segunda-feira, 30 de maio de 2016

Segunda-feira poética: Mia Couto

Lições


Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

- Mia Couto, em "Idades cidades divindades". Lisboa: Editorial Caminho, 2007.
Imagem: Regina Porto


sábado, 28 de maio de 2016

O Que Estou Lendo?


A Mesa da Ralé  Michel Ondaatje

Aos onze anos, Michael não sabe o que o espera quando embarca no navio Oronsay com destino à Inglaterra, onde iria estudar e reencontrar a mãe. Ao lado de dois outros garotos que conhece a bordo, aprende a tirar proveito da dupla invisibilidade de que goza o trio, graças a sua condição de passageiros da classe turística e de crianças sem supervisão de adultos. Infiltram-se sem serem notados na primeira classe, em cabines particulares de outros passageiros; passeiam livremente pelos porões de carga. 

O narrador é o próprio Michael, já adulto e entregue à rememoração de sua saída definitiva do Oriente. Ao longo desse processo, ele tem notícias de sua prima Emily, com quem havia perdido contato desde o desembarque do Oronsay, e com décadas de atraso reúne as peças que faltavam para compreender um evento misterioso ocorrido a bordo. 
Como ele, Emily também ocupou um lugar nas “mesas da ralé”, distantes o quanto possível da mesa do capitão, em que somente passageiros eminentes eram autorizados a se sentar. A localização socialmente desvantajosa, porém, garante que os meninos tenham acesso às informações que podem explicar quem é e o que fez o prisioneiro transportado em segredo pelo navio.
Em um processo que faz lembrar As mil e uma noites, o romance encapsula a atenção do leitor ao desfiar pequenas subtramas nas quais os membros da ralé surgem como peças anônimas de uma tragédia que encerra a viagem. (Sinopse da editora)


 Philip Michael Ondaatje (nascido no Sri Lanka, naturalizado canadense) é autor de A Mesa da RaléO Paciente Inglês, livro que deu origem ao filme do mesmo nome e Bandeiras Pálidas, dentre outros títulos que não foram publicados no Brasil.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Aprendizagem, Flávio Carneiro

- Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer? 
- Hã? 
- Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo? 
- Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha. 
A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas. 
- Todo dia, mãe? 
- É, só que a gente não repara. 
- Por quê? 
- Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha? 
A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder. 
- Você é muito ocupada, não é, mãe? 
- Hã? 
- Nada, não. 
A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário. 
Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto. 
"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana! 
Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis. 
- Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer? 
- Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura? 
Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder. 
A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda. 
- Mãe! 
- O que foi? 
- É que eu estava aqui pensando. 
- Pensando o quê? 
Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas. 
- Vai, fala logo. 
- Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu? 
- Não, não entendi. 
Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar: 
- Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo? 
- Ai, meu Deus! 
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca. 
Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela: 
- Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu? 
E com um carinho: 
- Foi minha mãe que me ensinou.

Flávio Carneiro, autor deste conto, é roteirista, ensaísta e professor de Literatura. Tem 11 livros publicados, dentre eles, A Distância das Coisas (Editora SM), vencedor do III Prêmio Barco a Vapor.

Fonte:http://revistaescola.abril.com.br/
Imagem: www.macieltelma.wordpress.com

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Riscos Para Um Cartão de Rendeira, Joaquim Cardozo

Os bilros cantam, tecendo
Tecendo de renda branca,
Com meandros e meneios
De folha de mamoeiro;
Rastejos na areia solta,
Volteios de espuma branca.

Os bilros danam, tendo
Requebros de saia branca;
Pêndulos de sombra fina
Nas palmas de um dendezeiro:
Para o lá e para o aqui
Que leva e traz vela branca.

Os bilros cruzam, tecendo
Um voo de garça branca...
Tão leve! Um sonho? deixado
Na fronha de um travesseiro;
Um sonho. Linhas de sonho
Fiadas de uma nuvem branca.

Os bilros contam, tecendo,
Segredos de moça branca
Que em sal se chorou no mar
De tanto amar marinheiro;
Tanto sal, tanto chorou
Que se fez salina branca.

Os bilros param. Tecendo

Durezas de pedra branca. 
Gravando em letras vazadas
O mesmo adeus derradeiro;
- Vazio amanhã: sem dia
- Futuro: saudade branca.

Imagem do google


domingo, 22 de maio de 2016

20 Melhores Livros Infantis e Juvenis de 2016


Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil divulgou os vencedores do Prêmio FNLIJ 2016

Inês -
 Roger Melo e Mariana Massarani( 5-8 anos)


Lá e Aqui, Carolina  Moreyra e Odilon Moraes 
Iluninuras, Rosana Rios (juvenil)
Haicais Visuais
Nelson Cruz (a partir de 9 anos)

Jornada, Aaron Becker (infantil)

Malala, a menina que queria ir para a escola, 
 Adriana Carranca (infantil)

Era Uma Vez..., 
Benjamin Lacombe

O Bobo do Rei,
Angelo Brandini
Histórias Russas, Ana Maria Machado

A Vida No Céu
José Eduardo Agualusa (juvenil)

Meia Hora Para Mudar Minha Vida
Alice Vieira (juvenil)

Contos da Mamãe Gansa, 
Charles Perrault

Um Raio de Luz, a história de Albert Einstein,
 Jennifer Berne e Vladimir Radunsky 

Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti


Timothée de Fombelle


Fontes:
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil
www.livrariasaraiva.com.br
www.editorapositivo.com.br
www.travessa.com.br

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Vamos Pensar?

Albert Einstein falou e Carlos Ruas desenhou.  Vamos pensar?

Tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso o universo de cada um se resume ao tamanho do seu saber. Albert Einstein.

Fonte: www.umsabadoqualquer.com
Charge: Carlos Ruas.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Convite Aos Poetas da Vida, da Natureza, da Beleza...

Fotógrafos, Pintores e Artistas Plásticos, esse convite é pra vocês:


Estamos abrindo nosso quintal para artistas.
Neste sábado, 21, vamos receber criativos de diferentes áreas (pintura, ilustração, fotografia...) para conversamos sobre natureza, arte e água.
Queremos disponibilizar nosso espaço para alimentar a criatividade do artista e criar uma oportunidade para um diálogo com a natureza.
Nosso quintal é uma pequena reserva de Mata Atlântica. Essa lindeza aí abaixo.
Quer participar do encontro? Fala com a gente!
Sabe de alguém que gostaria de participar? Compartilhe a mensagem.
Mais detalhes: suzanavalenca@gmail.com

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Primeiro Beijo, Clarice Lispector

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme. 

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples: 

- Sim, já beijei antes uma mulher. 

- Quem era ela? - perguntou com dor. 

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer. 

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros. 

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca. 

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo. 

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava. 

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto sua sede era de anos. 

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando. 

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos. 

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. 

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. 

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. 

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua. 

Ele a havia beijado. 

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. 

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil. 

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele... 

Ele se tornara homem.


Fonte:http://revistaescola.abril.com.br
Imagem: www.fotosefatos.com

terça-feira, 17 de maio de 2016

Segunda-feira poética: Zelos,José de Alencar


Tenho ciúme
Ciume,Edvard Munch 
Do ar que gira
E que respira
O teu perfume.
Tenho ciúme
Da luz que bebe
Nos olhos d'Hebe
O brando lume.
Tenho ciúme
Desse retiro
Que ouve o suspiro
Do teu queixume.
Tenho ciúme
Da flor, senhora,
Que em ti adora
Celeste nume.
Tenho ciúme
De quanto existe
Que me fez triste
E me consome.



Cidade do Rio, 25 de fevereiro de 1889.
Fonte: www.antoniomiranda.com.br
Imagem: Ciume -1934/35 Óleo sobre tela 78x117cm, Munch musset, Oslo 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Segunda-feira Poética: Charles Baudelaire

Embriague-se! 

Tradução de Jorge Pontual

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser”.




Fonte:www.notaterapia.com.br

domingo, 8 de maio de 2016

Dia Das Mães 2016

Vixe, 
O cabra pode escolher muita coisa nessa vida...
Ser artilheiro ou goleiro,
pedalar ou correr,
Inté o sabor das coisas a gente pode escolher!
Mas a coisa mais joiada, mais preciosa,
mais arretada da vida da gente,
Simplesmente não se escolhe...
A MÃE!
Ela que é um pedacim de Deus no mêi do mundo,
Um tantim assim de bravura,
e um tantão assim de ternura.
Mãe é doce feito mel de rapadura,
macia feito algodão,
cheirosa feito milho na fogueira
numa noite de São João.
Mãe é pura perfeição,
não tem pra que escolher.
E mesmo assim,
se eu tivesse a graça desse poder,
de todas as mães do mundo,
teria escolhido você!



quarta-feira, 4 de maio de 2016

Bruxas Não Existem, Moacyr Scliar

Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de "bruxa". 

Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão. 

Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando "bruxa, bruxa!". 

Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela da frente. Sob comando do João Pedro, que era o nosso líder, levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante, e com muito esforço nós o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres ficaram presos na cortina. 

- Vamos logo - gritava o João Pedro -, antes que a bruxa apareça. E ela apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último. 

E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher sem dúvida descarregaria em mim sua fúria. 

Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente. 

- Está quebrada - disse por fim. - Mas podemos dar um jeito. Não se preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. Confie em mim. 

Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e com eles, e com seu cinto de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, amparado nela, fui até minha casa. "Chame uma ambulância", disse a mulher à minha mãe. Sorriu. 

Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio.

Fonte: Revista Nova Escola


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Segunda-feira poética: Carlos Pena Filho














A Solidão e o Seu Desgaste

Frequentador da solidão, às vezes
Jogava ao ar um desespero ou outro,
Mas guardava os menores objetos
Onde a vida morava e o amor nascia.

Era uma carga enorme e sem sentido,
Um silêncio magoado e impermeável...
A solidão povoada de instrumentos,
Roubando espaço à andeja liberdade.

Mas, hoje, é outro que nem lembra aquele
Passeia pelos campos e os despreza
E porque sabe com certeza clara,
O princípio e o fim da coisa amada,
Guarda pouco da vida e o que retém
É só pelo impossível de eximir-se.