terça-feira, 20 de agosto de 2019

Cora Coralina, 130 anos

Cora Coralina, a poeta doceira mais querida do Brasil, nasceu há 130 anos, no dia 20 de agosto de 1889. Conheça seus poemas, receitas e livros.

DE ANINHA A CORA CORALINA

Cora Coralina dizia que era a menina feia da Ponte da Lapa. Uma menina triste e nervosa, amarela de rosto empalamado e pernas moles, que tinha duas irmãs lindas e que poderia ter sido amada por ser a caçula, mas então veio mais uma e ocupou seu lugar. Por isso, ela escreveu certa vez, ficou sozinha, fechada em seu mundo imaginário.
Ao longo de seus 95 anos de vida – de muito trabalho, garra e coragem e de alguma alegria –, Cora Coralina carregou essa menina ao seu lado, e quando começou a escrever mais sistematicamente e a publicar seus livros, já mais velha, lá estavam a garota, a casa da infância, que foi a casa da velhice, as memórias – tudo o que ela viu, sentiu, viveu neste quase um século, e que não foi pouco.
Nascida Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas em agosto de 1889, meses antes da Proclamação da República, ela começou a escrever muito cedo, antes dos 15 anos, mas só foi publicar seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, em 1965 - depois de casar, trocar sua Vila Boa de Goiás natal por São Paulo - e depois pelo interior, criar quatro filhos, enviuvar, vender tecido, doce e livro. Àquela altura, já era uma senhora de 75 anos.

À obra com a qual estreou na literatura pela José Olympio (foi para a lendária editora, aliás, que, muito antes de sua estreia na literatura, ela vendia livros de porta em porta), seguiram-se outras duas: Meu Livro de Cordel (1976) e Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha (1983).
Foto: Reprodução/Museu Casa de Cora Coralina
Ela já era conhecida na região, mas um texto publicado por Carlos Drummond de Andrade no Jornal do Brasil em dezembro de 1980 tratou de apresentar Cora Coralina, uma pessoa “rica apenas de sua poesia”, a literatos e leitores. Nesse texto, o poeta, com quem ela se correspondeu brevemente depois, dizia que Cora era a pessoa mais importante de Goiás. Ele escreveu ainda: “Na estrada que é Cora Coralina, passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária.” E a simplicidade foi mesmo a sua marca (leia alguns poemas abaixo).
Na estrada que é Cora Coralina, passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária.
Carlos Drummond de Andrade, em texto publicado no Jornal do Brasil em dezembro de 1980
Quinze anos antes desse artigo, o Estado já estava atento à poeta e seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, figurou entre os lançamentos do Suplemento Literário de 26 de junho de 1965. O texto comentava que Cora dizia, na apresentação da edição, que ali não estavam impressos versos, mas sim “um modo diferente de contar velhas estórias”.
Foto: Reprodução/Museu Casa de Cora Coralina
Ela publicaria mais um volume, Estórias da Casa Velha da Ponte, previsto para 1984, mas ela estava cansada. Em Vintém de Cobre ela escreveu: “Tudo em mim vai se apagando. / Cede minha força de mulher de luta em dizer: / estou cansada. / A claridade se faz em névoa e bruma. / O livro amado: o negro das letras se embaralham, / entortam as linhas paralelas. / Dançam as palavras, / a distância se faz em quebra luz. / Deixo de reconhecer rostos amigos, familiares. / Um véu tênue vai se incorporando no campo da retina. / Passam lentamente como ovelhas mansas os vultos conhecidos / que já não reconheço. / É a catarata amortalhando a visão que se faz sombra. / Sinto que cede meu valor de mulher de luta, / e eu me confesso: / estou cansada.”
Cora morreu em 10 de abril de 1985. Estava com uma gripe forte, quando foi levada, pela manhã, para um hospital de Goiânia. A gripe tinha evoluído para pneumonia e ela morreu à tarde, pouco depois de dar entrada no hospital.
Hoje, há mais de uma dezena de livros com textos de Cora Coralina nas livrarias - para adultos e crianças (veja abaixo). E, segundo sua filha caçula, Vicência Brêtas Tahan, há muitos inéditos no baú de Cora, que ela organizou em várias pastas azuis e guarda em seu apartamento, em São Paulo.

Foto: Ninton Fukuda/Estadão

EM FAMÍLIA

Foto: Ninton Fukuda/Estadão
Vicência Brêtas Tahan
tem 90 anos e é a única filha viva de Cora Coralina. “Raspa de tacho”, como ela diz, Vicência guarda os escritos de sua mãe em pastas muito bem organizadas em sua casa, em São Paulo, e contou,em entrevista publicada pelo Estado, que há inéditos suficientes para produzir mais cinco ou seis livros.
Ela também falou sobre a relação com a mãe. “Do que eu sinto mais saudade? Da conversa dela, do espírito dela. E da comida também”, respondeu.
Veja matéria completa no Estadão

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