quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Noite Em Que Houve Um Acidente, Chimamanda Ngozi Adichie



    
     Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido
    A tia Chinwe estava linda com um vestido cor de pêssego. “Acho que o Emeka sempre soube!”, disse com um sorriso. No pescoço usava um colar de coral. Tinha tanta energia quanto uma atriz de teatro no dia de estreia, cheia de entusiasmo, nervosa, ansiosa de convencer seu público com a versão de si mesma que ia mostrar para eles.

     Dei ao tio Emeka o enorme cartão de aniversário que tínhamos comprado e ele me abraçou. “Como você está crescendo rápido! Em seguida, começarão a chegar os pretendentes. Mas primeiro eles precisam vir pedir minha permissão!”.

     Antes de cortar o bolo fez um discurso. Disse que a tia Chinwe era sua rainha. Que era perfeita e que fazia muitos sacrifícios por ele, que sabia exatamente o que ele queria comer a cada dia, que dava dicas sobre o negócio, e comprava todas as roupas, e sabia onde estava tudo que ele tinha, e havia dado três filhos maravilhosos, e decidia tudo da casa, e que ele teve muita sorte.

     Os convidados aplaudiram e comemoraram. Foram ouvidos elogios por toda a sala. A tia Chinwe foi enterrada em afagos. Estava sorridente e brilhante.

     “A esposa perfeita”, disse uma amiga da minha mãe.

     Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido, não pelo que era. Não dependia de sua inteligência, seu senso de humor nem de como aplicava bem as injeções. Anos mais tarde descobriria que nasceu em uma família anglicana, tinha se convertido ao catolicismo para se casar com o tio Emeka.   Transformou-se totalmente para ser a pessoa que ele queria.

     Na noite da festa houve um acidente. Uma mulher, bêbada por todas as garrafas de Guinness que tinha bebido, começou a falar coisas para a tia Chinwe. Sobre o tio Emeka. Sobre o filho de dois anos que tinha com uma garota do Estado de Imo. Tia Chinwe foi chorar no quarto de hóspedes, nos braços da minha mãe. Parecia confusa, perdida. Falava muito baixinho. “Não gritei com Emeka”, disse à minha mãe.

     Um tempo depois, ouvi minha mãe e tia Ngozi falando sobre a tia Chinwe. As duas concordaram que ela tinha resolvido a situação muito bem. Era o melhor que podia fazer. Por que brigar e levantar mais poeira?

     Tia Chinwe era um ideal, uma ideia. Talvez minha mãe e outras mulheres que eu conhecia não eram como ela, mas a idealizavam. Não só aceitavam o que representava, mas aspiravam a ser como ela. A experiência dela não foi a origem das perguntas que eu começava a me fazer, mas claro que influenciou bastante. A vida dela encorajou minhas reflexões.

     Por que deveria ter uma reação contida para que a admirassem? Por que não tinha se enfurecido com sua humilhação? E se tivesse feito isso, por que não seria admirável? Para mim parecia algo mais humano, mais sincero. Nunca pediu nada ao homem que amava, e isso era digno de elogio. Amar era dar, mas amar também devia ser receber. Por que não pedia nada? Por que não se atrevia? Por que sua perfeição dependia de não pedir nada?

     Pouco depois da festa, tia Chinwe mudou de nome, de doutora (senhora) Chinwe Nwoye a doutora (senhora) Chinwe Emeka-Nwoye. Eram os anos noventa, e estava na moda entre as nigerianas de classe média e alta adotar o nome e sobrenome do marido, separados por um hífen. Mas me pareceu estranho que a tia Chinwe fizesse isso. Não era recém-casada, e na sua geração não havia o costume. Era como se sua resposta à humilhação fosse se apagar ainda mais, afundar-se ainda mais, mergulhar sem distinção no tio Emeka. Ou dizer ao mundo que, mesmo que ele tivesse um filho com outra mulher, ela ainda era sua esposa, e ser sua esposa era o mais importante.

Fonte: El País.