sábado, 9 de junho de 2018

Recomendo:Palavra de Gringo, Um Olhar Estrangeiro Sobre O Brasil.


   
     
     Na copa do mundo de 2014,  aquela do vergonhoso 7 x 1, li, não lembro onde, matéria que trazia a opinião de alguns turistas sobre nós os brasileiros. Memorizei algumas e o fato de que nenhum viu naquele momento algo que tenha considerado absurdo. Um dos turistas nos achou severos demais, pessimistas. Isso por ter ouvido com frequência: É Brasil! Só acontece no Brasil! etc. Que, admitamos, dizemos como um mantra como se nós não fizéssemos parte do pacote verde amarelo.
     Agora, no ano em que vamos novamente participar de uma copa do mundo, dessa vez na Rússia, me lembrei da severidade apontada pelo turista, quando eu mesma conversando com um motorista de Uber, falei que as outras estações de BRT* do Recife e região metropolitana só ficarão prontas na próxima copa. Nos dois não sabíamos onde seria a próxima. ** O que diria de nós o gringo que nos classificou de pessimistas e severos se nós ouvisse calcular o tempo por copa do mundo? 
     Pois bem, neste ano  da graça da copa da Rússia comprei um livro bem interessante  que traz a opinião de alguns correspondentes estrangeiros.  Comprei porque me interessa saber a visão de outra pessoa. O correspondente, ao contrário do turista, mora no pais. Diferente do turista, o correspondente vive o que o nativo vive no Brasil:  usa nosso sistema de transporte público conhecendo o de seu pais e o dos outros por onde passou, faz compra em shopping e comércio popular mas com o sotaque denunciador e atraente pro desonesto e assim vai.
     Palavra de Gringo, um olhar estrangeiro sobre o Brasil. Org. Hugo Goncalves, ilustração Rita Wainer, tradução Hugo Gonçalves...( et. Al) – 1 ed. – Rio de Janeiro, Língua Geral  2014.   Leitura interessante porque de forma crítica e muitas vezes bem humorada, 10 correspondentes estrangeiros falam do que lhes chamou a atenção.   O pais do livro está reduzido a Rio de Janeiro,São Paulo  e Brasília porque é onde acontecem os eventos e decisões que movem o Brasil e, logicamente, para onde vai a imprensa do mundo. Mas isso não faz as narrações ficarem menos interessantes e relevantes para quem não é ou mora nessas cidades.  Ao contrário, até ajuda o nativo saber sobre o brasileiro que não tem o seu sotaque.   
    
O espanto da correspondente americana (vinda da França)  em relação às meias usadas pelas cariocas: “aquilo que me deixou mais desconcertada quando cheguei ao BR, depois de alguns anos em Paris, foram as meias. Não conseguia perceber a razão...” (pag. 11) foi o mesmo que tive lendo a matéria. E sou brasileira de uma cidade ensolarada como o Rio de Janeiro.

Para trás ficaram as Garotas de Ipanema, substituidas por fisiculturistas com coxas tão musculosas como as de um jogador de futebol.     (pag.13)

     Mais adiante entra o correspondente alemão que relata a história verdadeira de uma mulher negra e pobre. Afinal, ele, Philip, veio para o Brasil  porque: “... Lia-se que o Brasil não era mais o eterno pais do futuro, mas sim, finalmente, o pais do presente: mais seguro, mais democrático, mais humano. E que, finalmente, as coisas estavam se mexendo também no Rio. Que a cidade, um Brasil em miniatura, tornara-se mais segura. Que estava sendo arrumada para a Copa e as Olimpíadas e que havia regras para tudo, até para abrir um coco. Um revista alemã chegou a escrever que o Rio estava ficando enfadonho.” ( Pag. 23).    O alemão veio com uma ideia otimista aprendida no exterior, depara-se com um cenário diferente do anunciado e conhece uma história de superação de uma pessoa que , seguindo a linha comum de seus pares, no nosso pais, não faria sucesso.  Mariana é uma contradição dentro do pais que Philip não encontrou e dentro do pais que nós conhecemos.

O Brasil é uma sociedade presa em suas estruturas coloniais, com uma elite blindada contra invasores ou ideias inovadoras. (pag. 32).

     A partir da leitura desse livro entendi melhor a critica que há alguns anos me fez um jornalista colombiano. Ele me disse que somos fechados para os hermanos da A.L e desconfiava que tínhamos esse comportamento entre nós mesmos.  E no que diz respeito à desconfiança dele  acabo concordando.        
     Carregados de preconceito, nos fechamos em regiões, sotaques, etnias e sei lá mais o quê, o que resulta num desconhecimento da nação como um todo. E sobre isso, a nossa ignorância está pesquisada e divulgada publicamente na Revista Super Interessante .  Recomendo a leitura do livro e da matéria.

*O sistema de transporte por BRT deveria ficar totalmente instalado antes da Copa do Mundo do Brasil em 2014. Porém, somente depois de forma improvisada, precária e reduzida  é que entrou em operação. Diversas estações ainda não foram construidas ou acabadas até hoje.
** Próxima copa do Mundo, em 2021 vai ser no Qatar


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