quinta-feira, 28 de abril de 2016

Uma Vela Para Dario,Dalton Trevisan


Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.


Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guardachuva na parede. Ma não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. 

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las. 


Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. 

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade. 

Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes. 

O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão. 

A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto. 

Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. 

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. 

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Segunda-feira poética, Paulo Leminski


Adminimistério
Imagem:Regina Porto
Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
em haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Crônicas da MPB: Bolero de Isabel, Jessier Quirino

Bolero de Isabel,
Clique aqui para ouvir a música
Interpretação: Xangai

É um nó dado por São Pedro
Desarrochado por São Cosme e Damião
É u'a paixão, é a sensação de um repente
Igual ao quente do miolo do vulcão

Quer ver o bom, é o aguado quando leva açúcar
É ter a cuca açucarada num beijo roubado
É o pecado confessado ao Mestre Sereno
Levar sereno num terreiro bem enluarado
É o pinicado do chuvisco no chão pinicando
Ficar bestando c'um inverno bem arrelampado
É o recado da cabocla um beijo mandando
Tá namorando a cabocla do recado.

Quer ver desejo, é o desejo tando desejando
E a lua olhando este amor na brecha do telhado
É o rodeado do peru peruando a perua
É a canarinha galeguinha cantando o canário
Zé do Rosário bolerando com Dona Isabel
Dona Isabel bolerando com Zé do Rosário
Imaginário de paixão voraz e proibida
Escapulida, proibida pro imaginário


Quer ver cenário é o vermelho da auroridade
É a claridade amarelada do amanhecer
É ver correr o aguaceiro pelo rio abaixo
É ver o cacho de banana amadurecer
Anoitecer vendo o gelo do branco da lua
E a pele nua com a lua a resplandecer
É ver nascer o desejo com a invernia
E a harmonia que o inverno fez nascer


Imagem: www.vilmapivafotos.blogspot.com.br

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Manoel de Barros.

Eu estava encostado na manhã como se um pássaro 
à toa estivesse encostado na manhã. Me veio uma
aparição: Vi a tarde correndo atrás de um 
cachorro.  Eu teria 14 anos.Essa aparição deve
ter vindo de minhas origens. Porque nem me
lembro de ter visto nenhum cachorro a correr de
uma tarde. Mas tomei nota desse delírio. Esses
delírios irracionais da imaginação fazem mais
bela a nossa linguagem. Tomei nota desse delírio
em meu caderno de frases. Àquele tempo eu já guardava
delírios. Tive outra visão naquele mês. Mas preciso
antes contar as circunstâncias. Eu exercia um
pedaço da minha infância encostado à parede da
cozinha no quintal de casa. Lá eu brincava de
cangar sapos. Havia muitos sapos atrás da cozinha.
A gente bem se entendia. Eu reparava que os sapos
têm o couro das costas bem parecido com o chão.
Além de que eram do chão e encardidos. Um
dia falei pra mãe: sapo é um pedaço de chão 
que pula. A  mãe disse que eu estava meio variado.
Que sapo não é um pedaço de chão. Só de fosse no
meu delírio. Isso até eu sabia, mas me representava
que sapo é um pedaço de chão que pula. Hoje estou
maiorzinho e penso no Profeta Jeremias. Ele tanto
lamentava de ver  a sua Sião destruída e arrasada
pelo fogo que em casa lhe veio esta visão: Até
as pedras da rua choravam. Ao escrever a um amigo,
mais tarde, na paz de sua casa, se lembrou do
delírio: até as pedras da rua choravam. Era tão
bela a frase porque irracional. Ele disse.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Troika, Ruth Manus

A gente sempre pode procurar desculpas.
Para não ir, não fazer, não encarar.
Sempre haverá uma desculpa.
Para não sentir, não escrever, não se dar
A gente pode viver de desculpas.
E nunca cair, nunca doer, nunca chorar.
E de desculpa em desculpa.
Nunca sair, nunca correr, nunca embarcar.
E de desculpa em desculpa.
Sempre impedir, sempre morrer, sempre parar.
Mas a vida desculpa.
E te deixa seguir, reverter, resgatar.
Então agora, sem desculpas.
Se abrir, se atrever, se jogar.
Sem desculpas, sem medo, sem culpa.
Invadir, pertencer, avançar.


Imagem: www.mensagemcomamor.com.br

Troika ou troica: palavra russa que designa um comitê de três membros. A origem do termo vem da "troika" que em russo significa um carro conduzido por três cavalos alinhados lado a lado, ou mais frequentemente, um trenó puxado por cavalos. Em política, a palavra troika designa uma aliança de três personagens do mesmo nível e poder que se reúnem em um esforço único para a gestão de uma entidade ou para completar uma missão, como o triunvirato histórico de Roma (Fonte: wikipedia)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Visitando a Estante da Casa 2


Ainda visitando a estante...

Livro bem velhinho eu tenho sim, mas está mais adiante.

 Tem livro manchado e com traços de quem ficou por anos abandonado?  Ah, tem sim.


Tem livro que me fez voltar aos anos 70, estudante de biologia?  Claro.




Elenco de Cronistas Modernos, comprado em 1975 para as aulas de Português 1 e 2 da Unicap. 

Doei pensando que as crônicas leves e bem escritas fariam uma bela adolescente se interessar por leitura.  Não funcionou.  

Voltou para mim  décadas depois e vai ser doado brevemente.

Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Raquel de Queiroz e Rubem Braga são o elenco.






 

Biologia, Ciência Única. Ernest Mayer.
Minha filha que me deu esse livro.  Não terminei o curso, mas ainda hoje nutro paixão por Biologia.


"O biólogo Ernest Mayer nos oferece, aos cem anos, suas reflexões sobre as mais interessantes e importantes questões da vida: por que os seres vivos não podem ser entendidos apenas como máquinas muito complexas, como os humanos evoluíram, por que ainda não nos comunicamos com extraterrestres, e outras." Jared Diamond, Universidade da Califórnia L.A

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Banho de Açude, Regina Ruth Rincon Caires



      
      O aviso fora dado pela enésima vez...
      Mas, vivendo a plenitude da meninice, como resistir a um banho de açude naquele calor infernal?!
      Nos arredores da vila, nas áreas de vários sítios e fazendas, os açudes multiplicavam-se ano a ano. Escavados, brotados das minas; enfim, eles espocavam convidativos, tentadores.
      E assim, para o desespero e a preocupação dos pais, não havia tarde que não terminasse com os meninos varando cercas de arame farpado, cruzando plantações, pastagens, e mergulhando nas águas nem sempre limpas daqueles imensos açudes.
      E, apesar dos inúmeros avisos, Mário estava sempre entre eles. Cansava de prometer a si mesmo que não mais desobedeceria às ordens do pai, que não quebraria o acordo firmado com ele, mas era uma tentação quando os ponteiros do relógio da igreja matriz iam marcando três horas da tarde...
      Os meninos, sorrateiros, iam-se esgueirando das casas, da praça, e seguindo em direção de algum açude. E aí o coração não resistia! Mário, num átimo, jogava às favas as promessas, e só se acalmava quando sentia o frescor das águas do açude no seu corpo...
      E todos faziam tudo do mesmo jeito. Quando estavam bem próximos do açude, principiavam a correr enquanto desatinados se despiam. Na largueza da inocência, na sofreguidão da liberdade. Calção e camisa eram tirados do corpo e displicentemente enrolados. Cuecas e sapatos não havia. Naqueles tempos, meninos não usavam cuecas, e calçado nos pés era só para a escola, igreja ou passeio.
      Cada um escolhia um lugarzinho para deixar a sua acanhada trouxinha a salvo até que saíssem do banho. Podia ser junto ao tronco de uma árvore, na sombra de uma moita de capim, sobre um cupinzeiro, não importava. A única preocupação é que a roupa ficasse protegida da água do açude.
       Mas o pai de Mário queria colocar ponto final naquela série de desobediências, e o pobre caborteirinho nem de longe imaginava que seria justamente naquela tarde.
      Lépido, ardiloso, conluiado com os companheiros, num triscar de olhos atravessava os pastos, as plantações, vazava as cercas, se despia, arrumava as roupas perto do tronco de uma árvore, e se jogava no açude.
      E o açude virava uma festa! A água, antes serena, pipocava com os saltos, e logo, com o incessante pisoteio agitado de todas as crianças, o barro do fundo ia subindo e turvando tudo, até formar um lamaçal. Parecia um bando de jacarés rolando os corpos nus.
     E o barro grudava nos cabelos, nas costas, sob as unhas, nas curvas das orelhas... Por mais que se esfregassem para limpar, não havia como não levar resquícios para casa e, consequentemente, fragilizar a argumentação de que não incorreram na desobediência de nadar nos açudes. As evidências estavam sempre presentes. Se não na roupa, com certeza, no corpo.
     Naquela tarde, no meio das risadas, dos saltos, das brincadeiras, ouviu-se uma voz ao longe, gritando:
      - Mário! Mário, você está aí?!
      Mário, que reconheceu a voz do pai, estremeceu.
      De longe, o açude apinhado de cabecinhas enlameadas, brilhando ao sol, silenciou. Era totalmente impossível reconhecer cada criança.
      O mais experiente deles, numa tirada de mestre e líder, respondeu:
      - Seu Osvaldo, o Mário não está aqui, não!
      E Mário apavorado, petrificado, meio escondido atrás de dois amigos, prendia a respiração, não conseguia arfar o peito tamanho era o medo.
      Seu Osvaldo, aparentando muita calma, respondeu:
      - Está bem... Eu me enganei pensando que ele estivesse aqui...
       Dizendo isso, Seu Osvaldo deu meia-volta e lentamente foi caminhando em retirada, refazendo quase o mesmo trajeto que percorrera na vinda.
       As crianças, percebendo que ele se afastava, voltaram às brincadeiras, às cambalhotas, e às risadas como se nada tivesse acontecido. Mário ficou meio ressabiado, mas logo esqueceu. E brincou... Como brincou...
      Seu Osvaldo, com seus olhos astutos de quem um dia já fora criança, ia caminhando lentamente e olhando de esguelha cada trouxinha de roupa colocada aqui e ali. E encontrou a trouxinha de Mário, com aquela velha camisa, surrada. Disfarçadamente, abaixou-se e rapidamente a recolheu. Estavam ali a camisa e o calção.
     Seu Osvaldo continuou a caminhada rumo à vila, abraçado à trouxinha de roupas do filho. Calmamente... E seguiu para casa.
     O sol estava baixando, e era chegada a hora de Mário cuidar da limpeza do corpo antes de vestir a roupa e seguir de volta para a vila. Era preciso estar em casa antes da escuridão da noite chegar.
      E todos foram saindo do açude.
      Mário se lavou inúmeras vezes, esfregava o couro cabeludo com as unhas até que ardesse.      Esperava a água se acalmar, esperava a lama assentar-se no fundo, e mergulhava a cabeça para se livrar do barro. E esfregava cada curvinha das orelhas para remover o barro teimoso que insistia em não sair.
     Pronto. Agora era só caminhar devagar até encontrar a árvore aonde deixara as suas roupas. Assim, caminhando devagar, evitaria que o barro fosse espirrado nas pernas e o corpo ficaria completamente seco com os últimos raios do sol.
     E assim foi...
     Os companheiros estavam quase todos vestidos, muitos já caminhavam de volta, e Mário ainda procurava as suas roupas. Olhava de um lado, de outro, e nada. Foi ficando intrigado e pôs-se, desesperado, a perguntar a um e a outro.
     Nada... Em poucos minutos virou uma verdadeira caçada às roupas de Mário. Inutilmente...   Os mais medrosos puseram-se a correr rumo à vila. Não podiam se atrasar! Os companheiros mais chegados, calados, cansados da busca e imaginando o que havia acontecido, foram se dispersando.
      E Mário ficou ali, parado. E nu.
      Sabia exatamente o que o aguardava. O pai havia levado as suas roupas, e teria de enfrentá-lo. Nu...
      E, como chegar até lá? Como um menino de dez anos pode atravessar uma vila, assim, pelado?!
      Olhando o céu e percebendo que logo seria noite, juntando a vergonha de caminhar nu e o medo do escuro, Mário foi mudando os passos, vagarosamente.
      O trecho de volta, naquelas condições, tornara-se mais longo, infinitamente mais longo, e logo precisou apressar o passo. E assim, ele foi correndo de árvore em árvore, de moita em moita, para tentar esconder a sua nudez.
      Mário vazou cercas, cruzou pastos, plantações... Nu.
      Ficava apavorado quando lembrava que estava perto da vila. Como passaria pelas casas, como enfrentaria as pessoas, assim, pelado?!
      E foi caminhando, aos trotes, aos pulos...
      O sol sumiu, a noite estava à porta. E o medo, também...
       Atravessou a primeira rua da vila, escondeu-se atrás de uma casa. Ainda bem que não existiam muros. Só cercas.
        E foi, já no escuro da noite, correndo de parede em parede, esgueirando-se por moitas de bananeiras, varando cercas, atravessando ruas na noite escura. E a cada espaço de tempo, respirava fundo, benzia-se e pedia a Deus para que aplacasse a ira do seu pai. Não escaparia da cinta, disso ele sabia. O que pedia a Deus é que as cintadas fossem menos iradas, mais suaves...
        Enfim, Mário chegou ao quintal de casa. Caramba, no varal não havia nenhum pano, nada para se cobrir!
        Tinha certeza de que o pai, a mãe e seus irmãos estavam lá dentro, esperando por ele. E sabia que seus irmãos iriam cair na risada quando ele entrasse pelado. Talvez não. Opai devia estar furioso e os irmãos não iriam ter coragem de rir! Duro ia ser aguentar a gozação, a zoeira dos próximos dias...       Mas não queria pensar no depois. Tinha de resolver o agora. E com a voz quase sumida, disse:
         - Pai!
         Nada, ninguém apareceu.
         - Paiêêê!!!
         Gritou tão forte que chegou a fechar os olhos.
         E o pai apareceu. Imenso. Parecia maior que a porta!
         E Mário ali, em pé, no escuro, e pelado. Nem queria olhar para a mão dele. A cinta deveria estar ali, saltitante, ávida pelo seu lombo, pronta para estalar...
         Mas não estava. Para sua surpresa e alívio, não estava.
         Mário caiu no choro. Choro de vergonha, de medo, de arrependimento, de tudo...
         E Seu Osvaldo entendeu. Não seria preciso castigar mais. Limitou-se a buscar uma toalha, cobrir o filho, abraçá-lo e dizer:
         - Mário, meu filho, que esta seja a última vez!

         E parece que foi...   


Imagem:www.valbahia.com    

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Hai Kai, Paulo Leminski

HAI
Paulo Leminski

       Eis que nasce completo 

e, ao morrer, morre germe,
       o desejo, analfabeto, 
de saber como reger-me,
       ah, saber como me ajeito 
para que eu seja quem fui,
       eis o que nasce perfeito 
e, ao crescer, diminui.

KAI


       Mínimo templo 

para um deus pequeno,
       aqui vos guarda, 
em vez da dor que peno,
       meu extremo anjo de vanguarda.

       De que máscara 

se gaba sua lástima,
       de que vaga 
se vangloria sua história,
       saiba quem saiba.

       A mim me basta 

a sombra que se deixa, 
       o corpo que se afasta.


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