terça-feira, 28 de maio de 2019

Um Baobá no Recife, João Cabral, de Melo Neto

Recife. Campo das Princesas. 
Lá tropecei com um baobá.
Crescido em frente das janelas 
do governador que sempre há.

Aqui, mais feliz, pode ter
úmidos que ignora o Sahel; 
dá-se em copudas folhas verdes
que dão nossas sombras de mel

Faz de jaqueiras, cajazeiras,
se preciso, de catedral;
faz de mangueiras, faz de sombra
que adoça nosso litoral. 


Na parte nobre do Recife, 
onde seu rebento pegou, vive, 
ignorado do Recife, 
de quem vai ao governador.

Destes nenhum pensou (se o viu) 
que na África ele é cemitério: 
se no tronco desse baobá
enterrasse os poetas de perto, 

criaria, ao alcance do ouvido, 
senado sem voto e discreto: 
onde o sim valesse o silêncio.

Imagem: OxeRecife

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