quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Quarta-feira é dia de:Cuidar dos Pais, Valter Hugo Mãe

 Minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.
     Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.
     Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos. Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo. Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar. Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.
     Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas. Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas. Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda. Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.
     Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda
Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.
     Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos. Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo. Somos todos estranhos. Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.
     Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.
Fonte:https://www.publico.pt/sociedade/noticia/cuidar-dos-pais-1690432

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Quarta-feira é dia de: A Primavera da Lagarta, Ruth Rocha


Grande comício na floresta! Bem no meio da clareira, debaixo da bananeira!
Dona formiga convocou a reunião. 
-Isso não pode continuar!
-Não pode não! Apoiava o camaleão.
-É um desaforo. A formiga gritava. 
_É um desaforo!
-É mesmo. O camaleão concordava.
A joaninha que vinha chegando naquele instante perguntava: Qual é o desaforo, hein?
-É um desaforo o que a lagarta faz!
-Come tudo o que é folha! Reclamava o Louva-a-deus.
-Não há comida que chegue!
A lagartixa não concordava: -Por isso não que as senhoras formigas também comem.
-É isso mesmo! Apoiou o camaleão que vivia mudando de opinião.
-É muito diferente, depois a lagarta é uma grande preguiçosa, vive lagarteando por aí.
-Vai ver que a lagartixa é parente da lagarta. Disse o camaleão que já tinha mudado de opinião.
-Parente não! Falou a lagartixa. -É só uma coincidência de nome!
-Então não se meta!
-Abaixo a lagarta! Disse o gafanhoto. _Vamos acabar com ela!
-Vamos sim! Gritou a libélula. Ela é muito feia!
O Senhor Caracol ainda quis fazer um discurso: 
-É, minhas senhoras e meus senhores, como é para o bem geral e para a felicidade nacional, em meu nome e em nome de todo mundo interessado, como diria o conselheiro Furtado, quero deixar consignado que está tudo errado. Mas como o caracol era muito enrolado, ninguém prestava atenção no coitado.
Já estavam todos se preparando para caçar a lagarta.
-Abaixo a feiúra! Gritava aranha como se ela fosse muito bonita.
-Morra comilona! Exclamava o Louva-a-deus como se ele não fosse comilão também.
-Vamos acabar com a preguiçosa! Berrava a cigarra esquecendo a sua fama de boa vida.
E lá se foram eles, cantando e marchando:
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
Mas, a primavera havia chegado, por toda a parte havia flores na floresta, até parecia festa. Os passarinhos cantavam e as borboletas, quantas borboletas de todas as cores, de todos os tamanhos borboletearam pela mata. E os caçadores procuravam pela lagarta:
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
-Um, dois, feijão com arroz, três, quatro, feijão no prato.
E perguntavam para as borboletas que passavam:
-Vocês viram a lagarta que morava na amoreira? Aquela preguiçosa, comilona, horrorosa.
As borboletas riam, riam, iam passando e nem respondiam. Até que veio chegando uma linda borboleta.
-Estão procurando a lagarta da amoreira?
-Estamos sim. Aquela horrorosa, comilona.
E a borboleta bateu as asas e falou:
-Pois, sou eu.
-Não é possível! Não pode ser verdade! Você é linda!
E a borboleta sorrindo explicou:
Toda lagarta tem seu dia de borboleta, é só esperar pela primavera.
-Não é possível, só acredito vendo!
-Venha ver! Isso acontece com todas as lagartas. Eu tenho uma irmã que está acabando de virar borboleta.
Todos correram para ver. E ficaram quietinhos espiando. E a lagarta foi se transformando, se transformando até que de dentro do casulo nasceu uma borboleta.
Os inimigos da lagarta ficaram admirados
-É um milagre!
-Bem que eu falei. Disse o camaleão que já tinha mudado de opinião.
E a borboleta falou:
-É preciso ter paciência com as lagartas se quisermos conhecer as borboletas.


Fonte: blog do conto ao encanto
Imagem: www.positivandoatiudes.blogspot.com.br

Árvore, Manoel de Barros



“Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola”. Manoel de Barros



“No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus”. Manoel de Barros



“Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra,esquecida no tronco das árvores só serve para poesia”. Manoel de Barros



No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara,envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos”. Manoel de Barros



“Meu irmão agradecia a Deus aquela permanecia em árvore
porque fez amizade com as borboletas”. Manoel de Barros



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Segunda-feira Poética: Momento de Felicidade,Jalal ad-Din Rumi


Felicidade é este momento,
você e eu sentados na varanda -
duas formas, dois rostos,
mas uma alma,
você e eu.


A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos dão a água da vida
quando entramos neste jardim,
você e eu.


As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.


Você e eu,
unidos em êxtase de alegria,
livres do juízo e da razão -
você e eu.


Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
quando nós rimos,
você e eu.


Mais incrível ainda,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu -
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.
E na Terra do Açúcar, você e eu...



 (tradução de Jorge Pontual)

Fonte: www.textospararefexão.blogspot.com.br

Leia sobre o autor.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quarta-feira é dia de: O Melhor Amigo, Fernando Sabino


     A mãe estava na sala, costurando. O menino abriu a porta da rua, meio ressabiado, arriscou um passo para dentro e mediu cautelosamente a distância. Como a mãe não se voltasse
     Para vê-lo, deu uma corridinha em direção de seu quarto.
     – Meu filho? – gritou ela.
     – O que é – respondeu, com o ar mais natural que lhe foi possível.
     – Que é que você está carregando aí?
    Como podia ter visto alguma coisa, se nem levantara a cabeça? Sentindo-se perdido tentou ainda ganhar tempo.
     – Eu? Nada…
     – Está sim. Você entrou carregando uma coisa.
     Pronto: estava descoberto. Não adiantava negar – o jeito era procurar comovê-la. Veio caminhando desconsolado até a sala, mostrou à mãe o que estava carregando:
     – Olha aí, mamãe: é um filhote…
     Seus olhos súplices aguardavam a decisão.
     – Um filhote? Onde é que você arranjou isso?
     – Achei na rua. Tão bonitinho, não é, mamãe?
     Sabia que não adiantava: ela já chamava o filhote de isso. Insistiu ainda:
     – Deve estar com fome, olha só a carinha que ele faz.
     – Trate de levar embora esse cachorro agora mesmo!
     – Ah, mamãe… – já compondo uma cara de choro.
    – Tem dez minutos para botar esse bicho na rua. Já disse que não quero animais aqui em casa. Tanta coisa para cuidar, Deus me livre de ainda inventar uma amolação dessas.
   O menino tentou enxugar uma lágrima, não havia lágrima. Voltou para o quarto, emburrado:
    A gente também não tem nenhum direito nesta casa – pensava. Um dia ainda faço um estrago louco. Meu único amigo, enxotado desta maneira!
    – Que diabo também, nesta casa tudo é proibido! – gritou, lá do quarto, e ficou
esperando a reação da mãe.
    – Dez minutos – repetiu ela, com firmeza.
    – Todo mundo tem cachorro, só eu que não tenho.
    – Você não é todo mundo.
    – Também, de hoje em diante eu não estudo mais, não vou mais ao colégio, não
faço mais nada.
    – Veremos – limitou-se a mãe, de novo distraída com a sua costura.
    – A senhora é ruim mesmo, não tem coração!
    – Sua alma, sua palma.
    Conhecia bem a mãe, sabia que não haveria apelo: tinha dez minutos para brincar com seu novo amigo, e depois… ao fim de dez minutos, a voz da mãe, inexorável:
   – Vamos, chega! Leva esse cachorro embora.
   – Ah, mamãe, deixa! – choramingou ainda: – Meu melhor amigo, não tenho mais
ninguém nesta vida.
   – E eu? Que bobagem é essa, você não tem sua mãe?
   – Mãe e cachorro não é a mesma coisa.
   – Deixa de conversa: obedece sua mãe.
   Ele saiu, e seus olhos prometiam vingança. A mãe chegou a se preocupar: meninos nessa idade, uma injustiça praticada e eles perdem a cabeça, um recalque, complexos, essa coisa
    – Pronto, mamãe!
   E exibia-lhe uma nota de vinte e uma de dez: havia vendido seu melhor amigo por trinta dinheiros.
   – Eu devia ter pedido cinqüenta, tenho certeza que ele dava murmurou, pensativo.

Fonte: www.contobrasileiro.com.br
Nota: o blog manteve a grafia original