quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Cegueira (E Os Olhos do Coração), José Eduardo Agualusa

Venho perdendo a vista. Fecho o olho direito e já só enxergo 
sombras. Tudo me confunde. Caminho agarrada às paredes.
Leio com esforço, e apenas sob a luz do sol, servindo-me de
lupas cada vez mais fortes. Releio os últimos livros, os que me
recuso a queimar.Andei queimando as belas vozes que me
 acompanharam ao longo de todos estes anos.

Às vezes penso: enlouqueci.

Vi, do terraço, um hipopótamo dançando na varanda do
andar ao lado. Ilusão, bem sei, mas ainda assim ví-o. Pode ser
fome. Tenho-me alimentado muito mal.
 
A fraqueza, a vista a vista que se esvai, iso faz com que tropece nas
letras, enquanto leio. Leio páginas tantas vezes lidas, mas elas
são já outras. Erro,ao ler, e no erro, por vezes
encontro incríveis acertos. No erro me encontro muito.
 
Algumas páginas são melhoradas pelo equívoco.
 
Um fulgor de pirilampos pirilampeia pelos quartos. Movo-me
como uma medusa, nessa bruma iluminada. Afundo-me nos
meus próprios sonhos. Talvez  isto se possa chamar de morrer.
 
Fui feliz nesta casa, certas tardes em que o sol me visitava
na cozinha. Sentava-me à mesa. Fantasma vinha e pousava a cabeça no meu regaço.
 
Se ainda tivesse espaço, carvão, e paredes disponíveis,
poderia escrever uma Teoria Geral do Esquecimento.
Dou-me conta de que transformei o apartamento inteiro
num imenso livro. Depois de queimar a biblioteca, depois de eu
morrer, ficará só a minha voz.
 
Nesta casa todas as paredes têm a minha boca.  



Em: Agualusa, José Eduardo,Teoria Geral do Esquecimento, Ed. Foz, Rio de Janeiro 2012,págs. 77-78

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Dedicatória (3) Aos Outros Rios, Ao Mar, Luciano Maia

Aos Outros Rios

Também aos grandes rios forasteiros
Iracema- Lagoa de Messejana

Alguns dos quais embora tão distantes.
Aos seus filhos e pais, desde os ribeiros
Menores aos caudais mais importantes.
Aos nordestinos rios, companheiros
De dias parcos, tempos lancinantes
Aos que mostram ao sol suas areias
As hídricas palavras destas veias.



Ao Mar

Enfim, ao mar da terra de Iracema
Que acolhe estas águas irrisórias
Dedico o meu atávico poema
(sincero contributo das memórias
dos sertanejos lídimos da gema)
E aos vaqueiros-do-mar, estas estórias
Estes versos de múltiplo elemento:
De terra e fogo e água e sol e vento.

In: Maia, Luciano, Jaguaribe Memória das Águas, Governo do Estado do Ceará 2010
Leia também:
Dedicatória 1 aos cantadores e aos repentistas e Dedicatória 2
Autor do modelo guia da estátua: artista plástico Alexandre Rodrigues

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Por Que Ler A Literatura Como Turismo?

    
     Sempre fiquei incomodada com a expressão arregalada e a voz cheia de admiração das pessoas dizendo:
     - Você é filha de João Cabral!
     Não sou "boazinha". Isso pode ser confirmado por quem me conhece. Então, a partir do dia em que ouvi essa frase pela enésima vez, comecei a perguntar a quem a proferia:
     - Qual o poema dele que você prefere?
     Depois de perguntar isso, instalava-se geralmente um silêncio incômodo  que me fez perceber que João Cabral era uma figura mítica, ensinado nas escolas e adotado nas provas  de literatura do vestibular, mas depois esquecido e nunca mais lido, a não ser por quem fizesse letras.
     Essa reação me incomodava, porque tenho certeza de que, quando ele escrevia, fazendo com que eu e meus irmãos andássemos quase na ponta dos pés e falando baixo porque "seu pai está trabalhando", ele queria ser lido e buscava, como qualquer ser humano, apreço e reconhecimento por seu trabalho, que acontecia apenas quando era lido por críticos e colegas.
     Decidi então que minha missão era tornar seus poemas mais lidos e amados, e mostrar facetas menos conhecidas de sua obra. Daí esta coletânea, tomando coo tema os locais em que viveu e por onde viajou.
     Aqui está uma antologia que não fala apenas dos dois grandes assuntos de João Cabral: Pernambuco, onde nasceu, e Sevilha, que o apaixonou. Afinal, ele foi diplomata, conheceu muitos lugares e escreveu sobre eles. Este livro é, portanto, um punhado de poemas desses lugares, inclusive Sevilha, entremeado com breves relatos de minha vida ao lado dele. Espero que gostem, e que esse livro os faça procurar ler suas obras maiores.

Inez Cabral
In: Neto, João Cabral de Melo, A Literatura como turismo, selecão e texto Inez Cabral, Rio de Janeiro, Alfaguara 2016, págs.7-8.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Mulher e a Casa, João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.




In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.241-242. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
Imagem: Pixabay

domingo, 14 de janeiro de 2018

Saudade, Gilka Machado


De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
  
De quem é esta saudade,
de quem?
 
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
 
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo... 
 
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?

(in Velha poesia, 1965)
 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Zemrude, Ítalo Calvino

     
É o humor de quem a olha que dá a forma à cidade de Zemrude. Quem passa assobiando, com o nariz empinado por causa do assobio, conhece-a de baixo para cima: parapeitos, cortinas ao vento, esguichos. Quem caminha com o queixo no peito, com as unhas fincadas nas palmas das mãos, cravará os olhos à altura do chão, dos córregos, das fossas, das redes de pesca, da papelada. Não se pode dizer que um aspecto da cidade seja mais verdadeiro do que o outro, porém ouve-se falar da Zemrude de cima sobretudo por parte de quem se recorda dela ao penetrar na Zemrude de baixo, percorrendo todos os dias as mesmas ruas e reencontrando de manhã o mau humor do dia anterior incrustado ao pé dos muros. Cedo ou tarde chega o dia em que abaixamos o olhar para os tubos dos beirais e não conseguimos mais distingui-los da calçada. O caso inverso não é impossível, mas é mais raro: por isso, continuamos a andar pelas ruas de Zemrude com os olhos que agora escavam até as adegas, os alicerces, os poços.

In: CALVINO, Ítalo,As cidades invisíveis,Cia das letras, São Paulo,2017, pág.64

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O Cão Sem Plumas, João Cabral de Melo Neto

I. Paisagem do Capibaribe
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II. Paisagem do Capibaribe
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III. Fábula do Capibaribe
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


In: NETO,João Cabral de Melo, Poesias Completas (1940-1965) José Olympio, 3a. ed., 1979
Nota: o blog manteve a grafia original 
Imagem: Bisiliat

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O Tempo Presente e o Tempo Passado, T.S. Eliot

O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é eternamente passado
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma distração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim,
Que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.