quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Polígamo, Tahar Ben Jelloun

     
Minha primeira mulher foi minha mãe quem me deu, Eu ainda era criança quando desposei a filha de minha mãe. Achava sua beleza natural, evidente, nas difícil de definir. Levei tempo para descobrir que eu não era seu único amante.
     Minha segunda mulher eu encontrei sozinho, ou quase. Ela me foi oferecida, mas era preciso seduzi-la, brincar com ela e envolvê-la para a merecer e conservar.  Apliquei-mea isso com batante energia.
     Agora que cheguei aos quarenta, convivo bem com uma e outra. Minhas duas mulheres não se entendem. Há um problema de comunicação. Elas são obrigadas a passar por mim para se falarem e até para brigar.
     Tenho preferência pela segunda, porque ela é estrangeira à tribo, e me ensinaram a ser cortês e hospitaleiro com os estrangeiros, particularmente comas estrangeiras. Minha cortesia não passa de aparência. Na verdade, sou violento. Gosto de dobrar essa estrangeira. Mas devo confessar que, muitas vezes, ela é quem leva a melhor. Ela me domina e ue me deixo levar. Eu sei: qualquer resistência é inútil. A prova: é ela quem fala por mim e expressa as palavras e a terra natal.
     A outra às vezes se insurge; toma o poder sem que eu perceba e se insinua nas dobras íntimas da outra face.
     Embora não se comuniquem, elas se enfrentam e armam emboscadas uma para a outra. Adoro quando tudo se agita, quando há troca de flechas, de frases e de imagens. Uma vira a outra e ambas zombam de mim. Elas se aliam contra mim. Vejo-me afinal sem recursos, isolado, despojado e abatido. Nessa hora, consulto o dicionário. É um amigo;mas um tanto rígido. Não tem muito humor. Ele me informa, mas não me ajuda em meus conflitos conjugais. É a favor da ordem e da moral. É justo e inequívoco, frio e intransigente. Ele me deprime e me desencoraja. Eu sou amoral. Isso não tem perdão, sobretudo num dicionário.
     Então, opto pelo silêncio. De minha janela, observo o silêncio. Vejo-o passar pela rua. vou ao seu encontro; ele me envolve e eu escuto. Muitas vezes ele é enganador. Levanta problemas que é preciso adivinhar. Eu grito.
    Grito para precipitar os acontecimentos. Nessa hora, minhas duas mulheres, assustadas, intervêm e cada uma se dispõe a me acalmar, a me dar o que me falta, a ternura e o amor, o orgasmo e o sol.
     Tão logo me sacio, elas me abandonam e vão se dar a outros. 
    Foi por isso que um dia resolvi ter uma escrita própria, que, boa ou ruim, bonita ou feia, simples ou complicada, iria ser minha, parecer-se comigo e satisfazer minha intimidade mais secreta.
    Enquanto isso, fui tentado por uma terceira história de amor. Subitamente, deparei-me com alguém estranho e ambíguo; caí ma ilusão  e no erro. Era noite;não lhe vi bem o rosto. Era uma aparição, um fantasma, uma espécie de travesti que me disse: "Vai, vai reencontrar tuas mulherzinhas! Tu as satisfazes, pelo menos? ..."
     Desde então, minha fidelidade é exemplar: eu vou de uma à outra e sei que dou mais à segunda porque ela é estrangeira, e as estrangeiras eu a prendi a amar.
     Esses amores me enriquecem. Não pago imposto. quando o fiscal da receita vem ver o que acontece, não entende grande coisa, perde-se nesta casa de muitos andares e muitas portas, e vai embora jurando que da próxima vez conseguirá me acuar.    
      Apaixonado, polígamo e fiel! Isso o irrita.
     Às  vezes me acontece sair da enorme casa. Aproveito-me do sono da primeira para levar a estrangeira a passear pelas ruelas de medina. Ela não usa djelaba nem véu no rosto. Caminha dando-me o braço; está nua. Não por ser impudica ou malcriada, mas por ser tão atraída  pelos tecidos da minha velha memória, pelas cores loucas das minhas raízes, que se cobre com elas à medida que entramos no labirinto de medina e da infância árabe.
     Minha primeira esposa não se deixa facilmente despojar de suas vestes. É altiva e muda em seu orgulho. Quando tento levá-la a um jantar dançante ou a uma festa-surpresa, empaca e se recusa a me seguir. Não sem violência, lembra-me suas origens, nobres e  sagradas inscritas no Livro santo, o Corão.
     Nisso a coisa é séria! Fica difícil brincar! O Corão é um milagre, inimitável e intocável. Ele me intimida. Ele me esmaga pela inacessível beleza de sua poesia.
     Então eu volto para a outra; e me liberto. Ela me acolhe de braços aberto, me dá seus lábios, me cobre com seus cabelos e nós fazemos amor na luz, acompanhados pela música de Vivaldi ou de Bach.
     Ela me ama. Ela me ajuda a viver. Temos conflitos. Mas "só a morte é tão rasa"!

Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, 2002, págs,167-170

Algumas obras do autor editadas em português (Estante Virtual  e Liv. Saraiva):

Moha o louco Moha o sábio
Os frutos da dor
Partir
O último amigo
Felicidade
O primeiro amor é sempre o último
O menino da areia
O racismo explicado à minha filha
O racismo explicado aos jovens
As cicatrizes do atlas
O Islamismo explicado às crianças