quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Quarta-feira é dia de: O Homem Que Queria Eliminar a Memória,Ignácio de Loyola Brandão


Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida e morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis. Precisa-se muito e eles falham; subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem se incomodar com o lugar-comum.
Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de entrada?
O médico:
– Sim?
– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.
– Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?
– Porque eu quero.
– Sim, mas precisa me explicar. Justificar.
– Não basta eu querer?
– Claro que não.
– Não sou dono do meu corpo?
– Em termos.
– Como em termos?
– Bem, o senhor é e não é. Há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor; eu é que estou impedido de fazer no senhor.
– Quem impede?
– A ética, a lei.
– A sua ética manda também no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo. E se acabou.
– Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. E não tenho tempo a perder. Por que o senhor quer cortar um pedaço do cérebro?
– Quero eliminar a minha memória.
– Para quê?
– Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.
– Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.
– Não quero mais lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!
– Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar.
– É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.
– Não dá para fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.
– Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?
– Que eu saiba não.
– Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã?
– Se todo mundo fizesse isso, acabaria a história.
– E quem quer saber de história?
– Imaginou o mundo?
– Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje, mudando-se em futuro. Cada instante projetado para a frente.
– Não seria bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada segundo eliminado. A sua existência comprovada através de quê?
– Quem quer comprovar a existência?
– A gente precisa.
– Para quê?
O médico pensou. Não conseguiu responder. O homem tinha-o deixado totalmente confuso. Pediu ao homem que voltasse outro dia. Despediram-se. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala de operações. Chamou um amigo.
– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. Eliminar a memória. O que você acha?

– Muito boa idéia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera. Também quero.

Cadeiras Proibidas: Contos - Rio de Janeiro, 1984, p.32-34.

Nota: o blog manteve a grafia original
Imagem: www.fluxodopensamento.com


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Poema de Dallas Clayton, tradução/versão: Suzana Valença


VERSÃO EM PORTUGUÊS


Ouvi dizer que o futuro é horripilante

Com robôs que comem corações pulsantes

As pessoas vão se dobrando e caindo

E a Terra, em dias tristes, vai submergindo



E eu ouvi dizer que o futuro já chegou

Por quem fala que conversou

Com Deus, em particular

Sobre juntar gente para guerrear



Ouvi dizer que o futuro é barato

De comprar e vender, colhido e plantado

Para queimar e quebrar e construir e levar

E nem se importar com bagunçar ou guardar



Mas eu acredito que o futuro é feliz

Que devemos ouvir menos o que se diz

E ajudar a curar quem segura nossa mão

E ser uma luz na escuridão


TRADUÇÃO DIRETA



Ouvi dizer que o futuro é sombrio

Com robôs que comem corações pulsantes

As pessoas vão se dobrando e caindo

E a Terra submerge em dias tristes



E eu ouvi dizer que o futuro já chegou

Por pessoas que falam que ouvem

Deus em conversas baixinhas

Sobre reunir todas as ovelhas que lutam



Ouvi dizer que o futuro é barato

De comprar e vender e costurar e rasgar

Para queimar e quebrar e construir e levar

E nem se importar com a bagunça que ficou





Mas eu acredito que o futuro é brilhoso

Que você pode ser a luz

E ajudar a curar a mão que seguramos

E ouvir menos o que falam por aí



Poema original:

I’ve been told the future’s dark

With robots eating beating hearts

As people fold and fall away

And Earth immersed in dismal days



And I’ve been told the future is here

By folks who claim to lend an ear

With god in private quiet talks

Of plans to gather fighting flocks



I’ve been told the future is cheap

To buy and sell and sow and reap

To burn and grind and build and take

And never mind the mess you make



But I believe the future is bright

That you can be the light

And help to heal the hand we hold

And listen less to what we’re told






Sobre Dallas Clayton: é autor / ilustrador de livros infantis. Ele gosta de combinar poeminhas com desenhos de bem coloridos. Às vezes os poemas não fazem sentindo (ou fazem?), parecem bobagem de criança. E, às vezes, os desenhos são monstrinhos. Dallas tem uma página linda no Instagram (https://www.instagram.com/p/BMm0-ubhB6H/?taken-by=dallasclayton) e vende o produtos dele no site (http://store.dallasclayton.com/). A arte dele também pode ser encontrada no meio da rua, feita a giz, só porque sim.

domingo, 27 de novembro de 2016

Amigo Secreto: O Que Vou Ganhar?


Nosso querido grupo de leitura pelo 8º ano consecutivo faz o Amigo Secreto do final do ano. Dei minhas sugestões de presente. Vou ficar feliz com qualquer que ganhe. Amigas reunidas pelo vicio na leitura e compartilhamento de ideias, depois de alguns meses todos os livros presenteados vão ser oferecidos para leitura de todo o grupo.

Morrendo de curiosidade pra saber qual desses livros vou ganhar.

 15 Contos, Katherine Mansfield

 A Ciranda das Mulheres Sábias, Clarissa Pinkola Estes

 Briggflatts, Basil Bunting

 Homens Imprudentemente Poéticos, Valter Hugo Mãe


Foi esse o livro que ganhei e já comecei a ler:
Mulheres de Cinza, Mia Couto

 O Dia da Tempestade, Rosamunde Pilcher



Se For Pra Chorar Que Seja de Alegria, Ignácio de Loyola Brandão

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Estrangeiro, Regina Ruth Rincon Caires



            Escada de madeira, avariada. Puída como tudo o que a vista alcança dali. Cassiano, acomodado num degrau, tronco dobrado sobre os joelhos, esfrega o dedo do pé na saliência de um prego pronto a se soltar.
            Na cabecinha de onze anos, é um vaivém de imagens que analista nenhum conseguiria ordenar. No peito, é só amargura. Sente-se como um alienígena, pior que isso, um terrestre desfocado... Não tem nada a ver com tudo aquilo. A cidade, o mar, a vida da favela... Tudo lhe é terrivelmente estranho! Nem mesmo estes dez meses o deixaram mais familiarizado. Não se afina, é sempre um vendido!
Bem que avisara o pai... Não é vida para eles! Como poderia uma família da roça, rude, simplória, acostumar-se numa cidade daquele tamanho?! Pode até ser uma cidade linda, maravilhosa, cheia de modernices, mas os problemas que lhes traz a tornam uma cidade madrasta. Que saudade do seu cantinho! Chega a lhe doer no peito!
Sente uma pena tão grande do pai! Está cada dia mais magro, consumido, desesperado. É muito mais difícil do que imaginara! Com a graça de Deus, a mãe havia conseguido colocação na casa de uma dona, lá na cidade. Cuida da roupa e da arrumação da casa. Sai ainda escuro, e volta já à noitinha. Sempre cansada, desgastada.
A irmã, no viço dos seus dezesseis anos, não consegue trabalho. Cuida do barraco, displicentemente, e dorme quase o dia todo. Quando escurece, veste a mesma roupa surrada de todas as noites, e sai. Sempre tem uma amiga para visitar, um emprego para ver... Sempre arruma motivo para sair, se bem que o pai já não está engolindo tudo isso! Cassiano percebe que o velho fica ainda mais abatido quando, vendo a filha sair, encosta-se à porta do barraco e deixa os olhos correrem pela escada, vendo-a desaparecer na penumbra, lá embaixo. Se pelo menos não pintasse tanto o rosto, não usasse aquela água de cheiro tão forte!
Cassiano entende tudo, não pode afirmar nada, mas tem a liberdade de, pelo menos em pensamento, maquinar suas premissas. Aliás, é isso que faz o tempo todo! A lógica é uma constante. Tem os pés no chão. Não é dado a aventuras. Por ele nunca teriam arredado pé do mato. Lá estava a dignidade. Pobreza não é a morte, pior que ela é a indignidade da vida que levam agora.
Pai teimoso! Não é teimoso... É descabidamente sonhador, só isso! Pensava ter na cidade grande a mola mágica para o sucesso. Não vacilou em vender toda a colheita, pedir as contas, botar os trens num caminhãozinho alugado e rumar para cá. Nem precisa dizer que o dinheiro não deu nem para o começo! Foi suficiente apenas para comprar o barraco. Chegou todo animado e sonhou até com a compra de uma casa! Andava de corretor em corretor, com o dinheiro embolado nos bolsos. Não demorou a se decepcionar e tentar, pelo menos tentar, pôr os pés no chão.
 E foi este barraco que conseguiu pagar. Desde então, só Deus sabe da penúria. A comida, minguada, como podia... Agora, com o emprego da mãe, pelo menos pão não falta. Leite? Só no sonho... Perceptível até para olhos menos detalhistas, a fome que os aflige. A magreza cadavérica do pai, o raquitismo de Cassiano, com braços demasiadamente longos, evidenciados pela extrema fragilidade do corpo. As pernas, sequiosas de carne, deixam os joelhos saltados, salientes, desproporcionais. O calção nem lhe para na cintura, vive caído, à altura dos quadris e, consequentemente, quase lhe cobrindo os joelhos. Figura triste aos olhos! Tremendamente frágil, chegando mesmo a instigar pena.
Mais triste ainda é sua inércia. Passa o tempo todo ali, naquela mesma escada, olhando sem perceber, o sobe-e-desce das pessoas. Às vezes encolhe-se, tomba o corpo de lado para dar lugar a um passante mais descuidado, estabanado. Dali só sai para ir ao barraco pegar um pão, e quando escurece. Nem à escola vai! O pai, aborrecido, decepcionado, achou melhor nem tentar a matrícula. A escola do sertão era tão fraca que Cassiano não tem condição de acompanhar o estudo daqui.
Cassiano até que gostou! Não tem mesmo ideia pra aprender nada, ainda mais aqui! Só faltava ter que ir pra escola! Seria em outra situação e mais uma vez, um peixe fora d’água.
Em meio a tudo isso, nessa aflição, ainda tem o direito de ficar ali, sentado, parado. Graças a Deus não é exigido pra nada! Não tem ânimo mesmo! Se bem que é torturante ficar ali, remoendo todos aqueles martírios na cabeça, mas que fazer?! Dos males, o menor... Duro mesmo deve ser o dilema do pai! Afinal, ele deve se sentir responsável por todo esse transtorno.
Cassiano pensa no pai... Hoje ele saiu cedo, como quase todos os dias. Nem imagina o que ele faz pelas ruas. Diz que vai à procura de emprego, mas... Inutilmente. Sempre volta arrasado, mais desiludido que quando saiu.
No começo, quando chegou, Cassiano ainda se animava em subir, à noite, até o barraco de Dona Guidinha e passar os olhos pela televisão. Mas eram tantas crianças que se juntavam à porta, faziam tanto barulho que mal dava para Cassiano ouvir o som que saia do aparelho. Não podia reclamar, ia contra a corrente e ali no morro, ou se é mais um ou está morto. Cassiano preferiu se calar. Conhecia bem a política do morro e, aos poucos, foi abandonando o passatempo. Agora, bastava escurecer e ele já se deitava.
 É isso que não conseguia engolir! A violência da favela. O perigo iminente e latente do morro... É assustador! Coisa comum é ver brigas, tiros, mortes. Nem sabe quantos garotos da sua idade morreram por aqui nestes últimos meses! É rotina... Toda manhã os corpos aparecem jogados, perfurados por balas ou castigados por pancadas. Comum acontecer e difícil suportar... Impossível mesmo! Cassiano fica apavorado, temeroso, perdido.
Sua irmã chega à porta do barraco. Espreguiça o corpo demoradamente. Dormiu até agora. Já é quase noite! Está chegando a hora de Cassiano entrar. Sente vontade de esperar a mãe, ali. Mas, é perigoso, não convém.
O pai está demorando mais que o costume! Cassiano não se sente confortado. Gosta de ter o pai por perto quando a noite chega. Não tem remédio... É noite, e o jeito é entrar.
Cassiano ergue o corpo, olha novamente lá embaixo, no pé da escada. Nada... Nenhum dos dois aponta. Entra no barraco. A irmã, exalando um cheiro de flor, enjoativo, tem um espelho nas mãos e passa, repetidas vezes, o batom nos lábios. É bonita a danada! Cassiano olha-a demoradamente e pensa em como seria bom se ela tivesse metade da beleza em juízo. No mínimo sofreria menos no futuro. Esse tipo de vida nunca acaba bem, sempre deixa marcas e dissabores profundos.
Está assim, pensando, quando ouve a porta do barraco bater. A danada já saiu e ele nem tinha percebido!
Cassiano estremece quando se lembra de que está sozinho. Bem que a mãe podia chegar logo! Olha pela fresta da porta, mas nada vê. Está muito escuro lá fora... Senta-se no banco da cozinha e não consegue ficar sereno. Dentro do peito, a aflição, o desespero, o medo. Não quer ficar sozinho... Por que sua irmã não ficou com ele até a mãe chegar? Menina matreira! Pensa em contar tudo ao pai. Por que ele também não chega?!
Cassiano resolve se deitar. Quem sabe o sono vem e leva toda essa aflição. Amanhã é outro dia...
Bobagem! Nem deitado consegue sossego. A cama é um suplício quando está ansioso! Parece que vem vindo alguém... Ainda bem, é a mãe!
Tem vontade de correr, jogar-se em seus braços, esquecer toda aquela angústia, mas não tem costume! Não quer que ela saiba que sentiu medo. Já está tão baqueada, chega a dar pena! Ele não se acha no direito de levar queixume algum até ela. Tem de ajudá-la, isto sim!
-          Cassiano, cadê o pai?
-          Ainda não voltou. Saiu cedo e não falou nada...
-          E Clarinha?
-          Já saiu. Deve ter ido na casa...
-          Deixa pra lá, filho... Já comeu?
-          Já, mãe.
Nem bem entra e pega na arrumação. Clarinha, ultimamente, tem sido mais desleixada com a casa. Está uma baderna!
Cassiano percebe que a mãe, a todo instante, olha pela fresta da porta. Também está preocupada com a demora do pai. Que será que aconteceu? Nunca faz isso! Sabe que a família se sente desprotegida à noite, sem ele. Seu pai podia ser aventureiro, mas tinha muito cuidado com eles. Não fazia nada, é verdade, mas estava sempre presente. Não tinha vícios, ainda bem! Na situação em que estão agora, seria um caos ainda maior se ele não fosse comedido! Não bebia nunca. Admirável em meio a tantas decepções, o pai mantinha caráter firme feito rocha. Não buscava refúgio em vício algum, nem em seus sonhos se refugiava mais! Hoje tem os pés fincados no chão, os devaneios se foram... Está sem saída! Se ao menos arrumasse dinheiro para voltarem para o mato! Mas, como?! Talvez até tenha meios para isso, mas o pior de tudo é que perdeu o ânimo! Tem medo agora... Não quer parecer aventureiro, e sofre terrivelmente. Cassiano torce por essa aventura. De voltar... Quer voltar. É tudo o que mais deseja! Que adianta? Nunca terá coragem de conversar isso com o pai. Imagina!
As horas vão correndo. Já é noite alta, o morro está quase todo apagado. E, nada do pai. Que angústia!
A mãe, andando de um lado pro outro, não para de rezar. Cassiano fica mais aflito diante da insegurança da mãe. Ela, adulta, desprotegida, e ele, como se sente?!
A madrugada chega, junto com ela, Clarinha. Cara amarrotada. Entra falando alto, os cabelos num completo desalinho, agitada. É só o tempo de tirar a roupa, e cai na cama. Nem pergunta pelo pai. Pelo jeito nem tem tino para isso. Está esquisita!
Cassiano, apesar de aflito, encolhido sob as cobertas, não resiste ao sono e dorme profundamente.
Acorda sobressaltado com os gritos da mãe. É uma sensação horrorosa! O coração lhe bate na goela, nem sabe para que lado da cama descer as pernas... É terrivelmente assustador!
Num instante está na porta do barraco. Os olhos, ofuscados pela claridade do dia, teimam em não parar abertos. A cabeça, ainda meio atordoada, fica lerda para perceber o que está acontecendo. Chega perto da escada e olha lá embaixo. Vê a mãe, debruçada. Há muitas pessoas por perto, mas percebe que tem alguém deitado no chão. De repente, lembra-se da noite anterior, da demora do pai... Desce as escadas feito um doido, aos trotes. Difícil abrir caminho por entre as pessoas... Antes não tivesse conseguido.
No chão, estirado, pálido feito cera, olhos fixos e semiabertos, o pai. Cassiano compreende tudo... O pai, morto.
A mãe, ajoelhada ao lado, está calada, perplexa, incrédula. Não chora, apenas olha. Está como que hipnotizada, sem movimentos.
Cassiano sente o chão fugir, a cabeça rodar, não reconhece ninguém entre os curiosos. Todos estranhos... Tão estranhos quanto é aquela cidade, aquele morro, aquele barraco, aquela vida. Sente vontade de gritar, de correr, de entender. Por que tudo aquilo?! O que está acontecendo?!
Quando cai em si, está sozinho. As pessoas se foram, o corpo do pai levado não sabe pra onde... Sua mãe... Sua irmã... Cassiano não sabe de nada...
Agora está ali, sentado. Na mesma escada, no mesmo degrau, apenas com os seus pensamentos. Quem será que o matou? Por quê? O que a vida quis dele? Perguntas e mais perguntas fervilham em sua cabeça. Inutilmente. É apenas mais uma morte, como tantas outras. Sem explicação, sem fundamento. No morro é assim... Ou se é mais um, ou está morto. Ele não quis ser mais um... Foi só 
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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Segunda-feira poética: Mia Couto

As ruas

No tempo 
em que havia ruas, 
ao fim da tarde 
minha mãe nos convocava: 
era a hora do regresso. 
E a rua entrava 
connosco em casa. 
Tanto o Tempo 
morava em nós 
que dispensávamos futuro. 
Recolhida em meu quarto, 
a cidade adormecia 
no mesmo embalo da nossa mãe. 
À entrada da cama, 
eu sacudia a areia dos sonhos 
e despertava vidas além. 
Entre casa e mundo 
nenhuma porta cabia: 
que fechadura encerra 
os dois lados do infinito? 
- Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011.

Nota: o blog manteve a grafia original