domingo, 29 de julho de 2018

Com Inveja de Ignácio de Loyola Brandão. Fazer o Quê?

    
      Há 5 anos, conheci Ignácio de Loyola Brandão pessoalmente .  Fui ao lançamento recifense do livro Solidão No Fundo  da Agulha (Fundação Carlos Chagas 2012).  Àquela época só conhecia o autor através de textos lidos em sites.  No teatro ele falou de sua ligação  que com a cidade do Recife e eu imaginei logo que uma pessoa com boa lábia poderia ser também excelente contador de história em livros. Me detive, então, no seu porquê de ter escrito esse livro.  
     Excetuando a forte ligação com a cidade, puro marketing, achei interessante a sugestão e acatamento da ideia de escrever sua história com determinadas músicas. Sim, nas mãos de um escritor a prosaica Ciranda Cirandinha pode dar uma história e tanto. O título do livro, sabiamente tirado de um comentário... Tudo me pareceu suficientemente interessante. Loyola Brandão encantou, prendeu a plateia mentindo lindamente e, no final, autografou e se deixou fotografar.  No meu exemplar autógrafo simpático em que cita um professor de matemática a quem deve sua vida literária.  
     O livro é um capricho, uma obra de arte por si: tem fotografias especialmente feitas para cada texto por Paulo Melo Júnior  e vem com um CD, também gravado especialmente para e livro, por Rita Gullo, filha de Ignácio de Loyola Brandão.  São 11 canções, mas o autor cita outras que  Rita Gullo não gravou.  
       Eu memorizei uma música que ouvi seguidas vezes quando tinha aproximadamente 7 anos. No dia em que bater uma inveja (dessas bem grandes) de I.L.B, eu escrevo. Por enquanto, vou buscar umas mentiras pra enfeitar a realidade da história acerca dessa música. 
        E pra que  eu não seja invejosa sozinha, segue um dos textos do autor: 

Assim "Cumana"me Seguiu Por Quarenta Anos e Me Devolveu o Tempo

       "Cumana".
     Desapareceu da memória. Nunca mais ouvi. Mudei para São Paulo, fiz carreira. Jornal, revistas, viajei mundo, conheci gente, aquela música ficou escondida em algum lugar. Um dia, meados dos anos 1990, eu e Andrea Carta saímos da redação da Vogue e fomos almoçar no Fasano por motivos profissionais. Era o novo restaurante da Haddock Lobo, monumental, luxuoso, luxuriante, intimidador. Mas Andrea era da casa e crescera com Rogério Fasano, e eu tive Fabrizio, o pai, como amigo e patrão por anos - ele havia sido um dos criadores da Editora Três.
    Fingindo naturalidade, entrei, avancei uns passos, o maître me recebeu como se eu fosse frequentador desde os tempos do pai ou do av6 de Fabrizio. Ali eu aprendi o que significa luxo, hospitalidade, savoir-faire. Estremeci mal dera tr6es passos, depois fiquei paralisado, ao ouvir a música. Voltei-me. Na entrada, à esquerda da porta, havia um piano. Fui até ele. Eu tremia por dentro, as noites de domingo de quarenta anos antes voltaram, estava no bar do Monteiro, revi Pedrinho ao piano. Ele estará vivo? Vai me ler, num desses acasos imensos?
     - Conhece essa música? - perguntou o pianista. - É bem antiga.
     - "Cumana". 
     - Poucos conhecem. Um clássico de  Carmen Cavallaro.
     - Carmen Cavallaro?
     Foi um grande pianista. Não pense que era mulher, nem que era italiano. Um americano nascido em Nova York; estudou música na Europa, transitava entre o clássico e o popular.
     Eu sabia que Carmen não era mulher, tinha visto os musicais americanos, ele fazia cameo appearences ( assim como Benê Nunes, que era pianista favorito de Juscelino Kubitschck e tocava em quase todas as chanchadas da Atlântida, envolto em fumaça de gelo-seco). Eu só não sabia que "Cumana", a música emblemática dos meus dezoito anos, era dele, e era tocada por ele Cavallaro.
     - Me desculpe, qual seu nome?
     - Mário Edson.
     Dali em diante, sempre que eu entrava no Fasano e Mário Edson me via, ele parava o que estava tocando, e eu ouvia "Cumana". A vida andou outra vez, deixei de frequentar o restaurante, caminhei por trilhas variadas, mudei de casa, continuei escrevendo, vieram netos. Passados dez anos, aceitei escrever a biografia de Fabrizio Fasano, para contar a saga da dinastia que implantou na cidade os melhores restaurantes que ela tem.  Adoro quando me pedem trabalhos que envolvem a história e o cotidiano de São Paulo; isso abrange o caminho da iniciativa privada, as imaginações, a maneira que pioneiros avançam.  Agora em agosto de 2012, terminada a entrevista, eu, Fabrizio, sua mulher, Daisy, e sua filha Andrea, saímos para jantar. Uma quadra depois, entramos no Fasano, o novo. Fica dentro do Hotel Fasano, na rua que leva o nome do pioneiro, Vittorio Fasano.
     Quando me dei conta, ja estava no restaurante, cuja entrada é discretíssima. Mal apontei, ouvi "Cumana". Estremeci. Seria ainda Mário Sérgio? Era. Com os mesmos dedos ágeis, rápidos, como o ritmo exigia. Rimos e nos abraçamos, ele tocou de novo, me entregou tudo o que eu nunca perdera e que viera de piano em piano até chegar a São Paulo. Há coisas que não morrem,. O tempo anda, mas, até o final, as músicas vão me devolver momentos que desenham a trajetória de minha vida.
(Brandão,Ignácio de Loyola, Solidão no fundo da agulha, São Paulo, 2012, págs.142-143)

Rita Gullo canta:
1. Amado Mio (Doris Fisher e Allan Roberts)
2. Negue (Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos)
3. Alfonsina y El Mar (Ariel Ramíres e Félix Luna)
4. Canção do Mar (Frederico de Brito e Ferrer Trindade)
5. Patricia (Dámaso Pérez Prado e - versão brasileira - Caetano Veloso)
6.Mensagem (Aldo Cabral e Cícero Nunes)
7.Quizás (Osvaldo Ferrés)
8. Estrela do Mar (Marino Pinto e Paulo Soledade)
9. Valsinha (Chico Buarque e Vinícius de Moraes)
10. A Noite do Meu Bem (Dolores Duran)
11. Que rest-t-il de nos amours? (Charles Trenet

Nota do blog: 
O livro Solidão no funda da agulha do Projeto Livro Para Todos, só teve uma edição. Não existe mais em livrarias e o CD não é vendido separadamente.