sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Leitura como terapia


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Outra Carta da Dorinha, Luis Fernando Veríssimo

               Recebo outra carta da ravissante Dora Avante.
     Dorinha, como se recorda, acidentou-se no último carnaval, quando desfilou na Sapucaí como madrinha da bateria de uma escola. Ela não conseguiu acompanhar o ritmo da escola e foi atropelada pela bateria.
Além dos arranhões e da perda de miçangas sofreu o que ela chama de “escoriações morais”, pois foi bem na frente do camarote da Brahma.
     Este ano Dorinha desfilará outra vez como madrinha da bateria, mas de patinete. Como todos os anos, ela preparou-se para o carnaval internando-se no Pitanguy durante quatro meses, só saindo de lá com a garantia de que nada que foi esticado se soltaria na avenida, por mais que ela rebolasse.
     Dorinha também diz que... Mas deixemos que ela mesmo nos conte. Sua carta veio em papel roxo, escrita com tinta carmim e cheirando a Mange Moi, o perfume que tira o sono Papa.
“Caríssimo! Beijíssimos!
     Sim, estarei na avenida de novo, recordando meus velhos triunfos.
     Você se lembra da vez em que desfilei completamente nua com apenas um retratinho do Fernando Henrique como tapa-sexo, para protestar contra a política econômica do seu governo? Como eu ia saber que a política econômica do Lula seria igual à do Fernando Henrique, só que de barba? Pensei em repetir a fantasia trocando o retratinho mas um tapa-sexo barbudo poderia ser mal interpretado.
Minhas manifestações políticas não foram em vão, no entanto. Até hoje tenho certeza que aquela minha alegoria sobre a necessidade de renovação na política, usando a renovação dos meus seios como exemplo, foi responsável pelo afastamento do cenário nacional de figuras como José Sarney, Renan Calheiros e Jader Barbalho, de quem nunca mais se ouviu falar, se é que não estou mal informada.
     Minhas companheiras do grupo de pressão Socialaites Socialistas, que luta pela instalação no Brasil do socialismo no seu estágio mais avançado, que é o fim — Tatiana (“Tati”) Bitati, Betania (“Be”) Steira, Cristina (“Kika”) Tástrofe e as outras — formarão uma ala toda de tailleur e carregando motosserras, simbolizando a Dilma e os cortes no Orçamento.
     Não pretendo ser abalroada de novo pela bateria, mas se acontecer já combinei com o Gustavão, que toca surdo de repique, para me salvar. Estou chegando naquela idade em que o repique começa a ser um conceito interessante. Ainda se diz ziriguidum?

(www.stellabartoni.com.br)
(Imagem:www.blogdanani.com.br) 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Regresso, Alda Lara (Poesia da África)





quando eu voltar,

que se alongue, sobre o mar,

o meu canto ao creador!

porque me deu, vida e amor,

para voltar...



voltar...

ver de novo baloiçar

a fronde magestosa das palmeiras

que as derradeiras horas do dia,

circundam de magia...

regressar...

poder de novo respirar,

(oh!... minha terra!...)

aquele odor escaldante

que o húmus vivificante

do teu solo encerra!

embriagar

uma vez mais o olhar,

numa alegria selvagem,

com o tom da tua paisagem,

que o sol,

a dardejar calor,

transforma num inferno de côr...



não mais o pregão das varinas,

nem o ar monótono, igual,

do casario plano...

hei-de ver outra vez as casuarinas

a debruar o oceano...

não mais o agitar fremente

de uma cidade em convulsão...

não mais esta visão,

nem o crepitar mordente

destes ruídos...

os meus sentidos

anseiam pela paz das noites tropicais

em que o ar parece mudo,

e o silêncio envolve tudo

sêde... tenho sêde dos crepúsculos africanos,

todos os dias iguais, e sempre belos,

de tons quasi irreais...

saudade... tenho saudade

do horizonte sem barreiras...,

das calemas traiçoeiras,

das cheias alucinadas...

saudade das batucadas

que eu nunca via

mas pressentia

em cada hora,

soando pelos longes, noites fora!...



sim! eu hei-de voltar,

tenho de voltar,

não há nada que no impeça.

com que prazer

hei-se esquecer

toda esta luta insana...

que em frente está a terra angolana,

a prometer o mundo

a quem regressa...



ah! quando eu voltar...

hão-de as acácias rubras,

a sangrar

numa verbena sem fim,

florir só para mim!...

e o sol esplendoroso e quente,

o sol ardente,

há-de gritar na apoteose do poente,

o meu prazer sem lei...

a minha alegria enorme de poder

enfim dizer:

voltei!...


Sobre a médica e poeta angolana Alda Lara leia aqui

Nota: mantida a grafia original
Fonte:www.angolapoetas.blogspot.com
Imagem:www.panoramio.com 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Intérprete, Moacyr Scliar

                                      
    Sou recebido pela empregada que, em silêncio, me conduz à sala de jantar. Já estão sentados à mesa, o pai, a mãe,o filho. Mas ainda não começaram a refeição; esperam-me. Estou atrasado. Como não tenho carro, vim a pé, demorei-me.
    À minha chegada, erguem-se vivamente a cabeças. A do pai, grisalha. A da mãe, grisalha também, apesar da tintura. E a do rapaz, raspada ( é, pelo que sei, uma forma de protesto). Os óculos - os três usam - cintilam à luz das fortes lâmpadas, ocultando os olhos e a expressão neles existente, qualquer que seja: raiva, ou medo, ou mágoa, ou mesmo esperança.
   Levantam-se, o pai e a mãe; vêm ao meu encontro. Trocamos cumprimentos e comentários sobre o tempo. - O inverno está terrível - diz ela -, deixa a gente doente. - Concordo; está com os olhos congestos; pode ser choro, o que me causa pena - afinal, somos parentes, primos em segundo grau. Mas pode ser também que esteja simplesmente gripada; não se deve dramatizar a vida, não em demasiado, ao menos.
     Dou boa-noite ao rapaz, que resmunga qualquer coisa e continua sentado, imóvel. Coloco-lhe a mão no ombro: trata-se de um gesto amistoso.
     Uma campainha ressoa na copa, que fica ao lado. O botão está  sob a mesa; a mãe, sentando-se, simplesmente calcou-o com o pé, chamando assim a copeira. Vivem com todo conforto; o pai próspero empresário, pode dar à família uma vida de comodidades, de luxos, mesmo. A empregada que surge à porta usa touca e avental engomado; e a sopeira que traz é de porcelana. Mas quando o pai sorve a primeira colherada, o barulho que faz trai sua origem humilde, que ele, aliás, não nega: "Comecei do nada", costuma dizer, orgulhoso. O filho, porém, faz uma careta de desgosto. Os modos do pai incomodam. Não gosta de burguês grosso. 
     - Está boa a sopa - comento, jovial. Tenho 42 anos, vivo sozinho (consideram-me um solteirão, ainda que simpático), mas mesmo assim conservo o senso de humor e sei  encarar a vida com um olho irônico e outro terno,com um olho alegre  e outro sereno. Sou um homem ponderado; estes dois   - meu primo e sua mulher - sabem disso. Tanto que me convidam para esses jantares. Não permito, e por isso sou importante para eles, que o silêncio baixe sobre esta mesa. O silêncio a envolvê-los, como um magma espesso e escuro? De forma alguma. Sou professor de geologia  ( de momento desempregado; este jantar, aliás, vem muito bem, é a primeira refeição digna desse nome em muitos meses); mas sei que essas coisas fazem mal às pessoas. Antes que a sopa termine, emito ainda três comentários:
     - sobre um filme recentemente exibido em cinemas da capital, mostrando o lado faceto da vida;
     - sobre as últimas partidas do campeonato de futebol;
     - sobre um aparelho de som, que conjuga rádio, toca-discos e gravador ( e que espero ganhar deles de aniversário).
     Ao primeiro comentário o rapaz reage apenas erguendo a cabeça do prato, sem demonstrar maior interesse; ao segundo, idem, mas ao terceiro sorri, porque conto minhas grotescas experiências com o meu atual e precário aparelho de som - eu querendo ouvir FM, só conseguia acionar o braço do toca-discos que ficava a gingar de um lado para outro, como um peru doido.
     - Peru doido! - repito, golpeando a mesa e gargalhando. O rapaz sorri.
     - Vem a salada e, durante um minuto - mas não mais que isso - mastigamos em silêncio as folhas de alface e as rodelas de pepino. O molho é notável , suave e ao mesmo tempo picante; e eu digo: - O molho está notável, prima - Sorri, grata.
     Vem o prato principal: rosbife, guarnecido de petits-pois, cenouras e batata-palha, tudo coberto com molho remolado. Antes que eu me sirva, o pai inclina-se em minha direção: - pergunta para ele - murmura - como é que estão as coisas.
     Chegou o momento. O momento que justifica o almoço.
     Ponho de lado garfo e faca, apanho o guardanapo. Depois de  limpar cuidadosamente  a boca, volto-me para o rapaz.
     - Então, rapaz, como é que estão as coisas?
     Não me olha. Está cortando a carne e é cortando a carne que me responde: - Tudo bem, tudo no mesmo à empregada, embora esta não esteja presente.
     O pai torna a inclinar-se para mim. - Pergunte a ele - diz em voz tensa, bem audível - se não mudou de ideia.
     A mim parece que não, que o rapaz não mudou de ideia; mas não me compete ter opinião. O primo me pede que eu pergunte, portanto pergunto.
     Nem me responde, mas é óbvio que está decidido. Vai partir. Breve. Amanhã. Ou hoje. Talvez vá depois do jantar. Talvez nem termine de jantar.
     O pai está apavorado. Não sabe o que aconteceu, nem o que está acontecendo, nem o que acontecerá. Não sabe nada. Não sabe nem falar. Trêmulo torna a inclinar-se para mim: pergunte o que ele quer - sussurra - para mudar de idéia.
     Tomo um gole de vinho, pouso o cálice. Não faço minhas as palavras do dono da casa; na verdade, acho-as inconvenientes. A proposta pode até ser boa, mas a forma de apresentação é totalmente incorreta, parece coisa de corrupto. Sei fazer melhor.
     - Quem sabe - digo em tom casual - você pensa melhor e muda de idéia? 
     Espero uns segundos e acrescento:
     -Quem sabe existe alguma coisa que pode te fazer mudar de ideia?
     - Merda! - exclama, atirando o guardanapo para o lado e levantando-se:
     - Será que a gente não pode comer em paz?
     Aí acontece o pior: o pai e a mãe se levantam e põem-se a gritar, e a chorar, ela a puxar os cabelos como louca. Durante uns segundos o filho olha-os, cheio de raiva, e de desprezo, e de amargura. Depois sai.
     arrasados, os dois se deixam cair em suas cadeiras. Olha-me, o pai, entre desesperado e acusador: por que não faço alguma coisa? Nada posso fazer, agora que o rapaz se foi; no entanto, quero mostrar-lhes que a vida continua; por isso, corto um pedaço de carne, levo-o à boca, mastigo-o com vontade.
     - Está ótimo o rosbife! - digo, a boca cheia. Se bem que falta alguma coisa, heim? - Falta alguma coisa. Há um certo vazio dentro de mim que não pode ser preenchido nem por carne nem por petits-pois nem por vinho, mas sim por essa específica coisa, tão simples e gostosa, cujo nome agora me foge. Minha boca se abre, mas nenhum som sai dela; levanto a mão, gesticulo - e nada, não me ocorre o nome dessa coisa tão boa, tão banal, essa coisa cuja imagem me está presente: casca levemente torrada, miolo macio, cheiroso, quentinho. Mas Deus existe: de repente minha mente clareia, e lembra a palavra, que então grito,alegre, eles a me olharem espantados, como se se tratasse daquela língua  dos amarelos, o chinês: 
     - Pão!

       Por fim, uma situação em que a família vive uma melancólica fantasia comum, uma miniloucura a três.

( O Texto, ou: A vida)

domingo, 17 de janeiro de 2016

Vendo Meus Livros

Amigos, estou esvaziando minha estante. Quer levar por preço baixo livro em bom estado e ainda me ajudar  a fazer a biblioteca de uma escola pública do interior? O que for arrecadado aqui, vai ser convertido em livro infantil.  Aguardo você.





 Livros de etiqueta e um livro de crônicas.

Clique na imagem, escolha e faça contato pelo "fale comigo" do lado direito da tela.

Respondo rapidinho.







Aqui nessa pilha, tem uma variedade de estilos e autores.  
Aghata Christie, Hermann Hesse, Shakespeare, Cristovão Tezza, Woddy Allen e mais outros juntos e misturados.  
Clique na imagem. Todos os exemplares estão muito bem conservados.

Qual você vai querer?


Mitologia, administração, ficção, literatura erótica, prêmio Nobel. 
Ah, tem o Tolkien também.

É só escolher.   









Se clicar na imagem vai ver Literatura japonesa, e o último livro de José Eduardo Agualusa, J.R.R Tolkien, novamente. 

Não perca essas ofertas.










Ótimo escritor israelense em promoção.  
Faça contato pelo "Fale comigo" do lado direito da página.  

Aproveite.


                                                                                   


Esse livro é ideal para arte educadores. Contadores de história não podem perder essa oferta.

Aguardo você.


Olha aí a biografia dos Beatles em português.
Para compradores de outras cidades, acrescento o frete.  
Em Recife, entrego pessoalmente.









O Senhor dos Anéis. Não dá pra perder a coleção completa nessa oferta.


Forma de pagamento: depósito no Banco do Brasil
Forma de envio: pelos Correios com registro

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Cançãozinha Para Tagore, Cecília Meireles



 Àquele lado do tempo
Imagem do site:http://www.espiritbook.com.br
Onde abre a rosa da aurora,

Chegaremos de mãos dadas,

Cantando canções de roda

Com palavras encantadas.

Para além de hoje e de outrora,

Veremos os Reis ocultos

Senhores da Vida toda,

Em cuja etérea Cidade

Fomos lágrima e saudade

Por seus nomes e seus vultos.



Àquele lado do tempo

Onde abre a rosa da aurora,

E onde mais do que a ventura

E dor é perfeita e pura,

Chegaremos de mãos dadas.



Chegaremos de mãos dadas,

Tagore, ao divino mundo

Em que o amor eterno mora

E onde a alma é o sonho profundo

Da rosa dentro da aurora.



Chegaremos de mãos dadas

Cantando canções de roda.

E então nossa vida toda

Será das coisas amadas.

(Antologia poética 3ª edição, Ed.do autor 1963)