quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nós Três, Paulo Maldonado

     Dirijo de volta, Sílvio emborcado ao meu lado. Passa da meia-noite. Deixamos Pedro no Flamengo e atravessamos Botafogo, em direção à Barra.

    Nossos encontros servem de refresco para as aporrinhações do trabalho, mulher e filhos. São a confirmação de nossa amizade, valor maior que cultuamos nesse tempo de puro egoísmo e solidão. As regras foram se estabelecendo naturalmente: só a pedido falamos de assuntos pessoais e de família; evitamos o mau humor e a depressão e só faltamos em casos graves. Discutimos futebol, política, mulheres, assuntos da semana, contamos piadas, falamos mal de conhecidos, fazemos todas as gozações permitidas pela intimidade. Mas, principalmente, enchemos a cara.

      Pedro, antes de saltar no Flamengo, reclamou muito, contando que está de saco cheio da mulher, fica acordada esperando ele chegar, cheia de ciúmes, diz que somos viados, tem muita chiação, choro e há semanas ele está dormindo na sala.

    Vi esse filme montão de vezes. Filho único, sem filhos, enterrei meus pais, dois casamentos de curta duração e uma porção enorme de namoradas, casos e relações de toda espécie. Agora, estou numa fase péssima para mulheres. Quase um ano sem freqüentar. Puta não conta. Francês me estropiou. Comecei encantado pelo exotismo daquela filhinha de papai. Dança do ventre e o escambau.

De início foi legal, porque sensual. Até que veio conversa de religiosidade. É mole? Logo eu, que não acredito em duende, nem disco voador. Tinha mania de limpeza, a moça. Na cobertura de alto luxo mostrou bibelôs brilhando, sem poeira. Me esfregava com bucha e sais de sândalo e trepávamos numa esteira de Bali, cercados de incandescentes e perigosas velas. O papo de depois era sempre um arraso pra mim. Sofri a humilhação de ouvir que minha maior qualidade é não pingar mijo na tábua da privada. Por essas e outras, estou ficando sozinho.

     Feliz é o Sílvio, roncando aqui no lado do carona. Sim, sem sombra de dúvida, ele casou com a mulher certa. Tatí, maravilha das maravilhas. Raridade generosa, nada cobra. Tudo dá. Mãe de meu afilhado. Tatí apóia todo o tempo, no certo ou no errado, chega junto. Por isso, Sílvio, um liso que nada tinha, conseguiu até sociedade em minha corretora. Repete que bastou fazer a coisa certa: escolheu a mulher que gosta mais dele do que ele mesmo consegue gostar. Só eu sei o quanto tentei que Tatí gostasse um tantinho de nada de mim. Não consegui. De nós dois, ela gostou tudo dele.

     Sempre passo em frente ao condomínio onde moro e vou até Jacarepaguá para deixar Sílvio, que acorda e me arrasta pra saideira. Normalmente aceito, embora não me sinta bem na harmonia impecável daquela casa. O que me atrai é a oportunidade de sentir Tatí, sem o sofrimento do estrago que sua presença me faz. Imaginá-la deitada no quarto, acima de nossas cabeças. Ir ao banheiro e absorver os indeléveis odores dela.

     Porém, a partir de hoje, será diferente: daqui a pouco acordo Sílvio, alego cansaço, fico na Barra, e mando ele para casa dirigindo minha Toyota. Todo bêbado se julga um ás no volante.

Nota: o blog manteve a grafia original.

Sobre o autor:
Paulo Maldonado nasceu em Belo Horizonte, em 1945.Aos nove anos mudou-se com a família para Niterói, onde fez o ginásio, o clássico e a faculdade de Direito. Aos 16 anos já trabalhava em escritório de advocacia, no Rio de Janeiro, onde viveu de 1969 até 1995, quando retornou a Icaraí. Foi líder estudantil nos movimentos de 1968, contra a ditadura militar.É publicitário desde os 18 anos. Sua estreia literária se deu em 1986, com o livro de poemas Vai . Em 1988 publicou O Último Gole e, em 1997, outra coletânea de poemas com o título Vago e Vagas. Agora, em 2008, de volta ao Jardim Botânico, lança 20 Contos Curtos, seleção de contos escritos nos últimos anos.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Deixe Junho Pro São João, Braulio Tavares.

Deixe o batuque do axé
Tracunhém-PE junho 2014 - Imagem de Regina Porto
pro carnaval da Bahia
e a insana pornografia
não troque no arrasta-pé.
Rapariga e cabaré?
Em nenhuma ocasião.
E o forró da ostentação
Reinando o falso interesse?
Não faça um negócio desse,
Deixe junho pro São João.
Pelo menos uma vez
Esqueça Michel Teló
E deixe eu dançar forró
Os trinta dias do mês.
Um disco de Marinês,
O gogó de Assisão
E o nosso Rei do Baião,
Cantando Zé Marcolino,
Só esse mês é junino,
Deixe junho pro São João.
Com seu povo tenha zelo,
Respeite nossa raiz,
Não ouça o cantor que diz
Que o melhor é o desmantelo.
Deixe a escova do cabelo
De Wesley Safadão
Pro Programa do Faustão
Que aqui é outra lisura,
Não mate nossa cultura,
Deixe junho pro São João.
Deixe a tal da muriçoca
Se enganchar no mosqueteiro,
Contrate Alcimar Monteiro 
Que nossa música toca.
Deixe o funk carioca
Tremendo seu paredão
Pra quando uma guarnição
Passar baixando o volume,
Perca esse fútil costume,
Deixe junho pro São João.
Nós precisamos parar
A superficialidade,
Pois cultura de verdade,
Jamais pode se apagar.
É triste se constatar
Essa covarde inversão,
E o povo sem ter noção
Do próprio valor que tem:
Faça a você esse bem:
DEIXE JUNHO PRO SÃO JOÃO!
E VIVA SÃO JOÃO, MEU POVO!

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Chegada, Michael Ondaatje

         
Chegamos sorrateiramente à Inglaterra durante a noite. Depois de tanto tempo no mar, não pudemos assistir à nossa entrada no país. Somente a barcaça do prático, com sua luz azul piscante, nos esperava na entrada do estuário, nos guiando para o Tâmisa ao longo de uma costa desconhecida e às escuras.
    Sentimos um cheiro súbito de terra. Quando o sol por fim iluminou o que havia a nosso redor, parecia que estávamos num local humilde. Não vimos margens verdejantes, cidades famosas nem grandes pontes levadiças capazes de erguer dois arcos a fim de nos abrir passagem. Tudo lembrava os resquícios de uma antiga era industrial - molhes, pântanos de água salgada, entradas de canais dragados. Deixamos para trás navios-tanque e boias de amarração. Procuramos pelas ruínas heráldicas estudadas a milhares de quilômetros dali numa aula de história em Colombo. Vimos uma flecha de torre e depois chegamos a um lugar cheio de nomes: Southend, Chapman Sands, Blyth Sands,Lower hope, Shornmead.
     O navio soltou três apitos breves, houve uma pausa, outro apito e começamos a encostar vagarosamente no cais de Tilbury. O Oronsay , que durante semanas regulara nossa vida, por fim descansou. Mais a montante do rio, mais para o interior daquele canal oriental do Tâmisa, ficavam Greenwich, Richmond e Henley. Mas agora havíamos parado, os motores tinham sido desligados.
     Perdi Cassius e Ramadhin de vista tão logo cheguei ao pé  da rampa de desembarque. Poucos segundos haviam se passado e já estávamos separados, perdidos uns dos outros. Não houve um último olhar nem a tomada de consciência do que acontecera. Depois de cruzar vastos mares, fomos incapazes de nos encontrar naquele terminal de passageiros na margem do Tâmisa. Em vez disso, abríamos caminho nervosamente em meio à multidão, sem saber direito para onde estávamos indo.
     Algumas horas antes, eu havia tirado da mala minhas primeiras calças compridas e calçara as meias que estavam entupindo meus sapatos. Por isso, descia sem jeito junto com os outros passageiros a rampa larga que nos levava ao cais. Tentava ver quem era minha mãe. Já não tinha recordação clara de sua aparência. Possuía uma fotografia, porém estava no fundo da minha pequena mala.
     Só hoje tento imaginar aquela manhã em Tilbury sob a ótica de mamãe, procurando pelo filho que deixara em Colombo quatro ou cinco anos antes, tentando imaginar minhas feições com base num instantâneo recente em preto e branco que lhe tinham enviado para ajudá-la a identificar um menino de onze anos em meio à horda de passageiros que descia do navio. Deve ter sido um momento promissor ou terrível, prenhe de possibilidades. Como ele se comportaria com ela? Um menino cortês mas reservado ou alguém carente de afeição? Suponho que me vejo melhor através dos olhos dela e de suas necessidades enquanto ela examinava a multidão, como eu fazia, em busca de alguma coisa que nenhum dos dois conhecia, como se o outro fosse um número a ser aleatoriamente tirado de dentro de um chapéu, mas que se tornaria um parceiro íntimo por toda a década seguinte, quem sabe pelo resto de nossas vidas.
     " Michael?"
     Ouvi   "Michael" pronunciado por uma voz que temia muito ter se enganado. Voltei-me e não vi ninguém que eu conhecia. Uma mulher pousou a mão em meu ombro e repetiu: "Michael". Passou a mão na minha camisa de algodão e disse: "Você deve estar com frio, Michael". Lembro-me que repetiu meu nome várias vezes. No começo eu só olhava para as suas mãos, seu vestido,mas a reconheci ao ver eu rosto.
     Descansei a mala no chão e a abracei. Era verdade que estaca sentindo frio. Até aquele momento só tinha me preocupado em não ficar perdido para sempre. Porém agora, por causa do que ela havia dito, senti frio. Minhas mãos se entrelaçaram atrás de suas costas largas. Ela se inclinou e me olhou, sorrindo, dando um passo à frente para me apertar ainda mais. Eu podia ver parte do mundo ao lado dela, as pessoas circulando velozes sem prestar muita atenção ao fato de que estava abraçado à minha mãe, tendo ao lado a mala que me fora emprestada e que continha todas as minhas posses.
    Então vi Emily caminhando com seu vestido branco e passadas firmes. Ela parou para me olhar, e foi como se tudo tivesse cessado e voltado atrás por um instante. Lançou-me um sorriso cuidadoso. Depois regressou e pousou suas mãos quentes sobre as minhas, plantadas nas costas de mamãe. Um toque delicado, depois um pouco mais de pressão, como algum tipo de sinal. em seguida se afastou.
     Achei que ela tinha dito alguma coisa.
     " O que foi que Emily falou?" , perguntei à minha mãe.
     "Acho que disse que era hora de ir para a escola."
     Já distante, antes de desaparecer no mundo, Emily fez um aceno de adeus.

A Mesa da Ralé, Michael Ondaatje; tradução Jorio Dauster - 1ª ed. - São Paulo;Cia das Letras 2014.Págs.274-277. 
Imagem do Google


    

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Manhã de Inverno, Machado de Assis

Coroada de névoas, surge a aurora 

Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trêmulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena. 

Machado de Assis, in 'Falenas' 
Imagem: www.mn1.com.br 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Epitáfio, Regina Ruth Rincon Caires


      Domitila sentou-se novamente ao lado do minúsculo túmulo, debruçou o corpo sobre ele, como se o abraçasse. Fechou os olhos e sentiu uma paz que havia muito não sentia. Não tinha mais cansaço, nem dor, não havia mais agonia. Cumprira a missão.

    Tudo começou por ali, nos arredores daquela vila. Ali viveram seus pais, e ali elas nasceram. Tempos difíceis, sem qualquer recurso. Lembrava-se dos olhos tristonhos da mãe ao falar sobre o encanto da filha mais velha. Da vivacidade dos seus oito meses de vida, da alegria, da pele rosada, dos olhos cristalinos, das coxas roliças.

            E, num repente, na extensão de apenas um dia, ela se foi. Começou com um pequeno desarranjo, julgado como reação pelo despontar dos dentes, e no começo da noite agravou-se com uma febre incontrolável. Mesmo com a débil claridade da lamparina, ficava visível nas pequenas bochechas rubras a intensidade da febre. E a prostração do amado corpinho evidenciava a gravidade do quadro. Tudo muito rápido, sem tempo algum para qualquer acudimento. Na verdade, acudimento não existia. Ali, naquele fim de mundo, não havia nada. Ninguém além deles...

            Quanta dor quando perceberam que nada mais poderia ser feito! A vida da filha havia partido. E, ainda com a madrugada escura, com o fosco prateado do início da lua crescente, a mãe e o pai seguiram em direção à vila, carregando nos braços e na alma aquela que seria a maior dor da vida. E tudo foi feito. Nem sabiam como. A papelada foi providenciada, e a filha enterrada. De início, uma pequena carneira de ripas fora erguida, mas depois o pai providenciou uma lápide de tijolos com uma cruz de madeira. Tudo caiado de branco.

            Dois anos depois, nasceu Domitila. Igualmente formosa, mas de saúde delicada. Da mesma maneira, amada. Por ali viveram mais uns poucos anos e, esperançosos, partiram para terras mineiras, dadas como promissoras para os roceiros. Passaram por duas fazendas de café, e na última ficaram até a morte do pai.

            Domitila e a mãe mudaram-se para Lavras, cidade mais próxima da fazenda onde viviam. Alugaram três cômodos. Sobreviviam com a pensão que a mãe recebia pela morte do pai, e mais uns caraminguás que conseguiam defender com o trabalho de lavar e passar roupas. A mãe já estava fisicamente debilitada. Idosa e judiada pela vida, pouco ajudava. Mas, para Domitila, era uma companhia prazerosa. Sempre se deram bem. Ambas possuíam almas nobres, eram mansas na lida com a vida. A rudeza e as tristezas não as endureceram... Faziam ótima companhia uma à outra. Conversavam demoradamente sobre todos os acontecimentos, sobre todas as saudades. Não havia nenhum planejamento futuro. Apenas a esperança de um dia voltar à vila onde Virgínia estava sepultada. Por opção, Domitila nunca se casou. De saúde frágil durante toda a vida, padecia constantemente com agudas crises de asma.

            E assim os anos corriam mansos, simples. O passeio semanal de mãe e filha era a missa domingueira na capelinha próxima da casa em que viviam. Até que um dia, a mãe se cansou. Não queria mais comer, não queria mais tomar banho, não queria mais ir à igreja. Prostrada, definhada, não conseguia mais sair da cama. E Domitila cuidava dela como se cuidasse de uma criança. Com paciência, com dedicação, com todo o amor do mundo. Mas os seus cuidados perderam a batalha para outra força. A morte levou a mãe.

            Sentiu a mais dura solidão. Nunca pensara em ficar só. Não sabia como administrar a vida assim, sem ouvir uma única voz na casa. Entristecida, idosa, sem recursos para sobreviver, com a alimentação minguada e a falta de cuidados, as crises de asma intensificaram-se a ponto de os vizinhos procurarem a assistência social. E Domitila conseguiu, além de uma pensão vitalícia, tratamento médico dispensado pela equipe do posto de saúde.

            Recuperou-se. Passou a fazer uso diário de muitos medicamentos que minimizavam os vários problemas de saúde desconhecidos até então. Passava os dias sem maiores preocupações, apenas atenta aos horários e doses dos seus medicamentos. O único propósito, no qual pensava e repensava ao longo do dia e durante as noites insones, era a viagem de volta à vila onde nascera, a visita ao túmulo da irmã. Era um desejo, uma missão. Prometera à mãe que não morreria sem lá voltar. E essa era a vontade mais velada.

            Mesmo com todos os cuidados, a saúde de Domitila ficava mais comprometida a cada dia. E chegou um momento em que precisou deixar a casa que alugava. Foi levada para um asilo. Lugar aconchegante, apinhado de velhinhos amigos, cheio de cuidadores, de comida cheirosa, de cama limpa, de banhos refrescantes. Estava feliz. O jardim era lindo, com todas as flores da infância. Muitas dálias, cravos, rosas, flores de capitão...

            Domitila não lembrava mais de qualquer tristeza. Preenchia os seus dias com as atividades de pintura, de bordados, crochê, de jardinagem. E conversava muito. Tantos amigos, tantas histórias. Umas alegres, outras tristes... E nessas conversas soube que as pessoas idosas poderiam viajar de ônibus sem pagar. Não sabia! Isso lhe abriu caminhos... A parca pensão vitalícia não chegava a suas mãos. Quase a totalidade ficava com a administração do asilo, o que era muito justo, assim ela pensava. A ela eram repassados uns trocados a cada mês, mas não tinha nem como gastar! Tinha tudo, tinha mais do que precisava...

            O inverno chegou de forma inclemente. Frio que doía nos ossos, e que trouxe gripe a quase todos os idosos do asilo. Domitila ficou mal. Noites e noites de febre causticante, de tosses agudas, de falta de ar. E sempre, amorosamente cuidada. Pedia silenciosamente por saúde, pedia para que fosse dada a ela a possibilidade de viajar até a terra em que havia nascido. Era o seu mais intrínseco e único desejo. Nada mais queria da vida. Só isso...

            Alavancada pela missão a cumprir, recuperava-se, ainda que lentamente. A febre cedera. Apenas a tosse a incomodava. Dava-lhe uma canseira danada no peito, uma inapetência, e atrapalhava o sono. Com a diminuição dos remédios, passava mais horas acordada, e tinha mais tempo para maquinar a sua viagem. Sabia que se falasse sobre isso com alguém seria desencorajada, e se a administração porventura ficasse sabendo, ela seria impedida de ir de qualquer maneira. Por isso tramava tudo silenciosamente. Dentro da cabeça, tinha toda a trajetória a percorrer. Em detalhes... Sairia do asilo à noitinha, no horário em que todos se recolhem. A sua companheira de quarto era dorminhoca. Bastava entrar nas cobertas e já estava ressonando. Iria bem agasalhada, levaria os remédios na bolsa, juntamente com a carteira de documentos e o pouco dinheiro que guardara por todo tempo. O nome da cidade ela sabia, e usaria do direito das passagens de idosos.

            Tudo arquitetado, cuidadosamente planejado. Domitila ainda se sentia fraca, mas temia adoecer novamente e não ter a oportunidade de realizar o desejo arraigado na alma e cumprir a missão que combinara com a mãe. Não poderia fraquejar agora, talvez seria essa a última, a única chance.

            No dia escolhido, uma segunda-feira, reorganizou a bolsa, conferiu tudo, separou uma troca de roupa e a acondicionou numa pequena sacola plástica. Colocou tudo sobre os cobertores, no seu guarda-roupa.

            Naquele dia saboreou o café da manhã como nunca, passou os olhos em cada um dos amigos, conversou com muitos. Almoçou e jantou com eles, numa alegria imensa. Já estava com saudades antes mesmo de partir. E não pretendia demorar nessa viagem... Logo estaria de volta, e sabia que levaria uma bronca danada! Passeou pelo jardim olhando detalhadamente cada flor, que agora eram poucas. Ali o frio também havia castigado.

            Depois do jantar, voltou ao quarto. Pegou uma folha de papel, uma caneta, e começou a desenhar umas letras. Mal sabia escrever, estudara muito pouco. Como ela mesma dizia, não escrevia, apenas desenhava algumas letras. Acabou de escrever e guardou a folha na bolsa. Não era um bilhete para a amiga de quarto. Cumpriria religiosamente o que havia esboçado em sua mente. Não diria nada a ninguém.

            Ficou sentada na cama, esperando a chegada da parceira. Quando ela entrou foi direto ao banheiro. Voltou já de camisola, pronta para entrar nas cobertas. E assim fez. Domitila fez a oração da noite com ela, e em seguida entrou no banheiro. Tomou um banho demorado, estava imensamente feliz. Quando saiu, a companheira já ressonava. Deixou a porta do banheiro entreaberta para clarear um pouco o quarto. Pegou a melhor roupa, vestiu-se calmamente. Agasalhou-se bem, colocando até uma touca preta de lã. Escolheu um cachecol bem longo, deu duas voltas no pescoço. Calçou as grossas luvas, meias de lã, e confortáveis sapatos. Pronto. Estava preparada para partir. Aguardava apenas as luzes serem apagadas e o silêncio envolver tudo.

            Para esperar, sentou-se novamente na cama. Com a pouca claridade que passava pela fresta da porta do banheiro, olhou cada detalhe do quarto. Quatro paredes que acolheram o seu sono nos últimos oito anos. Tempo bom... Olhava a amiga que dormia santamente. Companheira de tantas orações, de tantas prosas, de tantas risadas, de tantos dias bem vividos.

            Finalmente tudo quieto. Tudo apagado. Domitila pega a bolsa, o saco plástico, olha para a amiga e dá um sorriso. Apaga a luz do banheiro, abre a porta do quarto devagarinho, sai, e com o mesmo cuidado a fecha. Segue passo a passo, com muito cuidado, como se pisasse em plumas. Não pode fazer qualquer barulho. Atravessa o pátio, e sai pelo portão dos fundos. O único que é fechado com trava somente por dentro. Imprudente, irresponsavelmente vai deixar o portão destrancado, mas não há outro jeito.

            Quando se vê na rua, tem vontade de rir. Está fazendo a maior peripécia de toda a sua vida! A maior, não! A única! Olha a rua vazia, escura, um vento frio, cortante. Ajeita os óculos, ergue a dobra do cachecol até cobrir a boca e segue em frente. A rodoviária não fica longe. Basta andar por mais alguns quarteirões, e a primeira etapa estará vencida.

            Chegando à rodoviária, pede informações e dirige-se ao balcão da empresa de transporte que faz a rota. Pede para comprar a passagem de idoso. É avisada de que o ônibus parte às 23h, que irá até São José do Rio Preto, e que lá terá que pegar outro ônibus para chegar ao destino. Terá de esperar pouco mais de uma hora, mas está feliz. Muito feliz. Sente um frio intenso. Acomoda-se em uma poltrona bem recuada, fora da corrente de ar. Ali, quietinha, silenciosamente põe-se a rezar. Sente a presença da mãe. Sabe que ela está ali, a lhe guiar. E sente-se ainda mais feliz.

            No horário marcado, o ônibus parte. Que sensação prazerosa! Domitila nem tem conta de quantos anos faz desde a última viagem em um ônibus de carreira. Ainda era menina, isso mesmo! As luzes do ônibus se apagam, a poltrona ao lado está vazia. Nenhum idoso solicitou a outra passagem. Tem espaço para colocar a bolsa e a sacola plástica. Sente muito frio, pensa que deveria ter trazido a manta. Tinha pensado nisso, mas não queria fazer volume na bagagem. Tenta pensar em outra coisa, esquecer o frio. Em vão... Em poucas horas está tremelicando, e o ar frio do ônibus piora tudo. Percebe que está com febre. Tem sede, muita sede.

            Quando o ônibus faz a primeira parada, já é madrugada, Domitila pede ao motorista que lhe compre uma garrafinha com água. Além da sede insana, quer tomar um remédio para baixar a febre. Sente muito frio, e muito desconforto. E para piorar o gentil motorista traz água gelada. Coitado, foi tão solícito!

            Toma o remédio, bebe toda a água. Não consegue dormir. Não sabe se pela ansiedade ou se pelo mal-estar, mas não prega os olhos. Na segunda parada, desce cuidadosamente do ônibus, vai ao banheiro, compra outra água, agora sem gelo, e volta ao ônibus. O dia amanhece e encontra-a exausta. Sente-se cansada e doente. A tosse começa a incomodar. Está gelada. Os pés, quase insensíveis.

            Quando o ônibus chegou a São José do Rio Preto, Domitila perguntou ao motorista como deveria proceder para comprar a outra passagem. Orientada, conseguiu a passagem e precisava esperar pelo embarque para o seu destino. Depois de um tempo, acomodada no assento reservado, e com o ônibus a caminho da vila da sua infância, Domitila começou a pensar nos amigos do asilo. A essa altura eles deveriam estar alvoroçados com a sua falta, as freiras deveriam estar preocupadíssimas com o seu sumiço. Na volta ela explicaria, e a bronca seria retumbante. Dá um sorriso. Sente saudades.

            A missão está quase finalizada. Falta muito pouco. Sente um mal-estar tremendo, muito desconforto, uma fraqueza sem limite. Percebe que a febre voltou, a tosse está se intensificando, dói-lhe o peito. Deus! Esse ônibus precisa chegar logo ao destino. Talvez quando descer, tomar um café com leite e comer um pão, tudo ficará bem. Quer chegar, isso é o que deseja. Nada mais.

            Quando o ônibus chega à rodoviária da vila, Domitila começa a chorar. Não sabe definir se chora de alegria ou de dor. Sente-se feliz, mas fragilizada. Tem medo das forças a abandonarem. Já no saguão, vai ao bar, toma um café reforçado e engole os remédios do dia. Vai ao banheiro. Antes de sair, lava o rosto e passa uma escova nos cabelos. Segue a orientação do rapaz que a leva ao táxi. Passando pelas ruas, tudo lhe é totalmente desconhecido, nada familiar. Não tem lembrança de nada, era muito pequena quando partiu.Uma vila que agora é uma cidade, e cheia de ladeiras. O táxi sobe e desce, vira aqui e vira ali, e em poucos minutos para diante do cemitério.

            Uma entrada acanhada. Domitila passa pelo portão de ferro, olha adiante e vê uma imensidão de área. Não há ninguém no atendimento. O cemitério é enorme. Tudo muito diferente do que a mãe lhe descrevia. Os túmulos eram gigantescos, modernos, suntuosos. Não havia nada da singeleza descrita pela mãe. Vai caminhando em zigue-zague, procurando com os olhos alguma evidência, algo similar a todas as narrativas da mãe. A tosse impiedosa não a abandonava. Tinha calafrios sucessivos. Andou muito, viu muitos túmulos de crianças, e procurava avidamente por uma lápide pequena, rústica, com uma cruz de madeira. Muito cansada, sentou-se em um banco que ficava sob uma árvore, pediu a Deus que a orientasse, que abreviasse a sua busca. Estava mal, sabia que iria precisar de cuidados médicos, mas não agora.

            Voltou à portaria, havia um homem lá. Logo ele se apresentou como coveiro e responsável pelo cemitério. Domitila contou a ele toda a sua história, e o que buscava. Estendeu a ele o seu documento e disse que o nome da irmã era Virgínia, e que o sobrenome era o mesmo dela. O homem nem pegou o documento. Declarou a ela que trabalhava ali havia mais de 40 anos, que não existia qualquer registro anterior a 1950. Então Domitila disse a ele que talvez o túmulo da irmã nem existisse mais. Mas ele garantiu a ela que todos os corpos sepultados até 1950 possuíam sepulturas perpétuas, definitivas. Todos continuavam no mesmo lugar. Explicou que os túmulos mais antigos ocupavam a área no entorno da capela. E como o cemitério fora ampliado posteriormente, os sepultamentos, quanto mais recentes, mais distanciados da capela ficaram.

            Percebendo que Domitila não estava muito bem, o homem ofereceu a ela uma água e um café. Ela aceitou, agradeceu e recomeçou a sua busca. Parou junto à calçada da capela e procurava buscar na memória a direção que a sua mãe havia descrito. Seguiu em linha reta, depois retornou ao mesmo lugar. Refez a caminhada na diagonal. Muitas crianças sepultadas, muitas fotos, o que simplificava a busca. O túmulo da sua irmã não tinha foto. Buscava um túmulo simples, com uma cruz de madeira. E não conseguia encontrar. Sentia tanto frio, tossia incessantemente, tinha vontade de deitar, mas estava ali, pronta a realizar o seu desejo. Não recuaria, nunca...

            A tarde ia caminhando sem pena. E ela não encontrava o túmulo da irmã. Prostrada, chorando baixinho, sentindo a febre cada vez mais elevada, com a tosse a castigar-lhe o peito, retornou novamente ao ponto de partida: a velha e minúscula capela. E desta vez seguiu sem rumo, novamente ziguezagueando entre os túmulos. Tropeçava aqui, pisava em falso ali, já não sentia os pés. O sol estava a descer, e ela continuava a busca. O encarregado do cemitério Tinha terminado o expediente. Pensou que Domitila tivesse desistido, e se foi. Além dela, não havia mais ninguém por ali.

            Não tendo mais forças para continuar, Domitila senta-se na estreita calçada de um túmulo. Começa a chorar copiosamente. Sente-se doente, incapaz de seguir a caminhada, e extremamente desolada. Não encontrou o túmulo da irmã. Olha o céu, o sol quase sumiu por completo. Pensa na mãe. Olha em frente, e depois volta os olhos para o lado. Olha a lápide margeada pela calçada onde está sentada. Com muito esforço, coloca-se de pé. É um túmulo pequeno, antigo, tem uma pequena elevação na cabeceira com um buraco no centro. Percebe que aquele buraco não fora feito em vão. Sim, ali havia a cruz de madeira. Certamente se desfez com o tempo. Sente que finalmente encontrou o túmulo da irmã. E chora, chora como nunca havia chorado na vida. Chora gritado. Nem sabe por quantos minutos... Estava exaurida.

            Domitila sentou-se novamente ao lado do minúsculo túmulo, debruçou o corpo sobre ele, como se o abraçasse. Fechou os olhos e sentiu uma paz que havia muito não sentia. Não tinha mais cansaço, nem dor, não havia mais agonia. Cumprira a missão.

            Com a cabeça recostada na fria lápide, e com o rosto em brasa, Domitila tinha no pensamento a figura da mãe, dos amigos do asilo, do pai. De repente o frio cessara, não havia desconforto, nem tosse, nem dor no peito. Tudo ficara muito leve, flutuava...

            Na manhã, Domitila foi encontrada.

         Sem saber o que fazer, e lembrando toda a história contada por ela, o coveiro conferiu a bolsa, procurou pelos documentos e viu uma folha de papel dobrada, toda amassada. Abriu rapidamente o papel e nele viu desenhado: QUERO FICAR AQUI. ESTE É O MEU LUGAR.

            E assim foi feito.

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