domingo, 12 de agosto de 2018

Para Seu Alípio, Regina Porto.

    Papai,
    Não vim lhe parabenizar. Não convivemos proximamente desde que fiz dez anos e agora você já não está mais aqui pra que lhe peça desculpas olhando nos seus olhos como gostaria.  Sim, era isso que eu queria fazer hoje. Pedir desculpas.
     Por anos carreguei uma ideia pesada, ruim mesmo, a seu respeito. As circunstâncias e, talvez, principalmente, o sofrimento de mamãe não me permitiram diferente. Passados tantos anos que você se foi é que amadureci o suficiente para ver o tão óbvio pai possível que você foi.  
     Você não me empurrou no balanço como nas cenas românticas do dia dos pais da atualidade, mas fez e armou o brinquedo numa árvore pra nós.  
     Não nos acompanhou nas brincadeiras dentro d'água, mas alertou do perigo da lagoa pra onde, seguindo seus alertas,nunca fomos. A seu modo, como sabia, cuidou de nós.
     Não me embalou pra dormir, mas correu feito atleta pra me livrar do ataque de um animal. A seu modo, como sabia, como podia cuidou de mim.
    Não puxou conversa mas me respondeu sempre que eu perguntei e sei, você me disse, que gastei minha infância rural perguntando muito. A seu modo, como sabia e como pode, cuidou de mim.               
    Conhecia a terra local porque foi dela e nela em que viveu e de onde veio. Sempre admirou detalhes da natureza. O homem rude, de mãos grossas e incrível disposição para a labuta pesada, por prazer compartilhou  o que sabia e o que lhe encantava nos bichos e plantas. A seu modo, como podia, me amou.
     Durante muitos anos e por carta abriu seu coração, falou de si e sobre  trivialidades, comigo. A seu modo como sabia e pode me amou.
   Quando fiquei só e com dois filhos pequenos, insistiu pra que voltasse a morar com mamãe. Argumentou, que precisávamos ela e eu de apoio prático. Estava certo. A seu modo, como sabia e lhe foi possível, me amou. 
     Não lembro de que tenha me afagado. A cultura da época e lugar não incluía afagos. Mas sempre quis saber como estavam meus filhos. Foi você o primeiro homem que vi valorizar a amamentação. E me incentivar pra que deixasse meu bebê determinar quando parar. A seu modo, como sabia ou podia me amou. 
     Por isso, a meu modo e como posso agora, quero lhe pedir desculpas. Não fui capaz de lhe amar, não fui capaz de tirar de minha rudeza, nenhum gesto mais ameno pra você. E quando, você, já velho, enfim, veio morar comigo eu não fui sequer  capaz de entender que, ali, seu cérebro já estava se afastando da racionalidade. 
    Eu com minha rudeza, não entendi que era melhor lhe abraçar quando você ficasse zangado.            
     Tivemos um pelo outro, um amor confuso e cheio de lacunas. Você não tinha de onde tirar pra mim  o que não teve pra si, vindo de uma vida inteira de ausências e nadas. E eu só agora me inteirei disso e justamente porque me vi rude com meu neto que eu amo imensamente.  
     Lhe devendo  mais que você a mim,  me comprometo  a buscar, e, se precisar, tecer, ternura pra carregar na bolsa e não ficar em debito com os meus.   É a forma que encontrei para lhe pedir desculpas.

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