segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Segunda-feira poética: País Estrangeiro, Lêda Rivas


A vida que passa na rua

é história que não vejo
A palavra é código, mistério,
sem solução, sem remédio
A solidão dói na alma
Que língua é essa que fala
a multidão no meu tédio?
Tua ausência faz de mim
um país estrangeiro
O medo de voar é maior
do que a ânsia de tocar as estrelas
A própria face se perde
na imensidão dos espelhos
Que mundo é esse que enxergo
na escuridão do degredo?
Que rumo é esse que traçam
os seres extraterrenos?
Que punhal o que me corta,
dilacerando-me o peito?
Que fogo é esse que arde
e me consome por inteiro?
Tua ausência faz de mim
um país estrangeiro.

(Recife, 20 de fevereiro de 1996)

Nota: texto e imagem foram gentilmente cedidos por Lêda Rivas

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Quarta feira é dia de: A Volta, Marcos Cirano

Trinta e sete anos depois, quando voltei pela primeira vez a minha cidade, só então descobri que aquela já não era mais a minha cidade. De tudo o que ali deixei, quase nada mais existia. As pessoas, também quase todas, não eram aquelas mesmas pessoas com as quais eu vivera sonhos e fantasias, vitórias e derrotas, tristezas e glórias... E, foi aí que me abateu uma gelada melancolia... Não é que não havia grandes explosões de vida naquela cidade que agora eu encontrava. Nem que eu quisesse que tudo tivesse permanecido estático, exatamente igual como nos tempos de quando ali vivi. Não é isso!... É que eu gostaria que, pelo menos, algumas daquelas coisas que várias gerações passadas construíram (e foi com tanto sacrifício!) existissem para sempre – ou para quase sempre, como se estivessem ali a dizer:
- Olhem, foi assim que tudo começou!...
E o que hoje eu mais queria de volta da minha velha cidade?... Simples! Primeiro, eu gostaria que devolvessem o charmoso prédio do cinema, onde agora funciona uma igreja e a fachada anuncia, de longe, um prédio de duvidoso gosto arquitetônico. Queria a recriação (e por que não?) do grupo Jazz Band Regional que, num salão qualquer, voltaria animar bailes semanais para os maiores de 65 anos que por lá aparecessem... Claro que não precisava ser bailes de gala, como os bailes de formatura da minha juventude, aos quais só era permitida a entrada de rapazes com paletó e gravata e as moças exibiam grandes torres de cabelo e laquê... Poderia ser coisa simples. E, se não mais existisse público para tais bailes, pelo meu WhatsApp eu convidaria alguns amigos da redondeza com quem nunca perdi o contato e...
...pronto: rolava a festa!
Sobre as outras coisas que eu queria de volta, também não vejo nenhum absurdo nelas. Por exemplo: Eu queria de volta o coreto e os bancos da Praça da Matriz onde a gente namorava e comia pipocas (afinal, o que custa isso?!). Eu queria que a estação de trem continuasse sendo estação de trem, não uma loja de artesanato. Que ainda existisse o trem. Que o Hotel de Dona Laura continuasse vendendo doce de leite – mesmo sem existir mais Dona Laura com aquela sua risada de maestrina. Que as pessoas da cidade (todas) sempre falassem bom dia, boa tarde, boa noite... Queria, também, que o rio que dividia a cidade em duas não tivesse virado um imenso esgoto. Que existisse uma sorveteria com sorvetes de casquinhos. Que cantoria de viola não tivesse virado coisa brega e que, estes sim: os coronéis da política tivessem sumido para sempre.
Tudo bem que as cadeiras nas calçadas não existem há décadas e dificilmente voltarão – até porque, nesse século 21, as cadeiras nas calçadas são o feicibuqui. Mas, eu queria que, se possível, voltassem as grandes procissões que aconteciam em datas comemorativas. Não porque eu tenha devoção a qualquer santo: é porque eu sempre me emocionei com aqueles ajuntamentos de pessoas que seguiam andando lentamente, olhando umas para as outras. Poderiam até ser mentirosos todos aqueles olhares (ou quase todos), mas a impressão que dava era a de que havia uma crença num rumo a seguir... Outra coisa que eu também queria era que, numa próxima volta, eu já encontrasse a cidade como eu queria que ela estivesse agora e nunca mais eu sentisse por toda parte aquele cheirinho bom de balas de framboesa da porta de cinemas.

Nota: o texto acima foi copiado da postagem do autor na sua página no facebook. O jornalista Marcos Cirano autorizou sua publicação no blog e gentilmente cedeu as imagens.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Segunda-feira poética: Inversão de Racismo, Rogaciano Leite



Amor não é racista..." — Ela dizia,
Quando em beijos ardentes me abrasava.
Ao seu peito, nervosa, me apertava,
Ao meu peito, nervoso, eu lhe prendia.

Era noite na praia. Ninguém via
Aquele par que se beijando estava...
Nos braços do cristão — ela sonhava!
E eu sonhava — nos braços da judia!

No templo azul daquela noite calma
Eu lhe dei uma Pátria, na minh'alma,
E ela deu-me, em su'alma, a Canaã...

Desde então o racismo se inverteu:

— Vivo pensando que fiquei judeu,
E ela jurando que ficou cristã!


Santos, 16/08/1950.

Sobre Rogaciano Leite leia aqui.

Imagem: Arte  Origami

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Quarta-feira é dia de: A Filha da Lavadeira, Antônio Neto



     Olhando as águas que vencem a resistência das pedras, infiltrando-se nas frinchas rochosas, a correnteza conduz o olhar do observador aos locais de remanso, onde as pedras — generosas — quase que formam pequenos tanques nos quais as lavadeiras vêm tirar o seu sustento nas águas do Rio Vermelho.

     Quantas mulheres da Cidade de Goiás não recorreram às águas samaritanas do Rio Vermelho para tirar sustento para a família, depois que o marido migrou, em busca de sonhos; arranjou outra família, esquecendo a primeira; ou amasiou-se com a cachaça, entregando-se totalmente aos seus caprichos?

     Lavadeiras de Goiás Velho, mulheres-água. A lavadeira traz consigo a aura da penitência. Cumprem sina. Desafiam as dificuldades, os preconceitos, a carestia, os abandonos. Falta tudo à lavadeira, menos uma palavra bendita na boca, um “Deus abençoe!”, um “Deus lhe pague!”, e um “Bom dia!”, que vencem as trevas do pessimismo.

      Balbina é filha de lavadeira. O pai arranjou outra em Pirenópolis. Partiu sem ao menos um adeus. Não deixou nem um centavo para o pão dos quatro filhos. A mãe revirou o céu e a terra por uma semana. Depois chegou a notícia de que o marido estava amancebado com uma viúva de posses. Entendeu o abandono e procurou trabalho para sustentar os filhos. Lavadeira: era só ter uma bacia, pedras de sabão e força nos braços, porque a água o Rio Vermelho dava de graça. E graças ao Rio Vermelho, os filhos da lavadeira tinham um pouquinho do de comer.

     Vida de filha de lavadeira não é brincadeira! Balbina é a mais velha. É dela a responsabilidade sobre os mais novos. Quando a mãe não pode, não tem tempo; é ela quem busca as enormes trouxas de roupa na casa das freguesas. São trouxas enormes, quase do mesmo peso de Balbina. Ela parece aquelas formigas carregadeiras que transportam folhas muito maiores do que elas mesmas. Quando o pai saiu de casa, Balbina abandonou os estudos. Como conciliar tanto trabalho com os estudos? Não dava! Mas os irmãos menores continuavam na escola na esperança de terem um futuro menos pedregoso.

      Muitos homens desocupados assobiavam ao ver Balbina, que entrava na flor da adolescência. Tinha gente que queria bicar daquela carnezinha magra, desnutrida, sempre com um leve tremor de fomes superpostas. A menina tinha medo deles, de que fizessem mal a ela. A infância ainda morava em sua mente, embora as curvas do quadril e as mamas que afloravam sob o vestido de chita barata denunciassem que ela estava ficando pronta para ser mulher.

      A mãe de Balbina transfigurou-se em viúva de marido vivo. Só tinha força para o trabalho. A risada morreu em seus lábios. A juventude abandonou-a precocemente. Rugas e cãs vieram alugar-lhe o corpo. A espinha dorsal curvou-se ao peso das dificuldades. Sem tratamento, os dentes se foram, como vai a espuma nas águas do Rio Vermelho. Balbina sentia dó da mãe. Era um retrato vivo do sacrifício. Era uma mulher sem férias, sem embelezamento, sem libido. A mãe era como o esterco da horta que se entrega para dar viço às hortaliças, filosofava Balbina.

       O Rio Vermelho foi testemunha do início do ciclo menstrual de Balbina. Ela lavava uns lençóis para a mãe, quando sentiu o fluxo descer. Urina não podia ser, o que seria aquilo? Ela subiu um pouco a saia, até à altura das coxas. O sangue vivo descia… O desespero cresceu, dando vida a mil pesadelos. O filete descia escarlate, manchando as águas, unindo-se às águas sagradas do Rio Vermelho. Seria doença? Seria castigo divino por algum pecado involuntário? Enquanto o fluxo vertia serpenteando as coxas, as lágrimas saltavam de seus olhos para unirem-se ao sangue e à correnteza.

      Os lençóis brancos seguiram a procissão das águas. Balbina os viu serem arrastados por entre as pedras do rio. Que se fossem! A menina lembrava-se das Dez Pragas do Egito, de quando as águas do Egito viraram sangue. Em sua imaginação, as águas sadias de todo o Goiás também iriam se converter em sangue. Em disparada, voltou para casa, indo buscar asilo no colo quente da mãe, que passava as roupas com um pesado ferro à brasa.

     Ao ouvir os desesperos da filha, a mulher sorriu com ternura. Pediu para os mais novos irem brincar no quintal e sentou-se com a menina, contou-lhe a sina das mulheres. Narrou a história de Eva, da tentação da serpente, da queda da humanidade e, consequentemente, do ciclo menstrual e do parto com dores. Explicou — delicadamente — para a filha, que a fenda que as mulheres têm entre as pernas é a cova onde o homem deposita a semente. E que para depositar a semente, o homem utiliza um membro que eles carregam entre as pernas; que esse membro, quando endurecido, fertilizava as mulheres e brotavam os bebês na barriga das mães.

      A história da mãe demorou a ser assimilada pela menina, mas fazia sentido. Agora que ela já era mulher, tomaria muito mais cuidado com os homens que a espreitavam. Entendia, enfim, porque eles assobiavam, faziam gracejos e falavam sandices…

Balbina e a mãe foram obrigadas a lavar roupa de graça por três longos meses para a dona dos lençóis que se foram com as águas do rio. Mas a mãe achou até graça do ocorrido. Desde então, as duas ficaram mais unidas, mais irmanadas para as lutas da vida; porque uma mulher tem que saber ser arrimo para outra mulher.


Antonio da Silva Pereira Neto (1970, Poá, São Paulo) é professor de Língua Portuguesa, em Santa Maria de Jetibá. Este conto foi publicado em Coletânea de Poemas e Contos do Prêmio Flor do Ipê (UFG — Campus Catalão). Bloga em https://antoniopneto.wordpress.com/

Fotografia:Alois Feichtenberger

Nota: O texto foi gentilmente cedido e enviado pelo autor que autorizou a postagem. O blog limitou-se a mudar a fonte e acrescentar a imagem, sem fazer qualquer edição no trabalho recebido.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Segunda-feira poética de hoje é música: Moonlight Shadow, Mike Oldfield

Sem nenhuma ideia para o poema desta segunda-feira, resolvi trazer a música Moonlight Shadow de Mike Oldfield que nomeia a terceira parte do livro que estou lendo no momento: Kitchen de Banana Yoshimoto.



The last that ever she saw him
Carried away by a moonlight shadow
He passed on worried and warning
Carried away by a moonlight shadow.
Lost in a riddle that saturday night
Far away on the other side.
He was caught in the middle of a desperate fight
And she couldn't find how to push through

The trees that whisper in the evening
Carried away by a moonlight shadow
Sing a song of sorrow and grieving
Carried away by a moonlight shadow
All she saw was a silhouette of a gun
Far away on the other side.
He was shot six times by a man on the run
And she couldn't find how to push through

I stay, I pray
See you in heaven far away
I stay, I pray
See you in heaven one day

Four am in the morning
Carried away by a moonlight shadow
I watched your vision forming
Carried away by a moonlight shadow
Star rool slowly in a silvery night
Far away on the other side
Will you come to talk to me this night
But she couldn't find how to push through

I stay, I pray
See you in heaven far away
I stay, I pray
See you in heaven one day

Far away on the other side.
Caught in the middle of a hundred and five
The night was heavy and the air was alive
But she couldn't find how to push through
Carried away by a moonlight shadow
Carried away by a moonlight shadow
Far away on the other side.


Kitchen

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

LivroErrante: Para Você Que Não Conhece.


     Além deste blog que existe há 9 anos, LivroErrante é também um grupo de leitura entre pessoas que moram em cidades distantes. Faço parte desse grupo que foi criado no Orkut e está seletíssimo e muito ativo no Facebook. 
     Neste momento vários livros estão saindo de uma leitora ou chegando à casa de outra em São Paulo, Piracicaba, Recife, João Pessoa, Rio de janeiro, Goiânia, Divinópolis, Brasília ou Fortaleza. 

     Para vocês morrerem de inveja, olhem os livros que estão circulando entre 15 leitoras vorazes:









     Estou terminando de ler Mil Dias Em Veneza que veio de Piracicaba e segue para Fortaleza. Ontem Mulheres de Cinzas foi enviado para João Pessoa e depois segue para São Paulo. ... 
    Bem, como disse, todos esses títulos foram oferecidos pelas integrantes do LivroErrante, o grupinho fera em leitura e amizade.

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Segunda-feira poética: Erro, Machado de Assis

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Não foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que, — como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro… Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras…
(Crisálidas – 1864)

Caricatura de Kácio

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Quarta-feira é dia de: Segredo, Paulo Mendes Campos.

    
     Há muitas coisas que a psicologia não nos explica. Suponhamos que você esteja em um 12º andar, em companhia de amigos, e, debruçando-se à janela, distinga lá em baixo, inesperada naquele momento, a figura de seu pai, procurando atravessar a rua ou descansando em um banco diante do mar. Só isso. Por que, todo esse alvoroço que visita a sua alma de repente, essa animação provocada pela presença distante de uma pessoa de sua intimidade? Você chamará os amigos para mostrar-lhes o vulto de traços fisionômicos invisíveis: " Aquele ali é meu pai". E os amigos também hão de sorrir, quase enternecidos, participando um pouco de sua glória pois é inexplicavelmente tocante ser amigo de alguém cujo pai se encontra longe, fora do alcance do seu chamado.
     Outro exemplo: você ama e sofre por causa de uma pessoa e com ela se encontra todos os dias. Por que então, quando esta pessoa aparece à distância, em hora desconhecida aos seus encontros, em uma praça, em uma praia, voando na janela de um carro, por que essa ternura dentro de você, e essa admirável compaixão?
     Por que motivo reconhecer uma pessoa ao longe nos induz a um movimento interior de doçura e piedade?
     Às vezes, trata-se de um simples conhecido. Você o reconhece de longe em um circo, um teatro, um campo de futebol, e é impossível não infantilizar-se diante da visão.
     Até para os nossos inimigos, para as pessoas que nos são antipáticas, a distância, em relação ao desafeto, atua sempre em sentido inverso. Ver o inimigo ao longe é perdoá-lo bastante.
     Mais um caso: dois amigos íntimos se vêem inesperadamente de duas janelas. Um deles está, digamos, no consultório do dentista, o outro visita o escritório de um advogado no centro da cidade. Cinco horas da tarde; lá embaixo, o tráfego estridula; ambos olham distraídos e cansados quando se descobrem mutuamente. Mesmo que ambos, uma hora antes, estivessem juntos, naquele encontro súbito e de longe é como se não se vissem há muito tempo; com todas as graças de alma despertas, eles começam a acenar-se a dar gritos, a perguntar por gestos o que o outro faz do outro lado. 
Como se tudo isso fosse um mistério.
     E é um mistério.

In Paulo Mendes Campos, Crônicas Escolhidas, São Paulo: Ática 1981 (Coleção de autores brasileiros) págs.49-50.

Nota: texto escrito antes da reforma ortográfica.
Imagem: IMS

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