segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Segunda-feira poética: Oração, Fernando Pessoa - tradução de Jorge Pontual



Nossa Senhora das lágrimas vãs,
Dai ao meu coração o vosso ninho.
Adoeço em infindáveis manhãs
E me embebedo com o amargo vinho
De só conhecer  angústias mal sãs,
De não saber senão viver sozinho.
Reconheço que imploro a vós em vão,
Mas meu coração só conhece a dor.
Um vosso olhar seria a salvação,
Mesmo que seja um olhar de horror.
Concedei-me que eu volte a ser irmão
Do vosso menino, Nosso Senhor.
Meu sentido de mim é todo pranto,
De mim mesmo só tenho muita pena.
Oh colo dos meus medos acalanto
Agarro-me a vós, criança pequena.
Quisera vos ver viva por encanto
A minha mão na vossa mão serena.
Há muito tempo perdi o sabor
Da fé, e tenho ânsia de oração
Meu coração é um jardim sem flor,
Nos meus brancos cabelos, vossa mão
De mãe deixai repousar com amor
E deixai-me morrer por compaixão.

Prayer
Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.
It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.
My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!
l do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.
My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul.with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!
I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer. My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!


The Mad Fiddler». in Poesia Inglesa. Fernando Pessoa. (Organização e tradução de Luísa Freire. Prefácio de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Livros Horizonte, 1995.- 352.

Imagem: www.revistapazes.com