segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cantiga Para Não Morrer, Ferreira Gullar

Quando você for se embora

moça branca como a neve
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


Os Melhores Poemas de Ferreira Gullar/seleção Alfredo Bosi,São Paulo,Global Ed.1983, pág.98


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

E Se Eu Fosse Presidente?

     - Mãe! Sabe o que  o presidente Obama fez? 
     - Me conta!!
     - Convidou para um almoço na Casa Branca os cinco escritores prediletos dele, bota no blog! 
     - Foi? Algum autor conhecido da gente? 
     - Conheço Zadie Smith, tenho livros dela. Não tem nenhum best seller no Brasil.
     - São todos americanos?
     - Uma é inglesa. Vou te mandar o link...
     - Ai que inveja...
     - Ele é o presidente, não é? Ele pode.. 
     - É... 
    Fui ver o link enviado. Não era uma manchete, um destaque na imprensa. Afinal, o presidente  pode chamar quem bem quiser à Casa Branca. O leitor Barak Obama, que por ser presidente talvez até já conhecesse seus convidados,  reuniu os cinco: Dave Eggers (USA), Colson Whitehead (USA), Zadie Smith (ENG),Barbara Kingsolver (USA) e Junot Diaz (R.DOM).   
     Não conheço nenhum dos prediletos do ex-presidente. Eles também não são dos mais vendidos no Brasil, embora existam edições em português de alguns de seus livros.  
Ah, mas eu queria tanto conversar assim, como Obama fez... Bateu uma invejinha! Que feio!

     - É... Ah e se eu fosse o presidente com quem eu gostaria de almoçar?  Calma, Regina! Não chame todos os embaixadores da África.
  
Bem, meus convidados seriam: 

Vargas Llosa, que considero um escritor diferente a cada livro. 
Do autor peruano recomendo Peixe na Água, hoje só encontrado em sebos. É um livro de memórias. A Festa do Bode e A Guerra do Fim do Mundo  são boas aulas de história. 
Tenho dificuldade em escolher somente um ou dois livros dele. 
Gosto muito de Mário Vargas Llosa, mas atualmente só teria um livro dele para  autografar. 

Será que  Mário Vargas Llosa  é vegetariano? 

Ele viria almoçar comigo se eu fosse presidente e  convidasse? 


Pepetela, (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) de Angola. Ele diz que naturalmente tem forte ligação com o BR porque desde jovem lia autores brasileiros e porque vê muita semelhança entre os dois países.  
De Pepetela, recomendo O Cão e os Caluandas, um livro fininho em que cada capítulo é escrito de uma forma: pode ser um conto, pode ser uma ata.  

Meus Pepetelas estão emprestados, mas se eu fosse presidente e ele viesse almoçar comigo, pegaria os exemplares de volta pra autógrafo. 

Ia aproveitar e pedir uma receita bem típica de seu país.



Loyola Brandão, um contador de histórias como poucos. Neste mês, li dois livros dele. Tem Loyola aqui no no blog. Do escritor  de Araraquara recomendo Solidão no Fundo da Agulha, uma obra de arte: textos muito bons, fotografias feitas exclusivamente para as crônicas e um CD com as músicas citadas nos textos. Ah, quem canta é Rita Gullo, filha de Ignácio de Loyola Brandão.

Meu exemplar está com  dedicatória.  Temos em comum a incapacidade com matemática.

Eliane Brum, uma jornalista sagaz,inteligente  e curiosa. O Olho da Rua, meu primeiro livro da autora, emociona e faz pensar. Lí também A Vida Que Ninguém Vê. No livro Coluna Prestes, o Avesso da Lenda, a gaúcha Eliane Brum buscou saber o que o Cavaleiro da Esperança queria e o que conseguiu. 

Na minha estante, neste momento, só tem Meus Desaconteciementos. Ela autografaria pra minha irmã, dona do livro. Penso que a jornalista continua com as mesmas duvidas sobre Prestes. Eu também.

Para ela precisaria providenciar um mate. Talvez, por causa dela, nós todos acabássemos tomando um chimarrão.


E, por fim,  o jovem autor Márcio Vassallo.  De Filho Para Pai, que eu achei tão lindo que comprei pra Theo meu netinho fofo. 
Vassalo deve ser falante. Eu teria de comprar outros livros dele. O que recomendei não está mais disponível nas livrarias. São obras primas da literatura infantil.


Os convidados de Barak Obama têm livros (português ou inglês) editados no Brasil:  Dave Eggers ,Colson Whitehead,Zadie Smith ,Barbara Kingsolver,Junot Diaz

Imagens: www.coletiva.net;www.walmircultura.com.br;www.elfikurtem.com.br;
www.agenciarif.com.br;www.cartacapital.com.br




Especialista em Comunicação estratégica, Mídias digitais: contrate

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Calcinhas Secretas, Ignácio de Loyola Brandão


Caminhando pelas calçadas congestionadas por camelôs que pagam propinas aos vereadores e, portanto, estão autorizados a montar suas barracas, ele hesitava diante da quantidade de bancas vendendo calcinhas e sutiãs. Desde que a Tiazinha começara a ter sucesso, as bancas exibiam modelos os mais diferentes, procurando excitar as mulheres na conquista dos amados. Percebeu que parte dos compradores eram homens e ficou na dúvida. Para eles mesmos ou para as mulheres? Parou diante de uma nordestina de rosto marcado por sulcos profundos e escolheu uma calcinha vermelha, uma preta aberta na frente e duas de renda. Se levar meia dúzia, ganha uma de brinde, disse a vendedora, com os olhos iluminados pela esperança. Como na feira, pensou ele. Quem compra quatro pastéis leva um de brinde. Por toda parte, promoções para segurar freguês.

Em lugar de calcinhas, pediu dois sutiãs e a vendedora mostrou-se agradecida. Tomara que façam sucesso, que ela goste e o senhor volte. Ela goste! A vendedora não podia, nem de longe, prever as intenções dele. Era uma idéia que não tinha ocorrido de repente, ali, diante do mar colorido de peças íntimas. Foi almoçar no Ponto Chic, tomou dois chopinhos, um antes do Bauru, outro depois, consultou o relógio e seguiu para o cinema. Já havia uma fila, Mel Gibson tem um fã-clube no centro da cidade. A sala estava fresca. Escolheu uma fileira central, espectadores vieram sentar-se perto, ele trocou de lugar. Foi mudando até localizar-se em um canto deserto.

Vibrou com o Mel Gibson distribuindo porradas e tiros. Decidiu abrir o pacote e, no escuro, não soube qual das calcinhas estava sendo retirada. Não importava. Deixou a peça pendurada no braço das poltronas, pensou melhor, apanhou um sutiã, jogou no chão e mudou de lugar. Era mais completa a ação. Instalou-se num ponto estratégico e ficou à espera. O filme terminou, as luzes acenderam-se, as pessoas começaram a sair. Suspense. Será que ninguém veria as calcinhas? Uma mulher bateu os olhos, virou-se para o companheiro, apontou. Os dois gargalharam: Aqui foi quente. Aqui, sim, passou uma máquina mortífera. Sentaram-se, espantados e curiosos, para saborear reações. Um senhor deu com a calcinha, reprovou com um gesto de cabeça. Não demorou para que se formasse um grupo que ria, comentava e imaginava o que se teria passado no escuro da sala. Alguém descobriu o sutiã no chão, os murmúrios cresceram. O mistério aumentou.

Um policial surgiu para ver o que acontecia. Chamou o lanterninha, um velho manco. O homem contemplou as peças rendadas e ficou parado, sem decidir o que fazer. Não teve coragem de pegar as peças. Sabe-se lá o que tinha acontecido. Disse: O faxineiro cuida disso. O seu rosto mostrava assombro e alegria. Algo de diferente acontecia na mesmice das sessões. Seu trabalho era quase inútil, ninguém mais precisava de um orientador no escuro. Permanecia no posto pela amizade do exibidor, com quem começaria trinta anos atrás. Sempre de lanterna na mão. Devia ser o último de uma categoria em extinção. As condições de trabalho tinham piorado tanto, que ele era obrigado a comprar do próprio bolso as pilhas para a lanterna. O que fazia com alegria, uma boa luz era o seu orgulho.

O policial ficou exasperado: Vejam que imortalidades se passam num cinema. Se eu pegasse o elemento! Chamem o gerente. O que podia fazer o gerente? Suas atribuições não eram no escuro da sala. Situação para o lanterninha: Eu? Quer dizer que tenho de passar a sessão inteira varrendo a sala com a lanterna? Vai ser uma bronca só. Além do mais, gastaria dez pilhas por semana. Isso é com a policia, que fica assistindo a filme de graça. O policial irritou-se: Isso não pode ficar assim. E o gerente: O que vamos fazer?

Calcinhas secretas II

A nova sessão começou, o gerente voltou à sua sala, o lanterninha e o policial passaram vinte minutos rodando pelos corredores, aproximando-se dos casais. Postavam-se diante deles, ostensivamente; o lanterninha iluminava-os, tentando surpreendê-los. O que provocou protestou de um homem, que se levantou, interpelando-os duramente. Com medo, o lanterninha retirou-se e o policial pareceu desistir. O homem que tinha levado o pacote de calcinhas esperou dez minutos, rondou à procura de outro lugar estratégico, repetiu a operação, deixando a calcinha à vista. Mudou de lugar e outra vez colocou pistas falsas. Aguardou.

No intervalo, as pessoas fizeram grupinhos diante das calcinhas espalhadas e logo gerente, lanterninha, policial, faxineira e dois funcionários do cinema correram, nervosos: O que está acontecendo? Se fosse uma sala de quinta, que exibisse pornôs, eu entenderia. Mas esse é o último cinema do centro que conserva sua dignidade. O gerente colocou os dedos no nariz do policial: Resolva o assunto. O senhor só assiste aos filmes numa boa, come cachorro-quente de graça, dorme lá atrás em cada sessão.

O policial riu: Pensa que é meu chefe?" Deu as costas e foi ao hall, encostou-se no balcão da antiga bombonnière, pediu um cachorro-quente completo. A mulher reclamou: Um só por dia, por favor." Ele tinha vendido bombons e chocolates, balas e dropes, mas tivera de mandar de ramo; escolheu sanduíches rápidos e baratos. O que está acontecendo lá dentro? O gerente ficou passado. O policial riu: O pessoal anda mandando brasa dentro da sala.

O homem que tinha levado as calcinhas contemplou, deliciado, o alvoroço, desfrutou a perplexidade e imaginou a curiosidade de cada um. Teriam assunto para os escritórios, os clientes, o jantar em casa. Pena que não tivesse jornalista na platéia. Que boa idéia! Por que não telefonar para alguns? Chamar o Merten, o Zanin Oricchio, o Ignácio de Araújo, o Inimá Simões. O homem das calcinhas, diga-se como esclarecimento necessário, adorava cinema, lia colunas, recortava críticas. Quem sabe o Inimá escrevesse um livro: O erotismo nas salas?

No dia seguinte, o homem das calcinhas mudou de cinema e refez a operação, com sucesso. Foi repetindo a artimanha, percebendo gerente cada vez mais intrigados. Deliciados, remuniciava-se na banca da nordestina de rosto marcado, tinha simpatizado com a mulher. Ela, no entanto, não entendia por que aquele homem comprava tantas calcinhas e sutiãs. Seria um revendedor? Ou eram para uso próprio? Que tipo de uso? Quem era esse homem? Um tarado?

Esgotados os cinemas do centro, ele foi para o shopping. Os resultados foram melhores. No primeiro dia, deu a maior repercussão. Um pai ia sentar-se com as filhas, percebeu a calcinha no chão. Chamou o gerente, chamou todo mundo, fez escândalo, chamou o administrador do shopping, gritou que ia processar, retirou-se empurrando as jovens que riam, excitadas. E o homem das calcinhas repetiu a operação na sala 2, sem tanto estardalhaço, mas, de qualquer maneira, provocando igual assombro. O que se notava era a decepção das pessoas que gostariam de ter visto o acontecido. Numa segunda sessão, ele observou que quase ninguém prestava atenção no filme, as pessoas ficavam olhando em volta, mudavam de lugar, sentavam-se perto de casais, não importava a idade. Quando, ao acender as luzes, encontravam as calcinhas e sutiãs, era um murmúrio de frustração.

Percebeu que aquelas salas começavam a lotar, todo mundo procurando resolver o mistério das calcinhas que surgiam no escuro. Só que, com então, começou a espalhar calcinhas nos banheiros de restaurantes, ônibus, metrô, portas de cursinhos, escadas de emergência dos prédios, elevadores, por toda parte. E foi gerando curiosidade. Gastava seu salário e rejubilava-se porque as rádios e televisões começaram a comentar, os jornais procuravam o casal misterioso que transava por toda parte. Houve até mesa-redonda na TV com a Silvia Poppovic discutindo com bom humor a moralidade vigente.

E ele coleciona recortes, cola em álbuns. Interrompe a operação por um mês, retoma em local inesperado, o assunto volta à tona. E de sua janela, num apartamento da Praça Roosevelt, ele contempla a cidade que jamais vai decifrar o enigma. E considerando-se um privilegiado, dono de um segredo que intriga a todos, nem sente a dor da solidão em que vive e já se impregnou nele.

Fonte:http:www.cronicando-cronicas.blogspot.com.br
Nota: o blog manteve a grafia original

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Meu Povo, Meu Poema, Ferreira Gullar






Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova.

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema  está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo 
menos como quem canta
do que planta.

In:Gullar, Ferreira,Poemas,seleção de Alfredo Bosi, São Paulo,Global Editora 1983

Fotografia de: Marco Pimenta


sábado, 21 de janeiro de 2017

Comentando: Duas Postagens e Uma Queixa: a intolerância

     
Na ultima quarta-feira, postei uma  antiga crônica do jornalista Aluízio Falcão.  No texto, o autor  se diz intolerante à intolerância, o que justificou a praga que, mentalmente, jogou contra um casal que vinha falando mal de nordestinos quando cruzou com ele num parque em São Paulo.  
     A crônica, bem redigida, traz a situação muito  (crescente?) frequente  da intolerância ao diferente. Naquele caso, o diferente era ser nordestino. O casal vítima da praga não conseguia admitir algo fora do que determinou pra si como aceitável. Para os intolerantes do parque quem não puder ser identificado como paulistano, precisa ser afastado de seu campo de visão. Uma lástima!! 
     Na mesma quarta-feira, o blog da jornalista Suzana Valença trouxe uma matéria interessantíssima sobre identidade. Na verdade sobre determinar e ou fechar-se numa identidade. 
    
A jornalista quer falar sobre polarização, mas  trouxe antes  uma matéria com Johnnetta Cole, diretora do Museu Nacional de Arte Afro Americana sobre identidade.  Achei bastante interessante a ideia de Johnnetta porque ela me levou a pensar na causa da irritação do casal do parque: identidade. Na verdade, o erro em achar que cada pessoa só tem uma identidade, ou o erro de enclausurar o outro numa identidade escolhendo justamente a que nos desagrada ou sobre a qual somos mais ignorantes. E, assim sendo e agindo, caímos no que virou um problema tanto no Brasil quanto nos USA: polarização. O nós e eles. Sobre o que Suzana Valença vai falar mais adiante.
     Para o autor da crônica, Aluízio Falcão, só cabe a identidade de nordestino (genérica, até!) segundo o outro caminhante do parque. Embora ambos, paulistano e pernambucano, se vistos sob a ótica da diretora do museu, tivessem identidades comuns: moradores de SP, apreciadores de caminhadas, talvez o mesmo time de futebol, ao jovem do casal só cabia olhar para Aluízio como olhou para Erundina: como pessoas que nunca deviam ter saído de sua região. Nós (paulistano) eles (Aluizio e Erundina), uma polarização. 
     Já estamos, desde há muito, no tempo de deixar de lado tamanha demonstração de ignorância e má vontade. Enclausurar o outro numa única identidade é pobre e perigoso. Dividir as pessoas em nós e eles é pobre e perigoso, fechar-se numa identidade só, é pobre e perigoso. Intolerância, enfim, é igualmente pobre e perigoso.
     Ser múltiplo é muito melhor, é mais sábio, mais rico, mais simpático. A vida cobra atitudes de acolhimento, aceitação, inclusão. Não temos mais tempo a perder rogando pragas.


Leia a matéria no blog de Suzana Valença
Leia a crônica de Aluízio Falcão. 
Especialista em Comunicação Estratégica e Mídias Digitais: Contratre

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Nordestinos em São Paulo, Aluízio Falcão.

     
Leio uma publicação da ECA/USP com várias reportagens escritas por estudantes de jornalismo. O tema é a saga dos migrantes. Há depoimentos de intelectuais nordestinos residentes em São Paulo, mas principalmente daqueles anônimos viventes de periferia. Comove-me o testemunho de uma senhora que migrou em companhia da filha. Contando a estória, diz essa mãe-coragem que a sua menina, diante da miséria reinante no cafundó natal, assim propôs a retirada: "Mãe, vamos pra São Paulo, vamos lutar na vida". Não me lembro, em prosa brasileira, de registro mais bonito para o verbo lutar.
     A onda migratória para os grandes centros tem vários intérpretes: antropólogos, sociólogos, romancistas, e até um vereador chamado Bruno Feder, autor daquele famigerado projeto que simplesmente proibia a entrada de nordestino em São Paulo. Muito já se analisou e escreveu, para o bem e para o mal, sobre os personagens desta humilhante diáspora. Nenhum intérprete do fenômeno, porém, saiu-se melhor do que Chico Buarque: "Eletrizados, cruzam os céus do Brasil/ Na Rodoviária, assumem formas mil/ São faxineiros, balançam nas construções/São bilheteiros, baleiros, garçons..."
     A classe média feroz, que inspirou o projeto Feder, ignora Chico Buarque, prefere trilha de novelas. E atribui aos migrantes as piores mazelas urbanas, incluindo a violência. Grosseira inverdade.  Os indicadores divulgados mostram que a maioria da população carcerária nasceu em São Paulo. Os nordestinos predominam mesmo é no trampo da construção civil.
  Cidadãos laboriosos, vindo de oito Estados brasileiros, aqui são chamados indistintamente de "baianos", valendo a designação para tudo que é brega e mal acabado. Ofensas ditas cara a cara, sem metáforas, juntam-se às violentas privações do cotidiano, e no entanto eles não protestam. São muito calados esses migrantes, a menos que o Corinthians vença. Aí seu grito de guerra traduz não somente a paixão pelo clube, mas também um desafio das muitas dores curtidas no silêncio das favelas.
     A toda hora estamos a escutar as vozes do preconceito. Certo domingo no parque eu estava caminhando com a minha mulher quando outro casal, representativo dessa parcela raivosa da comunidade, passou por nós, xingando nordestinos que estavam fazendo algazarra na pista de correr. "São os conterrâneos dela...", rosnou o homem, referindo-se à então prefeita Erundina de Souza, na época uma espécie de Geny, por ter nascido na Paraíba e vencido eleição em São Paulo. O tipo que hostilizava, bem vestido e arrogante,continuou falando. Felizmente marchava acelerado, e logo deixei de ouví-lo. Mas as minhas pragas o acompanharam para sempre. Cultivo apenas uma intolerância: é a intolerância contra a intolerância.

FALCÃO, Aluízio. Crônicas da Vida Boêmia, 1ed.São Paulo: Ateliê Editorial, 1998, p.200-202.

Ainda sobre preconceito, minha filha sugeriu uma matéria bastante interessante porque nos obriga a pensar sobre "identidade". Enclausurar alguém numa identidade e discriminação. Vamos pensar sobre isso?

Sugestão de leitura:
Há mais filho de baiano que paulistano. (Janeiro de 2000)
Viva São Paulo! a maior cidade nordestina do Brasil (Novembro de 2013) 

Nota: a postagem da crônica foi gentilmente autorizada pelo autor. Imagem: www.jornalsp360.wordpress.com

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Faith No More, Mário Lúcio Sousa

 
A fé nunca é demais
se se transborda rega e invade.
Sei que está comigo e que me fala: 
não ouvi-la é transcendental.
Ela me fala do outro lado do som 
e toma formas efêmeras
para agilizar a língua
porque é a mesma forma que se vê dissímil
                                       em cada forma.
A cor pura necessita de luz pura 
mas a luz tem as suas cores
e ali estão, também efêmeras,
porque é a mesma luz que se vê dissímil
                                       em cada cor.
Creio e vejo e tenho 
só porque creio
porque nem vejo nem tenho. 
Tudo se me faz presente,
tanto a construção da ponte como a sua ruína; 
as batalhas ganhas ainda não começaram
mas ganhas já, porque as creio assim.
A distância toma o sentido contrário
porque penso mais rápido do que a luz e 
portanto, vejo antes de as coisas se definirem 
para se deixarem ver o que são.
Puro engano o contrário:
o que é não se define, está definido.
E pode ser visto sem que exista na aparência.


Sobre o autor:

Mário Lúcio Sousa (Lúcio Matias de Sousa Mendes) nasceu no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 21 de Outubro de 1964. Licenciado em Direito pela Universidade de Havana, Cuba. Deputado do Parlamento Cabo-Verdiano entre 1996 e 2001. Embaixador Cultural de Cabo Verde. Condecorado pelo seu país em 2006 com a Ordem do Vulcão, ao lado de Cesária Évora, sendo ele o artista mais jovem a receber tal distinção.Na música, foi fundador e líder do grupo musical Simentera, Compositor, multi-instrumentista e estudioso da música tradicional. Já gravou com Manu Dibango, Touré Kunda, Paulinho Da Viola, Maria João e Mário Laginha, Gilberto Gil, Luís Represas, Milton Nascimento, Pablo Milanês, Harry Belafonte, Toumani Diabate, Mario Canonge Ralph Tamar, Pedro Jóia, Teresa Salgueiro entre outros.
Obras disponíveis no Brasil:Biografia do Língua  e O novíssimo testamento
Imagem: www.publico.pt

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Vai Querer? Estou vendendo...

Todos os livros estão à venda. 
Contato através do Fale Comigo, do lado direito da tela.
 Aguardo você.

O Apocalipse dos Trabalhadores, Valter Hugo Mãe Alma, Manoel Alegre Uma Certa Paz, Amós Oz Um Brasileiro em Berlim, João Ubaldo Ribeiro  O Livro de Ouro da Mitologia, Thomas Bulfinch Água Mãe, José Lins do Rego Foco, A Atenção e Seu Papel Fundamental Para o Sucesso, DAniel Goleman


O Texto, Ou, a Vida, Moacyr Scliar Rosellini Amou A Pensão de Dona Bombom
Cícero Belmar O Professor, Crstovão Tezza O Banqueiro dos Pobres, Mohammad Yunus Fora de Órbita, Woody Allen O Último Cabalista de Lisboa, Richard Zimler
A Lei da Atração ( O segredo colocado em prática), Michael J. Losier A Morada do Ser, Marina Colasanti Memórias de Uma Beatnik, Diane Di Prima

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Minha Fila Para Leitura

Brincávamos a Cair Nos Braços Um do Outro, Valter Hugo Mãe


brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando, e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor. queríamos o amor um pelo outro sem hesitações, como se a desgraça nos servisse bem e, a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento e não sabíamos que a vida podia parar um dia. eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz, o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo. tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato, quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio, tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso. estavas tão  diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho. tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo, um modo mais perene, lento, covarde. Eu amava-te e julgava bem que amar era  afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o marlon brando. eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração, iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não brinques assim, vais partir uma perna, vais partir a cabeça, vais partir o coração. e estava certa, foi tudo verdade.




grafia do texto original.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Esperança, Emily Dickinson e Mário Quintana

Esperança, Emily Dickinson  
Esperança é a coisa com penas
Que se empoleira na alma
E canta um som sem palavras
E nunca, mas nunca, pára,

E mais doce é ouvido no vendaval;
E dura precisa ser a tempestade
Que poderia desanimar o passarinho
Que mantém aquecidos a tantos.

Já o ouvi nas terras mais geladas
E nos mares mais estranhos,
Entretanto nunca, mesmo no desespero,
Ele pediu uma migalha a mim.


(tradução: Luiz Felipe Coelho)




 Esperança - Mário Quintana


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...



(Nova Antologia Poética, Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 118.)

Imagens: Emily Dinkinson , Mário Quintana

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Depois do Terceiro Uísque, Aluízio Falcão

   
Depois do terceiro uísque, qualquer paulista normal, com idade superior a trinta anos, passa a gostar de baladas de Roberto Carlos. A conclusão é também válida para acadêmicos de PUC/USP/UNICAMP, sociólogas descasadas, críticos pós modernos, jornalistas em geral.Dá-se, nesse momento, que o precioso líquido escocês, queimando nas fornalhas do metabolismo, ilumina uma zona escura de cérebro, onde secretamente habita nossa porção latino-brega. Afloram, de repente, canções baratas e adormecidas no inconsciente sob o véu de escrúpulos estéticos. Depois do terceiro uísque, ninguém é de ferro. Até o governador Mário Covas seria capaz de cantar, em lágrimas, "Os botões da blusa". 
     Não me perguntem detalhes da metodologia que usei par chegar a a tais revelações. Este não é um texto científico e eu sou pago para escrevinhar amenidades. Não tenho comigo as planilhas. Mas, se a tanto for obrigado, posso exibi-las diante de um tribunal técnico. O máximo que faço hoje é contar um, dentre centenas de testes realizados. Foi no Buca Del Pazzo, faz tempo, em noite de garoa e boemia.
     Usei como cobaias dois conhecidos jornalistas da praça, ambos poetas. Intelectuais, portanto, ou pelo menos assim identificados nos manifestos que assinam em campanhas eleitorais.
     Iniciei o teste provocativamente, elogiando Robert Carlos e cantarolando aquele clássico erótico-sentimental que diz: "Nos lençóis macios da cama/ amantes se dão/ travesseiros soltos/ roupas pelo chão...", então nas paradas de sucesso do rádio popular. Como todos os indivíduos pesquisados, esses dois, ainda na primeira dose, protestaram com veemência. Roberto Carlos foi acusado de melodista repetitivo, rouxinol da Votorantim, porta-voz da classe média alienada, seresteiro de motel e outras jóias do nosso cancioneiro crítico. Um dos meus entrevistados usou, com certo espírito, a famosa frase de Tom Jobim: "Roberto Carlos é o melhor compositor de música ruim que existe".
     Rimos. Bebemos. Mudamos de assunto. Aparentemente. Digo  aparentemente porque, no meio da segunda dose, comecei a contar uma estória que me levaria. por vias transversas, ao objetivo central da pesquisa.
     "Pablo Neruda foi um poeta superior", comentei distraidamente, obtendo a óbvia concordância dos dois. Prossegui: ainda ontem achei num sebo do centro da cidade um livrinho raro editado em vários idiomas, escrito por Matilde, a primeira mulher do poeta. Era uma edição em italiano: Ricordanza della mia gioventú. Memórias de mocidade, quando ela conheceu Neruda em Paris, ambos estudantes bolsistas, recém-chegados do Chile.
     Minhas duas cobaias arregalaram os bugalhos. sorviam prazerosamente cada palavra do meu relato, junto com os restos da segunda dose. Aquilo sim era um bom assunto, disseram. Assunto de estilo, como convém a gente de nossa estampa. Continuei a estória.
     Matilde e Neruda conheceram-se num bistrô do Quartier Latin. tinham dezoito anos, eram belos, pobres e apaixonados. Naquela remota madrugada em Paris, diante de uma garrafa de Beujolois quase vazia, o jovem Neruda perguntou: "Vamos casar, Matilde?". Ela sorriu alvoroçada: sim, Pablo, vamos casar. ainda hoje, ainda nesta noite. Façamos a festa. O poeta quis comemorar e contou míseros francos disponíveis. Talvez dessem para mais uma garrafa de vinho, talvez não. Mesmo assim chamou o garçom, pediu ousadamente outra garrafa. E naquele momento escreveu no guardanapo de papel um verso que Matilde guardou por toda a vida.  Um verso que o livrinho dela reproduzia em fac-símile, 52 anos depois, como documento daquele arrebatamento juvenil:"Matilde, nós somos a festa e a dose atrevida. a) Pablo".
     Meus dois ouvintes, terminando a terceira e engatando a quarta dose, explodiram de entusiasmo.Puseram-se a elogiar os poemas de amor de Pablo Neruda, especialmente esse verso inédito que repetiam em portunhol:"Nosotros somos la fiesta...".
     Aí veio o anticlímax. Eu disse; "Pois bem, saibam que essa estória é inverídica. Acabo de inventá-la. Nunca houve esse pobre amor em Paris, não existe o tal livrinho de Matilde e o poeta Neruda jamais escreveu esse verso, que não passa de um trecho da música O Gosto de Tudo de Roberto Carlos". E cantei a balada inteira.
     Quase fui apedrejado com o gelo que restava no balde. E comprovei naquela noite quão relativo é o rigor estético da intelectuália, nesse terceiro mundo.
Depois do terceiro uísque.

FALCÃO, Aluízio. Crônicas da vida boêmia, 1 ed. São Paulo:Ateliê Editorial,1998 p.23-26

Nota 1: o blog manteve a grafia original.
Nota 2: a postagem da crônica foi gentilmente autorizada pelo autor.