segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Segunda-feira poética: A Mão, Carlos Drummond de Andrade



Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
E nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.
A mão cresce mais e faz
do mundo como-se-repete o mundo que telequeremos.
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação por que tudo tem (nova) cor.
Tudo existe por que foi pintado à feição de laranja mágica,
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da Terra domicílio do homem.

Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.

Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.


Imagem do Google

domingo, 30 de outubro de 2016

E Se Hitler Fosse Um Pacato Padre?


              Será que o jovem Marty McFlay ( Michael J Fox) existiria se o pai de Lorraine não tivesse atropelado George?

             Será que o Brasil não teria sido colônia portuguesa se Cabral tivesse acertado o caminho para as índias? 

             E se Hitler  fosse  um pacato padre?


Perguntas assim já foram feitas e continuarão a povoar nossas mentes sempre que a gente quiser  "corrigir" algo do presente. É meio infantil, é verdade, mas é humano, também, imaginar que basta mexer no passado, como no filme De Volta Para o Futuro, para o Brasil ter outro colonizador ou evitar o holocausto.


 O Livro Secreto, de Grégory Samak traz de forma romanceada um assassinato que aconteceu na Alemanha e que seria a redenção de boa parte da Europa do passado... Uma leitura imperdível. 
Mas se você não tem o livro, o mesmo assunto pode ser visto no filme recém lançado no Brasil:

 


Direção: Oliver Hirschkiegel
Elenco: Christian Friedel (Georg Elser)
             Katharine Schüttler (Elsa)
             Burghart Klaussner (Nebe)


           Georg Elser passou para a posteridade como o homem que poderia ter mudado o curso da História caso tivesse sido bem-sucedido. Dia 18 de novembro de 1939 estourou uma bomba poderosa no púlpito onde Hitler deveria estar discursando para seus correligionários, num bar em Munique. Elser a havia colocado lá. Acabou preso e torturado para confessar. Sua história está contada no filme 13 minutos, de Oliver Hirchbiegel, que estreia hoje. Da prisão, Elser (Christian Friedel) relembra sua trajetória, de jovem operário até tornar-se o ativista que preparou a bomba que poderia ter matado Hitler e, talvez, poupado cerca de 55 milhões de vidas perdidas na 2ª Guerra Mundial. Em flashback traçado do fundo das masmorras da Gestapo, Elser lembra-se de como foi um jovem artesão, como apaixonou-se por uma mulher casada, com a qual teve um filho, como empregou-se numa usina siderúrgica, como aderiu à rebelião antinazista e, por fim, decidiu-se pelo ato solitário. O filme não se ocupa de questões históricas que até hoje desafiam intelectuais, mas repousa sobre dois fatos incômodos para o nazismo. Primeiro, Elser não era um judeu perseguido; era ariano. Segundo, garantia ter agido por conta própria. Ora, o regime considerava o primeiro fato como um insulto.

O Livro Secreto,Grégory Samak.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Quarta-feira é dia de: Tia Darci Ouve Vozes, Antonio Carlos Viana

     
Quando tia Darci voltou a ouvir vozes, eu não era mais tão criança. Ninguém lhe deu atenção. Diziam que era meio pancada só porque era solteirona. Minha mãe dizia que era falta de homem, que, se ela tivesse um ao lado, ia ver coisas bem mais interessantes, não ia ficar prestando atenção em vozes do outro mundo. Mas eu sentia verdade na voz de tia Darci. Quando ela disse que uma nova prova ia começar para a família, todo mundo ficou nervoso, mas preferiu disfarçar, dizendo que espíritos não voltam, se é que há espíritos. Como tia Darci viu que só eu deixava transparecer confiança em suas palavras, se pegou comigo e me chamava sempre que recebia um recado do além. Eu perguntava como era a voz. Ela dizia que não chegava a ser uma voz assim como quando a gente fala. Era uma coisa que se espalhava dentro dela, que ficava azucrinando e só lhe dava descanso quando ela parava tudo o que estivesse fazendo para escutar. Ela vivia fazendo jejuns e tinha certas comidas que não comia nem amarrada, dizia que lhe quebravam as forças. Seu maior sonho era ter as chagas de Cristo nas mãos. Ela lera isso numa revista, um padre italiano sangrava assim e fazia milagres.

     Um dia perguntei a ela o que a voz falava de mim. Ela disse para eu não ter medo do futuro, mas que tomasse cuidado com os inimigos que se fazem de amigos e a gente nem desconfia. Que inimigos? Por enquanto só o menino vizinho, que vivia pegando no meu pé porque no pião eu era imbatível. "Começa por aí", ela falou. Passei a olhar o tal vizinho com olho torto. Ele vinha me chamar para brincar e eu dizia que não, tinha muita tarefa da escola pra fazer, precisava molhar as plantas do quintal, que se morresse uma roseira a culpa ia ser minha... É chato a gente mentir. Ele não se conformava e marcava então pra depois que eu terminasse minhas tarefas. Na verdade, eu não queria mais brincar com ele. Depois que tia Darci adivinhou que alguém ia se queimar com uma panela de água quente e meu irmão se queimou todo no peito, o que ela dizia não podia ser desprezado.

     Leonardo, o tal vizinho, veio brincar de pião num fim de tarde que quase terminou no hospital. Ele jogou o pião de um jeito que o bico caiu em cima do meu pé e fez um furo feio. Tia Darci falou que eu precisava levar a sério o que ela dizia, não fosse como os outros, que viviam zombando dela. E viviam mesmo. No almoço, todos à mesa, meu pai era o primeiro a desacatá-la de forma grosseira: "Que é que esse pato está lhe dizendo agora, Darci?". A gente via que ele estava indo além dos limites. "A mim está dizendo que está muito gostoso", respondia ele mesmo, com aquela risada sem controle, de fazer saltar carocinho de arroz por cima da gente. Tia Darci olhava para ele e eu via nos olhos dela um misto de raiva e compaixão. Havia na gaveta do armário dela um livro de são Cipriano, o Livro negro, que minha mãe dizia só servir para fazer mal aos outros. Eu era doido para folheá-lo, mas tia Darci não deixava. Dizia que ali havia remédio para tudo, até para a pessoa não ficar careca. Eu quis saber como era, para aplicar a fórmula, se eu precisasse um dia, mas ela nunca me deixou nem pegar nele.

     De manhã, todos nós ficávamos esperando tia Darci sair do quarto pra perguntar o que ela havia escutado durante a noite. Não era sempre que isso acontecia. Minha mãe só queria 05 números do bicho, era viciada. Tia Darci dizia que os espíritos não gostam de jogo e que, se minha mãe quisesse ganhar, fosse escutar as vozes dela, porque todos temos vozes que zelam por nós, é só querer escutá-las. Corno éramos crianças, ela dizia só coisas boas: eu iria ser escritor, Deo vai ser engenheiro, Caco vai ser um pintor famoso, Lia vai ser doutora, Nenzinho vai ser advogado.

     Num dia de muita chuva, todo mundo dentro de casa, tia Darci levantou a mão direita pedindo silêncio. Olhei pra ver se tinha alguma chaga. Não tinha. Nessas horas, ela se empertigava toda, parecia mais alta do que era, era a mais alta da família, muito magra, o rosto encovado, talvez de tanto sofrer com a descrença dos outros. Tinha os cabelos curtinhos, ela mesma os cortava com uma gilete, era uma pessoa toda sem vaidade. De longe, se estivesse de calça comprida, qualquer um pensava que era um rapazinho. Acho que o nome moldou seu corpo, porque Darci tanto podia ser nome de homem ou de mulher. Só quando falava, aparecia a sua feminilidade, uma voz doce e bonita, que puxava os cânticos nas novenas de junho.

     Ficamos então em silêncio, e tia Darci foi se empertigando toda, foi ficando distante de todos nós, seus olhos deixavam transparecer que não era coisa boa o que ela estava ouvindo. O silêncio era total na sala e dali a pouco ela veio voltando lentamente, sacudiu a cabeça e disse: "Coisas graves vão acontecer nesta casa". Minha mãe disse logo: "Por que você não pega só as boas?". "Não depende de mim", ela respondeu, e saiu da sala. Depois de ouvir as tais vozes, tinha de tomar um banho de sal grosso para se livrar das energias negativas que ficavam em seu corpo. Se não tomasse, caía numa prostração feia que só o doutor conseguia curar com muita conversa no quarto escuro e bolinhas de homeopatia. Ela dizia que só se dava bem com elas, os outros remédios a fariam perder a capacidade de ouvir. Foi assim com um antibiótico que tomou para um ferimento na perna. Passou meses sem ouvir vozes. Da família, era a mais estudada, fora até o Normal, mas não se formou, pois começou a ouvir as tais vozes ainda no primeiro ano e isso atrapalhou tudo. Espalharam sua fama de feiticeira e ela foi ficando malvista por todos, até que desistiu da escola. Podia até ter vivido da sua mediunidade, mas nunca quis, dizia que não se cobrava pelo que era dado de graça por Deus. Por Deus?, retrucava minha mãe, sempre incrédula.

     Naquele dia, uma das coisas que tia Darci falou quando voltou do banho foi que meu pai deveria tomar cuidado. Devia adiar aquela viagem que ele ia fazer em outubro. Se ele fosse, não voltaria. Falou direto, acho que de tanta raiva que tinha dele, já que os dois viviam se pegando por qualquer tolice. E que a voz tinha dito que dele só restaria a malinha de ferramentas. Melhor não viajar. Pela primeira vez minha mãe deu ouvidos a tia Darci e fez tudo pra meu pai deixar aquela viagem pra depois, quando os espíritos soprassem tempo bom. Ele disse que, se fosse esperar pelos espíritos, a gente morria de fome. Precisava ir ao Rio resolver problemas de um emprego que tinha largado, trabalhar mais um pouco pra juntar dinheiro e depois voltava de vez pra morar com a gente e abrir uma torrefação de café. O olhar de tia Darci em cima dele parecia de pena.

     A gente estava almoçando quando o assunto voltou à baila. Meu pai, com seu jeito ríspido, falou: "Agora mesmo é que eu vou. Quero ver se essas vozes estão falando a verdade". Achei que ele não devia ter falado assim, tia Darci já havia acertado comigo no caso de Leonardo. A malinha de ferramentas no canto da sala me pareceu sinistra. Nada fez meu pai desistir da viagem.

     Era outubro, bem no começo, ele nem se despediu da gente, só vi a porta bater e minha mãe ficar chorando na sala. Ela o amava muito, mesmo sendo ele um pobretão, como ela mesma dizia. Passou a primeira semana e nenhuma notícia dele. Passou a segunda, e a mesma coisa. A família começou a se inquietar. Como saber o que tinha acontecido? Tia Darci, mais calada do que nunca.

     Como ela havia previsto, meu pai nunca mais voltou. Só errou quanto à maleta de ferramentas, que se perdeu para sempre. Assim que soube da notícia, tia Darci sumiu de casa, e só muitos anos depois é que descobrimos seu paradeiro, quando já estávamos crescidos. Ela estava morando num asilo, numa cidade do interior. Fui visitá-la. Parecia bem tratada, de banho tomado. Engordara muito. Ali sentada na varanda, parecia um velho índio do Oeste, com uma trança branca descendo pelo ombro esquerdo. Não a reconheci. A imagem que me ficara era a de uma mulher seca, de cabelo cortado bem curtinho. Não deu a menor bola para. mim, apenas sorriu quando falei quem eu era. Minha voz quase não saía para dizer que nossa vida tinha sido muito difícil, que agora estava tudo bem. Que minha mãe tinha acertado na loteria e que todo mundo tinha se formado, mas em carreiras diferentes das que ela predissera. Num determinado momento, pensei que ela ia falar, apenas movimentou os lábios sem conseguir articular nada. Só fez esboçar um sorriso. Fiquei pensando se alguma voz lhe teria dito que ela acabaria assim, em silêncio total. Me despedi e, pela primeira vez, uma voz me disse que eu nunca mais a veria. Morreu meses depois. Fui lá pegar seus pertences, entre eles o Livro negro de são Cipriano. Pregada numa das páginas, uma foto de meu pai de paletó branco, ainda bem jovem e bonito, e em outra a de minha mãe, com os olhos furados.


Antonio Carlos Viana
 nasceu em 1946, em Sergipe. Suas histórias, desde as primeiras coletâneas — Brincar de Manja e Em Pleno Castigo — são sempre econômicas nas exteriorizações afetivas. Viana não se considera um "escritor regional": suas histórias transcorrem tanto no interior nordestino quanto em Paris, reflexo do período em que escritor estudou literatura comparada na França. 
Sua temática, sombria em princípio, não resvala, no entanto, só para enredos de infelicidade. O que prevalece é a perplexidade quase calma e a poesia discreta dos que se comunicam com poucas palavras e observações precisas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Segunda-feira poética: A Hora Íntima, Vinícius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores

Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio, 1950
Caricatura de Eric Ricardo

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Quarta-feira é dia de: Depoimento Simplório, Marques Rebelo

Eu conto:
     Ia prestar o meu exame final de português, quando papai, após me fazer umas tantas e quantas perguntas  sobre a matéria, explodiu num daqueles rompantes que só ele tinha:
     - Você não sabe nada, nada, absolutamente nada! Uma vergonha! Não pode fazer exame assim! 
     Protestei com energia:
     - Posso!
     - Não pode!
     Pensei ganhar a partida:
    - Mas o meu professor disse que eu estava preparado.
    - Seu professor é uma besta-quadrada!
    E o resultado prático desta categórica definição foi não consentir que me apresentasse à chamada e me arranjar um explicador - um excelente homem, apesar de aparentemente rabugento, e de muita fama, tanto por seus altos conhecimentos gramaticais como pela sua insociabilidade.
     Um ano de aulas noturnas, a dez mil reis cada uma, e veio outro dezembro, que era o mês fatídico dos exames. Fui aprovado, mas a nota alcançada constituiu uma legítima decepção paternal, e como não podia negar o valor do novo mestre, que ele conhecia e escolhera,num triste franzir de beiços meu pai externou a sua desprezadora opinião sobre a minha capacidade intelectual. Não me importei. Fechei decididamente a Gramática Expositiva a  Antologia Nacional  e voltei-me para as matérias que me faltavam para terminar o curso de preparatórios, pois via  no fim dele uma espécie de liberdade ( que francamente, ao chegar, foi uma desolação). Mas continuei a freqüentar a casa do professor, preso pela amizade do filho, um rapazinho magro, mais moço do que eu, terrível devorador dos livros do pai, que enchiam umas treze reforçadas estantes espalhadas pela casa toda, já que o escritório e a sala de visitas eram de reduzidas proporções.
     Dois, três, quatro anos se foram, até que uma noite o professor recebeu um livro embrulhado, coisa que acontecia diariamente, aliás, pois ele era muito acatado nas rodas literárias de então. Abriu o embrulho, desajeitadamente, rasgando o papel cor-de-rosa, abriu o livro: o Poeta admirava sinceramente o gramático e enviava-lhe a produção com uma singular dedicatória. Lendo  por cima dos espessos óculos, folheou-o alguns segundos e jogou-o na cesta de papéis: - Mais um futurista! - e atirou-se num trabalho tremendo sobre o gerúndio, que havia de fazer furor em Portugal.
     O filho era menos apriorístico nas opiniões. Dobrou as pernas de cegonha e apanhou o livro na cesta. Se era menos apriorístico, dava na mesma - seus julgamentos formavam pela bitola paterna. Chamou também o Poeta de futurista, teve uma frase áspera para defini-lo, e arrumou o livro, não na cesta, mas num canto da sala, onde ele ficou caído como um pássaro de assas abertas. Aí abaixei-me, peguei o infeliz volume, de capa branca e título modesto, abri-o:
                                                                                                     Eu faço versos como quem chora
                                                                                                   De desalento... de desencanto...
                                                                                                     Fecha o meu livro se por agora
                                                                                                     Não tens motivo nenhum de pranto. 

  - Vou levar este livro para mim - disse fechando o livro e encostando-o inexplicavelmente contra o coração. 
     - É um favor que está prestando.
    Senti-me ferido, pensei no Poeta, olhei com piedade para o meu amigo que se espichara no sofá. E ele se mostrava tão tranqüilo que não houve mais lugar para piedade. Tive-lhe ódio, um ódio imenso.


Rebelo, Marques. Contos reunidos.
Nota: o blog manteve a grafia original.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Segunda-feira poética: As Ensinanças da Dúvida, Thiago de Melo



Tive um chão (mas já faz tempo)

todo feito de certezas

tão duras como lajedos.



Agora (o tempo é que fez)

tenho um caminho de barro

umedecido de dúvidas.



Mas nele (devagar vou)

me cresce funda a certeza

de que vale a pena o amor

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Nobel de Literatura de 2016: Bob Dylan

 Hoje não é dia de postagem, mas eu não poderia deixar passar o Prêmio Nobel de Literatura de Bob Dylan. O americano, um exagerado, não contente em ser excelente letrista, ainda toca vários instrumentos, faz poesia (Tarântula) é pintor e ator.


Para ilustrar minha postagem, minha filha sugeriu Like a Rolling Stone:

 

Meu filho sugeriu Mr. Tambourine Man

 


 Para ouvir outras músicas de Bob Dylan clique aqui . 

Conheça algumas pinturas de Bob Dylan inspiradas no Brasil

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Quarta-feira é dia de: Romaria, Renato Teixeira

 
 
É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De algibeira ou jiló
Dessa vida cumprida a sol
Sou caipira Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
O meu pai foi peão
Minha mãe, solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
A custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi
Sou caipira Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira Pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Me disseram, porém,
Que eu viesse aqui 
Pra pedir de romaria
prece, paz nos desaventos
como eu não sei rezar
Só queria mostrar, meu olhar
Meu olhar, meu olhar.
Sou caipira, Pirapora...

sábado, 8 de outubro de 2016

Calem a Boca Nordestinos, José Barbosa Júnior.


O autor explica que escreveu o texto abaixo, depois que uma jovem fez uma declaração muito infeliz contra os nordestinos no Twitter, onde pedia,raivosa, que os nordestinos (entre outras coisas)  calassem a boca.
Vamos à defesa do mineiro José Barbosa Júnior: 

Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!
Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?

Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?
Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial  Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…
Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…

E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melodias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…

Ah! Nordestinos…

Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?
Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.

Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!

Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!

Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!

Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!


Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!

      Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.

       Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.

       Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”

      Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!
Fonte: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2603651

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Papai- e- mamãe, Ivo Korytowski

    
     Disse que logo descobriu que as mulheres eram diabos disfarçados, sereias traiçoeiras, tentações infernais, peçonhentas no coração e na boca, copuladoras vorazes. (...) Que traíam e levavam a alma do homem ao inferno. Mas nada havia de tão delicioso quanto este inferno.
Ana Miranda, Boca do inferno

      Imaginem um professor respeitável, espécie de professor Immanuel Rath (o velho professor que se apaixona pela cantora de cabaré, a Marlene Dietrich, no clássico filme Anjo Azul) dos nossos tempos. Doutor em Letras pela Universidade de Vincennes, maior autoridade brasileira em crítica biográfica, a crítica literária que se baseia no estudo da vida do autor, leitor voraz dos clássicos da literatura universal, casado 33 anos com dona Estela (o casal perfeito, comentavam os amigos), não de todo barrigudo e nem um pouco careca às vésperas dos cinqüenta anos, fidelidade conjugal pela qual boto a mão no fogo, pai de dois lindos rebentos, um professor de educação física e uma cantora lírica - será que esqueci algum detalhe na apresentação do professor Matias Santoro?
      Mais fácil acreditar na invasão da Terra pelos marcianos que no fim do enlace de Matias e Estela. Mas a praga das separações que assola os casais deste início de século, qual praga bíblica que vem bater às portas dos lares egípcios, também veio bater à porta do lar dos Santoros. (O motivo, ninguém sabe.) Só faltava - pontificou um amigo - um tribunal decretar a falência da instituição casamento, ex-célula mater da sociedade. "O último a se separar, apague a luz..."
      O professor Matias alugou um apê sala e quarto no Leblon. E o apoio moral dos amigos e colegas (Matias era muito estimado no meio acadêmico) impediu que mergulhasse de cabeça no abismo da depressão. O vazio do tempo, Matias preenchia-o com leituras e estudos. Mas como lidar com a novidade do vazio sexual?
     Homem na meia-idade, após décadas de virtuosa militância conjugal, de há muito perdeu a prática do flerte, da paquera. Praticar o sexo solitário? Entrar em sala de sexo virtual? Tudo muito frustrante pra quem vivera embalado pelo sexo regular e metódico como o nascer e pôr do sol.
      O terapeuta (sim, Matias teve que recorrer a um psicoterapeuta) deu a sugestão: entra numa academia de dança de salão, você vai se distrair, conhecer gente nova. Mas Matias se sentia inseguro, desajeitado. Até que o analista escancarou: quer saber de uma coisa? O jeito é você ir a uma terma. Tem uma muito boa lá no Jardim Botânico, bem discreta, numa ruinha lateral meio escondida. Deu nome, endereço, serviço completo.
      Metódico que era, Matias entrou no Google e pesquisou o nome da terma que o analista havia recomendado. E foi aí que um mundo novo do sexo irrefreado se lhe descortinou. Descobriu um fórum cujos participantes trocavam informações sobre termas e casas de massagens. "Caaaaraaaaaacoles! (dizia alguém sobre a terma do Jardim Botânico) Este lugar é o paraíso! Minha nossa! Gatas inacreditáveis, shimbação (sic) à vontade, é um lugar onde fiquei com a cabeça igual a um ventilador olhando as garotas. Contei sete que eu queria papar."
      Matias tomou coragem e dose de uísque, e foi à luta. E se encontrasse algum aluno por lá? Mas aí pensou: com essas gurias todas dando fácil fácil (não é como no meu tempo que tinha que pagar puta na zona), pra quê que um universitário vai torrar duzentos e tantos reais nas termas? Estacionou umas três quadras distante e foi caminhando calmamente como quem não tem nada pra fazer na vida.
      Vini, vidi, vinci. Chegou, presto entrou, simpática recepcionista perguntou:
      - É cliente?
      - Não, primeira vez.
      Ela explicou tudo direitinho: quanto custava, que o dinheiro da garota tinha que ser pago à parte. O vestiário (onde Matias deixou roupa e sapato num escaninho e vestiu um roupão), a sauna e ducha, a boate com as garotas, tudinho.
      Segundo andar, a boate. Penumbra quase de cinema (pupilas levaram bons cinco minutos pra se ajustarem). Garotas de biquíni. Lourinhas & moreninhas. Jovens. Popozudas. Som atordoante pra ouvidos mais afeitos a quartetos de cordas.
      Cinco minutos: Jane (assim disse chamar-se a menina) abordou-o. Conversa vai, conversa vem, seu nome, mora onde, essas trivialidades. Chope. Mão respeitável na bundinha da devassa.
      - Vamos fazer um amor gostoso?
      Na cabine, vontade de se beliscar pra descobrir se estava acordado ou sonhando (claro que isto é uma hipérbole de escritor). Mocinha com idade pra ser sua aluna, ali, nuazinha, como se ele, o respeitável professor Matias, tivesse morrido mártir da guerra santa e acordado no sétimo céu dos maometanos. "Em companhia de huris, de cândidos olhares, semelhantes a pérolas bem guardadas."
      Se eu fosse escritor naturalista - desses que se divertem em épater les bourgeois - contaria nos mínimos detalhes as mil e uma acrobacias sexuais a que se entregaram sofregamente o nosso mui respeitável professor e sua namorada de aluguel, dignas de comporem nova edição, revista e atualizada, do Kama Sutra. (Um parêntese: sôfrego, ele; pra ela, profissional do sexo, aquilo não passava de rotina.) Mas não foi nada disso. Ficaram no consagrado papai-e-mamãe, que nisso o professor, formado pela boa e velha escola do matrimônio, era mestre cum laude. Mas não foi um papai-e-mamãe burocrático qualquer de casal com décadas de monotonia.
     Naquele papai-e-mamãe o professor Matias como que regrediu (regressão a vidas passadas) à primeira noite da lua-de-mel.


IVO KORYTOWSKI
nasceu no Rio de Janeiro em meados do século passado. Graduou-se e licenciou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou dois livros: Édipo (Editora Ciência Moderna), primeiro lugar do Prêmio Orígenes Lessa da União Brasileira de Escritores de 2003, e Português Prático (Editora Campus), livro de dúvidas e curiosidades da língua portuguesa ilustrado pelo Jaguar. É tradutor profissional, tendo traduzido quase cem livros de variados assuntos e autores, entre eles Stephen Hawking, Richard Bach e Paul Auster. 

Fonte: http://www.bestiario.com.br/14_arquivos/papei.html
Imagem: www.assombrado.com.br
Nota: o blog manteve a grafia original.
 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Segunda-feira poética: Soneto de Michelangelo


Com os belos olhos teus vejo a luz clara
que com os meus, cegos, já não posso olhar;
com teus pés posso um peso carregar,
o que pra mim, manco, é coisa rara.

Com tuas asas pra sempre eu voara;
com teu engenho ao céu posso chegar;
fazes-me empalidecer ou corar,
gelado ao sol, na neve, um Saara.

O teu querer é só o querer meu,
meu sentimento nasce no teu peito,
no teu alento a minha voz busquei.

Como lua solitária sou eu,
que no céu não se pode ver direito
a não ser que reflita o astro-rei.

Tradução de Jorge Pontual 


Fonte:http://notaterapia.com.br/2016/01/06/os-11-melhores-poemas-traduzidos-pelo-jornalista-jorge-pontual/
Imagem: http://hereisagothicworld.blogspot.com.br/2014/06/olhos-verdes.html