sexta-feira, 23 de agosto de 2019

As Tardinhas Caem, Ronaldo Wrobel

    
Há poucos anos fui convidado para um evento literário em Monte Alto, no interior paulista, e tomei um voo até Ribeirão Preto. Para meu espanto, quem me esperava no aeroporto era uma dupla sertaneja paparicada por fãs. Entre autógrafos e fotografias, os dois disseram que tinham sido contratados pelos promotores do evento literário porque trabalhavam com transportes durante a semana e só se apresentavam de sexta a domingo.
     Embarcamos numa van colorida com o nome da dupla. Na estrada, carros piscavam e buzinavam para seus ídolos, que retribuíam alegremente. A emocionada cobradora do pedágio ganhou um CD de presente. Quarenta minutos depois, passamos pelo segundo pedágio e deu-se algo estranho: o cobrador não mostrou qualquer interesse pelos dois, se é que chegou a reconhecê-los. É que aqui não somos famosos, explicaram. Meus condutores só faziam sucesso no entorno imediato de Ribeirão Preto e em algumas cidades perto de Minas Gerais, numa área “dominada” por outras duplas sertanejas. Achei aquilo curioso, me perguntando quantos artistas existem por aí, famosos até aquela curva, aquela ponte, aquele posto de gasolina, com zonas de influência bem demarcadas. Conversamos ao som de canções sertanejas que, para mim, formavam uma argamassa musical associada a coisas como boi no pasto, caminhoneiro solitário, bolo de fubá e galinheiro. Pois eles falaram sobre diferenças estilísticas e as transformações que o gênero vinha sofrendo nas últimas décadas.  As violas tradicionais iam ficando para trás, substituídas por guitarras e baterias ao gosto do público urbano e universitário. As letras também andavam mais salientes, sem a inocência rural de outros idos. Aprendi que o sertanejo é o gênero musical mais popular do país, com audiência cativa em todo o centro-sul, enquanto o Nordeste prefere forró e as grandes capitais curtem funk.
     Todos sabem que o Brasil é “muito mais que qualquer zona sul”, nos dizeres (ou cantares) de Milton Nascimento. Chega a ser clichê falar sobre diversidade nesse país com 8 milhões e meio de quilômetros quadrados. Há cidades dentro de cidades rodeadas de cidades, tudo na mesma região metropolitana. Rio e São Paulo, para ficarmos nos exemplos mais óbvios, são colchas de retalhos onde lidar com desigualdades é questão de sobrevivência. Ainda assim, sempre há situações desafiadoras para umbigos sensíveis do Leblon e dos Jardins.
     Semana passada, por exemplo, descobri que um jovem colega de trabalho não sabe quem é João Gilberto. Ele simplesmente não associa o nome a ninguém (Gilberto Gil é a referência mais próxima). Meu colega tem boa instrução, pertence à chamada classe C e está longe de ser exceção nesse Brasil lindo e trigueiro. Versos como “o barquinho vai, a tardinha cai” não significam nada para ele e para milhões de conterrâneos que só têm escutado bossa nova em propagandas comerciais ou em alguma novela com sol poente em areias cariocas. Fato é que João Gilberto e seus parceiros nunca fizeram parte da rotina ou sequer da memória afetiva dessas pessoas. E mesmo que a fase áurea do gênero seja passado, é preciso admitir que grandes porções do Brasil ou até mesmo de Copacabana e Ipanema, berço de canções consagradas, vivem e sempre viveram afastadas de toda ambiência estética, romântica e filosófica que inspirou obras como Garota de Ipanema, Coisa Mais Linda, Wave ou Carta ao Tom 74. Outra verdade é que a displicência intimista de João Gilberto combina mais com os lounges de Londres e Nova York do que com Madureira, Juazeiro do Norte, Uberlândia ou Santarém. O dia-a-dia do brasileiro pede repertórios mais enérgicos e até fervorosos, como as popularíssimas músicas religiosas, que encorajam e consolam num tom suplicante que é o avesso do requinte blasé de João Gilberto & cia. Mesmo o olhar das elites musicais para realidades periféricas tende a uma sofisticação poética e melódica bem destoante daquilo que ouvimos quando essas próprias realidades resolvem puxar o microfone.

     Dias atrás me aventurei a um videoclipe de Mc Bruninho, recomendado por um amigo do Facebook. Para quem não sabe (e eu não sabia), trata-se de um menino pernambucano que canta funk. No Youtube, sua versão para Sou Favela (junto com Vitinho Ferrari) acumula 295 milhões de visualizações em 11 meses de audiência. Já Beijinho Gostoso (com Mc Livinho) tem apenas 70 milhões de visualizações, pouca coisa perto dos 360 milhões de visualizações de Amor Falso, com Wesley Safadão e Aldair Playboy. Repito: trezentos e sessenta milhões de visualizações, ou seja, um Brasil e meio acrescido de um estado de São Paulo. Agora dê uma busca no vídeo mais visualizado deste ou daquele cantor que o grand monde associa à identidade brasileira. Não vou citar nomes por delicadeza, mas é bem provável que o número total de visualizações não chegue a 10% da audiência de Wesley Safadão e Aldair Playboy. Alguém poderá alegar que o Youtube não é régua de precisão para medir a popularidade ou o mérito de artistas, inclusive porque o perfil dos ouvintes certamente influi na quantidade de visualizações registradas, sem falar que um vídeo pode ser visto e revisto pela mesma pessoa. Ainda assim, os números são eloquentes e o recado é categórico: o espelho de nossos devaneios narcísicos cabe numa caixa de fósforo.
     O evento literário em Monte Alto durou dois dias. A dupla sertaneja me levou ao aeroporto e assistimos ao pôr do sol nos canaviais da estrada para Ribeirão Preto. O espetáculo foi coroado por um céu violeta com nuvens douradas que se desmanchavam entre as primeiras estrelas da noite. Em algum momento os rapazes resolveram me mostrar suas últimas criações, ainda inéditas. Só então notei que as canções da dupla falavam de amor, angústia, solidão, esperança. Todas elas. Abri a janela e senti cheiro de mato. As ondulações do planalto paulista eram de uma beleza irreal. Para minha surpresa, as tardinhas também caíam naquele sertão onde tristeza não tinha fim, felicidade sim, talvez porque as dores e delícias mais verdadeiras sejam praticamente as mesmas em Copacabana, Paris, Jerusalém ou Araraquara, e algumas de nossas maiores diferenças sirvam apenas para disfarçar o quanto somos essencialmente parecidos uns com os outros.

Nota: o blog foi autorizado pelo autor a fazer postagem do texto publicado no Facebook.

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