sábado, 31 de março de 2012

Brasileiro lê, em média, quatro livros por ano


O brasileiro lê em média quatro livros por ano e apenas metade da população pode ser considerada leitora. É o que aponta a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada hoje (28) pelo Instituto Pró-Livro. O estudo realizado entre junho e julho de 2011 entrevistou mais de 5 mil pessoas em 315 municípios.
Em 2008, o instituto divulgou pesquisa semelhante que apontava a leitura média de 4,7 livros por ano. Entretanto, a entidade não considera que houve uma queda no índice de leitura dos brasileiros, já que a metodologia da pesquisa sofreu pequenas alterações para torná-la mais precisa.
De acordo com o levantamento, o Brasil tem hoje 50% de leitores ou 88,2 milhões de pessoas. Se encaixam nessa categoria aqueles que leram pelo menos um livro nos últimos três meses, inteiro ou em partes. Entre as mulheres, 53% são leitoras, índice maior do que o verificado entre os entrevistados do sexo masculino (43%).
Ao perguntar para os entrevistados quantos livros foram lidos nos últimos três meses, período considerado pelo estudo como de mais fácil para lembrança, a média de exemplares foi 1,85. Desse total, 1,05 exemplar foi escolhido por iniciativa própria e 0,81 indicados pela escola.
Entre os estudantes, a média de livros lidos passa para 3,41 exemplares nos últimos três meses. Os alunos leem 1,2 livro por iniciativa própria, divididos entre literatura (0,47), Bíblia (0,15), livros religiosos (0,11) e outros gêneros (0,47).
De acordo com o estudo, a Bíblia aparece em primeiro lugar entre os gêneros preferidos, seguido de livros didáticos, romances, livros religiosos, contos, literatura infantil, entre outros.
(Agência BRASIL  - 28.03.12)

Sabendo de notícia como esta, é alentador fazer parte de grupo de leitura; refiro-me ao grupo formado em 2007 no Orkut e que tem por finalidade única a leitura.  Lá, 21 pessoas de cidades diferentes e que  na maioria não se conhece fora da internet, troca livro de deversos gêneros, estilos e autores. As ofertas e procuras são feitas dentro dos tópicos e os envios ficam por conta dos correios.  A média de leitura é bastante alta e o sistema permite baratear a diversão posto que cada leitor só vai dispender  o valor gasto com o envio do livro.  Na prática, resulta que um bom leitor  gaste aproximadamente R$25,00  para ler 4 livros por mês.  Um livro emprestado pode passar 30 dias ou um ano para voltar ao dono, mas sempre volta e em geral carregado de bilhetinhos com comentários e beijos de agradecimento. 

Regina.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Heleno de Freitas, Antonio Falcão

    Na fantasia, o folclórico Neném Prancha, misto de filósofo e técnico, punha-se atrás de um tabuleiro  de laranjas como se fora vendedor no areal de Copacabana. E para cada garoto jogava uma fruta. Pela reação, separava o craque do cabeça-de-bagre. Heleno de Freitas, mineiro de 12 anos, amorteceu uma laranja na coxa, deixou-a cair no pé, fez embaixada, levou-a à cabeça, trouxe de volta ao pé, que deu ao controle do calcanhar. E Neném viu que descobrira o mais fino, inventivo e temperamental craque do País. Por isso, até a morte, Neném levou na carteira de cédulas a foto desse que brilharia como ninguém no Botafogo de Futebol e Regatas - muito mais que o fulgor da gloriosa estrela solitária do alvinegro carioca.
    É exato, Heleno - nascido em São João Nepomuceno, em 12 de dezembro de 1920 - vivia no Rio em 33. Para a então capital do Brasil, a família se mudara quando morreu Oscar Freitas, negociante de café, casado com Maria Rita e pai de oito filhos. Destes, só o quinto era difícil e atormentado. Isso, desde a escola primária e das divisões de base do Mangueira, o time acanhado do interior mineiro, aonde esse rebento genioso dos Freitas foi center-half.
    Após cinco anos no futebol de praia, Heleno surgiu de half no juvenil de Flu. Mas o técnico Carlo magno fez dele center-foward. À época,de Freitas era comerciário e fazia direito na Universidade do Estado do Rio. Contudo, desde São João Nepomuceno, seu peito era alvinegro e, sem deixar o Flu, ingressou no Botafogo. isso só foi possível porque tais clubes atuavam em ligas distintas. Na unificação do certame, de Freitas ficou no Botafogo, que era o time de seus amigos de pelada e boemia - como João Saldanha, um dos homens mais dignos da imprensa, da esquerda e do futebol do Brasil. No alvinegro, Heleno encarnou o espírito do boleiro romântico, teve alegria de viver e não se desentendeu com a bola - com esta, nunca, era impossível, jamais...
    Em  1940, ele foi o centroavante botafoguense na excursão ao México e no certame carioca. Pelo mundo, exibiu criatividade, valentia, técnica. Em toda parte, ainda, atiçando o mulherio, os traços das suas beleza, elegência e inteligência. Femeeiro como o diabo, transava com qualquer raça e classe, alvinegra ou não. No Botafogo, obsessivo, quis incessantemente ser campeão. Mas até 1947 (seu último ano no clube), o único título que obteve foi o de bacharel em direito - diploma inútil para Heleno de freitas, sem afã de advogar, ser delegado de polícia, promotor ou juiz.
    Em 45, pela seleção, fez o sul-americano no Chile, do qual saiu artilheiro. Ano seguinte, em Buenos Aires, deu show em outro sul-americano. E divergiu do técnico Flávio Costa no vestiário,onde o escrete se refugiara da pancadaria portenha. Apesar das hostilidades, Flávio exigiu a volta ao jogo. O brigão Heleno avisou que era temerário, pois talvez saíssem inutilizados. E essa hipótese, acresceu de Freitas, não se aplicava a ele, que tinha do que viver - no que foi apoiado pelo ponteiro Chico, o que ficara com a sensata tese do botafoguense no refúgio do vestiário. E o centroavante, coitadinho, ganharia a eterna inimizade de treinador Flávio Costa.
Estátua na cidade de Barranquilla- Colômbia
    Com a fúria com que se portara na Argentina, ficou claro que Heleno estava doente. E ninguém sabia que era sífilis cerebral associado ao gênio difícil. A doença o atritava com cartola, companheiro, adversário ou juiz.  E ao clube era prejudicial as expulsões de campo. Pior, a torcida inimiga descobriu como irritá-lo apelidando-o de Gilda - personagem sensual e neurótica de Rita Hayworth no cinema. Aí só restou a proposta de Boca Juniors, em 1948: comprá-lo por um punhado de dólares. Isso magoaria o clube e o craque que, como deus e o diabo, se amavam tanto, freudiana e dialeticamente prisioneiro um do outro... Nesse ano, Nilton Santos dava os primeiros passes no Botafogo. E Heleno casou com Hilma, filha de diplomata,colega do poeta Vinicius de Moraes. Este, dedicou ao noivo "Poema dos Olhos da Amada" - obra que seria seresta na voz do cantor Sílvio Caldas. Nessa época, entristecido, o futebol do Brasil percebeu que Heleno de Freitas, tão íntimo da bola, jamais se entenderia com os homens.
    Em Buenos Aires, o tormento psíquico afastou-o da mulher grávida. E sem ele o Botafogo ganharia o título em 48. Não aguentando, Heleno foi para o Vasco no início de 1949. Em São Januário, fez-se campeão pela única vez na carreira. Viveu em paz até que, num coletivo, saiu de campo esbravejando: "Esses dois (apontou Maneca e Ipojucan) não me passam  a bola por que não querem. Aqueles (indicou) não passam porque não sabem. Não tenho nada a fazer aqui." Mais adiante, discutindo com Flávio Costa, apontou uma arma descarregada. Foi o bastante para que o Vasco o liberasse pra o Atlético de Barranquilla, na Colômbia, onde jogavam Tim e outros astros.
    Lá, foi tema do escritor Gabriel García Márquez e, até estátua. Mas vivia arruinado por dentro, de neurônios em frangalhos, de mal consigo e com o mundo. Voltou e teve passagem rápida pelos Santos e América carioca. Neste, contra o São Cristóvão no Maracanã, onde só pisaria essa vez, saiu expulso no primeiro tempo. E em 15 da novembro de 1951, a ex-revista Esporte Ilustrado o trouxe na capa. Sua imagem com a camisa americana era a de um homem inchado e feio, nada mais do belo galã de outrora, que seduziu mulheres. Nem do atacante que ficaria nas memórias doces e amargas do Brasil.
    Em 1953, a família o internou na mineira cidade de Barbacena, onde um amigo dele era médico numa casa de saúde. No início, o sifilítico embrenhou-se nas trevas insondáveis da loucura. Depois uma revista o mostraria de pijama, obeso e trite. Por fim, só como um navio sem porto e sem condição mental de pedir um padre, ele morreu em 8 de novembro de 59. Isso sem saber que o país vencera na Suécia. Sem saber que seria filme (Heleno, de Gilberto Macedo) ou peça teatral (Heleno-Gilda, de Edilberto Coutinho). E sem tempo para ler isso de Armando Nogueira: "O futebol, fonte das minhas angústias e alegrias, revelou-me Heleno de Freitas, a personalidade mais dramática que conheci nos estádios deste mundo".
(Em: Um Sonho Em Carne e Osso - os fora de série do futebol brasileiro, Ed.Bagaço 2002)


Estreia hoje nos cinemas:
Filme: Heleno
Direção:Gilberto Macedo 
Preto e branco.
Atores:Rodrigo Santoro (Heleno)
          Aline Moraes (Hilma, mulher dele)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr, Eu pintei seu cisne, viu?

Volksmillôr agora ataca de Swan
-Que pena o PASQUIM não ser em cores! Minha máxima aspiração

Pessoas pensam que desejo ser glorioso ou milionário mas meu grande- e talvez irrealizável - sonho, é ser Cisne do Itamarati. Já pedi nesse sentido a alguns amigos influentes naquele ministério, o Araujo Catro disse que ia ver, o João Cabral prometeu interceder como poeta, o Zoza e o Jomico (do poder ultra-jovem lá de dentro) garantiram que iam me arraanjar, mas nada. Não há vaga, eu não sirvo, cisne só os da carrièrre, enfim, tudo desculpas. Não querem atender-me e vêm com evasivas. Coisas formidáveis se conseguem neste país com muito menores credenciais do que as minhas. Gente tem ficado rica à custa do governo, e poderosa, e decorada de medalhas, mas o cargo de Cisne do Itamarati eles acham que não podem dar-me. É uma injustiça, sendo ainda mais , uma terrível crueldade. Meu objetivo de tranqüilidade é esse. Meu alvo de conquista. Minha ânsia de beleza. Naquele cargo ninguém estaria melhor do que eu, lhes juro. Ficaria ali, vogando mansamente, de vez em quando dando uma na melhor cisna presente, mas sem estrépito nem ostentação. Modorrava depois, as minhas tardes, contemplando - perdida toda a lascívia humana que ainda tenho - as belas visitantes que passassem. Poderia, também, ver de uma posição privilegiada e vitalícia ( e com a calma das aves) a situação internacional do país, quando, à borda do lago, ministros viessem trocar idéias confiantes na minha absoluta discrição de Cisne letra O. Amigos viajantes, que ocasionalmente fossem revalidar seus passaportes, olhariam de longe e comentariam, na certa: "Não, o Millor merecia. Vejam que ele sempre bolou mais que os outros. Ainda tem uma expressão mamífera no olhar, mas, também, só está aí há seis meses" Haveria críticas negativas, é claro. O Carlinhos de Oliveira escreveria; "Mas logo o Millôr, com aquele nariz! Isso é cargo pra Marisa Urban." Mas eu estaria acima dessas trivialidades, tricas e futricas da política humana. Flutuaria docemente no lago, se fosse em Brasília me encolheria protetoramente  à sombra  das colunas do Palácio dos Arcos, soltando os granados tímidos que me são próprios, alimentando-me com os clips atirados distraidamente pela burocracia local. À noite, portas e janelas fechadas, silêncio caído sobre  o Palácio soberbo, branca luz da lua sobre as minhas plumas ( a essa altura uma pequena penugem já estaria nascendo em minhas costas) lá estaria eu atento, velando pela segurança do Estado como faria melhor um velho ganso do Capitólio. Ninguém, no enorme  Palácio, nem mesmo o  dr. Magalhães Pinto, poderia justificar o dinheiro gasto consigo. Ninguém mais feliz no seu cargo e posto. Ninguém mais  realizado em seu sonho. Presidente(s), não lhe(s) custa nada ( e não creio mesmo que isso venha a  constituir uma corrida ao lado) realizar a ambição de uma vida de lutas inglórias nomei(m)-me Cisne do Itamarati. Pelo menos extranumerário. Millôr Fernandes

(Pasquim 12 de setembro de 1969)

Quarta-feira é dia de Gabriel Garcia Marquez: O Doutor Freitas


No primeiro dia do mês em curso escreveu-se nesta seção uma crônica sobre abril. Esperava este jornalista que no transcurso desses trinta dias acontecessem algumas coisas interessantes, entre elas, que Pafúncio se fartasse com um pratarraz de feijão com arroz no boteco do Perico; que Clark conseguisse seduzir a Srta. Lane sem necessidade de transformar-se em Super-Homem e que Tarzan deixasse de praticar suas bobagens atleticamente selvagens.
Parece que no que já transcorreu do mês nada disso aconteceu, como não acontecerá no que falta dele, segundo se pode suspeitar. Quanto ao casamento de Ingrid Bergman, as últimas notícias dão a entender que o diretor Rosselini ainda espera saber com quem se pareça a criança antes de lançar ao pescoço a coleira conjugal. Em síntese, a única coisa que parece ter dado certo naquela crônica de saudação aprilina foi a comprovada reivindicação do Dr. Heleno de Freitas no gramado do campeonato nacional. Um acordo que poderia encher de orgulho o próprio dr. Gallup, não tanto por sua precisão, mas pela circunstância especial de que quem revelou a notícia a respeito do jogador brasileiro jamais se sentou nas gerais de um estádio.

Tenho o costume – e isso pode ser uma das formas da inclinação pelo esporte – de observar, nas tardes dos domingos, o rosto daqueles que deixam o estádio. A tarde em que o dr. De Freitas apresentou-se pela primeira vez, é muito possível que, se ele tivesse a capacidade de entender certas interjeições castelhanas, teria regressado ao Brasil no primeiro avião. O tempo passou e no domingo seguinte, depois de treinar incansavelmente com os companheiros de seu time, o dr. De Freitas deve ter chegado à conclusão de que, mais do que tais práticas esportivas, lhe seria melhor uma prática metódica e consciente da gramática castelhana. Foi assim que pôde realizar bem melhor sua segunda apresentação, mostrando-se já capaz de compreender que a gritaria vinda das tribunas não era de aprovação, mas de descontentamento. E já em sua nova apresentação em Barranquilla, de volta de Cáli, o dr. De Freitas mostrava-se capaz de conjugar perfeitamente os tempos simples do verbo “fazer”. “Farei milagres”, declarou à imprensa, ao dar-se conta de que o público queria exatamente isso. Que fizesse milagres. E, segundo me contam alguns que estiveram nesse dia no Estádio Municipal, o que o brasileiro fez foi uma milagrosa atuação. Praticamente, disseram, o dr. De Freitas – que deve ser um bom advogado – redigiu nesta tarde, com os pés, memoriais e sentenças judiciais não apenas em português e espanhol alternadamente, mas também citações de Justiniano no mais puro latim clássico.
Agora ninguém mais discute que abril foi o mês definitivo para o dr. De Freitas, e isso porque ele aprendeu a traduzir para o espanhol toda essa gíria esportiva que tanto prestígio lhe deu em seu país de origem. Como diz um grande contista nosso: “O importante é a gramática.”


(Crônica extraída do livro  Obra jornalística - Vol. 1 - Textos caribenhos,Editora Record, 2006, pgs. 238 e 239) mantida a grafia original

segunda-feira, 26 de março de 2012

Segunda-feira poética: O Trem do Paraná, José Stival

"Srs. Passageiros,
queiram tomar
seus lugares;
a R V P S C
deseja-lhes
muito boa viagem!"

RVPSC-Rede Viação Paraná-Santa Catarina: Estação Itararé
Retardatários
virão voando;
  O trem, porém,
  não se detém
  por mais ninguém
  E vai deixando
  a plataforma;
  e vai saindo
  da estação...
  -Até a volta!
  -Ciao
  -Boa viagem!

Avança que avança
no trilho sem fim,
deixando pra trás
 o bairro operário,
a triste favela,
a zona fabril...

Avança que avança
no trilho sem fim
e em tal disparada
que à beira da estrada
se deita o capim!
Avança que avança
no trilho sem fim
sacode apança 
do amigo Crispim...
E bufa que bufa
e roda que roda
vai sempre rodando
sem nunca parar!
Passagem de nível?
Convém apitar:
que o trem na carreira
não é brincadeira,
nem vem devagar!
(Huiii-hui-huiuu!)

Ao monstro que passa
envolto em fumaça,
em vênia ligeira
se inclina e cidreira,
em vênia profunda
se deita o capim...
Vai sempre rodando,
vai sempre rodando,
sem nunca parar...
Somente a fumaça
não quer viajar;
e salta pra fora
boiando no ar!

Acaso já viram
um trem cachimbar?!
De longe ou de perto,
é mais do que certo
que todos já viram
um trem cachimbar!

Seu fumo sem gosto
nos lança no rosto,
em vez de o trabar;
Seu fumo nos lança
em vez de traga?!
Parece criança,
não sabe fumar...
(Huiii-hui-huiuu!)

em todo arraial,
de tanto apitar,
não fica ninguém
sem vir apreciar:
  tanta janela
  tanta janela
 e tanto rosto
 em todas elas!...
Por quantas cidades
devemos passar?!
E em quantas, em quantas,
devemos parar?!

Os vários jornais
nos trazem notícias
dos fatos mundiais;
e tantos anúncios
em cada seção:
  compra-se, vende-se,
  compra-se, vende-se,
  tantos produtos,
  tantos terrenos,
por tanto, por tanto  
por tanto, por tanto!

O chefe de trem
acaba de entrar:
 -Bilhete, senhor?
 o chefe 'stá lá!
-Alô, senhorita?
  o chefe tá lá!
  o chefe tá lá!

O sol já rescalda
o verde-esmeralda
do terno capim.
Tão mansa a paragem
que dentro de instantes
uns silvos cortantes
virão perturbar!

O gado assustado
parou de pastar...
O próprio chupim
parou de virar;
e alegre da vida
assiste à corrida
no êrmo sem fim...
Enquanto o Gonçalo
parece animá-lo
com sua atenção,
um nosso vizinho
com tanto cinismo
discute o marxismo
na mor confusão!

E em filosofia
tem tal ousadia
que julga entender:
do Instinto dos bichos,
da Vida das plantas,
da Ciência de tudo...
Nos fatos da História,
quer ele opinar!
Na física pura,
Na Ciência obscura,
quer ele opinar!...

Falou-nos do ente,
falou-nos do ente,
do ente falou...
Por uma exceção,
falou do pinheiro
falou do pinheiro
mas NÃO do pinhão!

Mudemos de assunto,
pois nosso conjunto,
já quase defunto
de tanto aguentar,
não quer mais ouvir
falar de pinheiro
mas sim de pinhão
e só de pinhão...

Já dentro da noite,
longíquo clarão
vem dar o sinal
de haver, afinal,
mais uma estação:
   será Itararé,

   será Itararé
Pois é Itararé,
pois é Itararé!
Adeus ó compasso
da Rede Viação!
Adeus, ó poesia
que antes se ouvia
em cada vagão!...

Ó Sorocabana
quer ser mais humana?
Aceita a lição
da Rede Viação:
  imita o comboio
  que bebe no arroio;
  que estala nas pontes
  e bufa nos montes;
  que fuma contente,
  que fuma com graça,
soltando fumaça
  no rosto da gente...

Já tenho saudades
das belas cidades
  do meu Paraná,
  do meu Paraná,
  do meu Paraná!
E tenho-as, ainda,
da música linda,
  (mais linda que há!),
do trem que deixamos,
do trem que largamos,
   no meu Paraná,
   no meu Paraná,
   no meu Paraná!

sábado, 24 de março de 2012

Folia de rei. Quem não lembra desse Chico Anísio?

Chico Anisio que me fez rir desde a adolescência, é o dono da crônica cantada de hoje: Folia de Reis dele com Aranud Rodrigues foi o maior sucesso de Baiano e os novos Caetanos, grupo criado por Chico Anísio nos anos 60.
Ai, andar andei!
Ai, como eu andei!
E aprendi a nova lei:
Alegria em nome da rainha
E folia em nome de rei!
Alegria em nome da rainha
E folia em nome de rei!

Ai, mar marujei!
Ai, eu naveguei!
E aprendi a nova lei:
Se é de terra que fique na areia
O mar bravo só respeita rei!
Se é de terra que fique na areia
O mar bravo só respeita rei!
Ai, voar voei!
Ai, como eu voei!
E aprendi a nova lei:
Alegria em nome das estrelas
E folia em nome de rei!
Alegria em nome das estrelas
E folia em nome de rei!

Ai, eu partirei!
Ai, eu voltarei!
Vou confirmar a nova lei:
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis!
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis!
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis!
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis!

quinta-feira, 22 de março de 2012

História bonita(4): Sr.Bartolomeu na faculdade de matemática aos 86 anos



Sr. Bartolomeu Queiroz, ex-pedreiro,ex-carpinteiro, ex-mestre de obras e caminhoneiro, hoje aposentado e com 86 anos começou a cursar matemática na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, no campus de Aquidauana. Ao longo da vida precisou para de estudar  5 vezes:”parei de estudar porque eu fazia viagens com o caminhão e não tinha tempo”.  Para entrar no ensino superior, o Sr. Bartolomeu cursou o EJA em uma escola pública em frente à sua casa, depois fez o Enem.  Escolheu matemática porque sempre teve facilidade com números, conforme diz.   O exemplo da valorização do estudo que o Sr. Bartolomeu Queiroz está dando nas salas de aula que freqüenta, aos inúmeros jovens que poderiam ser seus netos, foi dada antes e principalmente a seus filhos.  Na casa do vovô estudante são 10 filhos com formação superior.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Quarta-feira é dia de: Um Tempo Sem Nome, Rosiska Darcy de Oliveira


Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.
Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .
Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.
A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.
Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.
Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde.
Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era
antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos.
Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.
A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor.
Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.
”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas  memórias escritas por Marguerite Yourcenar.
Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição.Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice.
Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo
apenas de vida.
Texto publicado no jornal  O Globo, 21/01/12

Ouça a música:
 http://livroerrante.blogspot.com.br/2012/03/cronica-cantada-essa-pequena-chico.html
 
 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Segunda-feira poética: O Meu Brinquedo Preferido,Cleômenes Campos

Cada um de nós, teve, na infância,
O seu brinquedo preferido.

Eu nunca me apartei, sequer, por um momento,
De um grande papagaio ágil e colorido,
Amigo do alto como o pensamento.

O meu maior prazer era vê-lo a distância,
Balouçando-se todo, ao capricho do vento...


De manhã, quando o sol diàfanamente louro
Como um etranho papagaio de ouro
Ruborecendo o céu aparecia,
Meu coração pulava de alegria,
E eu pulava no chão, como êle no meu peito,
Da mesma forma satisfeito,
Pois ia ter um belo dia.
Sobraçava-o depressa e ao fazê-lo
Corria:
O vento despenteando-me o cabelo
Penteava-o como bem lhe parecia...

Empinava-o então: esgotava o novêlo
(O meu novêlo enorme), e esquecia-me a vê-lo

Ora calmo, ora aflito,
Quase roçando as nuvens silenciosas,
Feitas das painas vaporosas,
Destas paineiras que há por detrás do infinito.

Sendo muito mais longo que meu braço,
E mais largo talvez do que minha jaqueta,
Várias vêzes subia a tal ponto no espaço,
Que dava a idéia de ums simples borboleta,
Que se imobilizasse de cansaço...

E eu perguntava, olhando-o além das serra,
E das árvores altas admirado:
"Quantas terras, meu Deus! assim tão fastado
Não deve ver meu papagaio agora?
Quando verei essa porção de terras?
Devem ser lindas!...
E quedava-me calado.

Hoje se reproduz perfeitamente
A mesma cena, sempre que me abstraio:
Meu espírito sobe indefinidamente,
Sobe bem mais do que o meu papagaio.
E eu pergunto depois, quando êle me procura:

"Que terras viu meu espírito na altura?
Quando as verei? Devem ser lindas!..."
E me abstraio
De nôvo, e êle demanda o além tão suavemente,
Que penso ter nas mãos um outro papagaio...

Vamos aprender?
Este poema está com acentuação original. À época em que foi escrito as palavras novo, ele, vezes e novelo, usadas no texto levavam acento circunflexo. 
Palavras que originalmente tivessem acento agudo, quando flexionadas passariam a ter crase. No poema: diàfanamente - diáfano.  Outros exemplos: Café - cafèzinho; Só - sòzinho.

Vamos conhecer o autor?
Cleômenes Campos: nasceu em Sergipe em 1897.  É autor de: Coração Encantado; De Mãos Postas; Humildade e Zabelê.

sábado, 17 de março de 2012

Crônica cantada: Essa Pequena , Chico Buarque

                           
Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena


Leia também: crônica baseada na música Essa Pequena:
http://livroerrante.blogspot.com.br/2012/03/quarta-feira-e-dia-de-um-tempo-sem-nome.html

quinta-feira, 15 de março de 2012

História bonita(6): Laissa, 1ª na família a chegar à universidade


Laíssa Sobral Santos Martins, de 19 anos, é uma das estudantes aprovadas no último processo de transferência externa da Fuvest, que seleciona alunos já matriculados em outras universidades para estudarem na USP (Universidade de São Paulo).
Sua história seria comum se não fosse um detalhe: Laíssa é ex-catadora de lixo e cresceu na cooperativa de catadores da Granja Julieta, na qual sua mãe, Mara Lúcia Sobral Santos, é coordenadora.
- Eu estava matriculada em um curso de gestão ambiental na FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), mas não podia mais arcar com os custos da mensalidade, alimentação e transporte.
Na família de Laíssa, composta pela mãe, o irmão Everton e mais 14 irmãos adotados, ninguém havia conseguido superar o ensino médio. A jovem é a primeira a entrar em uma universidade.

Como foi?
Laíssa se matriculou na FMU no começo de 2011, quando ainda trabalhava com a mãe na cooperativa e recebia cerca de R$ 900 por mês.
Incentivada por amigos que conheciam seu trabalho na Granja Julieta, ela se inscreveu no processo de seleção para trabalhar na ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares) da USP, que selecionaria dois estudantes.
Laíssa passou, mas o salário era inferior ao que recebia na cooperativa. Mesmo assim, ela não desistiu.
- Era junho de 2011, período de inscrição para transferência para a USP. Seria a chance de poder continuar na incubadora. Alguns amigos me ajudaram com o dinheiro para pagar a taxa e consegui me inscrever.
A jovem passou por um processo seletivo semelhante ao vestibular, que também continha conteúdos específicos do curso de gestão ambiental, para o qual ela desejava transferência.
No total, foram oferecidas 1.101 vagas de transferências para cursos das áreas biológicas, exatas e de humanidades.
A boa notícia para Laíssa veio em novembro, quando ela soube que havia sido aprovada para estudar no curso de gestão ambiental, que fica no campus USP-Leste.
- As aulas começam dia 27 de fevereiro. Vou precisar regredir um ano, pois já estava no segundo ano na FMU. Mesmo assim, consegui eliminar cinco matérias, então não terei prejuízos e vou terminar no tempo previsto.
(materia do Estadão)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Palmas pro blog!!

Hoje este blog ultrapassou a marca de 60.000 acessos individuais. Estou feliz.  Agradeço a todos que de passagem ou com frequência passam por aqui.  Vamos continuar nos encontrando.  


Aniversariante do dia: Castro Alves

     Hoje, faz 165 anos do nascimento do poeta Castro Alves.  Para homenageá-lo por sua importância literária e social o dia 14 de março foi escolhido como o Dia Nacional da Poesia. 
     O baiano Castro Alves foi a principal voz poética contra a escravatura sendo o poema  Navio Negreiro seu mais conhecido trabalho. No entanto, é Canção do Africano  seu  primeiro poema   com a temática da escravidão. Leia a seguir:
A Canção do Africano

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"0 sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Segunda-feira poética: A Órfã na Costura, Junqueira Freire

Clique na imagem
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era todo o meu amor
Seu cabelo era tão louro,
Que nem fita de ouro
Tinha tamanho esplendor

Suas madeixas luzidas
Lhe caiam tão compridas
Que vinham aos pés beijar
Quando ouvia as minhas queixas,
Em suas áureas madeixas,
Ela vinha me embrulhar

Também quando toda fria
A minha alma estremecida,
Quando ausente estava o sol,
Os cabelos compridos
como fios aquecidos
Serviam-me de lençol.

Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era todo o meu amor,
Seus olhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Sobre a choça do pastor

Minha mãe era mui bela
Eu me lembro muto dela,
De tudo quanto era seu!
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era tudo e tudo meu!

Os meus passos vacilantes
Foram por longos instantes
Ensinados pelos seus,
Os meus lábios mudos, quedos,
Abertos  pelos seus dedos
Pronunciaram-me: - Deus

Mais tarde quando acordava,
Quando a aurora despontava,
Erguia-me sua mão
Falando pela voz dela,
Eu repetia singela
Uma formosa oração.

Minha mãe era mui bela.
- eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas,
Suas palavras sagradas,
Cos risos que ela me deu.

Estes pontos que eu imprimo,
Estas quadrinhas que eu rimo,
foi ela que me ensinou:
As vozes que eu pronuncio,
Os contos que eu balbucio
foi ela que mos formou.

Minha mãe! diz-me esta vida,
Diz-me esta lida,
Este retrós, esta lã:
Minha mãe! diz-me este canto;
Minha mãe! diz-me este pranto; 
Tudo me diz: - Minha mãe -

Minha mãe era mui bela,
- Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Minha mãe era bonita,
Era toda a minha dita,
Era tudo e tudo meu!