quarta-feira, 27 de julho de 2016

Quarta-feira é dia de: Sonho Gelado, Cizenando Cipriano


A noite já dança sensualmente entre luas, olhares e esbarrões. Porto seguro, a mesa de bar é a casa do boêmio. Entre encontros originais, alegrias desdobradas e tristezas destiladas,nascemorrem madrugadas e sonhos, enquanto sobrevive a ilusão. No copo úmido, a ideia vem lenta como o próximo gole: por que não? É a pergunta fatal.

O vão entre o brilhantismo e a estupidez, dizem, é de 20 andares. Como só esteve em um dos lados da equação, ele não pode confirmar a tese. Reunido com os amigos, deixa-se levar pela possibilidade antes desejada, há pouco palpável e agora real: com a experiência de quem já transitou dos botequins mais vagabundos às franquias assépticas, tinham condições de abrir seu próprio bar.

Nada mais perfeito do que fazer do prazer uma fonte de renda, não? E, ainda, após tantos golpes de água fria nos pés e ofertas de retirada das mais sutis às mais grosseiras, manteriam a porta de ferro levantada pelo tempo que desejassem – a sua política é que imperaria em sua casa, afinal. Brinde feito, e repetido, e repetido, e repetido, plano iniciado. Sobreviveria a algumas horas de sono?

Sobreviveu. E entre tentativas de lembrar as geniais estratégias de marketing e administração, pensavam no local ideal para instalar o pequeno botequim. O grupo divergiu por poucos minutos, até brotar o consenso pela tradição, apesar da concorrência: projetavam que o conhecimento da arte da boêmia e dos anseios dos boêmios tornaria sua casa um ponto de referência.

Mais uma gelada aberta para comemorar e os cenários foram se desenhando como petiscos exibidos no balcão. O primeiro de tudo: como seria a relação com seus produtos? O ponto de partida é que não poderiam ficar sem beber, é claro. Mas beber o que precisavam vender? Só consumir na concorrência – então, qual o sentido de ter um bar? Uma cota de consumo – mas qual? E foram copos e mais copos nesta discussão...

O primeiro impasse lhes colocou diante do dilema capital: o lucro corrompe o prazer. Tornarem-se burocratas da boêmia parecia-lhes um crime. E colocar as raposas para cuidar do galinheiro, como se dizia antigamente, não parecia um investimento fadado ao sucesso. A sensação de ressaca tomou a todos quando acordaram do sonho perfeito.

Amigo, mais uma aqui, por favor. “No shopping Center, alegria artificial. No bar, tristezas sinceras”, dizia o poeta na mesa ao lado.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Segunda-feira poética: A Casa, Mia Couto












Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 


- Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011.

Imagem:www.asadoutrina.com.br

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Quarta-feira é dia de: A Bandinha, Leonardo Schabbach

Era uma cidade de trabalho. Fria. Pausada. Irritadiça. Os moradores contavam os dias sem qualquer resistência, aceitavam pacificamente passar os anos em um mundo estressante e automatizado, numa existência sem adrenalina e sem cor. Viver, aparentemente, não era preciso.

Mas as aparências enganam, como todos sabem. Por trás de cada clichê, há uma série de histórias que o sustenta. É assim que se tornam verdade – ou ao menos parte da cultura popular.

Em um certo dia, Marcelo ligou para Renata, que ligou para Edu, que ligou para João, que ligou para Letícia. Estava formada a banda “Vitalícia”. Certo, rima desnecessária – pontos negativos para o narrador. Mas a banda, não. Esta era essencial. Para cada um de seus membros e, principalmente, para toda a cidade.

E aqueles músicos tinham essa consciência. Precisavam tocar, alegremente, marchinhas felizes que pudessem animar o bairro. No primeiro dia, colocaram-se na rua, em uma praça, em frente a uma padaria, bem ao cair da noite. Era justamente o horário em que todos voltavam de seus trabalhos. Por que não convidá-los à diversão? Quem sabe um pão quentinho com uma boa música não aquecesse aquela noite de inverno?

As pessoas passavam aos montes, apressadas, como sempre, e um pouco desconsertadas. Algumas pararam. Era diferente se deparar com aquilo, bem na volta para casa. Uma música, algumas pessoas; animação. Não sabiam como reagir, afinal, estavam programadas para voltar aos seus lares, ligar seus televisores e se esquecer do mundo até a manhã seguinte, quando novamente deixariam suas casas em direção a um trabalho infinito e irremediável.

Aquilo, porém, era muito diferente. Os sons, muitos agradáveis, aqueciam os ouvidos, tocavam a pele, suaves, como seda, e seduziam, sempre. E todos começaram a relaxar, junto com a bandinha, em frente à padaria. A noite caiu e a multidão aumentava. E assim foi, naquele dia, surpreendente como somente a música pode ser.

Nas semanas seguintes, Marcelo novamente ligou para Renata, que ligou para Edu, que ligou para João, que ligou para Letícia. E a bandinha seguiu seu percurso pela cidade. Cada dia em um local diferente.

Com o tempo, os habitantes já esperavam ansiosos pelo final do expediente. Mal podiam se conter, queriam saber onde a bandinha estaria, e por quanto tempo iria tocar. Alguns, inclusive, já convencidos a acompanhá-los. Por que não poderiam eles também produzir música? Por que se resignar em apenas ouvir?

Ao final do primeiro mês, Marcelo ligou para Renata, que ligou para Edu, que ligou para João, que ligou para Letícia, que ligou para Roberto, que ligou para Andressa, que ligou para Elisa, que ligou para Bianca, que ligou para Camilo, que ligou para Helena, que ligou para José, que ligou para Cassandra, que ligou para Bernardo, que ligou para Camila, que ligou para Cecília, que ligou para Dorneles, que ligou para Felipe, que ligou para Ronaldo, que ligou para Amélia, que ligou para Safira, que ligou para Karina, que ligou para Maurício...

A bandinha crescera. E a cidade, aos poucos, fazia parte.

Não demorou muito e todos saíam para cantar e tocar após as intermináveis horas de trabalho. Toda a noite se transformava em festa; e os habitantes pareciam finalmente felizes. Decorrido um ano, aquela cidade não era mais do trabalho. Era a cidade da música. E milhares de turistas passaram a visitá-la, sempre dispostos a retornar às suas casas e recriar aquilo que viveram; era hora de animar o seu próprio povo, pensavam eles enquanto se intoxicavam com o sabor das notas musicais.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Segunda-feira poética: Quando Chove, Frederico Barbosa




Em São Paulo, quando                        
chove,
chovem carros.
                        
Tudo para:
pontes, viadutos, Marginais.

E a água retoma
seu curso original:
Anhangabaú, Sumaré, Pacaembu.
                        
Ruas onde eram rios,
ex-rios, caminhos de rato, canais.
Rios sobre ruas,
Avenida do Estado, Via Dutra, Radial.

Em São Paulo, quando
chove,
chovem apocalipses

de quintal.

Imagem: Nelson Antoini www.noticias.r7.com


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Quarta-feira é dia de: Doce Inferno, Eduardo Oliveira Freire

   Minha avó foi uma doceira de mão cheia. Arrumava a mesa de bolos, gelatinas e brigadeiros que ela própria fazia. Meu avô e eu ficávamos horas comendo as guloseimas, enquanto ela ficava a observar satisfeita.  Preferia comer sozinha, para olhar o neto e o marido.
   Todo final de semana ia visitá-los. Era muito bom. Mas, com o tempo, descobri que atrás de tanta doçura há o amargo. Meus avós, no final de suas vidas, ficaram com graves problemas de saúde.

   O tempo passou. Fiquei diabético, obeso e com problema de coração. Comer, dava-me prazer imediato e era isso que almejava sempre.

   Morri e tive que ir ao inferno. Mas, não fui para o lugar dantesco, que todos dizem. Voltei à casa dos meus avós. Eles estavam me esperando. Voltei ao meu doce inferno.

Imagem:www.steffaniarts.wordpress.com

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Segunda-feira poética: Praia do Porto, Paulo César Pinheiro

Na praia do porto amanheço.
Praia do Porto, imagem: Museu do Una


Na pedra do cais tomo assento.
Na água salgada eu me benzo.
No brilho do sol me oriento.

Na orla deserta eu caminho.
Na trilha de concha me enfeito.
No espelho de prata mergulho.
No pé da palmeira me deito.

No vento do mar me penteio.
No cheiro do sal me perfumo.
Na rede de palha balanço.
No azul do horizonte me aprumo.

Na estrela da tarde te chamo.
Na ponte de tábuas te vejo.
Num vão de maré te contemplo.
Na luz do luar te desejo.

No branco da espuma te encontro.
Na areia do chão te desenho.
No ronco das ondas te encanto.
No sangue da aurora te tenho.

No corpo moreno eu me esvaio.
Na arrebentação me energizo.
Na vela do barco adormeço.
No canto do mar me eternizo.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Que Estamos Lendo?

Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie
De: Regina Porto (PE)
Está com:  Amanda (PB).
Vai para: Ana Carolina (RJ)

Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. 

Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.


As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa
De: Regina (PE)
Está com:  Ladyce (RJ),Malu(RJ) Amanda (PB)
'As mulheres do meu pai', sétimo livro da carreira de Agualusa, surgiu de uma viagem feita pela África com a intenção de escrever um roteiro para cinema.' A ideia inicial era fazer o guião e somente depois o romance, mas este acabou se impondo primeiro', justifica. O resultado é uma narrativa feita em dois planos, alternando e inter-relacionando realidade e ficção. O autor cruza o relato de sua própria viagem com a da personagem Laurentina Manso, diretora de cinema e documentarista que atravessa a África Austral para tentar reconstituir a vida do pai, Faustino Manso, famoso músico angolano que deixou sete viúvas e 18 filhos espalhados pelos diversos países do continente.




Zelota, Reza Ashlan

De: Laura (RJ)
Vai para: Márcia (RJ), Marilda(GO)
Dois mil anos atrás, um pregador judeu atravessou a Galileia realizando milagres e reunindo seguidores para estabelecer o que chamou de “Reino de Deus”. Assim, lançou um movimento revolucionário tão ameaçador à ordem estabelecida que foi capturado, torturado e executado como um criminoso de Estado. Seu nome era Jesus de Nazaré. Poucas décadas após sua morte, seus seguidores o chamariam de “o filho de Deus”. Com uma prosa envolvente, baseada em uma pesquisa meticulosa, o escritor e especialista em religião Reza Aslan mergulha na turbulenta época em que Jesus viveu, reconstruindo com maestria a Palestina do século I em busca do Jesus histórico. Ao fazê-lo, encontra um rebelde carismático que desafiava as autoridades de Roma e a alta hierarquia religiosa judaica – um dos chamados zelotas, nacionalistas radicais que consideravam dever de todo judeu combater a ocupação romana. Aslan descreve um homem cheio de convicção, paixão e contradições; e aborda as razões por que a Igreja cristã preferiu promover a imagem de Jesus como um mestre espiritual pacífico em vez do revolucionário politicamente conscientizado que ele foi. Numa narrativa de tirar o fôlego, Zelota oferece uma nova perspectiva sobre aquela que talvez seja a história mais extraordinária da humanidade.




O Último Amigo,Tahar Ben Jeloun

De: Ladyce (RJ)
Lido por: Regina (PE)
Está com:Thaís(RJ)Laura(RJ),Madá (RJ).

Aconteceu em Tânger, cidade cosmopolita, no final dos anos 1950. Dois adolescentes, Ali e Mamed, conhecem-se no Liceu Francês, passam a andar juntos e se tornam amigos. Durante quase trinta anos, essa relação será afetada por mal-entendidos, duras provações sofridas juntos, ciúme disfarçado e traição. Essa amizade arrebatadora quase chega a se assemelhar a uma história de amor de final infeliz.







O Reino das Mulheres, Ricardo Coler
De: Ladyce (RJ)
Enviado para: Neide (RJ),Laura(RJ)


Um lugar em que tem todo o poder é das mulheres. Onde elas podem escolher os homens com quem dormirão a cada noite. Onde política é assunto exclusivo delas.

Onde o homem obedece sem constrangimento. Assim é Loshui, um pequeno povoado da China, o último matriarcado de que se tem notícia. 'O Reino das Mulheres' é o relato da viagem de Ricardo Coler entre elas. Seu destino leve envolve o leitor em aventuras e reflexões sobre um mundo novo. Paraíso para algumas.
Desespero para outras. A experiência única narrada nestas páginas intrigantes nos faz pensar sobre a sociedade tradicional e as mudanças nos papéis dos homens e das mulheres nos dias de hoje.



Balzac e a Costureirinha Chinesa, Dai Sijie 
De: Laura (RJ)
Está com Rosa (GO)
Vai para: Madá (RJ)

No fim da década de 60, o líder chinês Mao Tse-Tung lança uma campanha que mudaria radicalmente a vida do país: a Revolução Cultural que, entre outras medidas drásticas, expurgou das bibliotecas obras consideradas como símbolo da decadência ocidental. Mas, mesmo sob a opressão do Exército Vermelho, uma outra revolução explode na vida de três adolescentes chineses quando, ao abrirem uma velha e empoeirada mala, eles têm as suas vidas invadidas por Balzac, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Dostoievski, Dickens...

Balzac e a Costureirinha Chinesa é uma crônica da vida na China durante a revolução de 68. Um romance sobre a felicidade da descoberta da literatura, a liberdade adquirida através dos livros e a fome insaciável de ler numa época em que as universidades foram fechadas e os jovens intelectuais mandados ao campo para serem 'reeducados por camponeses pobres'. Entre os que tiveram de abandonar as cidades está o narrador de Balzac e a Costureirinha Chinesa e seu melhor amigo, Luo. O destino deles é uma aldeia escondida no topo de uma montanha. A vida não é fácil para a dupla, mas com muita coragem, senso de humor, uma forte imaginação e a companhia da Costureirinha - a menina mais bela da região - o tempo vai passando. Até que descobrem a mala repleta de livros banidos pela Revolução Cultural. As obras, sobretudo Ursule Mirouët, de Balzac, desnudam aos adolescentes uma realidade que nunca haviam imaginado - é por intermédio do mundo novo além das fronteiras chinesas e dos grandes mestres da literatura que o narrador, Luo e a Costureirinha compreendem que suas vidas pertencem a algo muito maior.

A Mulher Desiludida,Simone de Beauvoir
De: Ladyce (RJ)
Está com: Marilda.(GO)
Contadas em forma de diário escrito pelas protagonistas, as três histórias deste volume têm como temas gerais a solidão e o fracasso. As mulheres desta coleção de relatos não conseguem compreender bem o que lhes está acontecendo, um universo que até então lhes parecia seguro começa a desmoronar e, aturdidas, elas perdem até mesmo a noção de sua identidade real.









O Sentido de Um Fim, Julian Barnes
De: Ladyce (RJ)
Vai para: Regina (PE)

A memória é capaz de escrever a história de uma vida, injetar nela certezas e definir os papéis de cada personagem. O narrador deste romance, porém, não é confiável. Aos sessenta e poucos anos, careca e aposentado, Tony Webster recorre as lacunas de suas lembranças ao deparar com o passado. ( Liv. Saraiva)










O Livro Secreto, Grégory Samark
De: Ladyce (RJ)
Lido por: Madá(RJ)
Enviado para: Nilva. (RJ)

Ao fim da vida, Elias Ein decide se mudar para uma cidade isolada na Áustria, em busca de tranquilidade para aproveitar sua aposentadoria. Um tempo depois de se instalar em sua nova casa, ele descobre uma escada escondida que dá acesso a uma vasta biblioteca com obras incríveis. E entre elas, Elias descobre algo maravilhoso: o Grande Livro da Vida, uma obra sagrada em que Deus escreveu sobre o destino de cada ser humano.

As citações extraordinárias do livro secreto possibilitam interferir no curso da história. Fascinado pelo poder da obra, Elias, que testemunhou a ascensão do nazismo ao poder e perdeu familiares durante o Holocausto, decide usá-la para mudar o destino. Ele vai tentar salvar aqueles que ama, mas, sabe que, acima de tudo, é o destino de todo um povo que está em jogo.
Com um segredo em mãos e muitas decisões a tomar, Elias vai viver uma aventura que o levará mais longe do que podia imaginar. Uma história atemporal, cativante e sensível, que mistura elementos fantásticos e fatos históricos, O Livro Secreto fala sobre amizade e coragem, ódio e covardia.
• Originalmente auto publicado, as vendas do livro na Amazon foram tão expressivas que a Flammarion, tradicional editora francesa, adquiriu os direitos de publicação.
• Diretor de vários canais de televisão na França, Grégory Samak iniciou a carreira em 1998 no canal de notícias americano ABC News.



A Mesa da Ralé, Michael Ondaatje
De: Regina Porto​ (RJ)
Enviado  para: Laura (RJ), Cris (MG)

Aos onze anos, Michael não sabe o que o espera quando embarca no navio Oronsay com destino à Inglaterra, onde iria estudar e reencontrar a mãe. Ao lado de dois outros garotos que conhece a bordo, aprende a tirar proveito da dupla invisibilidade de que goza o trio, graças a sua condição de passageiros da classe turística e de crianças sem supervisão de adultos. Infiltram-se sem serem notados na primeira classe, em cabines particulares de outros passageiros; passeiam livremente pelos porões de carga. 

O narrador é o próprio Michael, já adulto e entregue à rememoração de sua saída definitiva do Oriente. Ao longo desse processo, ele tem notícias de sua prima Emily, com quem havia perdido contato desde o desembarque do Oronsay, e com décadas de atraso reúne as peças que faltavam para compreender um evento misterioso ocorrido a bordo. 
Como ele, Emily também ocupou um lugar nas “mesas da ralé”, distantes o quanto possível da mesa do capitão, em que somente passageiros eminentes eram autorizados a se sentar. A localização socialmente desvantajosa, porém, garante que os meninos tenham acesso às informações que podem explicar quem é e o que fez o prisioneiro transportado em segredo pelo navio.
Em um processo que faz lembrar As mil e uma noites, o romance encapsula a atenção do leitor ao desfiar pequenas subtramas nas quais os membros da ralé surgem como peças anônimas de uma tragédia que encerra a viagem.


Nadando de Volta Para Casa, Deborah Levy
De: Ladyce (RJ)
Está com:Regina (PE), Madá.(RJ)

Finalista do Man Booker Prize e eleito livro do ano pelo New York Times Book Review, Nadando de volta para casa, da britânica Deborah Levy, é um romance surpreendente sobre relacionamentos frágeis, segredos de família e o poder do não dito. Com uma trama elíptica e perturbadora, o livro relata o que seria a idílica viagem de um poeta britânico à Riviera Francesa, com amigos e família, até uma jovem aparecer nua, na piscina da casa. Enigmática, Kitty Finch persegue Joe, seu autor favorito, com a intenção de lhe entregar um poema, e toda a narrativa gira em torno do tenso momento em que o escritor expõe sua opinião sobre a obra da jovem, levando a história a um desfecho surpreendente.



Beije-me Onde o Sol Não Me Alcança, Mary Del Priori
De: Ladyce (RJ)
Está com: Marilda (GO), Neide (RJ), Cris(MG)


Um conde russo, a herdeira de um barão do café do Vale do Paraíba e uma execrava.

Unindo as pontas do triângulo, paixões, tragédias, a moral hipócrita de uma época, grandes fortunas, falências, derrocadas... Neste romance que parte de fatos e personagens verídicos, Mary Del Priore cria uma narrativa que prende o leitor desde a primeira página. O olhar da historiadora faz um retrato vivo do tempo e dos acontecimentos que o marcaram, mas é a história de amor de Maurice Haritoff, Nicota
Breves e Regina Angelorum (nomes reais que parecem inventados) que nos arrebata.
Com descrições de uma riqueza impressionante, Mary Del Priore nos faz mergulhar na narrativa, nos carrega para dentro da história. Sentimos os cheiros, ouvimos os
sons, vemos pelas frestas dos casarões um mundo onde convivem dramas, angústias, ambição, sensualidade, opressão feminina e religiosidade. Somos levados, ou nos deixamos levar. Difícil é voltar da viagem quando o livro acaba.


O Rouxinol, Kristin Hanah
De: Ladyce (RJ)
Enviado para: Cris(MG) Laura.(RJ)

Neste épico passado na França da Segunda Guerra, duas irmãs se afastam por discordarem sobre a ameaça de ocupação nazista. Com temperamentos e princípios divergentes, cada uma delas precisa encontrar o próprio caminho e enfrentar questões morais e escolhas de vida ou morte.” – Christina Baker Kline, autora de O trem dos órfãos

França, 1939: No pequeno vilarejo de Carriveau, Vianne Mauriac se despede do marido, que ruma para o fronte. Ela não acredita que os nazistas invadirão o país, mas logo chegam hordas de soldados em marcha, caravanas de caminhões e tanques, aviões que escurecem os céus e despejam bombas sobre inocentes. 
Quando o país é tomado, um oficial das tropas de Hitler requisita a casa de Vianne, e ela e a filha são forçadas a conviver com o inimigo ou perder tudo. De repente, todos os seus movimentos passam a ser vigiados e Vianne é obrigada a fazer escolhas impossíveis, uma após a outra, e colaborar com os invasores para manter sua família viva. 
Isabelle, irmã de Vianne, é uma garota contestadora que leva a vida com o furor e a paixão típicos da juventude. Enquanto milhares de parisienses fogem dos terrores da guerra, ela se apaixona por um guerrilheiro e decide se juntar à Resistência, arriscando a vida para salvar os outros e libertar seu país. 
Seguindo a trajetória dessas duas grandes mulheres e revelando um lado esquecido da História, O Rouxinol é uma narrativa sensível que celebra o espírito humano e a força das mulheres que travaram batalhas diárias longe do fronte. 
Separadas pelas circunstâncias, divergentes em seus ideais e distanciadas por suas experiências, as duas irmãs têm um tortuoso destino em comum: proteger aqueles que amam em meio à devastação da guerra – e talvez pagar um preço inimaginável por seus atos de heroísmo.


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Quarta-feira é dia de: Gato na Chuva, Ernest Hemingway

   
   Só havia dois americanos no hotel. Não sabiam nada das pessoas com as quais esbarravam pelas escadas, no trânsito diário de acesso ao quarto. O quarto ficava no segundo pavimento, virado para o mar. Ele dava também para o jardim público e o monumento de guerra. Havia grandes palmeiras e bancos verdes no tal jardim. Na boa estação aparecia sempre um artista com seu cavalete. Os artistas gostavam do porte das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis faceando o jardim e o mar. O monumento de guerra atraía os italianos, que vinham de longe para admirá-lo. Ele era feito de bronze e cintilava na chuva. Estava chovendo e a água escorria das folhas das palmeiras. Formavam-se poças nas trilhas de cascalho. O mar quebrava em linha a escorrer pela praia, para surgir, de novo, num fio sob a chuva. Não havia mais automóveis na praça, nem em frente ao monumento de guerra. Do lado oposto ao monumento, na entrada do café, um garçom observava a praça vazia.
      A esposa americana olhava pela janela. Do lado direito e abaixo, estava um gato, agachado sob uma mesa verde. O gato tentava se encolher ao máximo, para que a chuva não o atingisse.
       "Vou descer e pegar aquele gatinho", disse a esposa americana.
       "Vou eu", seu marido ofereceu-se, da cama.
       "Não, vou pegá-lo. O pobre gatinho lá fora tenta se manter seco sob a mesa".
       O marido continuou lendo, estendido entre os dois travesseiros, à beira da cama.
        "Não vá se molhar", ele disse.
       A esposa desceu ao térreo e o dono do hotel levantou-se, fazendo um aceno para que ela passasse pelo escritório, que ficava no meio do caminho. A escrivaninha encontrava-se ao fundo. Ele era velho e muito alto.
      "Il piove", disse a esposa. Ela simpatizava com o dono do hotel.
      "Si, si, Signora, brutto tempo. Tempo horrível".
    Ele estava atrás de sua escrivaninha, no cômodo sombrio. A mulher gostava dele.   Admirava o modo extremamente sério com que ele recebia reclamações, o que, para ela, significava uma espécie de dignidade. Chamava-lhe a atenção o modo como ele queria servi-la, como se sentia sendo um dono de hotel. Agradavam-lhe do mesmo jeito sua velha, pesada face e suas mãos largas. Neste estado, abriu a porta e olhou para fora.
    Chovia pesadamente. Um homem, numa capa de borracha, atravessava a praça vazia, para o café. O gato queria escapar para a direita. Talvez pudesse alcançá-lo, caminhando sob o beiral do telhado e com isso não se molhar. Quando ainda estava na entrada do hotel, um guarda-chuva se abriu atrás dela. Era a criada que atendia ao seu quarto.
      "Você não deve se molhar", a criada sorriu, falando em italiano. Certamente, o dono do hotel a mandara.
      Com a criada protegendo-a com o guarda-chuva, ela caminhou pela trilha de cascalho até debaixo de sua janela. A mesa estava ali, lavada de verde brilhante sob a chuva, mas o gato se fora. Ela ficou subitamente desapontada. A criada olhou para ela.
      "Ha perduto qualque cosa, Signora?"
      "Havia um gato", disse a garota americana.
      "Um gato?"
      "Si, il gatto".
      "Um gato?" a criada sorriu. "Um gato na chuva?"
     "Sim", ela respondeu, "sob a mesa". Então, "Oh, eu o queria tanto. Eu queria aquele gatinho".
      Quando ela falou em inglês o rosto da criada se contraiu.
      "Vamos, Signora", ela disse. "Nós devemos entrar de novo. A senhora vai se molhar".
      "Acho que sim", disse a mulher.
     Elas retornaram pela trilha de cascalho e atravessaram a porta. A criada, do lado de fora, fechou o guarda-chuva. Quando a americana cruzou pelo escritório, o padrone fez uma mesura, de sua escrivaninha. Algo parecia muito pequeno e apertado, no interior da mulher. O padrone a fez se sentir muito pequena e ao mesmo tempo, realmente admirável. Teve uma sensação momentânea de ser tomada de uma suprema importância. Chegou ao andar de cima. Abriu a porta do quarto. George estava na cama, lendo.
      "Pegou o gato?" ele perguntou, largando o livro.
      "Ele se foi".
      "Para onde?", ele perguntou, descansando seus olhos da leitura.Ela se sentou na cama.

     "Eu o queria muito", ela disse. Não sei porque o quero tanto. Quero aquele pobre gatinho. Não é nada divertido ser um pobre gatinho, lá fora, na chuva".
      George lia de novo.
      Ela atravessou o quarto, sentou-se em frente ao espelho da penteadeira, olhando-se também com o espelho de mão. Estudou seu perfil, primeiro um lado, depois o outro. Então, observou a nuca e o pescoço.
    "Você não acha uma boa idéia eu deixar meu cabelo crescer?" ela perguntou, olhando-se de novo.
      George viu seu pescoço, o cabelo cortado como o de um garoto.
      "Gosto dele assim".
      "Já estou farta dele", ela disse. "Farta de parecer um garoto".
      George se virou na cama. Não tinha tirado os olhos dela desde que começara a falar.
      "Você está muito bonita assim", ele afirmou.
     Ela pousou o espelho de mão na penteadeira e foi para a janela, olhando para fora. Escurecia.
    "Quero poder pentear meu cabelo para trás, esticado e macio, e fazer um grande coque, de modo que eu possa senti-lo", ela disse. "Quero um gatinho para sentar no meu colo e ronronar quando eu o acariciar".
      "Sim?" perguntou George, da cama.
      "E quero comer à mesa com meus talheres de prata e velas. Quero que seja primavera, escovar meu cabelo em frente ao espelho. Quero um gatinho. Quero roupas novas".
      "Oh, cale-se e pegue algo para ler", George disse. Voltou à leitura.
    Sua esposa olhou pela janela. Estava muito escuro agora, e ainda caía chuva nas palmeiras.
     "De qualquer jeito, quero um gato", ela disse, "Quero um gato. Quero um gato agora. Se não posso ter cabelo comprido e me divertir, quero um gato".
     George não escutava. Lia seu livro. Sua esposa olhava pela janela, no lugar onde as luzes avançavam na praça.
     Alguém bateu na porta.
    "Avanti", George disse. Ergueu os olhos do livro.
    Na entrada estava a criada. Trazia um grande gato feito de tartaruga apertado contra o peito, suspenso até a cintura.
    "Desculpe-me", ela disse, "o padrone me pediu para entregar isso à Signora".


O tradutor, Leonardo Vieira de Almeida, é escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Autor do livro de contos Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, no jornal Panorama e nos sites literários Paralelos e Bestiário.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Segunda-feira poética Vladimir Maiakovski

Conversa Sobre Poesia Com o Fiscal de Rendas

Cidadão fiscal de rendas, desculpe a liberdade!
Obrigado... não se incomode...  estou à vontade!
A matéria que me traz é algo extraordinária:
o lugar do poeta na sociedade proletária..
Ao lado dos donos de terras e senhores industriais
estou eu também citado por débitos fiscais.
Nós somos proletários e motores da pena.
A poesia é como a lavra do rádio
- um ano para cada grama.
Para extrair uma palavra,
milhões de toneladas de palavra-prima.
Porém, que flama de uma tal palavra emana
perto das brasas da palavra-bruta!
Tal palavra põe em luta milhões de corações
por milhares de anos.


Você conhece por certo o fenômeno rima.
Em linguagem de fisco
a rima é uma letra a termo fixo
para desconto ao fim da linha
sem mais prazos.
E sai-se à caça da minúcia de flexão ou sufixo
na caixa escassa das conjugações e casos.
Tenta-se pôr uma palavra nessa linha,
ela não cabe, força-se, e se esfarinha.
Cidadão fiscal de rendas, eu lhe juro,
as palavras custam ao poeta um duro juro.
Para nós, a rima é um barril.
De dinamite. O verso, um estopim.
A linha se incendeia e quando chega ao fim
explode
e a cidade em estrofe voa em mil.


No questionário há um monte de quesitos:
“O Sr. fez viagens?  Sim ou não?
Mas, como, se eu fiz vôos infinitos
em dezenas de pégasos nesses 15 anos ?


Cidadão, condescenda, as passagens são caras!
A poesia - toda ela - é uma viagem ao desconhecido..
A máquina da alma com os anos se trava,


e dizem: - ao arquivo, acabou-se, um de menos!
O tempo em sua corrida minhas têmporas esmaga.
E vem então a mais terrível das amortizações
- a de almas e corações, última paga.


A minha dívida é uivar com o verso,
entre a névoa burguesa, boca brônzea de sirene.
O poeta é o eterno devedor do universo,
e paga em dor porcentagens de pena.
Estou em dívida com os lampiões da Broadway,
com o Exército Vermelho,
com vocês, céus de Bagdádi,
com as cerejeiras do Japão e toda a infinidade
a que não pude dar a sobra de uma ode.


Mas, para que afinal essas molduras?
Para que fazer da rima, mira
e do ritmo, chibata?
A palavra do poeta é a tua ressurreição,
a tua imortalidade, cidadão burocrata  .
Daqui a séculos, do papel mudo toma um verso
e o tempo ressuscita.


Cidadão fiscal de rendas, eu encerro.
Pago 5 rublos e risco todos os zeros.
Tudo o que quero é um palmo de terra ao lado
dos mais pobres camponeses e operários.


Porém, se vocês pensam que se trata apenas
de copiar palavras a esmo,
eis aqui, camaradas, minha pena: 
podem escrever vocês mesmos!




in: Maiakóvski – Poemas . trad. Boris Schnaiderman, Augusto & Haroldo de Campos. São Paulo: Perspectiva.
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