segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Morbus Gravis. Diário de Mauro Parente, Airton Uchoa Neto

    
Domingo de finados e final de fórmula 1. Posso ouvir os zumbidos dos motores na televisão dos vizinhos entediados. Mas o zumbido cessa quando entro no banheiro. qualquer um que sofra  de prisão de ventre crônica - isso diz muito sobre meu caráter - sabe que determinadas oportunidades não podem ser perdidas; são portas que se abrem quando menos se espera e se fecham logo, se a gente não chegar a tempo. Tenho esse problema desde a infância e minha avó, que lia muitos livros sobre nutrição e saúde intestinal e a Bíblia, em vez de me passar um sermão, me mandou ler um daqueles livros técnicos. A razão de o PhD ter se dedicado àquela especialização era explicada no prefácio assinado por ele mesmo: seu pai morrera de câncer no intestino e aquela morte fora ao mesmo tempo rápida e lenta dentro da sua fulminância. Sabe como é: lhe dão alguns meses de  vida a ser vivida sem dignidade alguma e fazem de tudo para que esse período se prolongue e você até agradece porque  naturalmente não quer morrer, mas quando o que resta de sua honra desperta o que você mais queria era estourar os miolos, mas os seus parentes próximos, muito solícitos, afastaram de você todos os objetos e substâncias com os quais pudesse atentar contra a própria vida com suas mãos fracas e secas. E ainda acham que você devia ser grato por isso. O sujeito, sob os olhos do filho, foi privado da capacidade de defecar, teve o ânus e o reto cirurgicamente aposentados. Os médicos tiveram de abrir um orifício no abdome dele e costurar, ali, um anel que impediria o orifício de se fechar. Nesse anel seriam acopladas as sacolas plásticas que coletavam os dejetos que saíam, fora do controle  de seu contenedor tão cioso. O cara definhou até morrer como se fosse sugado...
     Ler aquele livro piorou meu mal estar. Meus intestinos se prenderam com mais força e agora eu lutava contra eles...
     Querido diário, hoje foi a minha maior vitória. Li um artigo de Delfim Netto na Carta Capital, me preparei para bater o ponto na minha função de escriba, como aqueles egípcios carecas que sentavam no chão e escreviam o que lhes mandavam, mas ainda valiam alguma coisa porque nem todo mundo sabia ler e escrever, e deixei na privada, inteiro, um cagalhão do tamanho e quase do formato daquelas bananas que os parentres trazem do interior. Eu sei que as coisas valem e que as fezes, com seus nomes muito mais secos e mais úmidos, são sempre fezes. Mas eu não vou mentir: enquanto as paredes do meu reto voltavam ao lugar pra preencher o doloroso vácuo deixado, eu me senti muito orgulhoso de mim mesmo e acho que minha avó sentiria a mesma coisa por mim.

Neto, Airton Uchoa, Crônica da  província em chamas, Ed. La barca 2012, págs 115-116

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