segunda-feira, 1 de julho de 2019

O Filho de Pai D'égua, Ignácio de Loyola Brandão

BELÉM - Inverno na cidade. O termômetro bate nos 37 graus. No entanto, os belenenses informam: quente mesmo é julho! A chuva diária, com horário, não existe mais. Desapareceu, assim como sumiu a garoa paulistana. Afirmam os paraenses que a culpa é dos desmatamentos, das agressões que o homem tem feito à natureza. Antigamente gostavam de dizer: me encontre antes da chuva. Ou depois. Acabou. Ainda bem que as mangueiras permanecem. As ruas são sombreadas por imensas árvores, coalhadas de frutos, começam os suplícios dos motorizados e a alegria da meninada. Eu estava com Ivana, jornalista da TVE, dando voltas e, cada vez que parávamos, eu dizia: "Estacione ali! É uma bela sombra. "E ela retrucava: "Olha as mangas!"
     Os frutos caem sobre os capôs e para-brisas, produzem mossas, arrebentam vidros. Os moleques correm e comem. Portanto, a cidade vive um dilema: mangueiras ou carros? Malandros quebram para-brisas, sujam de mangas, ficam por perto e avisam: em aqui perto quem vende para-brisa novo, barato. Culpa das mangas!!! Muitos fanáticos já tentaram arrancar as árvores, uma vez que a solução predatória é a mais fácil, pensa-se no presente, azar do futuro. O bom senso prevaleceu, as mangueiras que tornaram Belém famosa no mundo continuam. Saiba que ao estacionar, vai se aproximar um garoto, flanela nas mãos informando: "Estou na área."enquanto na região há muitas espécies em extinção, os flanelinhas (o pano é vermelho) têm proliferado. Peça ao seu para guardar a manga que cair no capô.
     Belém começou a mudar de cara. Os casarões têm sido conservados, alguns em processo de restauro. A nova administração ainda luta com a limpeza das ruas. O cheiro do lixo é forte, invencível, por toda parte. Os habitantes de Manaus que me perdoem,mas Belém está dando de dez na capital do Amazonas. Que agora anda às escuras, o que mostra a incapacidade de planejamento dos que governam. Fui a  Belém para a Primeira feira de Livros (apoiada pela Câmara Brasileira do Livro) e para a abertura do Fórum  Pan-Amazônico, encontro promovido pelas Secretarias da Cultura, da Educação e do Meio Ambiente. O Fórum - que envolveu Venezuela, Peru e Guianas - é uma resposta ao governo que, ao falar do Mercosul, exclui o norte do Brasil. Mercosul, disseram os paraenses,  tem de envolver a América do Sul inteira, não pode ser excludente. Deste modo, está surgindo o Merconorte Cultural, um dos pilares do Plano de política Cultural do atual governo do Pará, tendo à frente Almir Gabriel, que teve o rompimento de um aneurisma na aorta abdominal e ainda se recupera. Mas governa.
     O Secretário de Cultura, Paulo Chaves - único não engravatado na cerimônia de abertura, estava com a camisa do fórum - deu de presente ao governador um exemplar do meu Veia Bailarina, livro que está se tornando de autoajuda.  Quem diria! A feira, bem  montada no Centro, tinha 77 estandes e nela ocorreram oficinas, exposição de fotografias, contação de histórias, espetáculos de bonecos, mostra de cinema ( o cineasta Fernando Solanas estava presente), concertos. E entre os dias 13 e 15, discussões literárias e ambientais. Gostei mesmo foi do insight de Maria Regina Maneschy Faria Sampaio, da comissão executiva e diretora  de bibliotecas. Ela teve uma ideia que funcionou e poderia ser adotada nas bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro: o miniencontro autor-leitores, na boca do estande. Fiquei no estande da Global em pé, respondendo a perguntas de um pequeno público que se aglomerou. Poderia ter repetido algumas vezes por dia esse rápido encontro, que não cansa ninguém e promove o diálogo leitor-escritor. Nada de palco, mesa, distância. Ali, cara a cara, informal.
     Como ninguém é de ferro, à margem do encontro tivemos almoços e jantares com a comida local: filhote de pai d'égua (peixe que quase se dissolvia na boca) no espeto, de tambaqui, camarão cozido no molho de tucupi com jambu ( que anestesia a boca) e outros. Quem come o peixe filhote de pai d'égua no restaurante Lá em Casa ganha um prato de parede artesanal, dos mais simpáticos. Para não perder a viagem, abandonei os refrigerantes industrializados e passei aos sucos de cupuaçu, taperebá, bacuri, acerola fresca.  Ah, o encantamento das sorveterias que se esparramam pela cidade, sempre cheias. O secretário de Educação, que antes de tudo é poeta e ensaísta, João de Jesus Paes Loureiro, fechou a gastronomia, oferecendo um jantar em que o prato principal foi pirarucu ao forno com ervas - não me perguntem quais, deliciosas - seguido por espesso sorvete de açaí, coberto por tapioca. Ah, a literatura pode não ter me dado dinheiro, mas me tem feito conhecer o Brasil. 
(16 de novembro de 1997)

Brandão, Ignácio de Loyola, O Mel de Ocara, Ed. Global, São Paulo 2013 págs.35-37
Imagem: corredor verde da Praça da República. Fotografia de:Fernando Santos Cunha Filho.

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