea.E teve como motorista particular o poeta Chico Buarque de Holanda - à época exilado político. Só que Mané podia voltar. E voltou ao Maracanã, onde foi  o anjo das pernas tortas   e A alegria do povo, no "jogo da gratidão" que reuniu atletas nacionais e estrangeiros em dezembro de 73. Mas, após beber a renda dessa partida, dirigindo embriagado em três ocasiões, ele vitimou o pai em Pau Grande, uma criança e a sogra. Às vezes, sem gás, alugava-se a times medíocres e com o amealhado bebia. Num carnaval a sua imagem alegórica na escola de samba que o homenageou era comovente. E ele, que sempre fora meigo e cordial, deu-se à violência com quem queria ajudá-lo, como Ademir Menezes. Até que, em  77, agrediu fisicamente Elza e ela - mãe de Garrinchinha - não suportando mais, o abandonaria. Então, o perturbado Mané se uniu a Vanderléa, que lhe deu uma filha - totalizando, como fogoso garanhão de cinco parceiras, uma prole repleta de 13 rebentos.
Em carro alegórico da Mangueira - 1980
     Contudo, seu feito maior não foi essa neurose. Não, ele fez bem mais... Afora a magia  do drible inigualável  Mané levou ao futebol o cavalheiresco gesto de pôr a bola fora de jogo para socorrer alguém. E certa vez, no México, de tanto vê-lo driblar um ala do River Plate, a massa passou a dizer olá, brado de incentivo das touradas, hoje incorporado aos estádios do mundo. Ainda mais dele: as frases sutis e curtas. No Chile, em 1962, um radialista pediu: ao micrófono para sus despedidas. E Garrincha: "Adeus, micrófono".  Com outro repórter foi diplomata: "Nasci Flamengo, mas cresci Botafogo". Neste clube, aliás, o honrado almirante Lima Lages ouviu quando o ponta-direita disse - na buxa e sem pestanejar - a um presidente o quanto queria receber de salário: "No mínimo, o máximo'.
     Esse gênio iletrado, que - para o cronista Paulo Mendes Campos - fez a mágica superar a lógica, morreu no Rio, em 20 de janeiro de 1983. Na autópsia, seus cérebro, coração,pulmões, pâncreas,fígado,intestinos e rins estavam parcialmente destruídos pelo álcool. Porém se esse exame sentisse humanamente,decerto diria que com mané Garrincha desapareceu, sobretudo, o sonho de todo e qualquer homem que queira fazer da alegria a razão suprema do futebol. E da vida.    

Um Sonho Em Carne e Osso
Antonio Falcão
Ed.:Bagaço -2002
    

sábado, 26 de outubro de 2013

Crônica cantada:A companheira


 
 
A Companheira
Guilherme Brito e Paulinho Tapajós
 
Foi porque
Seu cabelo embranqueceu
Como a neve pintou o meu
Que o amor renasceu
Foi porque
Caminhar trouxe a sua mão
Fez das pedras jasmins no chão
Fez do mundo um jardim
Foi assim que o princípio roubou o fim
Que o olhar que olhou por mim
Renovou nossa festa
Quero mais que o futuro não volte atrás
E que a gente prossiga em paz
Pro infinito que resta
É lindo envelhecer
Se a companheira é você
Que a vida inteira
Sempre foi minha alma gêmea
E nada que eu disser dirá jamais
Todo o bem que você me faz
.
 
A música mais conhecida de Paulo Tapajós é Andança, um clássico dos festivais dos anos 60. Como não gosto nem um pouquinho de Beth Carvalho, escolhi A Companheira em que o autor também canta. Gosto dessa música pela simplicidade e lirismo.Ah, tá bom, também pelos cabelos brancos. Ouçam outras músicas e conheçam Paulinho Tapajós recentemente falecido. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

As Flores do Ruanda, Adelson Correia da Costa

As Flores do Ruanda


Estou lendo e gostando desse livro.  O autor disponibilizou os primeiros capítulos e eu trouxe para que o internauta fique curioso.

Capítulo I

2004 — O Ruanda lembra os seus mortos

No dia 6 de abril de 2004, eu estava novamente no Ruanda, uma pequena república soberana da África Central que faz fronteira ao norte com Uganda, sul com Burundi, oeste com o Congo (antigo Zaire) e leste com a Tanzânia. Era a segunda vez que visitava o país e, desta feita, com o objetivo de superar alguns traumas decorrentes da minha primeira estada dez anos antes. Aquela seria uma experiência redentora e confesso que precisei de muita coragem para voltar, pois iria reviver uma época no meu passado repleta de memórias desagradáveis que me marcaram profundamente.
Quando saí do país africano pela primeira vez, em 1994, meu pai, um senador americano, colocou-me para fazer análise com um terapeuta behaviorista amigo havia muito tempo da nossa família e conhecido em todos os Estados Unidos da América. Foi este profissional quem me aconselhou a realizar uma segunda visita a Kigali, a capital ruandesa. Eu não me considerava uma mulher tão problemática a ponto de condicionar minha preciosa felicidade aos conselhos que ouvia deitada sobre um divã de um psicanalista amalucado. Por outro lado, como o meu pai quis tanto que eu seguisse aquela terapêutica, não me opus ao seu desejo, pois, na condição de boa filha, amava-o e gostava quando expressava acordo com algo que eu fazia.
O governo do Presidente Paul Kagame fez uma programação de7 a 13 de abril de 2004 para relembrar os dez anos do terrível genocídio ruandês ocorrido de 6 de abril a 10 de julho de 1994. O genocídio foi uma catástrofe decorrente do massacre, corpo a corpo, de indivíduos da etnia tutsi perpetrado pelos da etnia hutu com os quais convive no país. Aproximadamente oitocentas mil pessoas foram trucidadas em um período de cem dias, quantidade parelha à mortandade nos cerca de 4 anos da Guerra Civil Americana, que com seu poderio bélico dizimou algo em torno de 3% da população dos EUA. Segundo o meu analista, aquela era a oportunidade certa para eu ajustar, de uma vez por todas, as pendências com o meu pretérito. A princípio, resisti e não quis tal retorno de jeito algum. Ele me convenceu com o argumento de que muitos dias haviam transcorrido desde o episódio e que nós trabalhávamos o meu lado emocional havia bastante tempo. Acreditava que eu estaria pronta para o reencontro. Eu não queria tornar àquele lugar. Para que reviver o passado se acreditava que havia superado as más lembranças? Será que elas incomodavam o meu presente de forma tão pungente como acreditava o meu psicólogo? Eu pensava que não.
— Isabelle, se você comparecer ao evento em Kigali e retornar bem, eu falo para seu pai que você não mais precisa de mim e podemos pôr um termo nas nossas seções de análise.
— Sério? Jura? Quem me dera!
Poder me livrar do meu incômodo amigo apresentou-se como um presente de grande valor. Assim, coloquei nos dois pratos da balança, de um lado o ruim e do outro a lacuna do bom, e escolhi a opção de retorno à África Central.

No Ruanda, vivem basicamente três grupos étnicos: os hutus (rutus), que formam a maioria com cerca de oitenta e cinco por cento da população; os twas (tuás) com menos de um por cento e os tutsis (tútsis) com mais ou menos quatorze por cento. Os twas foram os primeiros habitantes a chegarem à região montanhosa do atual Ruanda, por volta do século VI a.C. Em sequência, chegaram em meados do século VI d.C. os hutus e, aproximadamente, cem anos depois, os primeiros tutsis. Os twas se comunicam entre si em rukiga, sua linguagem original, todavia se utilizam do kinyarwanda (kinyaruandês, ruandês), inglês e francês presentes no país.
No idioma rukiga, a flexão de número, singular ou plural, é feita pelos prefixos MA e BA, respectivamente. A palavra batwa (twas) é plural de matwa, assim como bahutu de mahutu e batutsi de matutsi respectivamente. Os termos twas (plural dado por tutsis, hutus e por nós mesmos) e batwa (plural no rukiga) são a mesma coisa, pois se referem a mais de um indivíduo, da mesma maneira como matwa e twa a apenas um.
Os twas são um povo pigmeu indígena de altura e peso médios de um metro e meio e quarenta e cinco quilogramas que habitam a África Central e parte da Ásia. Existem relatos da sua presença na região desde os tempos dos egípcios.
No início da formação histórica do país, os três grupos étnicos, os hutus agricultores, os tutsis pastores e os twas caçadores e extratores dos recursos das selvas coexistiram em harmonia até que a região foi colonizada pelos europeus. O Ruanda, na conferência de Bruxelas, em 1890, foi dado à Alemanha. Os alemães controlaram a região até a derrota na Primeira Guerra Mundial, quando o protetorado do Ruanda foi entregue à Bélgica.
Os belgas identificaram os indivíduos por meio de cartões raciais e dividiram formalmente a população por grupos étnicos. A ação de marcar com cédulas de identidade os grupos é tida como instigadora da cisão étnica. Eles se acercaram da minoria tutsi para governar o país e discriminaram os hutus, o que acelerou a exacerbação do ódio racial.
Os hutus, entre os anos de 50 e 60 do século passado, tomaram o poder, expulsaram os belgas e massacraram os tutsis, que, aos milhares, fugiram para o exílio em países vizinhos, onde fundaram um movimento de resistência armada. Em face da morte de quase um milhão de tutsis, há um paralelo entre o genocídio ruandês e o holocausto judeu impetrado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Ao chegar a Kigali, no caminho do aeroporto kanombe ao Hotel Mil Colinas, eu não vi sequer um rosto familiar. A maioria das pessoas que conheci em 1994 fora morta ou expulsa do país. Inicialmente, eu pretendia participar de toda a semana de eventos; contudo, assim que cheguei, resolvi mudar. Impetrei ao gerente do hotel que tentasse conseguir uma passagem para o dia 7 de abril, de modo que eu deixasse o país imediatamente logo na primeira jornada do evento. Não vi sentido em subsistir no lugar, pois, ao pôr novamente o pé por lá, percebi que o caso estava superado e nada mais tinha a ver comigo. Achei por bem decidir que já cumpriria o trato com o meu analista, ao ficar somente dois dias. Eu não estava esperançosa de conseguir um voo, visto que a cidade estava prenhe de pessoas de outras nacionalidades, que igualmente iriam partir por via aérea. Naquela ocasião, andando pelas ruas da cidade, percebia que muita gente se sentia assim:

Como uma garota arrependida que atira sua boneca na fogueira e nada pode fazer enquanto as chamas a consumem. Na manhã seguinte, ao remover as cinzas, constata que mais nada há do seu brinquedo predileto a não ser a lembrança. Assume um sentimento de culpa que carrega no peito a partir de então, por ter queimado uma boneca de maneira tão estúpida.

Enquanto andava, via muita gente nas ruas caminhando em direção ao estádio local de futebol onde aconteceria a principal solenidade do evento. No país, quem sobreviveu ao ano de 1994 carrega a morte como fardo na memória ou a vida como dádiva por ter escapado das garras do genocídio ruandês. Muitos creditavam à sorte suas existências em curso. Imaginavam que nasceram de novo no fatídico ano relembrado e estavam, no momento, após uma década, brindando ao batismo de uma nova oportunidade ou lamentando o aniversário de alguma história triste. Eles se olhavam e não sabiam se sorriam por suas trajetórias continuadas ou se choravam por seus mortos retornados.
Eu, autodiegética, me chamo Isabelle. Sou uma médica americana nascida em Nova Iorque. Tenho ascendência francesa. Meus avós migraram da França para os Estados Unidos da América e tiveram o meu pai, atualmente um político americano nacionalista, que tem apreço à nação francesa, em respeito à origem dos seus genitores. Por atuar em favor da agenda franco-americana, sempre teve prestígio perante o governo francês.
Eu estava, em 2004, arruando à solta por Kigali, feliz por não ser reconhecida pelas pessoas que passavam por mim. Encontrei poucas delas com as quais convivera em 1994. Em meio à multidão, comecei a temer não estar preparada para a triste recorrência do pretérito. Ao caminhar, amaldiçoava o meu psicólogo por ter me mandado de volta àquele lugar, chantageando-me com a possibilidade de término das suas chatas seções de análise. Eu me perguntava por que não guardava a história ruim comigo, partia para os EUA e dizia para o meu amigo em Nova Iorque:

Cara, eu sou maluca, contudo gosto de mim desse jeito. Não preciso dos seus serviços, tampouco da sua terapia. Deixe-me em paz com minha maluquice!

Considero-me uma boa pessoa, amigável, companheira e sensível. A minha mãe dizia que sou valente, que tenho gênio forte e pavio curto. Não sou de deixar para depois o que posso resolver agora. Sou do tipo: ou gosta de mim ou me odeia. Desde menina, sempre fui uma garota hiperativa, com uma energia acima da média. Por conseguinte, praticava quase todo tipo de esporte para o qual fosse convidada; porém em dois, em particular, me destaquei: nas lutas de competição e no tiro esportivo na modalidade fossa olímpica. Aprendi a atirar muitíssimo bem por influência do senador que considerava a caça seu passatempo predileto. Quando me conscientizei de que era uma covardia atirar nos pobres patos em migração pelos banhados do Estado do Missouri, entrei para uma escola de tiro ao alvo e comecei a competir contra outros seres humanos. Em vez de abater aves inocentes, passei a quebrar, à bala, pratos ou discos de onze centímetros de diâmetro feitos de betume e calcário arremessados ao ar por incansáveis máquinas. As geringonças lançavam 75 alvos em série de 25 e, por conta disto, eram a razão de meus tormentos. Elas sempre me venciam no final, a despeito de eu quebrar um monte de pratos. Meu treinador costumava me dizer:

Caramba! Erre alguns pratos, Isabelle, senão perderei o meu emprego, por não ter mais nada que lhe ensinar. Ah! Ah! Ah! Ah!

Meu pai possuía amigos nas Forças Armadas e no poder executivo americano, entre os quais, profissionais de segurança e franco-atiradores, que executavam tiros de precisão em alvos a longas distâncias. Percebendo minha habilidade, apresentou-me àquelas pessoas com as quais pratiquei por um bom tempo. Achava legal acertar um objeto a um quilômetro e meio. Consideraram-me entre os melhores e cogitaram inclusive me levar para os Fuzileiros Navais, no entanto, ele foi radicalmente contra.

Alto lá! Minha filhinha é doce e meiga e não foi criada para atirar em seres humanos em qualquer porcaria de guerra de vocês! Ela atira por medalhas!

Não participei, por longo tempo, de equipes americanas de tiro de competição porquanto outra obrigação tomou conta de quase todo o meu tempo de juventude: o curso de medicina. Chegou um momento em minha vida no qual tive de fazer uma escolha difícil: ou continuava competindo ou me tornava uma boa médica. Discuti a questão com os meus familiares e eles foram acordes que eu priorizasse os estudos da medicina, pois o esporte é algo efêmero e duraria somente o tempo em que persistisse minha juventude e vitalidade. Hoje sou uma boa médica. Por outro lado, se alguém estiver encaixado na mira de uma arma em minha mão, está enrascado, se me fez algum mal relevante que me faça premer o gatilho a qualquer ponto de distância que eu esteja. O judô, associado ao meu temperamento impulsivo, fizeram-me uma brigona quando menina. Meu pai adquiriu o hábito de me tirar de encrencas nas escolas por onde eu passava. Sempre brigava com os meninos da minha idade. As meninas morriam de medo de mim. Nunca fui uma garota má, porém vivia metida em confusão. Eu era uma adversária dura nas brigas e era convidada a comparecer às salas das diretoras das instituições de ensino nas quais eu era tolerada por ser filha de um político influente ou por sempre tirar boas notas nas provas que fazia, mesmo quando estudava pouco.
Ao caminhar pela cidade, imaginava que poderia ou deveria estar participando de uma linda manhã no Central Parque de Nova Iorque. Todavia, estava no Ruanda outra vez após tanto tempo. Eu passei pelo Centro Hospitalar de Kigali, o CHK, onde trabalhei em 1994. Lá estava, à sua frente, o majestoso podocarpo, um tipo de árvore que me traz muitas lembranças. Por toda a cidade, havia eventos interessantes, tais como: espetáculos de músicas, tertúlias de poesias, peças de teatros, exibições de filmes e exposições de arte a rememorarem o horror, mas também a celebrar a vitória da vida sobre a morte. O amor e a esperança de um futuro de paz e prosperidade eram a mensagem transparente em Kigali em 2004, além do apelo por justiça contra os perpetradores da carnificina.
Na ocasião, haveria um evento no Amahoro National Stadium. Peguei um táxi à porta do hotel, pela manhã, e comecei o meu trajeto para o local da cerimônia em memória ao decênio do genocídio ruandês. Saímos do hotel e passamos defronte ao Union Trade Center, dobramos à direita e pegamos uma longa estrada sem cruzamentos nem congestionamentos de trânsito. O veículo desenvolvia sua velocidade tranquilamente, o que fez o percurso tornar-se prazeroso. Eu fiz questão de sair cedo, justamente para não perder tempo no caminho até o Amahoro Stadium. Passamos pelo parlamento ruandês e seguimos viagem até chegarmos ao famoso restaurante kigalense Chez Lando, que me trouxe boas recordações. Dobramos à esquerda e nos avizinhamos do nosso local de destino. No trajeto, li a programação do evento e resolvi que sairia do Amahoro, após o pronunciamento do Presidente da República do Ruanda, Paul Kagame. Segundo o folheto em minhas mãos, dado pelo pessoal do Hotel Mil Colinas, ocorreria às doze horas e quinze minutos. Inicialmente, teríamos discursos de autoridades convidadas e depoimentos de vítimas sobreviventes. Antes da fala do presidente, aconteceria um ato de 10 minutos de silêncio em recordação dos mortos e, após, seríamos contemplados com apresentações de música e poesia e outros relatos de vítimas. Esta seria a ocasião em que eu sairia do estádio, conforme minha intenção, confirmada por mim mesma introspectivamente durante o trajeto de táxi. Em outras localidades do país, ocorriam cerimônias semelhantes com a mesma finalidade.
À porta do estádio, segui as pessoas que iam em direção às arquibancadas. Entrei e encontrei uma acomodação entre as 65 mil pessoas que estavam no local. Uma banda se apresentou para a plateia e, depois, no horário programado, o Presidente Kagame discursou emocionadamente. Em suas palavras, culpava a França, apontando os franceses como contribuintes decisivos para a ocorrência da matança e, inclusive, como circunstantes dos combates.

Eles, de caso pensado, treinaram e armaram os soldados do governo e as milícias que estavam se encaminhando para cometer o genocídio e eles sabiam o que os hutus iriam fazer.

O duro libelo sem meias-palavras foi suficiente para que o Ministro de Relações Exteriores do governo francês do Presidente François Miterrand, Renaud Muselier, abreviasse sua curta visita ao país.  O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, conclamou-nos a fazer um minuto de silêncio, ao meio-dia local, para marcar o dia internacional de reflexão sobre o genocídio ruandês. Solicitou que as nações do mundo inteiro adotassem medidas preventivas e efetivas para que um genocídio não voltasse a ocorrer. Houve críticas pela não participação de algumas grandes nações nos eventos patrocinados pela autoridade ruandesa. Outras, como a Bélgica e os Estados Unidos, rogaram escusas pela sua passividade diante dos fatos ocorridos em 1994.
Quando eu estava sentada em meio ao povo, julgando saborear um confortável e desejado anonimato, um soldado que mantinha a segurança das arquibancadas do Amahoro esgueirou-me um olhar cuidoso, de modo intrigante. Pus meus óculos escuros e, camuflada em indiferença, esperei que parasse de me observar. Cri ser inoportuna tal sondagem, pois a ocasião lutuosa não era propícia a galanteios. Logo após, veio para junto de mim. Preparei-me para, educadamente, despedi-lo, caso viesse me inquirir com uma corte inadequada. Simplesmente me perguntou:
— A senhora é a Dra. Isabelle, não é?
— Sim.
Eu lhe respondi afirmativamente, pois imaginei que poderia ser portador de alguma informação do Hotel Mil Colinas. O gerente, que ficara de confirmar minha partida de avião à tarde, dissera-me que, se conseguisse uma desistência, mandaria alguém me procurar no estádio.
— Eu a conheço do ano de 1994, senhora! Arrependi-me de ter lhe confirmado o meu nome.
— Você deve estar enganado. Talvez esteja me confundindo com outra Isabelle!
— Acredito que não, senhora. Se não bastasse a semelhança, como poderia haver outra Isabelle no Ruanda, branca e médica? Eu servi na inteligência da Frente Patriótica Ruandesa em 1994, quando ainda adolescente!
— Nós nunca nos vimos antes, meu rapaz, porque esta é a primeira vez que ponho os pés neste país! Por favor, dê-me licença, tenho de ir. Adeus!


Asterix de volta!!! Vamos a ele?

Cinco milhões ( na França ficam 2 milhões) de exemplares, tradução para 23 línguas e lançamento em 15 países (Portugal sim, Brasil ainda não). Estou falando da volta de um adorável herói de HQ.  Hoje chegou  o novo álbum Asterix.  Era uma edição muito esperada porque é a primeira assinada por outra dupla, uma vez que Uderzo parou na edição anterior de 2008. 
Asterix Entre os Pictos é a  35ª edição do impagável grupo gaulês e nela Uderzo é responsável  somente pelo desenho da capa e a supervisão do trabalho  da nova dupla de autores: Didier Conrad (desenho)  Jean-Yves Ferris (Texto).
Hoje à noite Paris festeja o lançamento oficial de Asterix Entre Os Pictos   com um banquete  nos moldes daqueles da aldeia de Asterix, Obelix e Panoramix. 
As aventuras de Asterix com os pictos, temidos guerreiros da antiga Escócia, é   mais um episódio na história da indomável tribo da Gália que resiste à ocupação romana, muitas vezes com a ajuda de uma poção mágica druida que lhe garante superpoderes. De acordo com a editora, a nova série mostra uma viagem épica até a antiga Escócia, "uma terra de ricas tradições, e a descoberta de um povo cujas diferenças culturais se traduzem em piadas e trocadilhos memoráveis".
Clique aqui pra conhecer o site oficial de Asterix.

(Fontes:DW,BBC,Wikipedia,Google)




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Educadora do ano vai ao Sacolão para alfabetizar.



Destaque no Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita: pedagoga Elisangela Luciano.

Elisangela Carolina Luciano, não mede esforços para fazer com que todos os alunos do 1º ano da escola onde trabalha em Mogi Guçu- SP terminem o ano letivo  conhecendo as letras. A profissional  busca formas simples e acessíveis  para mostrar às crianças a importância de aprender a ler e escrever.  E num pais como o Brasil que, segundo o IBGE, teve um ganho de 300.000 analfabetos,  em  2012,  sentir a importância de saber ler e escrever  é um passo fundamental.  Para dar sua contribuição na melhoria dessa vergonhosa estatística  Elisangela  levou  os alunos ao sacolão da cidade e ensiná-los a escrever os nomes dos alimentos.    Segundo a pedagoga havia a necessidade de vincular as aulas ao cotidiano das crianças. Ela exemplifica com escrever cartões de papelaria, fazer resenha de filmes infantis para estimular o interesse pelas letras. Faltava escrever listas de palavras que segundo a professora é uma base alfabética para a criança. Foi daí que ele, vendo que um sacolão anotava as informações dos alimentos à caneta, em placas, teve a ideia de levar os alunos  a fazer o trabalho.  Com o uso do dicionário e da internet  pesquisaram nomes corretos e informações nutricionais.  Antes desse projeto, somente 3 dos 23 alunos da professora premiada sabiam ler e escrever. A ideia mostrou-se exitosa.
 “Eu sentia que as crianças estavam motivadas a aprender a ler e escrever porque viam sentido naquilo”, afirma a educadora.
O projeto da pedagoga Elisangela, foi premiado  no concurso Educador nota 10 da Fundação Vitor Civita

“O segredo é não tratar a alfabetização como um fardo para os alunos, mas como aprendizado com uma função social real”, afirma Elisangela..

Palmas pra você, Elisangela Luciano

(Fonte: revista Veja.)

Leia também: Oásis da Educação no Brasil

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Segunda Feira poética: Cecília Meireles

Fui Mirar-me


Fui mirar-me num espelho
e era meia-noite em ponto.
Caiu-me o cristal das mãos
como as lembranças do sono.
Partiu-se o meu rosto em chispas
como as estrelas num poço.
Partiu-se meu rosto em cismas
- que era meia-noite em ponto.

Dizei-me se é morte certa,
que me deito e me componho,
fecho os olhos, cruzo os dedos
sobre o coração tão louco.
E digo às nuvens dos anjos:
"Ide-vos pelo céu todo,
avisai a quem me amava
que aqui docemente morro.

"Pedi que fiquem amando
meu coração silencioso
e a música dos meus dedos
tecida em tanto sonho.

"De volta, achareis minha alma
tranquila de estar sem corpo.
rebanhos de amor eterno
passarão pelo meu rosto."

sábado, 19 de outubro de 2013

100 anos de Vinicius de Moraes

                     
Hoje seria o centenário do poetinha Vinicius de Moraes. Nada posso acrescentar sobre ele que já não tenha sido dito. Procurei, então,  uma antologia que tem aqui na casa de meu filho, queria postar o poema da página 100.  Não deu. Nessa página está um poema longo demais para um blog, por isso postei o poema seguinte que eu não conhecia.  Tem também uma música. É só clicar.

Estadão/Rádio Eldorado:Especial 100 anos de Vinicius de Moraes









O Falso Mendigo 



Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a "Patética" no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma idéia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não agüento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.



Para quem quiser conhecer ou saber mais sobre  Vinicius de Moraes, vá no seu site oficial.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Prêmio Jabuti de 2013

“A vidinha do escritor é tão lerda, a gente vende tão pouco, é uma choradeira, e um prêmio é sempre um tapinha nas costas”.


 Assim pensa  Evandro Affonso Ferreira, vencedor na categoria romance, da 55ª edição do Prêmio Jabuti com o livro O Mendigo que Sabia de Cor os Adágio de Erasmo de Rotterdam.

A obsessão com a originalidade da linguagem sempre foi uma marca registrada de Evandro Affonso Ferreira, cuja literatura, iniciada em 2000 com o elogiado Grogotó, chegou a ser comparada à de Guimarães Rosa. Mas agora, aos 66 anos e em seu sexto livro, o escritor está mais reflexivo. Deixou de lado o cuidado excessivo com a forma, mas sem abrir mão da musicalidade, do cuidado com as palavras, da concisão — o que já vinha fazendo desde seu romance anterior, Minha mãe se matou sem dizer adeus, vencedor do Prêmio APCA de melhor romance de 2010 e finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti de 2011.



Páginas Sem Glória deu o prêmio de contos/crônicas a Sérgio Santana.
 A saga do anti-herói Zé Augusto é narrada com o mais saboroso humor, num texto que já nasce como um clássico da literatura futebolística.Antes de “Páginas sem glória”, abrindo o volume, temos “Entre as linhas”, uma pequena obra-prima de narração literária. Esse conto se inicia com o “autor”, Fernando, expondo que pediu a uma amiga para ler a “pequena novela” que acabara de escrever. Ela então anota seus comentários nas entrelinhas do texto. O que nos é dado a ler não é a narrativa original, mas as anotações da leitora-crítica. O engenhoso procedimento resulta numa composição que fisga a atenção para diversas histórias espelhadas.No segundo conto, “O milagre de Jesus”, a voz em primeiro plano é a de um indigente chamado Jesus que relata a um amigo certo milagre por ele realizado. Numa igreja, ele é confundido com Jesus Cristo por uma mulher desesperada, que foi estuprada por três “filhinhos de papai” e descobre estar grávida. Ela vem pedir seu conselho e ele a demove da decisão de abortar. Mas Jesus é enxotado da igreja pelo pároco e pragueja contra Deus e o mundo. Por coincidência, um casal de cineastas “do bem” está nos arredores e presencia sua fúria. Os cineastas e o indigente acabam fazendo um filme em parceria, e nele Jesus faz questão de mostrar-se em cenas de amor fraterno, de acordo com o clichê que envolve o seu nome.



O melhor livro infantil do ano é de Socorro Accioli.  Ela Tem Olhos de Céu (Gaivota), foi a estreia da autora no Prêmio Jabuti.



Depois do nascimento de Sabastiana, nada será como antes em Santa Rita do Norte - a menina tem olhos de céu. Será dom ou maldição? A cidade inteira está em polvorosa, ninguém sabia mais o que fazer para controlar os fenômenos provocados pela pequena criança.











Na categoria biografia deu Jabuti para  Mario Magalhães com o livro Marighella.


Nesta obra o autor busca percorrer a vida, a obra e a militância de Marighella, baiano que foi deputado federal, poeta e estrategista da guerrilha no Brasil. Passagens pela prisão, resistência à tortura, assaltos a bancos (e a um trem pagador), tiroteios e espionagem internacional fazem parte de sua biografia, que atravessa a história política entre as décadas de 1930 e 1960. Por isso, figuras como Fidel Castro, Getúlio Vargas, Carlos Lamarca, João Goulart, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes, Carlos Lacerda e Olga Benario aparecem como coadjuvantes.






  As Duas Guerras de Vlado Herzog deu a Audálio Dantas o prêmio na categoria reportagem. 



O ponto de partida do livro é a saga da família Herzog em sua fuga desesperada da Iugoslávia, para longe da guerra que despedaçava a Europa e perseguia os judeus. O pequeno Vlado viveu aí sua primeira guerra e aprendeu dolorosas lições. A segunda travou no Brasil, país no qual se refugiou em busca de paz. Mas foi no Brasil que sua vida lhe foi tirada, na escuridão de uma sala de tortura, episódio que marcou a história dessa família e da luta política no país.






As poesias de Ademir Assunção  também foram premiadas.


O conjunto de poemas de A Voz do Ventríloquo é dividido em sete partes, cada parte abrindo sempre com um poema em prosa, sob o título de 'Diário do Ventríloquo' ('Primeira Noite' até 'Sétima Noite'). O livro deve trazer poemas marcados por intensa musicalidade, imagens de impacto e abordagens críticas ao consumismo, à violência e à ciranda financeira do mundo contemporâneo.










 
 São, ao todo, 27 categorias no Prêmio Jabuti.

(Fontes: Estadão, Liv.Cultura)

Houve uma troca na premiação: o livro Páginas Sem Glória, desclassificado por conter texto já publicado, cedeu lugar a Diálogos Impossíveis de Luis Fernando Veríssimo.


Nesta obra o autor apresenta crônicas que perseguem o absurdo que marca a existência humana - seja no diálogo imaginário de Don Juan tentando seduzir a própria Morte ou na conversa cotidiana de um casal que se desentende na hora de dormir.